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Garrafa 538 – Lembranças de viagem   Leave a comment

Conheci Nara no inverno. Cheguei em um final de tarde, em janeiro de 2008, e passei uma noite fria e sua madrugada gelada em um hotel local.

A manhã surgiu luminosa e pude então explorar seu território, admirar seus belos jardins e parques, seus silenciosos templos e monumentos e respirar a atmosfera encantadora de seus castelos. Visita breve, que deixou meu coração apertado na despedida. Queria permanecer, mas não podia ficar nem mais um instante sequer.

Registrei timidamente minhas impressões dessa visita na Garrafa 131 – Nara.

E permanece inabalável o desejo de regressar.

Sei que tudo será diferente na próxima visita: somos outros agora, essa cidade dos sonhos e eu.

E sonho reencontrá-la em uma brilhante manhã de primavera, quem sabe enternecido com o espetáculo da floração das cerejeiras; ou quem sabe em um dia quente de verão ao abrigo de suas sombrinhas coloridas; ou ainda em uma luminosa tarde de outono, já antecipando as cores quentes do por do sol em sua silhueta recortada no horizonte.

Mas pode ser que isso só aconteça novamente em outra manhã gelada de inverno. E o dia pode estar nublado ou chuvoso. Não importa. Quero apenas poder caminhar novamente nesse território ainda tão pouco explorado, e em que tive um vislumbre do que poderia ser uma vida plena e um prolongado encontro afortunado.

Quem sabe um dia…

Enquanto isso, aguardo e guardo na lembrança as imagens dessa viagem de sonho em que me senti acolhido e em que estava em contato comigo mesmo. E sinto de novo a sensação de grata surpresa que me invadia a cada passo, dado ora de maneira hesitante, ora com grande firmeza, e ao dobrar cada curva do caminho até a hora da partida.

E sou grato por isso!

E antes que essas lembranças se esvaneçam, rabisco no meu bloco de notas:

inexorável
erosão da memória
bloco de notas

Eduardo Leal
Ilustrações de autor desconhecido: Veja em: https://www.visitnara.jp/travel-to-nara/

Garrafa 536 – Testemunha silenciosa   Leave a comment

O alarme está ajustado para despertar às seis horas, mas normalmente já estou acordado um pouco antes disso. Tem sido assim pelo menos desde o início dos anos sessenta.

Costumava despertar às cinco e meia, com o céu ainda escuro, para entrar antes das sete no Colégio Militar. Nos anos setenta, o toque de alvorada do corneteiro soava na Escola Naval às seis, mas o som das gaivotas da Ilha de Villegagnon já entrava pela janela aberta bem antes disso, junto com a brisa impregnada de maresia da Baía de Guanabara. Depois de formado, essa se tornou a rotina para chegar ao trabalho antes das oito, deixando, antes, as meninas no colégio. E isso se entendeu até o início de 2002, ou seja, por mais de quarenta anos.

Após a transferência para a reserva, iniciei nova carreira com outras atividades profissionais e maior flexibilidade com relação a horários, que ficam agora a meu quase exclusivo critério. Mas o hábito de acordar cedo se mantém, apesar de não ser mais tão necessário. Agora é uma escolha do corpo!

Lembro-me de, na infância, precisar de pelo menos dez horas de sono por dia. E esse número foi sendo reduzido para nove na adolescência, e para oito na juventude e início da vida adulta. A partir dos anos 80, seis horas já eram suficientes. Hoje, dificilmente adormeço antes de uma da manhã. Fico bem disposto com apenas cinco horas de sono por noite. Indicaçao da inexorável aproximação da velhice, dizem. Parece que ficamos com mais sede de vida, ao pressentirmos o seu fim, e queremos dormir menos para viver mais. Quem sabe?

Quando estou em casa, ao levantar da cama, meus primeiros passos costumam me levar direto para a varanda, que aponta para o sul da paisagem da Barra da Tijuca. Fico de olho no céu em busca de nuvens cor de rosa ou acinzentadas, ansioso pelo contato com as primeiras luzes da manhã que aparecem do lado esquerdo, a leste, na direção de onde fica a Praia de São Conrado. E procuro pistas sobre a intensidade e direção do vento, no movimento das folhas dos coqueiros, amendoeiras e mangueiras da pracinha, como se ainda estivesse no convés de algumas das embarcações que tripulei ou comandei. As gaivotas silenciosas ficam muito alto no céu matinal e a algazarra da passarinhada é uma composição do canto de sabiás, cambaxirras e de muitos bem-te-vis. Sua plumagem em tons de marrom e amarelo é percebida por entre os galhos e troncos que se mostram já bem secos ou ainda molhados, indicando como transcorreu a madrugada e como promete ser o novo dia, se já choveu ou se teremos céu azul, nublado ou chuvoso.

