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Garrafa 508 – Carta de um bom amigo   Leave a comment

Recebi pelas mãos do porteiro do meu prédio, na manhã de hoje, com surpresa e curiosidade, uma carta que enviei para mim mesmo, datada de 12 de junho de 2016. Ela foi redigida durante um dos cursos sobre desenvolvimento pessoal de que participei em São Paulo, nos últimos meses.

Início de mês, é quando costumo receber alguns postais de propaganda e vários boletos rotineiros de contas a pagar. Dessa vez, entre remetentes familiares como NET, Light, CEG, Oi e VIVO, senti uma sensação estranha ao reconhecer minha própria letra junto com o carimbo dos Correios, e ao ver o meu nome como sendo o endereçado de um envelope branco, recheado com uma inesperada mensagem. Um carimbo com o nome da empresa que organizou o curso, no local reservado ao remetente, desvendou o mistério inicial.

Estava de saída para fazer uma visita à minha mãe e deixei para bisbilhotar o seu conteúdo em algum momento no meio da tarde.

No caminho, enquanto dirigia, tentei sem sucesso recordar o conteúdo dessa carta, e me dei conta de que minhas memórias de apenas quatro meses atrás tinham sido soterradas por toneladas de novos acontecimentos, de novas experiências e de novas sensações. Embora tivesse sido eu mesmo o escrivão dessa missiva, não me lembrava mais de uma palavra sequer. Mas sabia, isso sim, que ela estava carregada de energia amorosa e de grandes doses da emoção vivenciada naquele fim de semana instigante.

Almoço com a mamãe, criaturinha de 88 anos que me trata como se eu ainda fosse o seu menino travesso, e lhe inspirasse preocupação e cuidado permanentes. E, logo depois, uma visita ao seu banco para pagamentos de contas e transferências de dinheiro para outros membros da nossa família. Missão cumprida.

Recostado na cadeira de balanço que fica  na varanda, que segundo minha mãe foi comprada quando eu nasci e ajudou a embalar o meu agitado sono infantil em diversas ocasiões, abri o envelope com cuidado, cortando a sua borda com uma velha tesoura, para evitar danificar o seu conteúdo.

Ao ler cada parágrafo, fui imediata e novamente transportado para aquele momento do passado recente, e meu coração foi inundado por um enorme sentimento de gratidão. Participaram daquele evento cerca de 800 pessoas e, entre elas, se encontravam vários clientes que já se tornaram bons amigos, alunos de cursos que ministrei, além de vários novos parceiros de negócios e amigos em potencial. E dois amigos em particular, que têm sido minha companhia mais constante ao longo dessa jornada de cursos, e estiveram sempre ao meu lado naqueles dias, vieram imediatamente à minha lembrança com carinho. Além disso, sempre que tenho estado em São Paulo, tenho podido aproveitar a oportunidade para passar ótimos momentos com meu filho e minha nora que vivem por lá. E sempre sou muito bem recebido! E me dei conta que, ao longo de toda a minha vida tenho sido apoiado por muitas pessoas dedicadas e importantes: amores, familiares, amigos e parceiros de negócios. Sou uma pessoa realmente afortunada!

E, emocionado, reconheci também que um dos meus principais incentivadores, aquele com quem sempre tenho podido contar nessa aventura de viver, especialmente nos momentos em que me sinto muito só, mesmo quando rodeado de muitas pessoas, foi esse bom amigo que me escreveu essa carta e que me acompanha desde menino. Ele é esse menino travesso dentro de mim, o meu melhor amigo.

Sou grato por isso!

Desejando retribuir ao Universo tudo de bom que tenho recebido, compartilho o teor dessa carta que recebi desse bom amigo com todos os meus outros amigos, na expectativa de que possam receber também, em breve, e em carne e osso, o meu melhor abraço.

São Paulo, 12 de junho de 2016.

Caro amigo,

Ótimo trabalho realizado até agora no seu projeto pessoal de aprender, crescer e elevar cada vez mais o seu próprio nível de consciência!

Sua perseverança na conquista de seus objetivos e metas é o que vai levá-lo aos resultados desejados. Continue firme no Caminho!

Use seus talentos, transformando-os em pontos fortes, em suas atividades pessoais e profissionais.

Dê atenção especial aos seus relacionamentos, mantendo aqueles que são saudáveis e afastando-se gentilmente daqueles que são tóxicos.

A vida é relacionamento!

