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Garrafa 518 – Nuvens cor de rosa   1 comment

Como tem ocorrido com frequência ao longo das ultimas semanas, ele acordou sobressaltado no meio da noite, depois de parecer ter ouvido aquela voz sussurrando seu nome a partir de algum ponto envolto na penumbra e em um local muito distante…

Ao invés disso, só os latidos de um cão… Frustração provavelmente dirigida na direção de algum gato desafiador que insiste em cruzar seu pretenso território, bem fora do alcance de suas mordidas, em cima de algum muro da vizinhança.

Apenas sorriu, com o canto da boca, ao perceber que ele próprio tem sido às vezes o cão, às vezes o gato.

Por onde tem andado esse gato? Por onde tem andado esse cão?

Seu sono leve, ou a existência de sonhos com conteúdo perturbador o têm colocado em contato com os sons da madrugada. Pelo menos dois post tratam desse tema: Vizinhança Canina e Cão sem dono.

Incapaz de pegar no sono outra vez, aguardou silenciosamente pela chegada de mais um dia de outono, durante a longa e escura madrugada. E viu surgirem pela janela do quarto:

nuvens cor de rosa,
primeiras luzes, depois
da escuridão.

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Prologue” e “Twilight” com Electric Light Orchestra

Solidão 2

Garrafa 517 – Beijo seu beijo   Leave a comment

No dia anterior, eles tinham passado o final da tarde e o início da noite juntos.

Enquanto durou seu relacionamento amoroso, sempre que se encontravam, era como se não houvesse amanhã e o dia de ontem não tivesse existido também. Com as roupas, meias, sapatos e sandálias espalhados pelo chão ao lado da cama, amavam estar completamente desnudos na companhia um do outro. E aqueles momentos eram preciosos demais para se pensar em outra coisa que não fosse em viver intensamente o momento presente. Olhos nos olhos, ou explorando cada pequena dobra ou as mudanças de textura na pele do corpo um do outro, amavam-se ora com delicadeza, ora de maneira selvagem. E improvisavam a coreografia de uma dança de acasalamento às vezes tranquila, às  vezes frenética. Essa explosão cinestésica quase sempre deixava marcas no pescoço e no peito, e pequenos arranhões nas costas e nas pernas de ambos, além de outros sinais em regiões do corpo menos visíveis. E assim tinha sido naquele dia também.

Quando ele atendeu àquela chamada no seu telefone funcional, no meio da tarde, estava no seu ambiente de trabalho e reconheceu imediatamente aquela voz sempre esperada e bem-vinda do outro lado da linha. Falavam-se quase todos os dias, e às vezes mais de uma vez por dia, de modo que ele não se surpreendeu quando o telefone tocou e logo reconheceu o número de origem da chamada. Ficava sempre feliz quando isso acontecia. Ah! Era muito prazeroso ouvir o próprio nome no som daquela voz.

Muitos anos já tendo se passado depois daquele tempo simplesmente mágico, ele às vezes acordava sobressaltado no meio da noite, depois de parecer ter ouvido aquela voz sussurrando seu nome a partir de algum ponto envolto na penumbra e em um local muito distante… Enquanto as batidas do coração e a respiração ofegante voltavam ao normal, incapaz de pegar no sono outra vez, ele apenas permanecia em silencioso compasso de espera pelas primeiras luzes de um novo dia.

Naquela tarde, ela disse que tinha se lembrado dele, há alguns instantes atrás quando, ao mudar de posição na cadeira en seu escritório, sentiu que tinha ficado com a pele sensível pelo atrito prolongado a que tinha sido submetida aquela região do baixo ventre entre as suas coxas grossas e firmes. Riram juntos, demoradamente, por aquela sincera confissão cheia de intima cumplicidade, pois ele também ainda sentia muita sensibilidade na mesma região, ressalvadas as óbvias diferenças de anatomia. Ela costumava manter essa área do corpo cuidadosamente depilada mas, às vezes, quando os minúsculos pelos começavam a crescer novamente, o efeito que ele sentia era o de estar em contato com uma lixa muito fina, enquanto se esfregavam com força, comprimindo mutuamente seus quadris e enroscando suas pernas de maneiras impensáveis, em suas demoradas brincadeiras e jogos amorosos.

