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Garrafa 441 – Déjà vu   1 comment

Fazia muito tempo que não lhe batia uma saudade tão grande!
Saudade salgada! De travar a língua!
Saudade doce sentia todo dia…

Naquele dia foi diferente.

Um passeio matinal por algumas ruas da cidade, disparou na memória aquela intensa sensação de “déjà vu”…
Lugares sagrados em cada bairro, em cada esquina, verdadeira mina…

E todos os caminhos levavam ao mar… Um mar de lágrimas?

A pequena embarcação há muito havia partido. No atracadouro, no espaço vazio, reflexos do sol na água, como diamantes.

Melhor usar óculos escuros…

O vento marinho pareceu sussurrar em seus ouvidos um breve haicai:

como dois amantes,
estivemos aqui antes…
choro diamantes.

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Déjà vu” Com Crosby, Stills, Nash & Young

choro diamantes

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Garrafa 421 – Música interior   Leave a comment

sem qualquer dor,
um Sol interior,
em tom maior.

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Guarde nos olhos” com Ivan Lins

Música Interior

Garrafa 366 – Leste é Oeste!   Leave a comment

Durante a releitura de “Zen no trabalho”, de Les Kaye, fiquei surpreso quando li que Huston Smith, no Preâmbulo, afirmou que o livro atenderia a uma necessidade específica: ao ser introduzido nos Estados Unidos neste século (o livro foi lançado por lá em 1977), o budismo retomou a marcha a leste que primeiro o levou à China, depois à Coreia e ao Japão.

Como? Marcha a leste?

Minha mente cartesiana, que imediatamente associa o Continente Americano ao Ocidente/Oeste e não ao Oriente/Leste acionou um alarme cognitivo que me provocou algum desconforto.

O Japão é conhecido como Terra do Sol Nascente e sabemos que o sol nasce a leste… Mas o Continente Americano fica a oeste…

Mas o desconforto durou pouco. É claro! O Arquipélago do Havaí fica a leste do Japão. E o Continente Americano a leste do Arquipélago do Havaiano. E os Continentes Europeu e Africano ficam a leste do Continente Americano…

O sol nasce antes nas terras que ficam a leste! E rumando sempre para leste… Chegamos ao que convencionamos chamar de oeste!

Nunca tinha pensado sobre isso dessa maneira… Ok! O mapa não é o território!

Pausa para um breve haicai:

Norte é Sul,
Leste é Oeste! ah!
são só convenções…

Eduardo Leal
Ilustração de autor desconhecido

Mundo invertido

Garrafa 352 – Desmanche de Navios   5 comments

Li com profundo pesar, na manhã de hoje, matéria enviada por um bom amigo sobre o triste fim do Navio-Aeródromo Ligeiro (NAeL) Minas Gerais, antigo A-11, em um desmanche de embarcações na India, fato já ocorrido há algum tempo atrás. Foi como descobrir que outro bom amigo, de quem não tinha notícias há muito tempo, havia morrido e tinha sido sepultado como indigente, sozinho, em terra distante, longe de sua família e de seus amigos… Enfim, uma tristeza…

O NAeL foi o meu primeiro navio quando me apresentei na Esquadra, em 1976, ao regressar da viagem de instrução de guardas-marinha. E lá permaneci por dois anos, no Departamento de Aviação, até desembarcar para o Curso de Aperfeiçoamento de Eletrônica. Nessa época, durante o PAM (Período de Atualização e Manutenção) ele não se movimentou, permanecendo atracado ou docado no Arsenal de Marinha no Rio de Janeiro (AMRJ). Só pude experimentar a felicidade de navegar com ele, em águas nacionais e internacionais, embarcando, anos depois, como oficial de Estado-Maior do Comando-em-Chefe da Esquadra. Bem mais tarde, como Capitão dos Portos de Alagoas, pude organizar e preparar a primeira visita do navio ao porto de Maceió. Isso nunca havia ocorrido em razão de pertinentes preocupações da Esquadra com relação à profundidade local e às condições de atracação. A visita foi um sucesso e boas lembranças daqueles momentos de contentamento povoaram minha mente, no dia de hoje.