Procure, cada vez mais, aprimorar os seus processos de comunicação que nutrem cada um dos relacionamentos valiosos que você deseja manter.

A vida é comunicação!

Divirta-se fazendo o que ama, e busque a companhia de quem lhe faz bem e com quem pode sempre aprender coisas novas.

Cuide da sua saúde. É ela que vai permitir que você aproveite a vida!

E compartilhe o que aprender com quem esteja disposto a ouvi-lo.

Abraço apertado,

Eduardo Leal

Ilustração de autor desconhecido.

Instruções de utilização: Ouvir “Bola de meia, bola de gude” com Milton Nascimento

O Convite

Garrafa 495 – Tão perto, tão longe…   Leave a comment

Desde o dia em que se conheceram, não se passa um só dia em sua vida sem que ele pense nela, em algum momento, com muito carinho e gratidão. E, no dia do seu aniversário, um dia especial sempre lembrado, ele agradece ao Universo por ela ter nascido neste planeta, nesta nossa época e por aquele encontro mágico que os colocou frente a frente pela primeira vez, há muitos anos atrás. E, também, por ela ainda estar entre nós neste mundo, mesmo que em outro hemisfério, e acompanhada de outras pessoas desconhecidas com quem escolheu compartilhar esse novo trecho do seu caminho.

No mesmo dia, ou em dias muito próximos dessa data, há muitos anos, ele envia mensagens a esse mesmo Universo na esperança de que ela possa de alguma maneira tomar conhecimento de suas palavras, sinta-se muito amada, e possa esboçar pelo menos um leve sorriso.

Esta pode ser uma dessas mensagens colocadas dentro de uma pequena garrafa, que as correntes do mar da Internet podem fazer chegar a uma praia muito distante, ser recolhida intacta, e lida pela pessoa certa com algum sobressalto, reconhecendo a caligrafia no papel desdobrado por entre os dedos trêmulos das mãos, ainda tomadas pela surpresa desse achado… Quem sabe?

Ele gosta de pensar que ela já se deu conta desse delicado ritual de gratidão e, a partir de alguns dias antes e outros depois dessa data, se permite caminhar descalça pelas praias mais próximas do seu litoral e, sentindo a água fria que banha seus pés delicados e o vento fresco que revolve seus cabelos, com olhar curioso na direção da arrebentação, percorre aquela linha em que a água salgada lambe a areia molhada num vai e vem infinito. Entre uma concha e outra, ou entre uma e outra estrela do mar, quando olha com bastante atenção, sempre pode encontrar alguma mensagem colocada com cuidado dentro de uma pequena garrafa colorida e só a ela endereçada. E tomar conhecimento do seu conteúdo não implica, de sua parte, nenhum outro tipo de compromisso. Apenas o simples reconhecimento e recebimento de um afago de um amigo distante, em uma data especial.

A inspiração para o texto desta mensagem surgiu no dia de ontem, durante a leitura de um livro interessante sobre as experiências de uma mulher que percorreu, de maneira ao mesmo tempo alegre e sofrida, há alguns anos atrás, o mesmo Caminho de Santiago de Compostela que ele pretende percorrer em breve. Mais do que um simples relato de viagem, o livro apresenta em suas entrelinhas, isso sim, uma bela história de amor incondicional entre um homem e uma mulher. Depois de um longo suspiro, rabiscou com traços firmes em uma daquelas páginas o seguinte haicai:

em qualquer idade,
quem se ama de verdade:
doce saudade…

Eduardo Leal
Fotos de autores desconhecidos

Sinais ao longo do Caminho Na beira do mar

Garrafa 453 – Sobre piscinas e outras águas paradas   Leave a comment

Recebemos, no ultimo sábado, a visita de um casal amigo acompanhado de sua filha, do genro e dos dois netinhos que estão na faixa entre um e dois anos. Uma vovozinha, a mãe de nossa amiga, uma bisavó portanto, para nossa alegria, esteve presente também.

Os meninos pequenos vieram com seus respectivos kits praia/piscina e nossa intenção inicial era de irmos todos juntos até a praia, no final da tarde, depois do almoço e de longas conversas para atualização das notícias de todos os integrantes das duas famílias amigas. Somos padrinhos de sua filha mais nova e eles de nossa filha do meio. Mas a sensação térmica de quase 50 graus, que acompanha a onda de forte calor que tem assolado a nossa cidade nas ultimas semanas, não recomendou uma caminhada com os meninos até o calçadão e o contato com a areia escaldante da Barra da Tijuca. Fomos para a piscina, então.

