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Garrafa 499 – Cinquenta tons de saudade   Leave a comment

Como costumava acontecer desde que se conheceram, e mesmo tendo se passado já muitos anos desde que tinham se visto pela ultima vez, ele tinha adormecido acalentando com ternura a memória de sua imagem quase sempre sorridente, e sonhado com ela na noite anterior àquele dia especial.

Sonhou que tinham se reencontrado brevemente, a sós, e que conversaram animadamente, sem mágoas nem rancores, revendo os detalhes da fina tapeçaria entretecida com os fios da vida de cada um, tanto durante o período em que estiveram próximos, quanto depois que cada um seguiu o seu próprio caminho. Ela estava feliz com as escolhas que tinha feito no passado, e com sua situação atual, e ele se alegrou de verdade com isso. O que aconteceu foi a única e melhor coisa que poderia ter acontecido.

Ele tinha acordado bem cedo, como costumava fazer todas as manhãs. Mas, naquele dia de celebração do seu aniversário, como também já há muito tempo acontecia, não poderia vê-la pessoalmente. Não poderia estar com ela, nem que fosse apenas por alguns minutos. Não poderia segurar suas mãos e nem lhe dar um abraço longo e apertado. Isso estava simplesmente fora de questão.

Abandonando sentimentos de frustração e tristeza que imediatamente inundaram seu coração, mas que de nada serviriam naquela linda manhã de outono, deu um longo e profundo suspiro, e silenciosamente se perguntou: O que poderia ser feito? Como sentir-se um pouco mais próximo, mesmo que fisicamente muito distante? Como lhe enviar boas vibrações e energia amorosa, estando a criatura em outro hemisfério? E como entrar ele próprio em um estado mais positivo, apesar de uma grande e incômoda saudade da amiga aniversariante?

Procurou então agarrar-se a algumas pequenas lembranças, na verdade alguns objetos transformados em relíquias amorosas, que ele sabia tinham sido manuseados e tocados por ela, há muito tempo atrás. Eles ainda guardavam quem sabe algo de sua presença, de sua vibração original, de sua energia, do seu toque. Assim acreditava, e assim podia sentir, quando os invocava em sua memória cinestésica e os tocava de novo também.

Vasculhou suas gavetas e enfiou-se então dentro daquele short que tinha recebido de presente em um dia do seu próprio aniversário, e com o qual ela o havia surpreendido na saída do trabalho. Gostava dele de verdade, e o usava de vez em quando em suas caminhadas diárias pelas redondezas. Fazia isso também para matar a saudade, e sentia-se acompanhado por ela, quem sabe até dentro dela, em cada uma dessas ocasiões. Naquela manhã, entretanto, a título de uma distante e silenciosa celebração naquela data tão significativa, sentiu que só isso não seria o suficiente, já que era uma atitude rotineira. Precisava de algo mais.

Buscou então na sua estante um livro que ela tinha tomado emprestado por algumas semanas, e que tinha utilizado como referência para o seu trabalho de conclusão de curso. No seu interior encontravam-se preservadas diversas anotações feitas com uma versão de sua letra intencionalmente miúda e compactada, para caber e se acomodar nas laterais, no topo e nos rodapés de inúmeras daquelas páginas.

Lá estavam registrados seus comentários, suas observações, ora usando seu próprio código taquigráfico, ora apenas atribuindo uma nota “10” ou um “M” para longos parágrafos assinalados ou sublinhados a lápis de maneira suave: tudo aquilo que tinha despertado sua atenção e interesse, naquela ocasião.

E muitas emoções há muito tempo represadas voltaram com força, com a releitura de cada trecho, com a visão de cada rabisco, imediatamente associadas à memória do som de sua voz, durante os encontros que ocorreram ao longo do processo de pesquisa para aquele trabalho, e após a devolução do precioso livro para o seu zeloso proprietário.

Lembrou-se de que, nas semanas seguintes, seguiram-se diversas conversas, com a discussão das observações de parte a parte, com suas vozes interrompidas por longos silêncios, acompanhados de olhares ora divertidos ora curiosos, e por longas carícias e beijos apaixonados.

