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Garrafa 512 – Grillus interruptus   Leave a comment

Durante retiro forçado no sítio da família, já há mais de uma semana, e que tudo indica deve se estender pelo período de carnaval, um dos maiores benefícios recebidos de bom grado, quem sabe efeito colateral não planejado, mas muito bem-vindo, é a ensurdecedora quietude do lugar, quando comparada com a barulheira constante da cidade.

Sou grato por isso!

Quietude real e virtual, já que no fundo do vale não há sinal de celular e, portanto, também não há sinal de Internet. Aqui, o pretenso “smartphone” transforma-se em “stupidphone”, ou no máximo em uma “wisecamera”, muito mais dependente da sabedoria do seu operador e dos temas selecionados para registro, do que de qualquer recurso tecnológico embarcado.

Sinal e conexão eletrônicos só nas breves e eventuais idas à cidade, com o propósito de comprar remédios, levar, trazer ou visitar um vovozinho arteiro e teimoso que, internado em um hospital, ou apenas realizando consulta em um pronto-socorro, do alto de seus 91 anos bem vividos, continua agindo como se o seu corpo ainda fosse de apenas 30 anos. Nos intervalos, foge com surpreendente agilidade do repouso recomendado e necessário, para manter fidelidade aos seus hábitos de trabalho de grande intensidade.

Quando acordo bem cedinho, antes do nascer do sol, até o bambuzal parece estar momentaneamente congelado e silencioso. Nem uma minúscula folha se move antes da primeira brisa da manhã. Só posso perceber, às vezes, o zumbido de algum inseto, quando bem apuro o ouvido e a atenção. Momento propício para a prática meditativa, seguida de longos períodos de reflexão e trabalho contínuo e profundo. Até a hora de interagir novamente com o vovozinho.

Ao longo do dia, e até o entardecer, o silencio é quebrado algumas vezes por uma sinfonia de cantos de galos, galinhas e diversos tipos de pássaros. Algazarra de coito e canto de araras e maritacas, nesta época do ano. Isso, sem mencionar eventuais relinchos de cavalos, guinchos de saguis, latidos dos cães da vizinhança e do nosso velho Nick, e miados de três gatinhos. Dois gatos e uma gata estão cada vez menos desconfiados e mais amistosos, enquanto frequentam nossa casa vindo de algum lugar desconhecido da vizinhança.

Ao anoitecer, tendo como aperitivo o coaxar dos sapos, o prato principal é o canto dos grilos que povoa a escuridão da noite que tudo envolve.

Num dos finais de tarde dos últimos dias, talvez inspirados pela algazarra e saliência das maritacas, momentos antes, um casal de grilos ensaiava alguma nova posição do Kama Sutra, antes do anoitecer. Emitiam sons característicos que algum entomologista poderia certamente catalogar em seu Moleskine, se também estivesse observando a cena junto com um dos três gatinhos que me acompanhava em uma caminhada pelas redondezas. Nossa ideia, pelo menos a minha, era apreciar o por do sol e a beleza do lugar.

Sol aproximando-se da linha do horizonte, distorcido e abreviado pelo contorno das colinas que nos cercam, céu alaranjado, gatinho encolhido calculando a distância do pulo com precisão, esperando o momento certo e… ZAP!

Grillus interruptus!

Só inventei esse neologismo depois, lembrando da expressão “coitus interruptus”.

Freud explica, ou não…

Pausa para um breve haicai:

coito e canto,
grilos interrompidos,
pulo do gato!

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

o-pulo-do-gato

Garrafa 484 – A Prática da Gratidão   Leave a comment

Pesquisas recentes na área da Ciência Social ratificam a antiga sabedoria contida em Escrituras Hebraicas, no Novo Testamento e no Alcorão que expõe a gratidão como uma virtude central e concluem atestando que ela estimula o surgimento de uma grande quantidade de benefícios. Mais especificamente, a gratidão está positivamente relacionada a resultados críticos tais como satisfação com a vida, vitalidade, felicidade, autoestima, otimismo, esperança, empatia e a disposição para prover apoio emocional e tangível para outras pessoas.