Moro nesse apartamento desde 2010 e, vejam só, me dei conta, por comentários das minhas filhas, que nunca tinha entrado na água da piscina do prédio. Mergulhos, só na água do mar que fica a algumas quadras de distância…

Há quem diga que os netinhos são seres especiais que fazem com que os avós (emprestados ou não) ganhem alma nova e, mais perto do fim do que do começo, se reconectem com sua infância distante. E como netinho de grande amigo é meu netinho emprestado, essa pode ser uma boa razão pra uma mudança de atitude: acompanhei meu grande amigo e seus netos dentro d’água que, aliás, estava cristalina e com temperatura agradável, sem nenhum problema e com grande prazer.

Os dois meninos, animados e preparados com boias de todos os tipos, monitorados de maneira permanente pelos pais, dentro e fora da piscina, foram também acompanhados em suas travessuras aquáticas pelo meu amigo, por minha filha e por mim.

Já no final da visita houve um apagão que desligou a iluminação de diversas quadras próximas, inclusive a nossa, e silenciou por quase uma hora todas as fontes eletrônicas de ruído ambiente, as domésticas e as da vizinhança. Pude então ficar bem quieto, sentado na varanda, e às voltas com essa questão do porquê de não ter dado muita bola para a nossa piscina, nos últimos tempos. Por que isso? Afinal gosto muito de estar em contato com a água desde pequeno, aprendi a nadar muito cedo e já frequentei muitas piscinas quando criança e na juventude. Fiz um curso e aproveitei a prática do mergulho durante muitos anos, e passei a maior parte da minha vida profissional na Marinha, cercado de água por todos os lados. Por que, então, tenho apresentado um comportamento de rejeição à água da piscina?

Um comentário do genro do meu amigo, recuperado da memória de nossas conversas durante a tarde, me deu a pista do que pode ser uma explicação plausível. Ele não se sentiu muito bem durante sua permanência dentro d’água e, com bom humor e certa ironia, nos disse que talvez tivesse ficado “mareado” com as pequenas ondulações da piscina, expondo sua sensibilidade a alguma sensação momentânea de falta de equilíbrio, apesar da água estar praticamente parada.

Água parada! Essa é a questão!

Água parada cria limo, cria lodo! Gritou a crença armazenada no fundo da consciência. E lembrei-me de uma citação de um livro sobre Cabala que li recentemente, comparando as águas do Rio Jordão com as do Mar Morto. As águas do rio, sempre em movimento, bebem na fonte de suas nascentes nas montanhas e não ficam estagnadas, criam vida ao longo de suas margens em seu caminho para desembocar em algum outro rio, ou no oceano. O próprio oceano, com suas correntes e marés, sempre em movimento, é fonte de vida, e foi a fonte da própria vida neste nosso pequeno planeta azul. As águas paradas do Mar Morto, por outro lado, que não escoam para lugar nenhum, só recebem, mas não compartilham, acabaram se tornando “um grande lago salgado” e isolado. Um “lago” que não se conecta com nada mais, de onde a vida simplesmente desapareceu.

Definitivamente, ao invés das águas das piscinas e de lagos isolados, prefiro as águas dos rios, das cachoeiras e do mar sem fim!

E pensando nisso lembrei-me também, com detalhes, de uma experiência traumática da infância, de que ninguém mais tomou conhecimento, até agora.

Quando tinha entre nove e onze anos, e morei por uns tempos na casa da minha avó materna em uma cidade do vale do Paraíba, no interior do Estado do Rio de Janeiro, meus padrinhos moravam em um bairro próximo em uma ótima casa com piscina. E eu os visitava com frequência, em busca de convivência com meu primo e primas. Em uma dessas visitas, fui sozinho para o setor do quintal onde se encontrava a piscina, que estava há algum tempo sem sofrer nenhuma manutenção ou limpeza. E, apesar do seu aspecto mais escuro e turvo, era um dia de verão e decidi entrar na água mesmo assim. Como testemunha dessa pequena aventura apenas um cão pastor alemão que ficava preso em um canil e que latia com força na minha direção, quem sabe para advertir-me do que estava para acontecer em seguida.