Aqui no sítio, onde já estou há alguns dias, a rotina é parecida. Salto da cama e corro para fora da casa que é cercada de muitas árvores diferentes. São jaqueiras, mangueiras, jambeiros, o bananal e um grande bambuzal que nos protegem dos ventos que sobem a partir do fundo do vale, a oeste. Preciso me afastar de suas paredes e telhado para olhar em direção das pequenas elevações cercadas de vegetação que cercam a casa por cerca de cento e oitenta graus, na direção do nascente. O sol presencial só depois das oito, em dias de céu claro, apesar de anunciado a partir das quatro pelos galos da vizinhança. Aqui é mais fácil ver o dourado do poente que o do nascer do sol, já que o setor oeste é mais livre de obstáculos próximos, e as montanhas avistadas no fundo do vale ficam muito distantes, no limite do horizonte. No sítio, a sinfonia matinal de passarinhos também é extremamente variada mas, ultimamente, tem sido abafada pela estridência insolente de bandos de maritacas.

Hoje é uma data especial em que é celebrado o dia dos pais e lembro-me do meu bom amigo que já nos deixou há vinte anos. Teria completado cem anos, se ainda estivesse entre nós, e despediu-se precocemente deste mundo aos oitenta. Estou aproveitando a companhia do meu sogro, o patriarca da família que tem noventa e três, e hoje acordou mais cedo para moer cana para todos nós. Meu filho mais velho, que será pai pela primeira vez a partir de janeiro já me chamou em vídeo agora há pouco, diretamente da Alemanha, onde vive. Estava fazendo a barba do meu sogro durante a chamada, e conversamos, ao mesmo tempo, três gerações: avô, pai e filho. Muito riso e pouco sizo! Minhas filhas já estão a caminho, subindo a serra para participar do almoço em família, regado a caldo de cana. Trazem o pequeno Damião, netinho amado, representante da quarta geração que em breve terá a companhia de um priminho ou priminha. Seu sexo, para arrepio dos idiotas defensores da ideologia de gênero, ainda não sabemos, mas sim descobriremos em breve. Vida que segue seu curso!

Sou grato por isso!

De olho na entrada do sítio, no fim da manhã, permaneço pensativo aguardando o barulho e a visão do carro que traz minhas filhas, genro e neto. Como testemunha silenciosa, sinto e ouço o vento mensageiro.

Chegaram!

Hoje, mais cedo, rabisquei no meu bloco de notas:

ah! no bambuzal!
de onde? para onde vai
rajada de vento?

Eduardo Leal

Foto de Eduardo Leal

Garrafa 530 – Até que ponto?   Leave a comment

Ultimo dia do mês de julho, na próxima semana dia de celebração de aniversário.

Como sempre acontece, época de balanços e inventário de perdas e ganhos.

E, nas ultimas semanas, releitura, pela terceira vez, de um livro recebido de presente de pessoa muito querida, no ano de 2009. Tema denso e instigante, sobre “O Quarto Caminho”, a primeira leitura completa só terminou em 2011. A segunda leitura foi em 2014.

Encontrei no rodapé de uma das páginas um haicai,  parido em junho de 2011, e ainda não postado. Parece justo como dedo no ouvido para o momento atual.

Posto agora:

minhas escolhas:
saber para onde ir…
até que ponto?

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Destino

Garrafa 520 – Em direção à noite   2 comments

Os belos dias de outono são sempre especiais pra mim. Junto com os dias de primavera, longe dos extremos de calor e frio mais intenso, são minha época preferida ao longo do ano.

Sou seduzido pela qualidade da luz que ilumina o céu com seu azul profundo e, filtrada pela copa das árvores, salpica a calçada e projeta minha sombra aqui e ali durante as caminhadas diárias.

Hoje à tarde, breves rajadas de vento sudoeste trouxeram ao quadrante de Universo em que me encontro algumas nuvens de algodão. Elas se destacam contra o azul intenso que parece se aprofundar cada vez mais rumo ao infinito do espaço.