Esse conjunto de estudos apresenta diversas evidências de que o fato de nos sentirmos gratos gera um efeito ondulatório que se espalha através de todas as áreas da vida, com o potencial de satisfazer alguns dos nossos mais profundos anseios – o desejo por felicidade, nossa procura por melhores relacionamentos, e nossa incessante busca por paz interior, completude e contentamento. Por tudo isso, a prática da gratidão, mais do que apenas uma ferramenta para autodesenvolvimento, pode e deve se tornar um saudável modo de vida à medida que elevamos o nosso nível de desenvolvimento de consciência.

Esses benefícios anunciados vêm, entretanto, a médio e longo prazo e do desenvolvimento de uma disposição de gratidão por meio de uma prática dedicada. Surgem pela tendência a sentir gratidão frequentemente, de modo correto e nas circunstâncias apropriadas. E surgem também da permanente estruturação de nossas vidas, nossas mentes e nossas palavras de modo a facilitar a vivência de experiências que induzam à gratidão e ao seu reconhecimento como tal.

Para vencermos nossas próprias barreiras e obstáculos internos ao desenvolvimento de um modo de vida baseado na gratidão, os autores desses estudos sugerem, entre outras atividades, a prática consistente e disciplinada do registro de um diário de gratidão.

A sugestão é a seguinte:

1. Estabeleça uma prática na qual você sempre se lembre dos presentes, graças, benefícios e coisas boas de que gosta e pelos quais se sente grato e passe a registrá-los de alguma maneira, pelo menos uma vez por dia.
2. Fisicamente esse diário tanto pode ser um caderno criado especificamente para essa finalidade, como pode assumir a forma criativa de um “Pote de Gratidão”, decorado com adesivos ou pinturas com motivos alegres e que vem acompanhado de um pequeno bloco de notas e uma caneta para realizar as anotações. Se essa simpática “Cápsula do tempo” for confeccionada por você mesmo, com uma intenção amorosa, melhor ainda;
3. Escreva todo dia no seu diário ou no bloco de notas relembrando momentos dignos de gratidão associados a eventos comuns, seus atributos pessoais, talentos ou pessoas valiosas em sua vida. O importante é estabelecer um hábito diário de prestar atenção a eventos que inspiram gratidão.
4. O ato de escrever transmuta os pensamentos em linguagem concreta, em palavras que ajudam a organizar o pensamento e facilitam sua integração, ajudando a pessoa a aceitar suas próprias experiências e a colocá-las em um contexto mais amplo. Permite que você veja o significado dos eventos ao seu redor e crie significado para sua própria vida.
5. As anotações no bloco de notas, uma anotação por folha, devem ser datadas, arrancadas do bloco, dobradas várias vezes e depositadas no seu Pote de Gratidão;
6. Abra sua “Cápsula do tempo” no fim do ano, ou a qualquer momento em que sinta esse desejo, e entre novamente em contato com tudo aquilo que tem tornado sua vida uma permanente celebração. Seu coração agradece.

Eduardo Leal
Foto de Eduardo Leal

O Pote da Gratidão

Garrafa 427 – Um certo ar matinal   1 comment

Pensativo, nesse final de uma tarde chuvosa de primavera, vasculhei a estante em busca de inspiração para encerrar o dia com dignidade, após ouvir que os problemas com o servidor de e-mail da minha conta mais antiga, que está “instável” desde segunda-feira, ainda não têm previsão de solução. Enquanto isso, alertas de erro aparecem a todo instante, sempre que tento baixar minhas mensagens, sem sucesso. Pequenas frustrações do dia-a-dia com reflexos indesejados no meu bom-humor habitual.

Lembrei-me imediatamente de um poema de Hermann Hesse que falava da importância de estarmos prontos para novos começos e expedi um mandado de busca e apreensão para mim mesmo. Encontrei-o em dois lugares diferentes, com dois títulos também distintos e com duas traduções ligeiramente diferentes. Em “O Jogo das Contas de Vidro” ele aparece como uma das obras póstumas do personagem José Servo com o título “Degraus”. Já na antologia poética “Andares”, aparece como o poema que emprestou seu nome à obra, com o título “Andares”.

