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Garrafa 486 – Tapete mágico   Leave a comment

Havia um belo e frondoso jambeiro na minha casa da infância em Caçapava – SP. Seguindo as sábias instruções contidas nas bases hidrogenadas do seu DNA, na época combinada, suas flores salpicavam um grande setor do quintal, bem em frente à janela do meu quarto, e formavam um tapete cor de rosa em torno do lugar onde jogava búrica com meus amigos paulistas – bola de gude como é chamada pela molecada do Rio de Janeiro.

Quando chegava a época dos frutos, para minha alegria e alvoroço dos sanhaços que esvoaçavam pela vizinhança, ouvia da minha cama quando alguns jambos, impulsionados por alguma brisa ou pela bicada de algum pássaro, caiam do pé. Espalhavam então seu perfume aos ventos, parte de sua casca entreaberta revelava seu interior branco e macio e algumas sementes grandes e escuras rolavam na terra protegida pela sombra da sua copa. Saltava imediatamente da cama com a expectativa de selecionar aquele que me parecesse mais apetitoso, pela cor viva e perfume agradável. Feita a escolha, mastigava aquela polpa saborosa, mesmo antes de tomar o meu café da manhã. Pura delícia visual, olfativa e gustativa.

Agora tenho outro jambeiro na saída da minha rua. E é época de floração! Viajo na memória a cada passo. Tapete mágico.

o meu caminho:
nas flores do jambeiro,
tapete mágico…

Eduardo Leal
Foto de Eduardo Leal

Tapete mágico

Garrafa 463- Flor de manacá   2 comments

Em minhas andanças diárias, sempre que possível, vou aprendendo com os jardineiros das redondezas os nomes das árvores e plantas que encontro pelo caminho, e que por alguma razão me chamam a atenção. Antes de encontrar o azul de céu e mar e o ar salitrado da praia, que são testemunhas das minhas corridas e caminhadas, meus sentidos são estimulados por vários perfumes e visões coloridas, e sou sempre grato por isso!

As manhãs de outono são minha época favorita para essas incursões exploratórias, e hoje foi mais um desses dias especiais.

Abordei um jardineiro que cortava a grama em um prédio da rua que vai dar na praia, e pedi que ele me acompanhasse até dois pequenos arbustos, plantados no meio da calçada e que estão carregados de pequenas flores de cores lilás e branca. Quando estão em floração, como é o que está acontecendo nessas ultimas semanas, seu perfume intenso carregado pela brisa sempre me seduz. E essas árvores já tinham inspirado pelo menos um post, há três anos atrás.
O texto consta da Garrafa 271 – Um outro tempo.

O primeiro haicai dizia assim:

cheiro de jasmim
traz o tempo do seu corpo
de volta pra mim

Ele colocou no rosto suado o seu melhor sorriso, prontamente me atendeu, e pude então confirmar minhas suspeitas: Estava enganado na primeira vez. Achava que eram dois jasmineiros e me dei conta agora que, na verdade, são dois pés de manacá. Naquela época, ainda não tinha estabelecido contato com meus novos mestres jardineiros e “nem sabia que nada sabia” (incompetência inconsciente) sobre as plantas da região. Nos últimos anos entrei na fase da incompetência consciente e agora “sei que nada sei” e que ainda tenho muito que aprender sobre esse mundo colorido e perfumado ao meu redor.

Para reparar completamente o meu engano e descontar essa duplicata vencida, ficou faltando apenas usar o nome correto dessas flores inspiradoras e parir um novo haicai no mesmo espírito do primeiro. A foto, já tinha registrado no dia de ontem, a trilha sonora passou de Allan Parsons Project para Alceu Valença, e os novos versos ficaram assim:

flor de manacá,
sinto falta do seu cheiro,
você lá… eu cá…

Eduardo Leal
Foto de Eduardo Leal – Jardim Oceânico em 08/04/2014.
Instruções de utilização: Ouvir “Morena Tropicana” na voz de Alceu Valença.