Nuvens silenciosas acompanhadas de bandos de aves marinhas tagarelas não deixam rastros em seu caminho na direção oposta ao por do sol, rumo à noite que se avizinha. A sombra movente envolve silenciosamente meus pensamentos com sua capa cada vez mais escura.

Onde o azul? Agora, azul negro… Agora, negrume.

Pausa para outro breve haicai.

no fim da tarde,
em direção à noite,
aves marinhas.

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Aves marinhas

Garrafa 516 – Buraco negro existencial   2 comments

De acordo com o resultado de pesquisas científicas disponíveis na Internet, um buraco negro seria uma região do espaço-tempo com matéria maciça e altamente compactada, resultante da deformação espacial decorrente do colapso gravitacional de uma estrela. No coração desse corpo estelar o tempo, conforme o percebemos, pararia de fluir e o espaço simplesmente deixaria de existir. E, teoricamente, nada, nem mesmo um único raio de luz poderia escapar de suas escuras fronteiras conhecidas como horizonte de eventos.

De minha parte, penso também em buracos negros como uma poderosa metáfora para um estado de depressão severa resultante do colapso emocional de uma pessoa. Um estado mental em que ela se vê esmagada pelo peso de emoções e sentimentos negativos que não consegue mais suportar, e do qual sente-se incapaz de escapar.

Há alguns anos atrás, cruzei perigosamente a região próxima ao horizonte de eventos de um buraco negro. No momento em que minha carreira profissional estava no auge, ascendendo a um novo ambiente e ao exato local onde tinha planejado chegar vinte anos atrás, a área de relacionamentos sofria com a recente perda de uma pessoa muito importante e com a reversão de expectativas e a frustração decorrente do comportamento surpreendente de outra criatura que tinha se tornado muito próxima (estava literalmente refém de sua atração gravitacional). A saúde física, emocional e mental foram afetadas e levaram-me a um quadro emocional que, se bem me recordo, foi classificado como depressão moderada. Não cheguei a mergulhar completamente no fundo do buraco negro, mas cheguei muito próximo para sentir uma amostra dos seus efeitos devastadores: sob uma enorme pressão existencial, não era capaz de ver as coisas ao meu redor com um mínimo de clareza e tinha enorme dificuldade de tomar decisões rotineiras simples.

Em 2016, um dos maiores físicos teóricos e destacado estudioso dos buracos negros de todos os tempos, Stephen Hawking declarou que já não pensa que o que quer que seja sugado para dentro de um buraco negro seja completamente destruído.  Ele pensa que poderia haver um caminho para se escapar através de um outro universo…

Também penso assim no caso do buraco negro existencial. Uma vez que nosso  próprio “Universo” não passa de uma percepção que construímos através da filtragem que fazemos com as informações que recebemos por meio de nossos sentidos; e que pessoas diferentes veem “Universos” bem diferentes, mesmo quando colocadas lado a lado na mesma região do espaço; tudo o que precisamos fazer é uma mudança desses filtros mentais e pronto! Entramos em um novo Universo! E isso pode funcionar mesmo quando nos encontramos submetidos a uma pressão emocional esmagadora no fundo de um buraco negro existencial!

No meu caso, a mudança de filtros mentais se deu pela leitura de diversos bons livros sobre psicologia e psicanálise que me caíram nas mãos, pelas conversas instigantes com uma psicoterapeuta que adota a abordagem de Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), e com a descoberta e intensa participação em um curso de Practitioner em Programação Neurolinguística (PNL).

Com o apoio de pessoas queridas que já faziam parte de meu círculo de relacionamentos e com o de outras pessoas especiais que encontrei ao longo do caminho, quando me pus em movimento, empreendi meus melhores esforços com o desejo ardente de sair da região escura em que me vi momentaneamente, e fui capaz de cavalgar a extremidade de um raio de luz que escapou da escuridão, emergindo em uma nova região do espaço.

Naquela ocasião, diante da possibilidade de meu mergulho iminente nas profundezas do buraco negro, observadores externos atentos e bem intencionados eram capazes de perceber meus lamentos, escutando o som da minha voz cada vez mais distorcido pelo Efeito Doppler, enquanto eu ainda encontrava um mínimo de energia para brincar com a métrica de um haicai:

buraaaco neeegro!
fuuugir para não caiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiirrrr…
c    o    m    o         e    s    c    a    a   a   a   p    a    a   a   a   r   r   r   r   r   r?