Apesar de vivenciarem intensamente cada um daqueles momentos, vendo um ao outro com seus próprios olhos, de dentro de seus corpos, em uma posição associada em primeira pessoa, era comum que também se colocassem no lugar um do outro, em segunda pessoa, com o desejo genuíno de apenas proporcionar prazer ao seu amor, e não apenas de estarem de maneira egoísta à procura da própria satisfação. Grande parte do seu deleite vinha de se saberem desejados e, repeitados em sua individualidade, poderem oferecer prazer um ao outro. Seguiam à risca O Conselho de Kamala:

“Os amantes não devem separar-se, depois da festa do amor, sem que um parceiro sinta admiração pelo outro; sem que ambos sejam tanto vencedores como vencidos, de maneira que em nenhum dos dois possa surgir a sensação de enfado ou de vazio e ainda menos a impressão desagradável de terem-se maltratado mutuamente.”

Ele gostava de pensar que, ao invés de se beijarem, eles beijavam o beijo que recebiam um do outro.

Nos últimos dias, como sempre acontece nesta época do ano, ele relembrou com carinho e bom humor alguns daqueles momentos de pura diversão despretensiosa e, ao mesmo tempo, da mais intensa conexão que pode existir entre duas pessoas que se amam de verdade,  e desejou sinceramente que ela estivesse feliz, em companhia das pessoas que escolheu para compartilhar sua vida, depois que se separaram.

Ela também o tinha feito muito feliz.

E rabiscou no seu bloco de notas, brincando com as palavras com a métrica de um haicai:

quero seu querer,
desejo seu desejo,
beijo seu beijo.

Eduardo Leal
Fotos de autores desconhecidos
Instruções de utilização: ouvir “The rain, the park and other things” com The Cowsills

Garrafa 516 – Buraco negro existencial   1 comment

De acordo com o resultado de pesquisas científicas disponíveis na Internet, um buraco negro seria uma região do espaço-tempo com matéria maciça e altamente compactada, resultante da deformação espacial decorrente do colapso gravitacional de uma estrela. No coração desse corpo estelar o tempo, conforme o percebemos, pararia de fluir e o espaço simplesmente deixaria de existir. E, teoricamente, nada, nem mesmo um único raio de luz poderia escapar de suas escuras fronteiras conhecidas como horizonte de eventos.

De minha parte, penso também em buracos negros como uma poderosa metáfora para um estado de depressão severa resultante do colapso emocional de uma pessoa. Um estado mental em que ela se vê esmagada pelo peso de emoções e sentimentos negativos que não consegue mais suportar, e do qual sente-se incapaz de escapar.

Há alguns anos atrás, cruzei perigosamente a região próxima ao horizonte de eventos de um buraco negro. No momento em que minha carreira profissional estava no auge, ascendendo a um novo ambiente e ao exato local onde tinha planejado chegar vinte anos atrás, a área de relacionamentos sofria com a recente perda de uma pessoa muito importante e com a reversão de expectativas e a frustração decorrente do comportamento surpreendente de outra criatura que tinha se tornado muito próxima (estava literalmente refém de sua atração gravitacional). A saúde física, emocional e mental foram afetadas e levaram-me a um quadro emocional que, se bem me recordo, foi classificado como depressão moderada. Não cheguei a mergulhar completamente no fundo do buraco negro, mas cheguei muito próximo para sentir uma amostra dos seus efeitos devastadores: sob uma enorme pressão existencial, não era capaz de ver as coisas ao meu redor com um mínimo de clareza e tinha enorme dificuldade de tomar decisões rotineiras simples.