Transcrevo e compartilho com os amigos essa pequena e delicada reflexão poética, retirada de “O Jogo das Contas de Vidro”, cuja tradução me agrada um pouco mais:

Assim como as flores murchas e a juventude
Dão lugar à velhice, assim floresce
Cada período de vida, e a sabedoria e a virtude,
Cada um a seu tempo, pois não podem
Durar eternamente. O coração,
A cada chamado da vida deve estar
Pronto para a partida e um novo início,
Para corajosamente e sem tristeza,
Entregar-se a outros, novos compromissos.
Em todo o começo reside um encanto
Que nos protege e ajuda a viver.
Os espaços, um a um, devíamos
Com jovialidade percorrer,
Sem nos deixar prender a nenhum deles
Qual uma pátria;
O Espírito Universal não quer atar-nos
Nem nos quer encerrar, mas sim
Elevar-nos degrau por degrau, nos ampliando o ser.
Se nos sentimos bem aclimatados
Num círculo de vida e habituados,
Nos ameaça o sono; e só quem de contínuo
Está pronto a partir e a viajar,
Se furtará à paralisação do costumeiro.

Mesmo a hora da morte talvez nos envie
Novos espaços recenados
O apelo da vida que nos chama não tem fim…
Sus, coração, despede-te e haure saúde!

Confesso que fui tocado por esse pequeno poema, que fala da inexorável passagem do tempo e de nosso inevitável destino de percorrer o espaço que nos corresponde, de preferência com jovialidade. Desde que o vi pela primeira vez, em algum momento da década de 1970, sinto que gosto especialmente dessa fala: “O coração, a cada chamado da vida deve estar pronto para a partida e um novo início, para corajosamente e sem tristeza, entregar-se a outros, novos compromissos. Em todo o começo reside um encanto que nos protege e ajuda a viver. Os espaços, um a um, devíamos com jovialidade percorrer, sem nos deixar prender a nenhum deles…”

Quando penso nisso, sinto novamente o frescor da manhã, mesmo daquelas mais nubladas, quando iniciamos cada novo dia com renovada disposição. E pensando que esse é um dos nossos grandes desafios, gostaria de transportar esse mesmo frescor para cada momento que se sucede, um após o outro, a cada chamado da vida, especialmente nesse fim de tarde chuvoso.

Um certo ar matinal… Acho que essa atitude mental deveria ser a minha ideal… Uma meta espiritual…

Isso! Corro para encontrar uma imagem que passe essa ideia de frescor matinal e organizar as ideias com a métrica de um haicai:

espiritual,
a atitude mental,
do ar matinal…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Morning Dance” com Spyro Gyra

Ar matinal

Garrafa 418 – Desvendar o Mistério   Leave a comment

medida, critério,
desvendar o Mistério!
meu Ministério…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Mistério 1

Garrafa 377 – Bico calado   Leave a comment

bico calado
passarinho na muda
voa de lado…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Old and wise” com Alan Parsons Project

Canario

Garrafa 361 – Nenhuma esperança, em 2013!   1 comment

Em recente reunião de amigos que aconteceu no meu apartamento, fui convidado a dizer algumas palavras, na qualidade de anfitrião, e não por qualquer outra razão, a título de encerramento do encontro e despedidas do grupo que estava de partida para outros compromissos. O tema proposto foi a respeito de minhas esperanças para o ano de 2013.

Surpreendido com o convite, especialmente pelo tema, que tem dado voltas na minha cabeça nos últimos tempos, e que permanece um assunto em aberto, não deixei a resposta em branco. Mas sinto que posso ter frustrado e decepcionado algumas daquelas pessoas. Assumi, então, o compromisso de articular melhor meus pensamentos e formular uma resposta por escrito, o que faço agora, utilizando este canal de comunicação.

Naquela ocasião, minhas palavras devem ter soado vacilantes já que, de memória, só consegui reproduzir parcialmente o conteúdo da Garrafa 182, postada em janeiro de 2009. Minha tradução livre do poema de T. S. Eliot começa assim: Eu disse à minha alma, fica quieta, e espera sem esperança pois a esperança seria pela coisa errada… E penso que esse poema pode ser um bom resumo de minhas crenças a respeito da proposta de se esperar sem esperança, enquanto a sabedoria não chega…

E já tinha postado outros dois Haicai, na Garrafa 179, de dezembro de 2008, inspirado em minhas leituras sobre filosofia zen budista, e na Garrafa 241, de junho de 2011, sobre o mesmo tema. Este último, inspirado na leitura de “A felicidade, desesperadamente” de André Comte-Sponville, livro indicado por um bom amigo e companheiro de angustias existenciais.