Ele nunca teve acesso ao texto final daquele trabalho. Não importa. Ficou feliz em poder contribuir de alguma maneira naquele projeto acadêmico, como ela já tinha feito em ocasião anterior em um projeto seu, elaborando slides para uma apresentação em PowerPoint, que complementaram e ilustraram a monografia entregue no seu curso de pós-graduação. Por algum tempo, tinham sido muito felizes na companhia um do outro. E não é isso que um sentimento de amor verdadeiro nos sugere fazer? Sempre e muito? Aproveitar a companhia do outro, e torcer e contribuir para o seu sucesso?

Sentiu-se melhor assim, tendo definido o seu ritual de celebração especial incluindo essas duas etapas.

Naquela mesma manhã, realizou uma longa caminhada usando seu short-relíquia. E procurou respirar longa e profundamente o ar fresco da manhã, cumprimentado gentilmente cada árvore e pessoa que encontrou pelo caminho que costumava percorrer para chegar até a praia. E sentiu a brisa levemente salgada fluindo entre suas pernas, no tronco suado, no próprio rosto e nos fios do cabelo. Pele arrepiada, permaneceu longamente com o olhar perdido na linha do horizonte, onde os diversos tons de verde e de azul do mar se encontravam com o azul luminoso e profundo do céu de abril. Cinquenta tons de verde, de azul e de saudade. Voltou para casa em paz.

Já com o livro reencontrado, a decisão foi diferente. Apenas alguns momentos de rápida leitura não seriam o bastante. Resolveu fazer uma celebração mais prolongada, à altura da ocasião. Decidiu reler o livro inteiro, ao longo dos próximos trinta dias, mesmo já estando envolvido com a leitura de outras obras em paralelo. E isso fazia todo o sentido também, em função de quem era o seu autor, seu principal mentor em assuntos de PNL, do tema da modelagem de estratégias de sucesso, e do momento profissional que estava vivenciando. Sincronicidade com o Universo, e o simples reconhecimento e aceitação da presença de coincidências significativas, que sempre aconteciam com ele, com ela, e com cada um de nós, sempre e quando nos mantemos atentos para reconhece-las em nossas vidas. E assim foi feito.

Decorridos os trinta dias de releitura e celebração, deu-se conta de que o livro foi o complemento perfeito para as investigações pessoais que estava realizando na ocasião. Alguns trechos mais significativos podem ter sido os seguintes:

“A solução de conflitos relacionados à identidade implica ‘segmentar’ num nível acima ao da própria identidade. Se cumprirmos esse requisito seremos capazes de ampliar nossos mapas de mundo para percebermos a nós mesmos como parte de sistemas mais amplos que estão à nossa volta, e alcançarmos um senso de missão e propósito global.”

“Uma identidade completa é um oceano inteiro, não simplesmente cada peixe diferente que nada nele. A identidade verdadeira de uma pessoa não é uma determinada imagem ou um sistema de medida, mas preferencialmente a luz que torna ambos possíveis.”

“Talvez não seja acidental que tantas pessoas ao longo da História tenham relacionado identidade e espírito com luz. Quando alguém alinha ou identifica a si mesmo com “matéria” ou “espírito”, corpo ou mente, Ego ou Id, o lado esquerdo do cérebro ou o lado direito do cérebro, lógica ou imaginação, estabilidade ou mudança, então essa pessoa está criando um desequilíbrio e um conflito em potencial. Quando alguém identifica a si mesmo com algo mais parecido com a luz, então a pessoa pode ver que o importante é o relacionamento entre esses elementos. Evolução e adaptação, por exemplo, são uma função de um processo de mudança no nível individual e de um processo de estabilização no nível do ambiente mais amplo. A evolução pessoal requer o mesmo equilíbrio de forças nos diferentes níveis lógicos.”

Recordando o sonho que tinha vivenciado há trinta dias atrás, e desejando que um breve encontro daquele tipo pudesse acontecer em algum momento do futuro, rabiscou no seu bloco de notas:

sem nenhum rancor,
conversa animada,
motivos certos.