Em 2016, um dos maiores físicos teóricos e destacado estudioso dos buracos negros de todos os tempos, Stephen Hawking declarou que já não pensa que o que quer que seja sugado para dentro de um buraco negro seja completamente destruído.  Ele pensa que poderia haver um caminho para se escapar através de um outro universo…

Também penso assim no caso do buraco negro existencial. Uma vez que nosso  próprio “Universo” não passa de uma percepção que construímos através da filtragem que fazemos com as informações que recebemos por meio de nossos sentidos; e que pessoas diferentes veem “Universos” bem diferentes, mesmo quando colocadas lado a lado na mesma região do espaço; tudo o que precisamos fazer é uma mudança desses filtros mentais e pronto! Entramos em um novo Universo! E isso pode funcionar mesmo quando nos encontramos submetidos a uma pressão emocional esmagadora no fundo de um buraco negro existencial!

No meu caso, a mudança de filtros mentais se deu pela leitura de diversos bons livros sobre psicologia e psicanálise que me caíram nas mãos, pelas conversas instigantes com uma psicoterapeuta que adota a abordagem de Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), e com a descoberta e intensa participação em um curso de Practitioner em Programação Neurolinguística (PNL).

Com o apoio de pessoas queridas que já faziam parte de meu círculo de relacionamentos e com o de outras pessoas especiais que encontrei ao longo do caminho, quando me pus em movimento, empreendi meus melhores esforços com o desejo ardente de sair da região escura em que me vi momentaneamente, e fui capaz de cavalgar a extremidade de um raio de luz que escapou da escuridão, emergindo em uma nova região do espaço.

Naquela ocasião, diante da possibilidade de meu mergulho iminente nas profundezas do buraco negro, observadores externos atentos e bem intencionados eram capazes de perceber meus lamentos, escutando o som da minha voz cada vez mais distorcido pelo Efeito Doppler, enquanto eu ainda encontrava um mínimo de energia para brincar com a métrica de um haicai:

buraaaco neeegro!
fuuugir para não caiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiirrrr…
c    o    m    o         e    s    c    a    a   a   a   p    a    a   a   a   r   r   r   r   r   r?

A solução veio com a compreensão do sábio provérbio indiano que tornou-se um mantra pra mim, depois que o vivenciei:

Nada mudou.
Só eu mudei.
Portanto, tudo mudou!

Esta é a mensagem de encorajamento que envio para todas as pessoas que se encontram na borda de um sombrio horizonte de eventos em qualquer uma das Áreas da Vida, quer seja a do Ambiente Físico, da Saúde, da Carreira, do Desenvolvimento Pessoal, dos Relacionamentos, das Finanças, da Espiritualidade, ou até mesmo na área do Lazer.

Em tempos dessa estupidez chamada de “Baleia Azul” que teria se espalhado pelo mundo a partir de sites localizados na Russia, recuso-me simplesmente a chamar essa atividade de “Jogo”, por propor aos seus participantes a  realização de uma sequencia de 50 atividades, sendo cada uma mais degradante que a outra, incluindo ações de mutilação do próprio corpo e culminando com uma sugestão de suicídio. Escolho agir assim, para não lhe emprestar qualquer caráter lúdico, uma vez que sabemos que as diversas formas de jogo já conhecidas, ou aquelas anunciadas como tal, sejam elas saudáveis ou não, têm o poder de atrair a atenção de jovens e adultos de todas as idades.

Apresento, de acordo com minha própria experiência, uma vez que não sou psicoterapeuta, algumas propostas para se lidar com essa situação ameaçadora: a de captura da atenção de pessoas fragilizadas por um estado depressivo, por parte de verdadeiros criminosos, apenas interessados em exercer o poder de conduzi-las para o fundo de um buraco negro existencial, com o sério risco desse processo culminar com a auto destruição de suas vítimas, se essa situação não for reconhecida e interrompida a tempo pelas próprias vítimas, ou por pessoas presentes no seu ambiente familiar, escolar, pessoal ou de trabalho:

PARA PAIS, EDUCADORES, AMIGOS E COLEGAS DE TRABALHO DE POSSÍVEIS VÍTIMAS:

