Arquivo para novembro 2007

Garrafa 115 – Raio de sol   Leave a comment

Quando, por entre as nuvens do céu,
cai um raio de sol sobre uma ruazinha triste,
não importa que ele encontre cacos de vidro no chão,
ou um cartaz rasgado no muro,
ou os cabelos louros de uma criança.
O sol traz sempre luz e encanto,
a tudo transmuda e aclara.
 
Herman Hesse
 
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Publicado 30/11/2007 por Eduardo Leal em Crenças, Ilustrações, Livros

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Garrafa 114 – Nem sempre sou igual   Leave a comment

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo. 
Mudo, mas não mudo muito.
 
A cor das flores não é a mesma ao sol 
de que quando uma nuvem passa 
ou quando entra a noite 
e as flores são cor da sombra.
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores. 
 
Por isso quando pareço não concordar comigo,
reparem bem para mim: 
Se estava virado para a direita, 
voltei-me agora para a esquerda, 
mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés — 
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra 
e aos meus olhos e ouvidos atentos 
e à minha clara simplicidade de alma …
 
Alberto Caeiro/Fernando Pessoa
em O Guardador de Rebanhos
 

 

Garrafa 113 – Frustração   Leave a comment

mouse travado
não faz o que desejo:
mão no teu seio
 
Eduardo Leal
 

Publicado 26/11/2007 por Eduardo Leal em Haicai

Garrafa 112 – Oração   1 comment

Quero tocar o poder da umidade que gera vida e reconhecer o aroma do mar acariciando a praia no cheiro do meu suor, no sal das minhas lágrimas, no líquido escorregadio que extravasa entre minhas coxas macias quando sou bem amada.
Quero me concentrar na ponta dos meus dedos, na forma e no peso da minha mão, no sangue, nos ossos e nos milhares de terminações nervosas quando levo uma maçã à boca, quero deixar a ponta da língua escorregar na firmeza redonda e suave da superfície fria e sentir o jorro do suco quando meus dentes furam a pele e penetram o interior da carne firme.
Quero saborear as semanas de chuva e sol, a maturação nas árvores, o trabalho daquele que semeia e do que colhe o fruto, a jornada dos homens e mulheres que trazem a maçã do pomar à mesa.
Quero acolher a beleza que me faça lembrar que não há separação – que cada ação minha, plenamente consciente, não pode deixar de ser ao mesmo tempo oração e ato de amor.
Oriah Mountain Dreamer
em O Convite
Foto de autor desconhecido
 

Publicado 22/11/2007 por Eduardo Leal em Poesia

Garrafa 111 – No chuveiro   Leave a comment

com água morna
debaixo do chuveiro
choro silencioso
 
Eduardo Leal
 

Publicado 21/11/2007 por Eduardo Leal em Haicai

Garrafa 110 – Milágrimas   Leave a comment

Em caso de dor, ponha gelo
Mude o corte do cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema, dê um sorriso
Ainda que amarelo
Esqueça seu cotovelo
Se amargo for já ter sido
Troque já este vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério, deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada mil lágrimas sai um milagre

Em caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa
Coma somente a cereja
Jogue para cima, faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra apenas, viva apenas
Sendo só fissura, ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena, reze um terço
Caia fora do contexto, invente seu endereço
A cada mil lágrimas sai um milagre

Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal do sal do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas, três, dez, cem mil lágrimas, sinta o milagre
A cada mil lágrimas sai um milagre

Música de Itamar Assumpção – Letra de Alice Ruiz
Gravação na voz de Zélia Duncan

A dor já se foi

Garrafa 109 – Morre lentamente…   1 comment

Morre lentamente quem não viaja,
quem não lê,
quem não escuta música,
quem não acha encanto em si mesmo.

Morre lentamente
quem destrói seu amor próprio;
quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente,
quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos caminhos,
quem não muda de rotina,
não se arrisca a vestir uma nova cor
ou não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente
quem evita uma paixão
e seu redemoinho de emoções;
aquelas que resgatam o brilho dos olhos
e os corações descaídos.

Morre lentamente
quem não muda quando está insatisfeito
com seu trabalho ou com seu amor,
quem não arrisca o seguro pelo incerto,
para ir atrás de um sonho,
quem não se permite,
pelo menos uma vez na vida,
fugir de conselhos sensatos….

Viva hoje!
Arrisque hoje!
Faça hoje!

Não se deixe morrer lentamente!
Não se esqueça de ser feliz!

Pablo Neruda
Pintura de salvador Dali

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