Ao entrar apressado na piscina, mesmo na área em que seria capaz de ficar de pé, não consegui manter o equilíbrio e firmar os pés no fundo, pela grande quantidade de lodo que estava acumulada nos ladrilhos. Fiquei patinando por muito tempo de barriga pra baixo, bebendo muita água, assustado com a situação e sem consegui tocar com as mãos na borda e manter a cabeça fora d’água. Lembro-me bem da água suja e de gosto esquisito, da qual sorvi afobado grandes goles, e da sensação dos dedos e da planta dos pés tateando em busca de firmeza, sem sucesso. Quando saí daquela situação, sei lá como, depois de um tempo que me pareceu uma eternidade, fiquei silencioso por vários minutos e não contei a ninguém sobre essa grande trapalhada. Podia ter me afogado sozinho, naquela tarde de verão, sem que ninguém soubesse onde estava e pudesse vir em meu auxílio…

É isso que acontece com água parada! Cria limo! Cria lodo! E vira depósito de larvas de mosquito, daqueles que infernizam nossas vidas de madrugada, zunindo ao ouvido e picando a pele sem a menor cerimônia. E é claro que não é isso que acontece com a piscina do meu prédio, mantida em ótimas condições com agua clarinha e tratada. Mas acho que essa questão da água parada é algo que, dos confins do meu subconsciente, pode explicar essa aversão, melhor dizendo, essa preferencia declarada e assumida pelas águas que se mantém em fluxo constante, que se movimentam.

É o que desejo para os meus netinhos emprestados: que sua passagem pelas piscinas seja breve, apenas o suficiente para familiarização com o meio líquido e que, no menor tempo possível, possam estabelecer e manter contato com as águas que se movem, as que compartilham seu frescor e vitalidade com o ambiente ao redor, e que possam assim também se manter, ao longo de suas vidas, o mais longe possível da estagnação e da preguiça.

Pausa para um breve haicai:

água parada
cria limo, cria lodo.
sem vida, de novo…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido – Mar Morto

Garrafa 423 – Falo, porque ainda não sei…   Leave a comment

Tenho um pequeno grupo de bons amigos e amigas (e acho que cabem todos numa van) que leem, e às vezes também comentam e compartilham os posts publicados neste Blog. Essas criaturas gentis também se dão ao trabalho de visualizar as fotos e ler os textos que são reproduzidos em minhas páginas nas redes sociais, ou que são divulgados em outros Blogs que mantenho em atividade. Trazem, sempre, novos desafios com seus questionamentos e contribuições, para que eu busque maior clareza na exposição de ideias, quer sejam das poucas que são de minha própria lavra, ou daquela grande maioria que não foi parida por mim mesmo, e sim adotada como valiosa e verdadeira, até prova em contrário.

Os temas do desenvolvimento de consciência e da espiritualidade têm sido aqui frequentemente abordados, por estarem no centro da minha área de interesse, e julgo oportuno reconhecer, desde já, minha total incompetência diante desse enorme desafio.

O salto quântico do nível de desenvolvimento de consciência da Mente (onde se encontra a maioria de nós) para o nível da Alma (onde poucos estiveram por breves períodos, e muito poucos por lá permanecem por temporadas mais prolongadas) é uma experiência individual. É vivenciada sem a interferência ou participação de intermediários, sejam eles padres, pastores, rabinos, aiatolás, gurus, monges, coaches ou consultores. O caminho que leva até a borda do precipício onde esse salto deve ser dado é único. E há tantos caminhos quantos indivíduos existem neste nosso pequeno planeta azul. Mesmo quando duas pessoas parecem caminhar lado a lado, durante algum tempo, seus caminhos são distintos. A senda é estreita como o fio da navalha, para utilizar uma imagem cara aos mestres Zen. E lá chegando, seja que caminho individual tenha sido percorrido e aonde quer que ele tenha levado cada um, é preciso saltar da borda do penhasco no grande Vazio! Sentir essa vertigem!

Além disso, como o nível da Alma transcende e inclui o nível da Mente e, portanto, está além da razão, além da lógica, em contato apenas com a fonte da nossa sabedoria intuitiva, qualquer tentativa de expressar essa experiência em palavras, depois de vivenciá-la, estará fadada ao fracasso. Nosso falatório e escrita serão apenas tímidas tentativas de explicar o inexplicável.

As escrituras Védicas, de milênios atrás, são sábias ao declarar que “Aqueles que sabem, não falam. Os que falam, não sabem”.

