Arquivo para março 2006

Garrafa 23 – Sucedeu assim   Leave a comment

Assim,
Começou assim
Uma coisa sem graça
Coisa boba que passa
Que ninguém percebeu

Assim,
Depois ficou assim
Quiz fazer um carinho,
Receber um carinho,
E você percebeu

Fez-se uma pausa no tempo
Cessou todo meu pensamento
E como acontece uma flor
Também acontece o amor

Assim,
Sucedeu assim,
E foi tão de repente
Que a cabeça da gente
Virou só coração
Não poderia supor
Que o amor nos pudesse prender,
Abriu-se em meu peito a canção
E a paixão por você

Antonio Carlos Jobim e Marino Pinto – 1957
Foto de autor desconhecido

Garrafa 22 – Inútil paisagem   Leave a comment

Mas pra que
Pra que tanto céu
Pra que tanto mar,
Pra que
De que serve esta onda que quebra
E o vento da tarde
De que serve a tarde
Inútil paisagem

Pode ser
Que não venhas mais
Que não venhas nunca mais
De que servem as flores que nascem
Pelo caminho
Se o meu caminho
Sozinho é nada
É nada
É nada

Antonio Carlos Jobim e Aloysio de Oliveira – 1963
Ilustração de autor desconhecido

Garrafa 21 – Mais que a paixão   Leave a comment

Não espere de mim
nada mais que a paixão
Não espere nada demais
do meu coração
Que bate, rebate e grita
Geme, chora e se agita
Sambando nas cordas bambas
de uma viola vadia, vadia

Não espere encontrar numa canção
nada além de um sonho
Nada além de uma ilusão
Talvez quem sabe
a verdade
A infinita vontade
de arrancar
de dentro da noite
a barra clara do dia

Egberto Gismonti e João Carlos de Pádua
Foto de Luis Costa – Lucaz

Garrafa 20 – Sussurro   Leave a comment

sussurro sem som
onde a gente se lembra
do que nunca soube

Guimarães Rosa
Foto de autor desconhecido

Garrafa 210 - Vivendo as perguntas

Garrafa 19 – A Cigarra   Leave a comment

casca oca
a cigarra
cantou-se toda

Paulo Leminski
Foto de autor desconhecido

Garrafa 18 – Gota de orvalho   Leave a comment

gota de orvalho
ao sol da manhã
precioso diamante

Matsuo Basho
Foto de autor desconhecido

gota-de-orvalho

Garrafa 17 – Fogos de artifício 2   Leave a comment

solidão
após os fogos de artifício
uma estrela cadente!

Shiki
Ilustração de autor desconhecido

Garrafa 16 – Fogos de artifício 1   Leave a comment

fogos de artifício terminaram
os espectadores se foram
ah! o vasto espaço!

Shiki
Foto NASA

Garrafa 15 – Para você, com carinho   1 comment

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos.
Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.
A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.

E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!
Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências …
A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem.
Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.
Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar.
Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos.
Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure.
E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.
Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado.
Se todos eles morrerem, eu desabo!
Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles.
E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.
Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.
Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer…
Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!

A gente não faz amigos, reconhece-os.

Vinícius de Moraes
Foto de divulgação da Prefeitura Municipal de Foz de Iguaçu – Ponte da Amizade

Ponte da Amizade

 

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