Arquivo para setembro 2011

Garrafa 275 – Eterno regresso   Leave a comment

Relendo Ken Wilber em “Éden – Ascensão ou queda?” e sua Dialética do Progresso:
“À medida que a consciência evolui e se desdobra, cada estágio soluciona ou desativa certos problemas do estágio anterior; entretanto, acrescenta novos e recalcitrantes – às vezes mais complexos e mais difíceis – problemas próprios.”
“… evolução significa, inerentemente, que novos potenciais, novas maravilhas e novas glórias são introduzidas a cada estágio, mas que, invariavelmente, vêm acompanhados por novos horrores, novos medos, novos problemas, novos desastres.”

Pensando a respeito, a inspiração para um breve haicai:

eterno regresso
ao ponto de partida
sempre mais difícil…

Eduardo Leal

Ilustração de Escher

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Publicado 25/09/2011 por Eduardo Leal em Filosofia, Haicai, Haikai, Haiku, Ilustrações, Prosa

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Garrafa 274 – A Máquina do Tempo   1 comment

Nos últimos dias, véspera da chegada da primavera de 2011, noticias em sites científicos de todo o mundo dão conta de que pesquisadores europeus encontraram as primeiras evidencias de partículas subatômicas – os neutrinos – viajando mais rápido que a velocidade da luz. Esses resultados, se confirmados, poderiam significar que é possível teoricamente “enviar informações para o passado”. Em outras palavras, a viagem para o passado poderia ser possível…

Imediatamente, começo mentalmente a arrumar minhas malas e a escolher o meu destino. Quantas opções interessantes!

No quintal arborizado da casa da infância, anos sessenta, sentir novamente, quase ao mesmo tempo, o gosto e o contraste dos sabores da manga, da pitanga, da goiaba, do jambo e da amora!

Vivenciar o entusiasmo de fabricar, com inesperado sucesso, um dos meus primeiros artefatos que faziam parte do kit de sobrevivência na infância, junto com cinco bolas de gude coloridas – meu estilingue. Ele era construído com forquilha cuidadosamente selecionada e serrada de um ramo seco e firme de goiabeira, complementado com elástico recortado da câmara de um pneu careca do velho Mercury do meu pai e com o pequeno retângulo de couro macio também recortado de um antigo sapato usado pela minha mãe.

Esse prodígio de engenharia bélica primitiva era municiado e carregado com caroços redondos e firmes de pitangas maduras. Era preciso comer muitas delas para manter os bolsos cheios da munição usada nas disputas com meus amigos da vizinhança. Acho que poderia fazer novamente esse sacrifício…

Quem sabe poderia agora me esquivar do impacto produzido por um desses caroços, que me atingiu o rosto, quando saí do esconderijo por detrás da parede da cozinha e passei a temer a mira precisa do meu amigo Mané!

E impedir o gesto impensado de alvejar aquela rolinha distraída no galho da mangueira… Sua pequena carcaça ainda deve estar sepultada por entre as raízes do jambeiro, após cerimonial fúnebre providenciado imediatamente com profundo arrependimento…

Se meu novo amigo Bem-te-vi soubesse desse passado, ainda cantaria todo dia pra mim?

Depois de consultar cuidadosamente os registros de minha máquina do tempo, finalmente me decido por um destino mais recente… Ah! Aquele beijo… Relâmpagos iluminando o céu da boca…

Tá marcado!
Bagagem pra que?
Naquele momento estava pelado…

Já sentindo de novo aquela vertigem, sigo balbuciando um breve haicai…

desengonçado,
no lombo de um neutrino,
volto ao passado…

Eduardo Leal

Fotos de autores desconhecidos
Instruções de utilização: Ouvir “Time” com Alan Parsons Project

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