E revelador foi o sermão silencioso de Buda, apresentando à sua audiência, por entre os dedos, uma simples flor de cor branca, cujo significado foi percebido apenas por seu discípulo Mahakasyapa.

Com todo respeito por todo esse falatório e suas correspondentes transcrições e publicações em diversas escrituras, de todos os matizes, origens e tendências (várias vezes transcritas neste Blog e posts correspondentes), todo o material disponível sobre esses temas – desenvolvimento de consciência/espiritualidade – pode servir no máximo como um tipo de sinal ou indicação. Uma sinalização que aponta para essa Verdade que pode ser apenas percebida por aqueles que estão prontos e preparados para recebe-la. Verdade essa que também será sempre interpretada no próprio nível de consciência daqueles que vivenciarem essa experiência.

Conforme sugerido nas sábias palavras proferidas pelo Mestre Doogen, que ecoam para nós do fundo do precipício, desde o século XIII, “O dedo que aponta para a lua, não é a lua”. É preciso ver a lua! Olhar na direção indicada pelo dedo, e não para o próprio dedo!

É preciso ver a lua!

E, nesta fase de lua minguante, em que ver a lua se torna uma tarefa sempre um pouco mais desafiadora, situação agravada pelo prenúncio da continuação de um período chuvoso e nublado, em nossa bela cidade do Rio de Janeiro, resta-me apenas brincar com a sabedoria das palavras milenares, usando a métrica do haicai:

não sabe, quem fala.
mas, aquele que sabe,
não fala, cala…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido e
Ilustração de Tsukioka Yoshitoshi – One Hundred Views of the Moon “Moon of Enlightenment”

Lua minguante

O dedo que aponta para a lua

Garrafa 365 – Tempo para a cortesia   Leave a comment

Em minhas recentes leituras sobre o tema da gratidão, tomei conhecimento de uma prece utilizada pelo mestre budista Thich Nhat Hahn para iniciar o seu dia, e passei a recitá-la silenciosamente a cada manhã:

Despertando nesta manhã, vejo o céu azul.
Junto minhas mãos em agradecimento
pelas muitas maravilhas da vida;
e por ter vinte e quatro horas, novinhas em folha, diante de mim.

Vendo no calendário o dia de hoje, 01/03, iniciando o mês de março, me dei conta de que podemos fazer o mesmo – iniciar com uma atitude de agradecimento e boa disposição para ação amorosa – com relação a qualquer outro ciclo: semanal, mensal, trimestral, anual…

Dado que não sabemos quando vamos encerrar nossa permanência nesse nosso pequeno planeta azul, temos à nossa frente, se em gozo de boa saúde, pelo menos em tese, e sendo bem otimistas, um número extenso e indeterminado de dias à nossa disposição.

A escolha do que fazer com eles está em nossas mãos. E escolho que é tempo para agradecimento e ação amorosa… É tempo para a cortesia!

Preparando-me para atender a um compromisso agradável, um convite para almoço com amigos, ainda no chuveiro, pensando em como retribuir a cortesia recebida, a inspiração para um breve haicai:

início do mês…
trinta dias novinhos,
para ser cortês!

Eduardo Leal
Foto de Leandro Cerqueira – Almoço com amigos no Rosita Café

Almoço com amigos, no Rosita Café

Almoço com amigos, no Rosita Café

Garrafa 361 – Nenhuma esperança, em 2013!   1 comment

Em recente reunião de amigos que aconteceu no meu apartamento, fui convidado a dizer algumas palavras, na qualidade de anfitrião, e não por qualquer outra razão, a título de encerramento do encontro e despedidas do grupo que estava de partida para outros compromissos. O tema proposto foi a respeito de minhas esperanças para o ano de 2013.

Surpreendido com o convite, especialmente pelo tema, que tem dado voltas na minha cabeça nos últimos tempos, e que permanece um assunto em aberto, não deixei a resposta em branco. Mas sinto que posso ter frustrado e decepcionado algumas daquelas pessoas. Assumi, então, o compromisso de articular melhor meus pensamentos e formular uma resposta por escrito, o que faço agora, utilizando este canal de comunicação.