  1. Procurar conhecer de verdade seus filhos, alunos, amigos e colegas de trabalho, buscando sua companhia com frequência e o estabelecimento de uma conexão genuína;
  2. Buscar ajuda para si próprio, quando for o caso, para evitar ser arrastado para o buraco negro junto com a pessoa que se pretende ajudar;
  3. Durante as diversas conversas, buscar estabelecer formas de comunicação compassiva com foco na escuta com empatia, ao invés de procurar impor a própria opinião;
  4. Incrementar a prática do elogio sincero, o “feedback positivo” que não tem contra-indicações, e reforça a auto-estima de quem o recebe e o reconhece como verdadeiro; e
  5. Buscar o apoio de terapeutas qualificados, ao longo de todo o processo, uma vez que nada substitui sua valiosa orientação.

PARA AS VÍTIMAS DE DEPRESSÃO:

  1.  Buscar estabelecer formas de comunicação compassiva consigo mesmo com foco em uma espécie de investigação apreciativa pessoal para trazer à consciência cada vez mais motivos para reconhecimento e gratidão e não apenas para lamentação;
  2. Buscar o apoio de terapeutas qualificados, ao longo de todo o processo, uma vez que nada substitui sua valiosa orientação.

Isto também pode ser dito de outra maneira, como nos sugeriu Albert Einstein, em um de seus imaginativos experimentos teóricos que o levaram à descoberta da Teoria da Relatividade:

Desenvolver a capacidade de, mentalmente, colocar-nos na extremidade de um intrépido raio de luz, e apreciar o Universo a partir dessa nova perspectiva!

Eduardo Leal
Ilustrações de autores desconhecidos

Buraco NegroEspiral colorida

Garrafa 515 – Faro no escuro   Leave a comment

O velho Nick, um poodle com pelo de cor “branco encardido” e nariz esponjoso e molhado fareja a brisa de verão no sítio da família de maneira permanente. A qualquer hora do dia ou da noite, apesar da idade avançada, seu olfato é sincronizado com olhos e ouvidos atentos, e sua cabeça aponta imediatamente na direção de qualquer coisa que desperte sua atenção. Suas orbitas e orelhas se movem e se ajustam automaticamente para sintonia fina de sinais imperceptíveis pra mim.

Li na Internet que seu focinho tem dois compartimentos diferentes: um só para respirar e outro só para farejar. E são capazes de identificar imediatamente a direção de onde vem o cheiro mais intenso, em concentrações cerca de cem milhões de vezes menores que as percebidas pelo nosso nariz, facilitando a identificação e localização de sua fonte com grande precisão. Para realizar essa proeza, possuem cerca de cinquenta vezes mas células olfativas que os humanos e, proporcionalmente, a área cerebral em que essas informações são processadas é 40% maior que a área usada para essa mesma finalidade em nosso próprio cérebro.

Essa criaturinha fiel prefere ficar perto de nós, mas entra no modo “patrulha de combate” a todo instante, com latidos e correrias em defesa de seu território imaginário que é nada mais nada menos que o mundo inteiro.

Sem muita coisa para fazer, quando a ideia é aproveitar para relaxar e escutar o mato crescendo por trás da cerca de bambu, costumo passar um bom tempo só observando suas reações e tentando imaginar o que se passa dentro de sua sua cabeça felpuda.

Gatos atrevidos invadem seu território de tempos em tempos, mantendo-se a uma distância segura em cima do muro ou da cerca de madeira construída pelas mãos hábeis e calejadas do meu velho sogro. Durante o dia, passarinhos também se arriscam bicando o chão de terra ou de cimento, em busca de insetos e migalhas de comida. Mas os campeões de insolência são os integrantes dos bandos de saguis que povoam as árvores das redondezas. Se a casa ficar silenciosa e as portas e janelas estiverem abertas, entram na cozinha não só em busca de comida, mas também de saciar sua curiosidade que parece sem limites.