Eduardo Leal
Pintura de Waldomiro Sant’ Anna – Leitura a dois
Leitura recomendada: “A Estratégia da Genialidade – Einstein” de Robert Dilts, Summus Editorial

Leitura a dois,

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Garrafa 452 – Em busca da lua   Leave a comment

na noite clara,
minha alma se lança
em busca da lua…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Dreamer” na voz de Roger Hodgson

Garrafa 347 – Entre o céu e o inferno   Leave a comment

Mais algumas citações do livro sobre os princípios gerenciais da ordem Missionárias da Caridade chamaram minha atenção, nos últimos dias:

“Para chegar aos anjos, lide com o diabo.” é uma delas.

“Os anjos de Madre Teresa eram as pessoas pobres a quem ela servia. Confortar e oferecer dignidade aos que nunca tiveram esse tipo de ajuda eram os seus objetivos principais…Sua única fonte de financiamento era o capital doado… Madre Teresa delineou uma fronteira bem clara entre a fonte dos donativos e sua aplicação. Ela decidiu que o bem que o dinheiro poderia fazer ao servir aos mais pobres entre os pobres superava o caráter de sua fonte. Ela aceitou caridade dos demônios para chegar aos anjos… De fato, jamais aceitou pagamento por nenhum serviço, apenas caridade. Ela declarou: Nós jamais aceitamos um convite para comer fora. Gostaria de saber por que? Porque aceitando esses convites poderia dar a impressão de que aceitamos pagamento pelo que fazemos, e fazemos tudo de graça… Líderes precisam saber onde colocar seus limites. Às vezes você deve se comprometer. Tem de ter coragem para decidir que compromissos são aceitáveis e os que não são. Nem sempre você fará as escolhas certas e receberá críticas por isso. Madre Teresa foi criticada por muitas de suas escolhas. Sua resposta era permanecer com suas crenças e focada em fazer seu trabalho.”

Algumas perguntas para nossa reflexão:

Quem são os seus anjos, e qual é a sua meta?

Quais são os seus princípios-guia nessa questão?

Em seu sistema de crenças e valores, onde você traça essa linha divisória? Como lida com os demônios para chegar aos anjos?

Pausa para um breve haicai:

sonhando com anjos,
lidando com demônios,
haja coragem!

Eduardo Leal
Inspirado no livro “Madre Teresa, CEO” de Ruma Bose e Lou Faust
Foto de autor desconhecido

Garrafa 346 – Clareza de visão, impulso para a ação!   Leave a comment

Uma das crenças que adotei, depois que tomei conhecimento da Programação Neurolingüística, é a de que “para o bem ou para o mal, tudo começa com um pensamento.” E acredito também que criar uma clara visão do tipo de pessoa que desejamos nos tornar, com o auxílio da nossa imaginação, alinhada com nossos valores mais profundos, é uma poderosa fonte de motivação.

Estou sempre à procura de situações e exemplos que confirmem essa pressuposição e fico feliz em compartilhar o que encontro e que faz sentido pra mim. O que é sentido, faz sentido! Da leitura de “Madre Teresa, CEO” e seu princípio “Sonhe simples, fale com força”, destaco o seguinte trecho:

“Seu sonho era ajudar os mais pobres entre os pobres. Tudo que fez em vida derivou do fato de ter definido sua visão, alinhando e mobilizando todos os seus recursos e seguidores na direção dessa meta.”

Para reflexão: Qual é a sua visão pessoal? Quem (que tipo de pessoa) você quer se tornar dentro de 10/15/20 anos?

Pausa e inspiração para um breve haicai:

um sonho simples
dito com paixão… fogo,
lenha, convicção!

Eduardo Leal
Inspirado no livro “Madre Teresa, CEO” de Ruma Bose e Lou Faust
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “I Believe in You” com Spyro Gyra

Garrafa 328 – Só o tempo dirá…   Leave a comment

Aquele poderia ser apenas mais um encontro do casal apaixonado, depois do trabalho, para um fim de tarde e inicio de noite de amor e troca de confidências. Mas foi mais que isso…

Ela tornou aquele momento mágico, sempre aguardado com ansiedade e doce expectativa, em algo ainda mais digno de ser guardado para sempre, como um momento único e especial.