Na Garrafa 342, também citei André Comte-Sponville, refletindo sobre a importância de agir com base na vontade, e não na esperança, a diferença fundamental entre os “militantes” e os “simpatizantes” da vida.

Isto posto, passo agora a explicitar a lógica filosófica de Comte-Sponville, apoiada em algumas ideias de filósofos clássicos, modernos e contemporâneos (Platão, Aristóteles, Epicuro, Montaigne, Descartes, Spinoza, Pascal, Santo Agostinho, Schopenhauer, Kant, Marcel Conche, Louis Altusser, Sartre) sobre a felicidade, a vida, a filosofia, a sabedoria e, também, sobre como experimentamos a passagem do tempo. Tudo isso me parece e soa como verdadeiro e, portanto, adoto como meu entendimento do assunto, no momento atual:

1 – “Todos os homens procuram ser felizes, isso não tem exceção. É esse o motivo de todas as ações de todos os homens…”

2 – A filosofia é uma prática discursiva (ela procede “por discursos e raciocínios”) que tem a vida por objeto, a razão por meio e a felicidade por fim. Trata-se de pensar melhor para viver melhor.

3 – Como etimologicamente a meta da filosofia é a sabedoria e, pela tradição grega se reconhece a sabedoria pela felicidade, a felicidade é, portanto, a meta da filosofia. Pelo menos um certo tipo de felicidade, a felicidade do sábio, que não se obtém por meio de drogas, mentiras, ilusões, diversão. É uma felicidade que se obteria por uma certa relação com a verdade: uma verdadeira felicidade ou uma felicidade verdadeira. A beatitude ou a alegria que nasce da verdade.

4 – Só é verdadeiramente filósofo quem ama a felicidade como todo mundo, mas ama mais ainda a verdade – só é filósofo quem prefere uma verdadeira tristeza a uma falsa alegria. Trata-se de pensar não o que me torna feliz, mas o que me parece verdadeiro – e fica a meu encargo tentar encontrar, diante dessa verdade, seja ela triste ou angustiante, o máximo de felicidade possível. A felicidade é a meta; a verdade é o caminho ou a norma.

5 – O essencial é não mentir, e antes de mais nada não se mentir. Não mentir sobre a vida, sobre nós mesmos, sobre a felicidade.

6 – E por que não somos felizes?

a) Não somos felizes, às vezes, porque tudo vai mal. Os que sofrem a miséria, o desemprego, a exclusão, os que são afetados por uma doença grave ou têm um ente próximo morrendo… A maior urgência, sem dúvida não é filosofar, antes é preciso sobreviver e lutar, ajudar, tratar e curar.

b) Mas, se não somos felizes, nem sempre é porque tudo vai mal. O que nos falta para ser feliz, quando temos tudo para ser e não somos? Falta-nos sabedoria, saber viver. Ser feliz é, pelo menos numa primeira aproximação, ter o que desejamos. Mas, e agora quando nos damos conta que, segundo diversos filósofos (Platão, Pascal, Schopenhauer, Sartre) o desejo é falta: “O que não temos, o que não somos, o que nos falta, eis os objetos do desejo e do amor.” Ora, se só desejamos o que não temos, nunca temos o que desejamos, logo nunca somos felizes. Assim que um desejo é satisfeito, já não há falta, logo já não há desejo. Temos, então, o que desejávamos e já não desejamos. Ora desejamos o que não temos, e sofremos e ficamos frustrados com essa falta, ora temos o que, portanto, já não desejamos e nos entediamos ou nos apressamos a desejar outra coisa, e voltamos a sofrer. A vida oscila, pois, como um pêndulo, do sofrimento ao tédio. E a esperança é a própria falta, no tempo e na ignorância. Só esperamos o que não temos, e por isso mesmo somos tanto menos felizes quanto mais esperamos ser felizes. Estamos constantemente separados da felicidade pela esperança que a busca.