Anoiteceu já faz algumas horas, e espero sem pressa pela hora do jantar. Depois de um dia de céu anuviado, é daquelas noites escuras sem nesga de luz do luar, só com uma ou outra estrela de brilho intermitente por trás de nuvens espessas que se movem devagar. Ouço grilos e sapos, mas vejo apenas as sombras do que já foram as árvores imponentes que circundam a casa com sua presença silenciosa.

De repente, além do cheiro de tempero que vem da cozinha, farejo algumas palavras que se movem no inconsciente, enquanto o nariz esponjoso e molhado do Nick aponta para o meio da escuridão:

gatos no muro
e micos no escuro,
cão e seu faro.

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

gato-no-muro-no-escuro

Garrafa 514 – Azedinho doce   Leave a comment

No pomar do sítio da família, há atualmente apenas uma amoreira em momento de total exuberância. Árvore de tronco esguio, carregadinha com amoras pretinhas e doces, nos galhos cheios de folhas tenras em tom verde claro.

O chão no entorno da árvore está salpicado de manchas roxas das amoras caídas pela ação da chuva, do vento forte ou da mais leve brisa, e das bicadas dos passarinhos das redondezas. Na terra, foram esmagadas pelo impacto da própria queda ou pisoteadas de maneira distraída por visitantes apressados. Trilhas de disciplinadas formigas levam alguns desses despojos em direção a seu abrigo subterrâneo. Que façam bom proveito!

Sou extremamente grato por estar aqui e agora diante desta oportunidade única: pencas de amoras maduras ao alcance da mão.

Cada vez que aperto suavemente uma amora entre a língua e o céu da boca, sou transportado imediatamente para a época e o local de outras duas frondosas amoreiras, no quintal de uma casa em que vivi na infância em Caçapava, SP. Aguardava com ansiedade pela época do verão, como agora, para encher as mãos e alguma cumbuca apanhada de maneira apressada na cozinha com a preciosa carga. Comia a maioria delas embaixo da árvore, como agora, mas levava suprimentos para consumo tardio, em algum outro momento do dia ou da noite.

 Segurando o minúsculo cabinho da fruta junto à boca, não há modo evitar ficar com a ponta dos dedos pintados com tinta roxa, do caldo suculento da amora madura. E é tinta persistente, que resiste à lavagem inicial. Tinta que marcava a língua, os lábios, os dedos, a palma da mão, e que às vezes escorria pelo pulso e antebraço, manchando o calção e a camisa do menino feliz.

Agora sou mais cuidadoso. Mais triste? Certamente que não! Pelo menos não quando posso estar assim comigo mesmo, com as pontas dos dedos manchados pelo suco da amora madura. E lembrar-me com carinho de lugares, pessoas e amores. E só de coisas boas. E daqueles beijos de gosto azedinho doce, cometas percorrendo o céu da boca, que salpicaram o chão da memória com tantas marcas persistentes.

Nesse território, nessa confluência do espaço e do tempo, sou visitante atento. Fui e sou muito feliz!.

Pausa para um breve haicai:

azedinho doce,
tinta roxa no dedo,
lembro de você.

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

amora-madura-2

Garrafa 513 – Folha da mangueira   Leave a comment

Na semana do carnaval, em retiro forçado no sítio da família, acompanhando a recuperação da saúde de uma criaturinha idosa e querida.

Vibro com emoção quando ouço o ritmo da bateria de uma bela escola de samba e aprecio o requebrado sedutor de suas porta-bandeiras e passistas, além do giro sincronizado das integrantes da ala das baianas. Mas troco de bom grado, sempre que posso, a folia de Momo pela quietude de áreas rurais.

Comida caseira, amoras, jabuticabas e goiabas maduras ao alcance da mão, e tempo de sobra para longas caminhadas para facilitar a digestão. Oportunidade, também, para a prática da escuta com empatia em longas conversas com meus sogros, que sempre nos surpreendem e encantam com suas histórias carregadas de fortes lembranças e muitas emoções. E de alguns momentos de silenciosa contemplação, escutando o mato crescendo em baixo de uma frondosa mangueira.

