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Garrafa 467 – Querendo dizer…   Leave a comment

querendo dizer:
beijos indecentes… smack!
digo, sem dizer…

Eduardo Leal
Foto clássica de Alfred Eisenstaedt
Instruções de utilização: Ouvir “Distancia” na voz de Nana Caymmi

A jubilant American sailor clutching a white-unifo

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Garrafa 423 – Falo, porque ainda não sei…   Leave a comment

Tenho um pequeno grupo de bons amigos e amigas (e acho que cabem todos numa van) que leem, e às vezes também comentam e compartilham os posts publicados neste Blog. Essas criaturas gentis também se dão ao trabalho de visualizar as fotos e ler os textos que são reproduzidos em minhas páginas nas redes sociais, ou que são divulgados em outros Blogs que mantenho em atividade. Trazem, sempre, novos desafios com seus questionamentos e contribuições, para que eu busque maior clareza na exposição de ideias, quer sejam das poucas que são de minha própria lavra, ou daquela grande maioria que não foi parida por mim mesmo, e sim adotada como valiosa e verdadeira, até prova em contrário.

Os temas do desenvolvimento de consciência e da espiritualidade têm sido aqui frequentemente abordados, por estarem no centro da minha área de interesse, e julgo oportuno reconhecer, desde já, minha total incompetência diante desse enorme desafio.

O salto quântico do nível de desenvolvimento de consciência da Mente (onde se encontra a maioria de nós) para o nível da Alma (onde poucos estiveram por breves períodos, e muito poucos por lá permanecem por temporadas mais prolongadas) é uma experiência individual. É vivenciada sem a interferência ou participação de intermediários, sejam eles padres, pastores, rabinos, aiatolás, gurus, monges, coaches ou consultores. O caminho que leva até a borda do precipício onde esse salto deve ser dado é único. E há tantos caminhos quantos indivíduos existem neste nosso pequeno planeta azul. Mesmo quando duas pessoas parecem caminhar lado a lado, durante algum tempo, seus caminhos são distintos. A senda é estreita como o fio da navalha, para utilizar uma imagem cara aos mestres Zen. E lá chegando, seja que caminho individual tenha sido percorrido e aonde quer que ele tenha levado cada um, é preciso saltar da borda do penhasco no grande Vazio! Sentir essa vertigem!

Além disso, como o nível da Alma transcende e inclui o nível da Mente e, portanto, está além da razão, além da lógica, em contato apenas com a fonte da nossa sabedoria intuitiva, qualquer tentativa de expressar essa experiência em palavras, depois de vivenciá-la, estará fadada ao fracasso. Nosso falatório e escrita serão apenas tímidas tentativas de explicar o inexplicável.

As escrituras Védicas, de milênios atrás, são sábias ao declarar que “Aqueles que sabem, não falam. Os que falam, não sabem”.

E revelador foi o sermão silencioso de Buda, apresentando à sua audiência, por entre os dedos, uma simples flor de cor branca, cujo significado foi percebido apenas por seu discípulo Mahakasyapa.

Com todo respeito por todo esse falatório e suas correspondentes transcrições e publicações em diversas escrituras, de todos os matizes, origens e tendências (várias vezes transcritas neste Blog e posts correspondentes), todo o material disponível sobre esses temas – desenvolvimento de consciência/espiritualidade – pode servir no máximo como um tipo de sinal ou indicação. Uma sinalização que aponta para essa Verdade que pode ser apenas percebida por aqueles que estão prontos e preparados para recebe-la. Verdade essa que também será sempre interpretada no próprio nível de consciência daqueles que vivenciarem essa experiência.

Conforme sugerido nas sábias palavras proferidas pelo Mestre Doogen, que ecoam para nós do fundo do precipício, desde o século XIII, “O dedo que aponta para a lua, não é a lua”. É preciso ver a lua! Olhar na direção indicada pelo dedo, e não para o próprio dedo!

É preciso ver a lua!