A solução veio com a compreensão do sábio provérbio indiano que tornou-se um mantra pra mim, depois que o vivenciei:

Nada mudou.
Só eu mudei.
Portanto, tudo mudou!

Esta é a mensagem de encorajamento que envio para todas as pessoas que se encontram na borda de um sombrio horizonte de eventos em qualquer uma das Áreas da Vida, quer seja a do Ambiente Físico, da Saúde, da Carreira, do Desenvolvimento Pessoal, dos Relacionamentos, das Finanças, da Espiritualidade, ou até mesmo na área do Lazer.

Em tempos dessa estupidez chamada de “Baleia Azul” que teria se espalhado pelo mundo a partir de sites localizados na Russia, recuso-me simplesmente a chamar essa atividade de “Jogo”, por propor aos seus participantes a  realização de uma sequencia de 50 atividades, sendo cada uma mais degradante que a outra, incluindo ações de mutilação do próprio corpo e culminando com uma sugestão de suicídio. Escolho agir assim, para não lhe emprestar qualquer caráter lúdico, uma vez que sabemos que as diversas formas de jogo já conhecidas, ou aquelas anunciadas como tal, sejam elas saudáveis ou não, têm o poder de atrair a atenção de jovens e adultos de todas as idades.

Apresento, de acordo com minha própria experiência, uma vez que não sou psicoterapeuta, algumas propostas para se lidar com essa situação ameaçadora: a de captura da atenção de pessoas fragilizadas por um estado depressivo, por parte de verdadeiros criminosos, apenas interessados em exercer o poder de conduzi-las para o fundo de um buraco negro existencial, com o sério risco desse processo culminar com a auto destruição de suas vítimas, se essa situação não for reconhecida e interrompida a tempo pelas próprias vítimas, ou por pessoas presentes no seu ambiente familiar, escolar, pessoal ou de trabalho:

PARA PAIS, EDUCADORES, AMIGOS E COLEGAS DE TRABALHO DE POSSÍVEIS VÍTIMAS:

  1. Procurar conhecer de verdade seus filhos, alunos, amigos e colegas de trabalho, buscando sua companhia com frequência e o estabelecimento de uma conexão genuína;
  2. Buscar ajuda para si próprio, quando for o caso, para evitar ser arrastado para o buraco negro junto com a pessoa que se pretende ajudar;
  3. Durante as diversas conversas, buscar estabelecer formas de comunicação compassiva com foco na escuta com empatia, ao invés de procurar impor a própria opinião;
  4. Incrementar a prática do elogio sincero, o “feedback positivo” que não tem contra-indicações, e reforça a auto-estima de quem o recebe e o reconhece como verdadeiro; e
  5. Buscar o apoio de terapeutas qualificados, ao longo de todo o processo, uma vez que nada substitui sua valiosa orientação.

PARA AS VÍTIMAS DE DEPRESSÃO:

  1.  Buscar estabelecer formas de comunicação compassiva consigo mesmo com foco em uma espécie de investigação apreciativa pessoal para trazer à consciência cada vez mais motivos para reconhecimento e gratidão e não apenas para lamentação;
  2. Buscar o apoio de terapeutas qualificados, ao longo de todo o processo, uma vez que nada substitui sua valiosa orientação.

Isto também pode ser dito de outra maneira, como nos sugeriu Albert Einstein, em um de seus imaginativos experimentos teóricos que o levaram à descoberta da Teoria da Relatividade:

Desenvolver a capacidade de, mentalmente, colocar-nos na extremidade de um intrépido raio de luz, e apreciar o Universo a partir dessa nova perspectiva!

Eduardo Leal
Ilustrações de autores desconhecidos

Buraco NegroEspiral colorida

Garrafa 515 – Faro no escuro   Leave a comment

O velho Nick, um poodle com pelo de cor “branco encardido” e nariz esponjoso e molhado fareja a brisa de verão no sítio da família de maneira permanente. A qualquer hora do dia ou da noite, apesar da idade avançada, seu olfato é sincronizado com olhos e ouvidos atentos, e sua cabeça aponta imediatamente na direção de qualquer coisa que desperte sua atenção. Suas orbitas e orelhas se movem e se ajustam automaticamente para sintonia fina de sinais imperceptíveis pra mim.