7 – Em nossa incapacidade de viver o momento presente, vivemos um pouco para o passado e principalmente muito, muito, para o futuro. “Assim, nunca vivemos, esperamos viver; e, dispondo-nos sempre a ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos.”

8 – Então, o que fazer? Como escapar desse ciclo da frustração e do tédio, da esperança e da decepção?

a) Primeira Estratégia: O esquecimento, a diversão. Pensemos rápido em outra coisa! Façamos como todo mundo: finjamos ser felizes, finjamos não nos entediar… É uma estratégia não filosófica, pois em filosofia trata-se justamente de não fingir;

b) Segunda Estratégia: Fuga para frente, de esperanças em esperanças. Consolar-se por ainda não ter conquistado o que se deseja, na esperança de que a conquista virá na semana seguinte…

c) Terceira Estratégia: Salto para frente, uma esperança absoluta, religiosa, que não é suscetível de ser decepcionada. É o salto religioso: esperar a felicidade para depois da morte. Passar da esperança como paixão, para a esperança como virtude teologal: porque ela tem Deus mesmo por objeto;

d) Quarta Estratégia: Uma tentativa de nos libertar da própria esperança. Entre a felicidade esperada e a decepção, entre o sofrimento e o tédio, lançar um olhar ao prazer e à alegria. Ora, quando há prazer? Quando há alegria? Há prazer, há alegria, quando desejamos o que temos, o que fazemos, o que é: há prazer, há alegria, quando desejamos o que não falta! Toda vez que Platão, Pascal, Schopenhauer e Sartre estão errados! E quando esse erro ocorre? Quando confundem o desejo com a esperança. Toda esperança é um desejo, mas nem todo desejo é uma esperança. Como é bom tomar uma bebida bem gelada quando se tem sede! Como é bom fazer amor quando se tem vontade, com a pessoa que se deseja, tanto mais quando ela não nos falta, quando está aqui, quando se entrega, maravilhosamente oferecida, maravilhosamente disponível! O prazer do passeio é estar onde desejamos estar, darmos os passos que estamos dando, desejar dá-los, e não desejar estar alhures ou efetuar outros passos, os que daremos mais tarde ou dali adiante… O prazer da viagem, é partir por partir. Triste viajante o que só espera a felicidade na chegada! E isso vale para qualquer ação. Ai do corredor que só deseja as passadas por vir, não as que ele dá, do militante que só deseja a vitória, não o combate, do amante que só deseja o orgasmo, não o amor! Todo ato necessita de uma causa próxima, eficiente e não final, e o desejo, como notava Aristóteles, é a única força motriz. É por isso que podemos ser felizes, é por isso que às vezes o somos: porque fazemos o que desejamos, porque desejamos o que fazemos! É o que Comte-Sponville chama de felicidade em ato, que outra coisa não é senão o próprio ato como felicidade: desejar o que temos, o que fazemos, o que é – o que não falta. Em outras palavras, gozar e regozijar-se. Mas essa felicidade em ato é ao mesmo tempo uma felicidade desesperada, pelo menos em certo sentido: é uma felicidade que não espera nada.

9 – De fato, o que é a esperança? É um desejo: não podemos esperar o que não desejamos. Toda esperança é um desejo; mas nem todo desejo é uma esperança. O desejo é o gênero próximo, como diria Aristóteles, da qual a esperança é uma espécie. Vou lhes propor três características da esperança:

a) Uma esperança é um desejo referente ao que não temos, ou ao que não é, em outras palavras, um desejo a que falta seu objeto. É o desejo segundo Platão. E é de fato o motivo pelo qual, na maioria das vezes, a esperança se refere ao futuro: porque o futuro nunca está aqui, porque do futuro, por definição, não temos o gozo efetivo. É por isso que esperamos: esperar é desejar sem gozar.

b) Podemos também esperar algo que não está por vir: a solução pode se referir ao presente, ou até, paradoxalmente, ao passado. “Espero que você esteja melhor” é uma esperança referente ao presente. “Espero que a operação tenha corrido bem” é uma esperança referente ao passado. Uma esperança é um desejo que ignora se foi ou será satisfeito: esperar é desejar sem saber. Só se espera o que se ignora: quando se sabe, já não há por que esperar. A esperança e o conhecimento nunca se encontram, em todo caso nunca têm o mesmo objeto: nunca esperamos o que sabemos, nunca conhecemos o que esperamos.

c) Ninguém espera aquilo de que se sabe capaz. É isso que distingue a esperança da vontade: uma esperança é um desejo cuja satisfação não depende de nós, como diziam os estóicos – diferentemente da vontade, a qual, ao contrário, é um desejo cuja satisfação depende de nós. Só esperamos o que somos incapazes de fazer, o que não depende de nós. Quando podemos fazer, não cabe mais esperar, trata-se de querer. A esperança é um desejo cuja satisfação não depende de nós: esperar é desejar sem poder.