Pé de manacá

Garrafa 445 – Hortênsias em festa   Leave a comment

casa da Vovó,
chuva de primavera,
hortênsias em festa…

Eduardo Leal
Foto de Eduardo Leal

Casa da Vovó 012

Garrafa 372 – Bem-te-vi atônito   1 comment

No terreno ao lado do nosso prédio, onde antes havia uma igrejinha evangélica, será construído um novo edifício, durante os próximos meses.

Nenhum preconceito contra o progresso, a construção civil, ou contra a oferta de novas moradias no Jardim Oceânico, na Barra da Tijuca. Apenas observações a respeito do que vejo da varanda.

Na entrada desse terreno, trazendo um pouco de saúde e bem-estar para quem tinha olhos para ver, havia um pequeno jardim, com grama, flores e algumas poucas árvores. Destacando-se entre elas, um pinheiro enorme, servia de abrigo e observatório para aves de todos os tipos que o frequentavam de passagem, ou como refúgio noturno em seu sono vigilante. Haveria algum pequeno ninho por lá? Meu amigo bem-te-vi costumava pousar no seu ponto mais alto para espalhar seu canto aos quatro ventos, nas primeiras horas da manhã…

Ontem, da varanda, acompanhado à distância por apenas outra moradora que viu tudo bem de perto, registrando algumas imagens com seu Tablet, assisti penalizado à derrubada desse pinheiro que, certamente, criava obstáculos ao bom desenvolvimento da futura obra. Homens chegaram silenciosos e, machado em punho, colocaram abaixo o pinheiro saudável e majestoso.

Sempre me entristeço ao ver cenas como essa, a derrubada de uma árvore, mesmo que seja por alguma causa que a justifique (confesso que tenho muita dificuldade para encontrá-las) e tudo isso feito com a devida autorização da Prefeitura. E não posso garantir que esse seja o caso. Espero que sim. Que tenha sido inevitável e que suas raízes e início do tronco sejam preservados, já que ainda lá permanecem, para permitir que a árvore cresça novamente e seja incorporada ao futuro jardim que, também espero, esteja presente na entrada do novo prédio. Quem sabe?

Hoje, como sempre faço, depois da meditação matinal, observei a paisagem da varanda, o céu sem nuvens e a passarada que costuma frequentar as árvores da vizinhança: Vários voos erráticos, pousos abortados de maneira frenética no que antes deveria ser um abrigo seguro e que agora é preenchido apenas pelo ar fresco da manhã de outono.

Espaço vazio! Bit zero! Nada! Picas! Porra nenhuma!

Posso imaginar seus cérebros pequeninos, sinapses em polvorosa, buscando explicações para o inexplicável e inesperado… Acompanhando seus voos confusos, e tentativas de pouso frustradas, também fiquei assim…

Pausa para um breve haicai:

pinheiro no chão
bem-te-vi atônito
onde compaixão?

Eduardo Leal
Fotos de Eduardo Leal

Bem-te-vi no topo do pinheiro em 30/03/2013

Bem-te-vi no topo do pinheiro em 30/03/2013

Início da derrubada do pinheiro

Início da derrubada do pinheiro

Preparação final da derrubada

Preparação final da derrubada

Pinheiro no chão...

Pinheiro no chão…

Garrafa 336 – Saudades do campo   1 comment

flores no jarro,
arrancadas da terra!
saudades do campo…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Publicado 14/06/2012 por Eduardo Leal em Crenças, Fotografias, Haicai, Haikai, Haiku

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Garrafa 286 – Sopro do vento   1 comment

sopro do vento
roseira se agita… ah!
perfume de flores…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Publicado 14/02/2012 por Eduardo Leal em Fotografias, Haicai, Haikai, Haiku

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Garrafa 213 – Curso de Escutatória   2 comments

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.

Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir.

Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular…

Escutar é complicado e sutil.

Diz Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa) que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”. Filosofia é um monte de ideias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro: Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma.

Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios.

Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial.

Aí, de repente, alguém fala. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.

Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. É preciso tempo para entender o que o outro falou.

Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, […]. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as ideias estranhas.

Na nossa civilização, se eu falar logo a seguir são duas as possibilidades.

Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado”.

Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou”.

Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.

O longo silêncio, na verdade deve querer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou”.

Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.

Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. A música acontece no silêncio.

A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio.

Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.

Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

RUBEM ALVES
Ilustração de autor desconhecido

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