Li na Internet que seu focinho tem dois compartimentos diferentes: um só para respirar e outro só para farejar. E são capazes de identificar imediatamente a direção de onde vem o cheiro mais intenso, em concentrações cerca de cem milhões de vezes menores que as percebidas pelo nosso nariz, facilitando a identificação e localização de sua fonte com grande precisão. Para realizar essa proeza, possuem cerca de cinquenta vezes mas células olfativas que os humanos e, proporcionalmente, a área cerebral em que essas informações são processadas é 40% maior que a área usada para essa mesma finalidade em nosso próprio cérebro.

Essa criaturinha fiel prefere ficar perto de nós, mas entra no modo “patrulha de combate” a todo instante, com latidos e correrias em defesa de seu território imaginário que é nada mais nada menos que o mundo inteiro.

Sem muita coisa para fazer, quando a ideia é aproveitar para relaxar e escutar o mato crescendo por trás da cerca de bambu, costumo passar um bom tempo só observando suas reações e tentando imaginar o que se passa dentro de sua sua cabeça felpuda.

Gatos atrevidos invadem seu território de tempos em tempos, mantendo-se a uma distância segura em cima do muro ou da cerca de madeira construída pelas mãos hábeis e calejadas do meu velho sogro. Durante o dia, passarinhos também se arriscam bicando o chão de terra ou de cimento, em busca de insetos e migalhas de comida. Mas os campeões de insolência são os integrantes dos bandos de saguis que povoam as árvores das redondezas. Se a casa ficar silenciosa e as portas e janelas estiverem abertas, entram na cozinha não só em busca de comida, mas também de saciar sua curiosidade que parece sem limites.

Anoiteceu já faz algumas horas, e espero sem pressa pela hora do jantar. Depois de um dia de céu anuviado, é daquelas noites escuras sem nesga de luz do luar, só com uma ou outra estrela de brilho intermitente por trás de nuvens espessas que se movem devagar. Ouço grilos e sapos, mas vejo apenas as sombras do que já foram as árvores imponentes que circundam a casa com sua presença silenciosa.

De repente, além do cheiro de tempero que vem da cozinha, farejo algumas palavras que se movem no inconsciente, enquanto o nariz esponjoso e molhado do Nick aponta para o meio da escuridão:

gatos no muro
e micos no escuro,
cão e seu faro.

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

gato-no-muro-no-escuro

Garrafa 512 – Grillus interruptus   Leave a comment

Durante retiro forçado no sítio da família, já há mais de uma semana, e que tudo indica deve se estender pelo período de carnaval, um dos maiores benefícios recebidos de bom grado, quem sabe efeito colateral não planejado, mas muito bem-vindo, é a ensurdecedora quietude do lugar, quando comparada com a barulheira constante da cidade.

Sou grato por isso!

Quietude real e virtual, já que no fundo do vale não há sinal de celular e, portanto, também não há sinal de Internet. Aqui, o pretenso “smartphone” transforma-se em “stupidphone”, ou no máximo em uma “wisecamera”, muito mais dependente da sabedoria do seu operador e dos temas selecionados para registro, do que de qualquer recurso tecnológico embarcado.

Sinal e conexão eletrônicos só nas breves e eventuais idas à cidade, com o propósito de comprar remédios, levar, trazer ou visitar um vovozinho arteiro e teimoso que, internado em um hospital, ou apenas realizando consulta em um pronto-socorro, do alto de seus 91 anos bem vividos, continua agindo como se o seu corpo ainda fosse de apenas 30 anos. Nos intervalos, foge com surpreendente agilidade do repouso recomendado e necessário, para manter fidelidade aos seus hábitos de trabalho de grande intensidade.

Quando acordo bem cedinho, antes do nascer do sol, até o bambuzal parece estar momentaneamente congelado e silencioso. Nem uma minúscula folha se move antes da primeira brisa da manhã. Só posso perceber, às vezes, o zumbido de algum inseto, quando bem apuro o ouvido e a atenção. Momento propício para a prática meditativa, seguida de longos períodos de reflexão e trabalho contínuo e profundo. Até a hora de interagir novamente com o vovozinho.

Ao longo do dia, e até o entardecer, o silencio é quebrado algumas vezes por uma sinfonia de cantos de galos, galinhas e diversos tipos de pássaros. Algazarra de coito e canto de araras e maritacas, nesta época do ano. Isso, sem mencionar eventuais relinchos de cavalos, guinchos de saguis, latidos dos cães da vizinhança e do nosso velho Nick, e miados de três gatinhos. Dois gatos e uma gata estão cada vez menos desconfiados e mais amistosos, enquanto frequentam nossa casa vindo de algum lugar desconhecido da vizinhança.