10 – Integrando as três características apresentadas acima, Comte-Sponville nos apresenta sua definição de esperança: “É um desejo que se refere ao que não temos (uma falta), que ignoramos se foi ou será satisfeito, enfim, cuja satisfação não depende de nós: esperar é desejar sem gozar, sem saber, sem poder.” O prazer, o conhecimento e a ação não têm a ver com a esperança, e até, relativamente à realidade deles, a excluem.

a) Por que o prazer? O contrário de desejar sem gozar, na medida em que haja desejo (mas se estamos vivos, há desejo), é desejar gozando, desejar aquilo de que gozamos – na sexualidade, na arte, no passeio, na amizade, na gastronomia, no esporte, no trabalho, etc. É, portanto, o próprio prazer.

b) Por que o conhecimento? O contrário de desejar sem saber é desejar o que se sabe. É, portanto, o próprio conhecimento, pelo menos para quem o deseja, para aquele que ama a verdade, e tanto mais quanto ela não falta. O sábio, nesse sentido, é um “conhecedor”, como dizemos em matéria de vinhos ou de culinária. O “conhecedor” não é apenas aquele que conhece, mas também aquele que aprecia. O sábio é um conhecedor da vida: ele sabe conhecê-la e apreciá-la!

c) Por que a ação? O contrário de desejar sem poder é desejar o que podemos, logo o que fazemos. A única maneira de poder efetivamente é querer; e a única maneira verdadeira de querer é fazer. É a imensa lição estóica, sempre queremos o que fazemos, sempre fazemos o que queremos – nem sempre o que desejamos ou o que esperamos, longe disso, mas sempre o que queremos. É a diferença entre a esperança (desejar o que não depende de nós) e a vontade (desejar o que depende de nós). Não é a esperança que faz os heróis: é a coragem e a vontade.

11 – Platão, Pascal, Schopenhauer, portanto, nem sempre têm razão, com relação a suas ideias a respeito do desejo. Se é verdade que desejamos principalmente o que não temos e, portanto, se é verdade que nossos desejos na maioria das vezes são esperanças, também podemos desejar o que gozamos (isso se chama prazer, e todos sabem que há uma alegria do prazer); podemos desejar o que sabemos (isso se chama conhecer, e todos sabem que há uma alegria do conhecimento, pelo menos para quem ama a verdade); podemos desejar o que fazemos (isso se chama agir, e todos sabem que há uma alegria da ação).

12 – Se é verdade que somos tanto menos felizes quanto mais esperamos sê-lo, também é verdade que esperamos tanto menos sê-lo quanto mais já o somos. O contrário de esperar não é temer, como se acredita comumente. Como diz Espinoza, “Não há esperança sem temor, nem temor sem esperança.” A esperança e o temor não são dois contrários, mas antes as duas faces da mesma moeda: nunca temos uma sem a outra. O contrário de esperar não é temer; o contrário de esperar é saber, poder e gozar. É também o que chamamos de felicidade, que só existe no presente (não mais a felicidade perdida, mas a felicidade em ato). É também o que chamamos amor, que só se refere ao real.

Depois de apresentar as armadilhas e fazer uma crítica da esperança, Comte-Sponville nos coloca em uma uma encruzilhada. O desejo é a própria essência do homem; mas há três maneiras principais de desejar, três ocorrências principais do desejo: o amor, a vontade e a esperança.

Que diferença há entre a esperança e a vontade? Em ambos os casos há desejo. Mas, como apresentado, a esperança é um desejo que se refere ao que não depende de nós; a vontade, um desejo que se refere ao que depende de nós.