Naquela ocasião, minhas palavras devem ter soado vacilantes já que, de memória, só consegui reproduzir parcialmente o conteúdo da Garrafa 182, postada em janeiro de 2009. Minha tradução livre do poema de T. S. Eliot começa assim: Eu disse à minha alma, fica quieta, e espera sem esperança pois a esperança seria pela coisa errada… E penso que esse poema pode ser um bom resumo de minhas crenças a respeito da proposta de se esperar sem esperança, enquanto a sabedoria não chega…

E já tinha postado outros dois Haicai, na Garrafa 179, de dezembro de 2008, inspirado em minhas leituras sobre filosofia zen budista, e na Garrafa 241, de junho de 2011, sobre o mesmo tema. Este último, inspirado na leitura de “A felicidade, desesperadamente” de André Comte-Sponville, livro indicado por um bom amigo e companheiro de angustias existenciais.

Na Garrafa 342, também citei André Comte-Sponville, refletindo sobre a importância de agir com base na vontade, e não na esperança, a diferença fundamental entre os “militantes” e os “simpatizantes” da vida.

Isto posto, passo agora a explicitar a lógica filosófica de Comte-Sponville, apoiada em algumas ideias de filósofos clássicos, modernos e contemporâneos (Platão, Aristóteles, Epicuro, Montaigne, Descartes, Spinoza, Pascal, Santo Agostinho, Schopenhauer, Kant, Marcel Conche, Louis Altusser, Sartre) sobre a felicidade, a vida, a filosofia, a sabedoria e, também, sobre como experimentamos a passagem do tempo. Tudo isso me parece e soa como verdadeiro e, portanto, adoto como meu entendimento do assunto, no momento atual:

1 – “Todos os homens procuram ser felizes, isso não tem exceção. É esse o motivo de todas as ações de todos os homens…”

2 – A filosofia é uma prática discursiva (ela procede “por discursos e raciocínios”) que tem a vida por objeto, a razão por meio e a felicidade por fim. Trata-se de pensar melhor para viver melhor.

3 – Como etimologicamente a meta da filosofia é a sabedoria e, pela tradição grega se reconhece a sabedoria pela felicidade, a felicidade é, portanto, a meta da filosofia. Pelo menos um certo tipo de felicidade, a felicidade do sábio, que não se obtém por meio de drogas, mentiras, ilusões, diversão. É uma felicidade que se obteria por uma certa relação com a verdade: uma verdadeira felicidade ou uma felicidade verdadeira. A beatitude ou a alegria que nasce da verdade.

4 – Só é verdadeiramente filósofo quem ama a felicidade como todo mundo, mas ama mais ainda a verdade – só é filósofo quem prefere uma verdadeira tristeza a uma falsa alegria. Trata-se de pensar não o que me torna feliz, mas o que me parece verdadeiro – e fica a meu encargo tentar encontrar, diante dessa verdade, seja ela triste ou angustiante, o máximo de felicidade possível. A felicidade é a meta; a verdade é o caminho ou a norma.

5 – O essencial é não mentir, e antes de mais nada não se mentir. Não mentir sobre a vida, sobre nós mesmos, sobre a felicidade.

6 – E por que não somos felizes?

a) Não somos felizes, às vezes, porque tudo vai mal. Os que sofrem a miséria, o desemprego, a exclusão, os que são afetados por uma doença grave ou têm um ente próximo morrendo… A maior urgência, sem dúvida não é filosofar, antes é preciso sobreviver e lutar, ajudar, tratar e curar.

b) Mas, se não somos felizes, nem sempre é porque tudo vai mal. O que nos falta para ser feliz, quando temos tudo para ser e não somos? Falta-nos sabedoria, saber viver. Ser feliz é, pelo menos numa primeira aproximação, ter o que desejamos. Mas, e agora quando nos damos conta que, segundo diversos filósofos (Platão, Pascal, Schopenhauer, Sartre) o desejo é falta: “O que não temos, o que não somos, o que nos falta, eis os objetos do desejo e do amor.” Ora, se só desejamos o que não temos, nunca temos o que desejamos, logo nunca somos felizes. Assim que um desejo é satisfeito, já não há falta, logo já não há desejo. Temos, então, o que desejávamos e já não desejamos. Ora desejamos o que não temos, e sofremos e ficamos frustrados com essa falta, ora temos o que, portanto, já não desejamos e nos entediamos ou nos apressamos a desejar outra coisa, e voltamos a sofrer. A vida oscila, pois, como um pêndulo, do sofrimento ao tédio. E a esperança é a própria falta, no tempo e na ignorância. Só esperamos o que não temos, e por isso mesmo somos tanto menos felizes quanto mais esperamos ser felizes. Estamos constantemente separados da felicidade pela esperança que a busca.