Ao anoitecer, tendo como aperitivo o coaxar dos sapos, o prato principal é o canto dos grilos que povoa a escuridão da noite que tudo envolve.

Num dos finais de tarde dos últimos dias, talvez inspirados pela algazarra e saliência das maritacas, momentos antes, um casal de grilos ensaiava alguma nova posição do Kama Sutra, antes do anoitecer. Emitiam sons característicos que algum entomologista poderia certamente catalogar em seu Moleskine, se também estivesse observando a cena junto com um dos três gatinhos que me acompanhava em uma caminhada pelas redondezas. Nossa ideia, pelo menos a minha, era apreciar o por do sol e a beleza do lugar.

Sol aproximando-se da linha do horizonte, distorcido e abreviado pelo contorno das colinas que nos cercam, céu alaranjado, gatinho encolhido calculando a distância do pulo com precisão, esperando o momento certo e… ZAP!

Grillus interruptus!

Só inventei esse neologismo depois, lembrando da expressão “coitus interruptus”.

Freud explica, ou não…

Pausa para um breve haicai:

coito e canto,
grilos interrompidos,
pulo do gato!

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

o-pulo-do-gato

Garrafa 511 – Um gole que me engole   Leave a comment

Não quero mundos e fundos, só ir fundo no seu mundo, na hora do eclipse final.
Do seu amor, só aquele gole que me engole.

no poço sem fundo,
nada lhe peço senão,
um gole do mundo…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

poco-sem-fundo

Garrafa 508 – Carta de um bom amigo   Leave a comment

Recebi pelas mãos do porteiro do meu prédio, na manhã de hoje, com surpresa e curiosidade, uma carta que enviei para mim mesmo, datada de 12 de junho de 2016. Ela foi redigida durante um dos cursos sobre desenvolvimento pessoal de que participei em São Paulo, nos últimos meses.

Início de mês, é quando costumo receber alguns postais de propaganda e vários boletos rotineiros de contas a pagar. Dessa vez, entre remetentes familiares como NET, Light, CEG, Oi e VIVO, senti uma sensação estranha ao reconhecer minha própria letra junto com o carimbo dos Correios, e ao ver o meu nome como sendo o endereçado de um envelope branco, recheado com uma inesperada mensagem. Um carimbo com o nome da empresa que organizou o curso, no local reservado ao remetente, desvendou o mistério inicial.

Estava de saída para fazer uma visita à minha mãe e deixei para bisbilhotar o seu conteúdo em algum momento no meio da tarde.

No caminho, enquanto dirigia, tentei sem sucesso recordar o conteúdo dessa carta, e me dei conta de que minhas memórias de apenas quatro meses atrás tinham sido soterradas por toneladas de novos acontecimentos, de novas experiências e de novas sensações. Embora tivesse sido eu mesmo o escrivão dessa missiva, não me lembrava mais de uma palavra sequer. Mas sabia, isso sim, que ela estava carregada de energia amorosa e de grandes doses da emoção vivenciada naquele fim de semana instigante.

Almoço com a mamãe, criaturinha de 88 anos que me trata como se eu ainda fosse o seu menino travesso, e lhe inspirasse preocupação e cuidado permanentes. E, logo depois, uma visita ao seu banco para pagamentos de contas e transferências de dinheiro para outros membros da nossa família. Missão cumprida.

Recostado na cadeira de balanço que fica  na varanda, que segundo minha mãe foi comprada quando eu nasci e ajudou a embalar o meu agitado sono infantil em diversas ocasiões, abri o envelope com cuidado, cortando a sua borda com uma velha tesoura, para evitar danificar o seu conteúdo.

Ao ler cada parágrafo, fui imediata e novamente transportado para aquele momento do passado recente, e meu coração foi inundado por um enorme sentimento de gratidão. Participaram daquele evento cerca de 800 pessoas e, entre elas, se encontravam vários clientes que já se tornaram bons amigos, alunos de cursos que ministrei, além de vários novos parceiros de negócios e amigos em potencial. E dois amigos em particular, que têm sido minha companhia mais constante ao longo dessa jornada de cursos, e estiveram sempre ao meu lado naqueles dias, vieram imediatamente à minha lembrança com carinho. Além disso, sempre que tenho estado em São Paulo, tenho podido aproveitar a oportunidade para passar ótimos momentos com meu filho e minha nora que vivem por lá. E sempre sou muito bem recebido! E me dei conta que, ao longo de toda a minha vida tenho sido apoiado por muitas pessoas dedicadas e importantes: amores, familiares, amigos e parceiros de negócios. Sou uma pessoa realmente afortunada!