Planejou cada detalhe…

Na sua bolsa de mulher, além do trivial, trouxe alguns pequenos acessórios para compor um ambiente de sonho que passaram despercebidos quando ela entrou no carro e, depois, subiram juntos no elevador.

Enquanto ele tomava uma ducha rápida, o cenário foi preparado… E o impacto da surpresa visual e olfativa fez seus olhos ficarem úmidos e brilhantes e os passos vacilantes. E fez sua voz, ainda trêmula, pronunciar apenas… Eu amo você.

Três toques de simplicidade e sensibilidade:

Dezenas de pequenas velas aromáticas verdes, que foram espalhadas pelo quarto e delicadamente acesas num ritual calculado para transformá-las em vagalumes perfumados na penumbra do ambiente;

Incenso aromático, que complementava o delicado perfume das velas, havia sido aceso em seguida; e

Um pequeno reprodutor de CDs com um único disco, sua escolha para compor a trilha sonora daquele momento, esperava ao lado da cama pela ocasião de entrar em cena.

Ela estava linda como sempre, olhos brilhantes, sorriso maroto, seu cabelo castanho com cachos de anjinho barroco e seu corpo de formas curvas e firmes, o seu número para o encaixe perfeito. Cada dobrinha da pele suavemente perfumada com seu cheiro natural que sempre o enlouquecia e permanecia nas mãos e na memória olfativa ainda por algum tempo, depois de cada encontro…

Ser tocado por ela era sempre uma experiência cinestésica carregada de energia curativa. E explorar o relevo e textura do seu corpo então…

Nos minutos seguintes, como sempre acontecia quando se encontravam, o tempo passou a andar um pouco mais devagar.

E então, a ultima surpresa da noite… Sua voz acompanhava suavemente as musicas que ela escolheu como trilha sonora para aquele momento, enquanto seus corpos se tocavam delicadamente e as mãos passeavam pelos seus cabelos ainda molhados depois do banho apressado. Ela nunca havia cantarolado para ele antes, nem cantou mais, depois…

Ele descobriu mais tarde que a letra da musica, “Only time”, diz assim:

Who can say where the road goes
Where the day flows, only time
And who can say if your love grows
As your heart chose, only time

Who can say why your heart sighs
As your love flies, only time
And who can say why your heart cries
When your love lies, only time

Who can say when the roads meet
That love might be in your heart
And who can say when the day sleeps
If the night keeps all your heart
Night keeps all your heart

Who can say if your love grows
As your heart chose
Only time
And who can say where the road goes
Where the day flows, only time

Who knows? Only time

E adormeceram abraçados, observando os primeiros vagalumes se apagarem, mãos e bocas silenciosas, depois da festa do amor.

Se isso realmente aconteceu, se ainda vai acontecer no futuro próximo ou distante, ou se não passou de mais um daqueles sonhos de uma noite de verão, só o tempo dirá…

Enquanto penso nessa possibilidade, o vento sopra em meu ouvido um breve haicai:

amor virá, nas
escolhas do coração?
o tempo dirá…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Only time” na voz de Enia

Velas aromáticas

Garrafa 299 – Corro esse risco!   Leave a comment

parecer tolo
por amor, pelo sonho…
corro esse risco!

Eduardo Leal
Inspirado no livro “O convite” de Oriah
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Sueño” com Spyro Gyra

Publicado 08/04/2012 por Eduardo Leal em Fotografias, Haicai, Haikai, Haiku, Livros, Música

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Garrafa 207 – Saber para onde ir   Leave a comment

Tudo o que existe já foi, no início,
somente um sonho… uma idéia abstrata…
na cabeça de alguém.

Eduardo Leal
Ilustração de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir música inspiradora “Mercy Street” de Peter Gabriel.

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