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Garrafa 539 – E quando chegarmos ao poder teremos de matá-lo   2 comments

Meu interesse permanente pela literatura e pela filosofia tem sido saciado, nos últimos anos, pela participação em diversos cursos e por muitas leituras sugeridas pelos instrutores de cada um deles. E isso, claro, complementado por minhas próprias pesquisas realizadas tanto na Internet como em obras de referência.

Foi assim que descobri, no ano passado, a existência do filósofo alemão Eric Voegelin, um dos maiores filósofos do Século XX (1901-1985), que adotou a cidadania americana a partir de 1942, depois de ter emigrado para os EUA em 1938, escapando do nazismo. Infelizmente ainda pouco divulgado e explorado no Brasil, quase nada sabia a seu respeito, até a semana passada, além das muitas referências elogiosas por parte de escritores e filósofos da minha confiança.

Autor de vasta obra intelectual, também descobri que a melhor maneira de travar conhecimento com sua vida e seu pensamento seria iniciando pela leitura do livro Reflexões Autobiográficas, da É Realizações Editora, e que faz parte da Coleção Filosofia Atual. Esse conteúdo  foi ditado em 1973 a um de seus alunos e discípulos, Ellis Sandoz,  ao longo de vários encontros. Naquela ocasião, o texto foi registrado pela secretária do autor e essa transcrição foi corrigida pelo próprio Voegelin. No livro “The Voegelinian Revolution: A Biografical Introduction”, em 1981, Ellis Sandoz citou esse texto in extenso. E em 1989, também foi publicado o livro “Autobiographical Reflections”, de Eric Voegelin, que foi a base para essa tradução, em 2007, para o nosso idioma. Quem quiser, veja: https://images.app.goo.gl/75KnfubkdYtmdFEc8

Neste post não pretendo fazer uma resenha do livro e incluir comentários extensos sobre tudo que pude perceber e que me encantou sobre o autor e sua obra. Deixo essa tarefa para quem possa se interessar e dispor de mais tempo para alocar a essa atividade. Basta mencionar que, após sua leitura, encomendei, recebi e já iniciei a leitura de “Anamnese – Da Teoria da História e da Política”, e estou tendo dificuldades para obter meu exemplar de “Hitler e os Alemães”, que se encontra esgotado e pretendo ler em seguida, todos de Eric Voegelin.

Vale lembrar que a Viena onde se encontrava Voegelin vivia um ambiente fortemente marcado pelo colapso do Império Austro-Húngaro ao fim da Primeira Guerra Mundial, mas conservava ao longo de toda a década de 1920 um horizonte intelectual vastíssimo e era internacionalmente reconhecida como pioneira em muitas áreas do conhecimento. Assim foi, até que começaram a se fazer sentir os efeitos do nacional-socialismo, no início dos anos 30. Foi nessa cidade que ele passou a maior parte do tempo de sua vida, estudando e trabalhando, antes de decidir fugir dos nazistas, embarcando em um trem para a Suíça.

A Universidade de Viena, onde Voegelin foi aluno da Faculdade de Direito de 1919 a 1922, era um dos maiores centros acadêmicos da Europa. E foi onde também estudou o austríaco Otto Maria Carpeaux (1900-1978), judeu convertido ao cristianismo e outro gênio de mesmo quilate que escolheu fugir para o Brasil, em 1939, ao invés dos EUA. Carpeaux formou-se em Direito e doutorou-se em Matemática, Física e Química. Estudou Sociologia e Filosofia na França, Literatura Comparada na Itália  e Política na Alemanha. Doutorou-se também em Filosofia e Letras na Universidade de Viena.

Menciono também algumas de suas primeiras viagens internacionais de Voegelin que, em seu conjunto, foram responsáveis por proporcionar ao autor uma experiência vivida das pluralidades humanas realizadas em várias civilizações: conseguiu bolsa de estudos para um curso de férias sobre o idioma inglês em Oxford (1921); e com outra bolsa de pesquisa da Fundação Rockefeller, estendida a estudantes europeus, passou um ano (1925/1926) em Nova York, na Universidade Columbia, e no seguinte, um semestre em Harvard e outro em Winsconsin. No terceiro ano (1927), esteve em Paris, em cursos na Faculdade de Direito. Voegelin destaca a importância de uma grande ruptura ocorrida na sua formação intelectual, nos dois anos que passou nos EUA, proporcionada pelo conhecimento do vasto mundo que existia além do continente europeu. Segundo ele mesmo, essa experiência rompeu o seu provincianismo centro-europeu, sem permitir que caísse no provincianismo americano.

Tendo feito esses comentários preliminares, o evento que mais chamou minha atenção na leitura dessa obra introdutória, e tem a ver com o título perturbador do post, foi mencionado no Capítulo 21, que trata da experiência docente de Eric Voegelin, que trabalhou por cinquenta anos como professor. O fato marcante aconteceu quando ele lecionava na Volks-hochschule Wien-Volksheim, nos anos 1930. Essa instituição era um projeto de educação para adultos financiado pelo governo socialista da cidade de Viena. Era algo como uma universidade para trabalhadores e jovens de classe média baixa.