Refletindo a respeito dos nossos processos de mudança, dos fios brancos que teimam em aparecer no meu bigode e da corrosão que consome os conveses de alguns dos navios onde pisei, as palavras do filósofo Heráclito de Éfeso ecoam, desde a Grécia antiga, no meu ouvido cansado:

“No Universo, a única coisa permanente é a mudança.”

E como sempre faço quando fico meditabundo, busco refúgio em minha trilha sonora. Dessa vez reencontrei esta pérola em forma de música e letra de Quincy Jones, a respeito do inexorável processo de mudança:

Everything must change
Nothing stays the same
Everyone will change
No one stays the same

Os ciclos de nascimento, desenvolvimento, degradação e morte são mesmo implacáveis e vamos, todos nós, de uma maneira ou de outra, passar por cada um deles. E o importante é fazê-lo com dignidade.

O NAeL sempre foi tratado com respeito e reverência por suas antigas tripulações e legiões de admiradores que, enquanto vivermos, assim o preservaremos em nossa memória, a despeito de seu triste fim, em uma praia distante e longe dos seus.

Vendo as fotografias dos seus ultimos momentos, ao lado de outras embarcações de mesmo triste destino, sinto apenas a inspiração para um lamento, com a métrica do haicai:

praia de lama
desmanche de navios
ah! longe dos seus…

Eduardo Leal
Fotos de autores desconhecidos
Instruções de utilização: Ouvir “Everything Must Change” com Quincy Jones

Garrafa 288 – Lua cheia de verão   3 comments

Caminhando na praia da Barra da Tijuca, de volta pra casa, depois de encontrar um bom amigo nessa tarde de verão carioca e assistir a um por do sol espetacular, que incendiou o horizonte com todos os tons de rosa, laranja e vermelho, achei que o dia já estivesse ganho… Tinha valido a pena vivenciá-lo… Água de coco geladinha, boa conversa, algumas metas e planos para o futuro compartilhados…

Enquanto meu cabelo se alinhava com o vento fresco e salitrado, que parecia varrer também qualquer sombra de preocupação e agitação dos meus pensamentos, sequer suspeitava do que ainda iria testemunhar…

De repente, o nascer da lua cheia de março me surpreende!

Minha mente tagarela fica muda, em respeitoso silencio, sem palavras, sem pensamentos, sem ação… Sorrindo com o corpo todo, puro espanto e admiração!

Não me lembro de ter visto uma lua cheia com um disco tão claro e tão grande, como quando surgiu espetaculosa, nesse final da tarde… Realmente não tenho registro de outra igual, mesmo em minhas memórias mais distantes, de noites estreladas na fazenda em Minas Gerais, de passeios enluarados nas praias de Angra e de longas travessias cruzando horizontes em alto mar.

Lentamente, saio desse estado hipnótico e a mente se agita novamente… Queria poder compartilhar esse momento com você…

E meu pensamento voa e vai ao seu encontro!
E caminhamos juntos novamente. Mãos entrelaçadas.
Olhares lunáticos no horizonte, enfeitiçados pelo brilho da lua cheia.

De volta ao momento presente, um sopro de vento parece sussurrar esse breve haicai:

Lua gigante
surge no horizonte!
Sol fica mudo…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização – Ouvir “Tarde” de Milton Nascimento e Marcio Borges, com participação de Wayne Shorter

Garrafa 254 – Manhã de inverno   1 comment

bendita prece…
na manhã de inverno,
sol aparece!

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Garrafa 251 – Muitos meninos…   1 comment

há, dentro de mim,
uma multidão de homens!
muitos meninos…

Eduardo Leal
Ilustração de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Bola de meia, bola de gude” de Fernando Brandt e Milton Nascimento, na voz de Milton Nascimento

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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