Que diferença há entre a esperança e o amor? Em ambos os casos há desejo. Mas a esperança é um desejo que se refere ao irreal; o amor, um desejo que se refere ao real. Só esperamos o que não é; só gostamos do que é.

O momento presente, portanto, nos desafia a fazer escolhas a cada instante. Todos as fazemos, diante dos desafios que a vida nos apresenta, de acordo com nosso nível de consciência.

A seleção do título deste post foi uma dessas escolhas e aqui cabe um esclarecimento: é mais uma frase de efeito do que a minha realidade, pois sinto que ainda não estarei livre de esperanças em 2013! Querem um exemplo? Como sempre faço, desde a Garrafa Zero, em outubro de 2005, “espero que essas palavras possam ser úteis para alguém, em algum lugar, em algum momento…”

Ao rever minhas anotações da primeira leitura de “A felicidade, desesperadamente”, de agosto de 2011, encontrei um haicai ainda não postado sobre a proposta de se esperar sem esperança, parido no dia 11 de agosto, que agora compartilho, com uma pequena alteração. Na inspiração original a última palavra era “amar”, agora escolho “agir”. Entendo, entretanto, que, aqui e agora, só cabem ações amorosas…

desesperançar!
o luto do que não é;
só resta… agir!

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Esperanca 2

Garrafa 357 – Espelho meu   Leave a comment

Nas cartas de linhagem dos mestres Zen chineses, o Quinto Patriarca Hung-Jen foi sucedido por Hui-Neng, que veio a se tornar o Sexto Patriarca, no século VII DC. Foi uma transmissão surpreendente, uma vez que todos os seus discípulos esperavam que seu sucessor fosse Jinshu, o monge mais erudito do mosteiro.

Hung-Jen havia solicitado que seus discípulos expressassem seu estado de espírito por meio de gathas (poemas) que deveriam ser apresentados para sua apreciação. Pretendia transferir o manto e a escudela, que estavam sendo transmitidos desde o Primeiro Patriarca, para aquele que tivesse alcançado a Verdadeira Iluminação.

O único discípulo que se atreveu a transcrever um poema na parede do mosteiro foi de fato Jinshu, que assim se expressou:

O Corpo é a Árvore da Sabedoria Búdica,
A Mente é semelhante a um espelho brilhante;
Trata de limpá-la constantemente,
Não deixes que sobre ela se acumule o pó.

Jinshu afirmava que a prática consistia em polir o espelho da mente, em outras palavras, removendo o pó de nossos pensamentos e ações ilusórios, o espelho poderia brilhar e estaríamos purificados.

Ao tomar conhecimento da existência do poema de Jinshu, um simples serviçal analfabeto que trabalhava no mosteiro, pediu que um monge transcrevesse na mesma parede seus pensamentos:

A Sabedoria Búdica nunca foi uma árvore,
A Mente nunca foi um espelho brilhante;
Na verdade, não existe coisa alguma!
Onde irá então acumular-se o pó?

Esse serviçal, de nome Lu, teve o seu poema apreciado e escolhido como um sinal da Verdadeira Iluminação, vindo então a se tornar o Sexto Patriarca, com o nome de Hui-Neng. Afirmava que, desde o princípio só existe o vazio, a não-mente, não há espelho onde se mirar, não há espelho a ser polido e não há onde o pó se apegar.

O paradoxo que nos aponta Charlotte Joko Beck em seu livro “Sempre Zen” é que, desde sempre, embora o verso do Sexto Patriarca seja o entendimento verdadeiro, temos que praticar com o verso que não foi aceito! Uma vez que ainda não enxergamos com clareza, ainda não somos capazes de ver com nitidez, precisamos, por meio do Zazen (meditação sentado), polir o espelho da mente; de fato tomar consciência de nossos pensamentos e atos, de nossas falsas reações à vida, até que possamos sentir a verdade em nossas vísceras. Assim, poderemos, em algum momento, enxergar que, já desde o princípio, nada era necessário.

Refletindo a respeito, me arrisco a recitar um breve haicai, antes de cada uma de minhas práticas diárias de Zazen:

retirar o pó,
do espelho que não há…
ah! polir sem dó!

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Inspirado na leitura de “Sempre Zen” de Charlotte Joko Beck

Espelho meu

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