E, emocionado, reconheci também que um dos meus principais incentivadores, aquele com quem sempre tenho podido contar nessa aventura de viver, especialmente nos momentos em que me sinto muito só, mesmo quando rodeado de muitas pessoas, foi esse bom amigo que me escreveu essa carta e que me acompanha desde menino. Ele é esse menino travesso dentro de mim, o meu melhor amigo.

Sou grato por isso!

Desejando retribuir ao Universo tudo de bom que tenho recebido, compartilho o teor dessa carta que recebi desse bom amigo com todos os meus outros amigos, na expectativa de que possam receber também, em breve, e em carne e osso, o meu melhor abraço.

São Paulo, 12 de junho de 2016.

Caro amigo,

Ótimo trabalho realizado até agora no seu projeto pessoal de aprender, crescer e elevar cada vez mais o seu próprio nível de consciência!

Sua perseverança na conquista de seus objetivos e metas é o que vai levá-lo aos resultados desejados. Continue firme no Caminho!

Use seus talentos, transformando-os em pontos fortes, em suas atividades pessoais e profissionais.

Dê atenção especial aos seus relacionamentos, mantendo aqueles que são saudáveis e afastando-se gentilmente daqueles que são tóxicos.

A vida é relacionamento!

Procure, cada vez mais, aprimorar os seus processos de comunicação que nutrem cada um dos relacionamentos valiosos que você deseja manter.

A vida é comunicação!

Divirta-se fazendo o que ama, e busque a companhia de quem lhe faz bem e com quem pode sempre aprender coisas novas.

Cuide da sua saúde. É ela que vai permitir que você aproveite a vida!

E compartilhe o que aprender com quem esteja disposto a ouvi-lo.

Abraço apertado,

Eduardo Leal

Ilustração de autor desconhecido.

Instruções de utilização: Ouvir “Bola de meia, bola de gude” com Milton Nascimento

O Convite

Garrafa 500 – Quinhentos tons de celebração   3 comments

Esta é uma mensagem de celebração pelas 500 postagens realizadas desde outubro de 2005, quando o Blog “Três Coisas” marcou sua presença na Internet pela primeira vez, com o lançamento da Garrafa 1 – Três Coisas, que incluía no corpo do texto a Garrafa 0 – Primeiras Palavras. Só em 2011 o conteúdo da “Garrafa 0” foi replicado em uma página separada, e renomeada como “Garrafa Zero – Minhas Razões“.

E sei que esse não é um número tão grande assim. São 500 postagens em 155 meses, o que me diz que, em média, teria me manifestado de alguma maneira por três vezes em cada mês. Mas alterno períodos em que publico um post todo dia, como ocorreu em todos os dias do mês de abril de 2012, com outros de silêncios mais prolongados, até de um ano inteiro, como ocorreu agora, desde abril de 2015. E a quantidade de posts ou frequência de publicação não são a minha preocupação principal. Publico, quanto sinto que tenho algo relevante a dizer. E assim tem sido.

Com um pouco mais de dez anos de existência do Blog, muita coisa aconteceu comigo e com o meu entorno pessoal e profissional. Mas o conjunto de temas utilizados nas postagens não sofreu muitas alterações ao longo do tempo. Uma breve verificação de quais foram as palavras-chave mais usadas como “tags” ou “rótulos de busca” e que podem ser vistas na área da esquerda, em cada página, nos indica que os temas mais citados foram: Percepções, Aqui, Agora, Amor, Vida, Tempo, Oriah, O Convite, Coração, entre outros.

Ao longo desse tempo, quando senti que algum tema estava merecendo uma atenção especial, optei por lançar outro Blog com posts específicos enfocando o assunto em questão. Foi assim que surgiu o Blog “Sou Grato por Isso!” abordando o tema da gratidão; o Blog “Dieta de Notícias” abordando apenas notícias de conteúdo positivo; e o Blog “Vendo o mundo da varanda” abordando minhas percepções depois da prática meditativa matinal realizada rotineiramente na varanda do meu apartamento. Um outro Blog chamado de “Politicamente Integral” foi lançado há algum tempo, mas ainda não recebeu conteúdo significativo, o que pretendo fazer na medida da minha disponibilidade para estudar e pesquisar mais a respeito do tema. O Blog mais recente, que está em fase final de elaboração se chama “Um passo de cada vez” e deverá conter, inicialmente,  minhas percepções a respeito das fases de preparação e de caminhada efetiva ao longo do Caminho de Santiago de Compostela.