Uma forte lufada de vento, antes de uma breve chuva de verão, provoca uma precipitação antecipada de pequenos galhos retorcidos, um ninho de passarinho vazio, e muitas folhas secas. Mangas ainda verdes balançam perigosamente, mas não caem. Ao longe, uma jaca madura desprende-se do tronco carregado e cai com um baque surdo no meio do matagal.

Pausa para um breve haicai:

folha da mangueira,
da estação primeira?
caiu sambando…

Eduardo Leal
Foto de Kelly Casseres – Squel, porta-bandeira da Mangueira em 2016

porta-bandeira-da-mangueira

Garrafa 512 – Grillus interruptus   Leave a comment

Durante retiro forçado no sítio da família, já há mais de uma semana, e que tudo indica deve se estender pelo período de carnaval, um dos maiores benefícios recebidos de bom grado, quem sabe efeito colateral não planejado, mas muito bem-vindo, é a ensurdecedora quietude do lugar, quando comparada com a barulheira constante da cidade.

Sou grato por isso!

Quietude real e virtual, já que no fundo do vale não há sinal de celular e, portanto, também não há sinal de Internet. Aqui, o pretenso “smartphone” transforma-se em “stupidphone”, ou no máximo em uma “wisecamera”, muito mais dependente da sabedoria do seu operador e dos temas selecionados para registro, do que de qualquer recurso tecnológico embarcado.

Sinal e conexão eletrônicos só nas breves e eventuais idas à cidade, com o propósito de comprar remédios, levar, trazer ou visitar um vovozinho arteiro e teimoso que, internado em um hospital, ou apenas realizando consulta em um pronto-socorro, do alto de seus 91 anos bem vividos, continua agindo como se o seu corpo ainda fosse de apenas 30 anos. Nos intervalos, foge com surpreendente agilidade do repouso recomendado e necessário, para manter fidelidade aos seus hábitos de trabalho de grande intensidade.

Quando acordo bem cedinho, antes do nascer do sol, até o bambuzal parece estar momentaneamente congelado e silencioso. Nem uma minúscula folha se move antes da primeira brisa da manhã. Só posso perceber, às vezes, o zumbido de algum inseto, quando bem apuro o ouvido e a atenção. Momento propício para a prática meditativa, seguida de longos períodos de reflexão e trabalho contínuo e profundo. Até a hora de interagir novamente com o vovozinho.

Ao longo do dia, e até o entardecer, o silencio é quebrado algumas vezes por uma sinfonia de cantos de galos, galinhas e diversos tipos de pássaros. Algazarra de coito e canto de araras e maritacas, nesta época do ano. Isso, sem mencionar eventuais relinchos de cavalos, guinchos de saguis, latidos dos cães da vizinhança e do nosso velho Nick, e miados de três gatinhos. Dois gatos e uma gata estão cada vez menos desconfiados e mais amistosos, enquanto frequentam nossa casa vindo de algum lugar desconhecido da vizinhança.

Ao anoitecer, tendo como aperitivo o coaxar dos sapos, o prato principal é o canto dos grilos que povoa a escuridão da noite que tudo envolve.

Num dos finais de tarde dos últimos dias, talvez inspirados pela algazarra e saliência das maritacas, momentos antes, um casal de grilos ensaiava alguma nova posição do Kama Sutra, antes do anoitecer. Emitiam sons característicos que algum entomologista poderia certamente catalogar em seu Moleskine, se também estivesse observando a cena junto com um dos três gatinhos que me acompanhava em uma caminhada pelas redondezas. Nossa ideia, pelo menos a minha, era apreciar o por do sol e a beleza do lugar.

Sol aproximando-se da linha do horizonte, distorcido e abreviado pelo contorno das colinas que nos cercam, céu alaranjado, gatinho encolhido calculando a distância do pulo com precisão, esperando o momento certo e… ZAP!

Grillus interruptus!

Só inventei esse neologismo depois, lembrando da expressão “coitus interruptus”.

Freud explica, ou não…

Pausa para um breve haicai:

coito e canto,
grilos interrompidos,
pulo do gato!

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

o-pulo-do-gato

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