E, nesta fase de lua minguante, em que ver a lua se torna uma tarefa sempre um pouco mais desafiadora, situação agravada pelo prenúncio da continuação de um período chuvoso e nublado, em nossa bela cidade do Rio de Janeiro, resta-me apenas brincar com a sabedoria das palavras milenares, usando a métrica do haicai:

não sabe, quem fala.
mas, aquele que sabe,
não fala, cala…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido e
Ilustração de Tsukioka Yoshitoshi – One Hundred Views of the Moon “Moon of Enlightenment”

Lua minguante

O dedo que aponta para a lua

Garrafa 284 – Falar ou calar?   7 comments

Nas ultimas semanas, tive que lidar com uma situação delicada que me causou alguma frustração e decepção. Não é o caso de explicitá-la aqui. Mas vale a pena refletirmos juntos a respeito de algumas maneiras construtivas que podemos utilizar para sermos assertivos, sem sermos agressivos, tema recorrente em situações de coaching, terapia e consultoria: Expressar desagrado.

Para enfrentar esse desafio, inicialmente busquei inspiração em minha própria experiência, apostilas e artigos publicados e em elaboração e, a seguir, na bibliografia que conheço sobre o assunto. Foi especialmente importante reler “Comunicação não-violenta” de Marshall Rosenberg e “Preciso saber se estou indo bem” de Richard Williams. E, como frequentemente acontece, a sincronicidade com o Universo veio em meu auxilio quando recebi um e-mail, enviado por um bom amigo, que nem sequer suspeitava da situação em que me encontrava, com o seguinte provérbio persa:

“Duas coisas indicam fraqueza: calar-se quando é preciso falar, e falar quando é preciso calar-se.”

Mas o que dizer, e quando, e como fazê-lo, quando desejamos expressar desagrado? Apresento a seguir algumas sugestões, fruto das minhas ultimas pesquisas e reflexões.

1. Nesse caso, vale aquela regra de ouro que diz: “Elogios em público, críticas em particular.” Os comentários elogiosos devem ser feitos na presença de testemunhas, para amplificar os seus efeitos positivos. E a expressão de desagrado deve ser feita em particular, à pessoa que deve tomar conhecimento do problema, para reduzir ao mínimo os constrangimentos inerentes à situação. Entretanto, às vezes, inevitavelmente, outras pessoas terão que tomar conhecimento de que houve alguma manifestação de desagrado, mas somente algum tempo depois do ocorrido, quando os efeitos desse conhecimento terão sido atenuados;

2. Os elogios deverão ser feitos no nível de identidade, com expressões do tipo “Você é ótimo na realização dessa tarefa!”. As críticas deverão ser feitas no nível de comportamento, com expressões do tipo “Você fez, ou deixou de fazer tal coisa.” o que é um fato, que pode ser comprovado, e não um juízo de valor;

3. O momento de fazer os elogios deve ser o mais próximo possível do instante em que ocorreu a situação que motivou o comentário favorável, o que não impede que seja repetido e reforçado em diversas outras ocasiões. Já o momento de fazer a crítica, sempre que possível, deve ser cuidadosamente escolhido e planejado para que seus efeitos sejam mais próximos daqueles desejados, e menos contaminados pelas emoções negativas que motivaram a sua necessidade;

4. E agora, o cerne da questão, como expressar desagrado, de maneira assertiva, sem ser agressiva: O “Método do Hambúrguer”, técnica de Programação Neurolingüística (PNL) que sugere encapsular uma crítica – a carne do hambúrguer – entre dois comentários positivos – os dois pedaços de pão macio – é uma ótima dica. Devemos, entretanto, tomar os seguintes cuidados na aplicação dessa técnica:

a) Os elogios devem ser verdadeiros e não apenas fabricados para compor a técnica. Quem os faz deve acreditar naquilo que está sendo dito. Caso contrário, a expressão corporal e outros elementos da comunicação verbal irão, de alguma maneira, indicar alguma incongruência. Seus efeitos serão mais negativos do que positivos;

b) Se você não tem nada de favorável a falar a respeito daquela pessoa, provavelmente o problema é mais seu do que dela! Cada pessoa é única e valiosa, tem diversos talentos individuais e faz algo de positivo em algum contexto. Você é que ainda não lhe dedicou atenção suficiente. Converse com alguém que a conheça melhor, que conviva com ela. Observe você mesmo, com atenção e, muito provavelmente, encontrará diversos elogios reais dos quais ela é merecedora. Só então inclua esses comentários positivos nos pãezinhos do seu hambúrguer;

c) Os elogios iniciais podem dizer o que a pessoa faz bem e os elogios finais podem dizer, em sua opinião, o que a pessoa faz de melhor; e

d) A carne do hambúrguer – a expressão de desagrado – merece atenção especial. Os cursos de PNL de que participei inicialmente não me ajudaram nessa tarefa. Só descobri um caminho interessante durante algumas sessões de terapia cognitivo-comportamental que vivenciei periodicamente, a partir do ano 2000. Desde então, tenho utilizado uma sequencia de quatro passos proposta por Beck que inclui:

i) Explicitar o comportamento da outra pessoa que nos causa desagrado;

ii) Expor os nossos sentimentos a respeito desse comportamento;

iii) Propor o comportamento que desejamos que seja observado, no lugar daquele indesejado e, finalmente; e

iv) Explicitar para a outra pessoa as consequências positivas dessa mudança de comportamento, e as consequências negativas de se manter a situação atual.