Não houve, infelizmente, e me dou conta disso agora, uma celebração formal no aniversário de dez anos do Blog “Três Coisas”, em 21 de outubro de 2015, contando o tempo a partir da data de sua primeira postagem, como seria de se esperar pelo meu apreço por celebrações de todos os tipos. Isso se deu pelo silencio e recolhimento que voluntariamente me impus, a partir do lançamento da Garrafa 496, de 20 de abril de 2015. Naquela ocasião, entrei em ritmo de preparação para percorrer o Caminho de Santiago de Compostela, o que efetivamente ocorreu entre setembro e outubro do ano passado.

Saí do Rio de Janeiro em 08 de setembro e iniciei a opção conhecida como “Caminho Francês” em 10 de setembro, a partir de Saint Jean de Pied de Port, na França, aos pés dos Montes Pirineus e percorri a maior parte do tempo atravessando as belas paisagens espanholas, até chegar em Santiago de Compostela. Durante esse período, quando cheguei ao povoado de Agés, próximo de Burgos, tive que fazer uma interrupção de uma semana, para tratar de tristes questões familiares na Alemanha, em Bremen, voltando ao mesmo ponto do Caminho onde tinha feito a interrupção, para só então concluir o trajeto previsto. Ao retornar ao Brasil, em 26 de outubro de 2015, levei um bom tempo ruminando, processando e degustando comigo mesmo tudo que vivenciei ao longo dos cerca de 800 quilômetros percorridos a cada passo daquela jornada inesquecível. Conheci lugares e pessoas especiais que estarão comigo, para sempre, na memória corporal e afetiva.

Retomei as postagens por aqui somente em abril de 2016,  há apenas uma semana atrás, para celebrar algumas datas especiais, entre elas o lançamento desta quingentésima garrafa.

Além deste texto, elaborei uma ilustração comemorativa fazendo uma composição com imagens encontradas na Internet sobre as quinhentas garrafas. Ao buscar nos posts já enviados uma trilha sonora que pudesse estar à altura da ocasião, optei por incluir algo ainda não postado e que é uma das peças de que mais gosto e que compõe a trilha sonora da minha vida. Como o tema do Amor, em todas as suas formas, é um dos mais abordados por aqui, enquanto dei conta de lançar apenas 500 garrafas com mensagens, o Grupo de Rock Progressivo italiano dos anos 70, “Banco del Mutuo Soccorso”, um dos meus preferidos, nos lembra que o amor faz já 750.000 anos!

Esta Garrafa 500 é portanto o meu presente tanto para os muitos seguidores do Blog, que me enchem de alegria quando costumam deixar seus comentários aqui e ali, quanto para os visitantes eventuais que não deixam outro traço de sua presença, além de um local de acesso em alguma praia distante de algum país, onde a garrafa lançada foi recolhida, e um número registrado nas estatísticas de acesso. São todos, tanto os muito ativos como os mais silenciosos, sempre muito bem-vindos ao Blog.

Se alguém, em algum lugar, em algum momento, encontrando uma dessas garrafinhas, ao bisbilhotar o seu conteúdo:

  • esboçar o mais leve sorriso;
  • ouvir aquele ruído característico de uma ficha caindo dentro da própria cabeça;
  • se lembrar, com carinho, de algum amor antigo ou atual, que já não veja há muito tempo (às vezes cinco minutos parecem uma eternidade); ou
  • for levado a refletir sobre a própria vida, a dos seus semelhantes e sobre os destinos desse nosso pequeno planeta azul…

Já terá valido a pena!

Como sempre gosto de fazer, brinco mais uma vez com as palavras, usando a métrica do haicai:

cinco, cinquenta,
já quinhentas garrafas!
recolheu alguma?

Eduardo Leal

Composição de Eduardo Leal com fotos de autores desconhecidos
Instruções de utilização: Ouvir “750.000 anni fa l’amore” com Banco del Mutuo Soccorso.

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