Em contato com os militantes do meio sindical mais intelectualizados, que eram seus alunos na Volks-hochschule, Voegelin tinha diante de si esses socialistas consideravelmente radicais, muitos deles, comunistas descarados, segundo suas próprias palavras. E recordava de seu próprio flerte com o marxismo, que durou apenas três meses, no verão de 1919, e decididamente já tinha ficado no seu passado. O antídoto tinha vindo do estudo das disciplinas de teoria econômica e história da teoria econômica, ficando claro para ele o que estava errado em Marx. Foi também decisiva para sua imunização contra essa ideologia pestilenta a leitura dos ensaios de Max Weber sobre o marxismo, documentos que datavam de 1904-1905.

Durante as aulas, não tardaram a surgir debates acalorados aos quais não podia renunciar, sem perda de autoridade, já que lecionava disciplinas como ciência política e história das ideias. Apesar desse choque ideológico,  Voegelin conseguiu desenvolver uma relação permanente e saudável com esses jovens marxistas radicais, preservando as relações pessoais no melhor nível possível. Eis o fato que destaco:

“Às nove horas, após as palestras e o seminário do fim da tarde, o grupo sempre se reunia e dava sequência às discussões em algum dos inúmeros cafés das redondezas. Ainda me lembro de uma cena dos anos 1930 em que, após um entusiástico debate que terminou em desacordo, um desses rapazes, não muito mais jovem que eu, exclamou, com lágrimas nos olhos: ‘E quando chegarmos ao poder teremos de matá-lo.'”

E destaco esse fato pela simples razão de que nossas sociedades ocidentais, e a nossa em particular, que falam com horror das mortes causadas pelo nazi-fascismo, simplesmente se calam quando o assunto é o número simplesmente cinco vezes maior de mortes causadas pelo comunismo. E essas sementes malignas foram plantadas em situações como essa mencionada por Voegelin, e cresceram e deram muitos frutos, e novas sementes continuam sendo adubadas e regadas, diariamente, nos corações e mentes das novas gerações.

No Brasil de 1964, Leonel Brizola já tinha sua lista de pessoas que deveriam ser eliminadas, caso o movimento comunista do qual fazia parte fosse bem sucedido. Felizmente, foi o contra-golpe da sociedade democrática que acabou sendo o vencedor momentâneo, naquela ocasião. O covarde fugiu para o Uruguai, mas os jornais da época noticiaram o fato, como apareceu na manchete do jornal “O Globo” de 17/04/1964 – “Brizola tinha lista dos que seriam mortos se a esquerda vencesse.” Sim, além de “planos de execução de oficiais de alta patente, pondo de lado qualquer espécie de sentimentalismo”, havia uma “lista de execução de civis anticomunistas, que deveriam ir imediatamento ao paredão”, para eliminar resistências e impedir a reação ao golpe comunista que estava em andamento. E é assim que os comunistas se comportam. Foi assim na Russia, e depois nas Repúblicas Soviéticas que foram incorporadas à URSS, e nos países da chamada “Cortina de Ferro” ocupados depois da Segunda Guerra Mundial. E foi assim na China de Mao Tsé Tung. E foi assim no Vietnam, no Laos, no Camboja, na Coreia do Norte. E foi assim em Cuba, trazendo a memória dos fatos para o nosso desmemoriado continente americano.

E porque não se fala disso, como se fala do holocausto nazista e seus 20 milhões de mortos, quando o número de mortos pelo comunismo chega ao numero de pelo menos cem milhões?

O que? Como? Cem milhões? Onde está essa informação? Basta consultar, por exemplo, “O Livro Negro do Comunismo – Crimes, Terror e Repressão” publicado pela Editora Bertrand Brasil, que traduziu “Le Livre Noir du Communisme”, de 1997, publicado na França no 80º aniversário da Revolução de Outubro de 1917, na Russia. Meu exemplar é de 2019, e está na 16ª edição. Só não vê quem não quer. E quem quiser, veja: https://images.app.goo.gl/GSPRPhMrHB25tmgj6

Por que isso não é noticiado com o mesmo destaque que se costuma dar quando, por exemplo, a questão é falar sobre as mortes promovidas por regimes totalitários como os de Hitler e Mussolini? A resposta simples e direta: porque a imprensa mundial está ocupada em sua grande maioria por simpatizantes, militantes e integrantes da quadrilha ideológica de esquerda. E a imprensa brasileira parece ser uma caso ainda mais representativo dessa visão. E não só a imprensa, mas também a maior parte dos setores ligados à “cultura” e às “artes”. Portanto, esse assunto só é abordado em alguns sites na Internet e nas redes sociais, e só é encontrado quando se sabe onde procurar. E, é claro, aparece também em alguns livros de pouca divulgação no país. Caso contrário, silêncio… E essa é a razão pela qual a todo momento surgem projetos de parlamentares integrantes dessa quadrilha propondo, “em nome da liberdade de expressão e da transparência”, a implementação de censura na Internet e nas redes sociais. Não se pode falar nisso!

De minha parte, penso, falo, escrevo e ajo de acordo. O movimento comunista internacional, com suas diversas ideologias camaleônicas embarcadas é o maior promotor de crimes, terror e repressão no planeta!

É o que penso e sinto, e sinto muito!

Eduardo Leal
Imagem de autor desconhecido

Cemitério visto do alto

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