Marshall Rosenberg propõe uma sequencia de quatro passos ligeiramente diferente, incluindo explicitar as nossas necessidades que não estão sendo atendidas com a situação atual ao invés de mencionar as consequências.

5. Nada nos garante que, após a nossa exposição, a outra pessoa irá mudar o seu comportamento na direção sugerida. E então, nesse caso, deveremos agir de acordo com as consequências negativas anunciadas em caso de manutenção da situação atual. E isso é fundamental. A pessoa deverá assumir as consequências de sua escolha.

Aqueles que desejarem saber mais a respeito do assunto FEEDBACK CONSTRUTIVO, que é como tenho chamado esse conjunto de procedimentos em meus cursos, palestras e artigos publicados, em uma sessão de Consultoria em Gestão Pessoal ou de Coaching Centrado em Valores, fiquem à vontade para entrar em contato.

Tenho observado que o desconhecimento dessa ferramenta de comunicação, complementado ou não pela presença de outras crenças limitantes que merecem ser identificadas e consideradas, que não dão permissão para que a pessoa tome determinadas atitudes saudáveis e ecológicas, é o que as impede de expressar seu desagrado, de maneira assertiva. E isso é um fator que contribui para a presença de desarmonia, desequilíbrio e, em ultima análise, de doença.

Pegando carona no provérbio persa, e brincando com as palavras e com a métrica do haicai, deixo essa reflexão final para essa tarde chuvosa, na expectativa de que o tempo melhore, para nos permitir observar, na noite escura que se aproxima, a ultima lua cheia do ano:

nossa fraqueza:
calar, quando o falar
é com justeza…

Eduardo Leal
Foto autor desconhecido

Garrafa 214 – Palavras são janelas (ou são paredes)   4 comments

Sinto-me tão condenada por tuas palavras,
tão julgada e dispensada.
Antes de ir, preciso saber:
Foi isso que você quis dizer?
Antes que eu me levante em minha defesa,
antes que eu fale com mágoa ou medo,
antes que eu erga aquela muralha de palavras,
responda: eu realmente ouvi isso?

Palavras são janelas ou paredes.
Elas nos condenam ou nos libertam.

Quando eu falar e quando eu ouvir,
que a luz do amor brilhe através de mim.

Há coisas que preciso dizer,
coisas que significam muito para mim.
Se minhas palavras não forem claras,
você me ajudará a me libertar?
Se pareci menosprezar você,
se você sentiu que não me importei,
tente escutar por entre as minhas palavras
os sentimentos que compartilhamos.

Ruth Bebermeyer
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Nothing to say” na voz de Ian Anderson com Jethro Tull

Garrafa 213 – Curso de Escutatória   2 comments

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.

Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir.

Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular…

Escutar é complicado e sutil.

Diz Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa) que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”. Filosofia é um monte de ideias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro: Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma.

Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios.

Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial.

Aí, de repente, alguém fala. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.

Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. É preciso tempo para entender o que o outro falou.

Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, […]. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as ideias estranhas.

Na nossa civilização, se eu falar logo a seguir são duas as possibilidades.

Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado”.

Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou”.

Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.

O longo silêncio, na verdade deve querer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou”.

Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.

Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. A música acontece no silêncio.

A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio.

Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.

Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

RUBEM ALVES
Ilustração de autor desconhecido

Garrafa 204 – Koan (Duplo vínculo positivo)   Leave a comment

duplo vínculo
se falo, estou correto
se calo também…
 
Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
 

Publicado 26/08/2009 por Eduardo Leal em Haicai

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Garrafa 203 – Koan (Duplo vínculo negativo)   Leave a comment

duplo vínculo
se falo, estou errado
se calo, também…
 
Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
 

Publicado 25/08/2009 por Eduardo Leal em Haicai

Etiquetado com , ,

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