7 – Em nossa incapacidade de viver o momento presente, vivemos um pouco para o passado e principalmente muito, muito, para o futuro. “Assim, nunca vivemos, esperamos viver; e, dispondo-nos sempre a ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos.”

8 – Então, o que fazer? Como escapar desse ciclo da frustração e do tédio, da esperança e da decepção?

a) Primeira Estratégia: O esquecimento, a diversão. Pensemos rápido em outra coisa! Façamos como todo mundo: finjamos ser felizes, finjamos não nos entediar… É uma estratégia não filosófica, pois em filosofia trata-se justamente de não fingir;

b) Segunda Estratégia: Fuga para frente, de esperanças em esperanças. Consolar-se por ainda não ter conquistado o que se deseja, na esperança de que a conquista virá na semana seguinte…

c) Terceira Estratégia: Salto para frente, uma esperança absoluta, religiosa, que não é suscetível de ser decepcionada. É o salto religioso: esperar a felicidade para depois da morte. Passar da esperança como paixão, para a esperança como virtude teologal: porque ela tem Deus mesmo por objeto;

d) Quarta Estratégia: Uma tentativa de nos libertar da própria esperança. Entre a felicidade esperada e a decepção, entre o sofrimento e o tédio, lançar um olhar ao prazer e à alegria. Ora, quando há prazer? Quando há alegria? Há prazer, há alegria, quando desejamos o que temos, o que fazemos, o que é: há prazer, há alegria, quando desejamos o que não falta! Toda vez que Platão, Pascal, Schopenhauer e Sartre estão errados! E quando esse erro ocorre? Quando confundem o desejo com a esperança. Toda esperança é um desejo, mas nem todo desejo é uma esperança. Como é bom tomar uma bebida bem gelada quando se tem sede! Como é bom fazer amor quando se tem vontade, com a pessoa que se deseja, tanto mais quando ela não nos falta, quando está aqui, quando se entrega, maravilhosamente oferecida, maravilhosamente disponível! O prazer do passeio é estar onde desejamos estar, darmos os passos que estamos dando, desejar dá-los, e não desejar estar alhures ou efetuar outros passos, os que daremos mais tarde ou dali adiante… O prazer da viagem, é partir por partir. Triste viajante o que só espera a felicidade na chegada! E isso vale para qualquer ação. Ai do corredor que só deseja as passadas por vir, não as que ele dá, do militante que só deseja a vitória, não o combate, do amante que só deseja o orgasmo, não o amor! Todo ato necessita de uma causa próxima, eficiente e não final, e o desejo, como notava Aristóteles, é a única força motriz. É por isso que podemos ser felizes, é por isso que às vezes o somos: porque fazemos o que desejamos, porque desejamos o que fazemos! É o que Comte-Sponville chama de felicidade em ato, que outra coisa não é senão o próprio ato como felicidade: desejar o que temos, o que fazemos, o que é – o que não falta. Em outras palavras, gozar e regozijar-se. Mas essa felicidade em ato é ao mesmo tempo uma felicidade desesperada, pelo menos em certo sentido: é uma felicidade que não espera nada.

9 – De fato, o que é a esperança? É um desejo: não podemos esperar o que não desejamos. Toda esperança é um desejo; mas nem todo desejo é uma esperança. O desejo é o gênero próximo, como diria Aristóteles, da qual a esperança é uma espécie. Vou lhes propor três características da esperança:

a) Uma esperança é um desejo referente ao que não temos, ou ao que não é, em outras palavras, um desejo a que falta seu objeto. É o desejo segundo Platão. E é de fato o motivo pelo qual, na maioria das vezes, a esperança se refere ao futuro: porque o futuro nunca está aqui, porque do futuro, por definição, não temos o gozo efetivo. É por isso que esperamos: esperar é desejar sem gozar.

b) Podemos também esperar algo que não está por vir: a solução pode se referir ao presente, ou até, paradoxalmente, ao passado. “Espero que você esteja melhor” é uma esperança referente ao presente. “Espero que a operação tenha corrido bem” é uma esperança referente ao passado. Uma esperança é um desejo que ignora se foi ou será satisfeito: esperar é desejar sem saber. Só se espera o que se ignora: quando se sabe, já não há por que esperar. A esperança e o conhecimento nunca se encontram, em todo caso nunca têm o mesmo objeto: nunca esperamos o que sabemos, nunca conhecemos o que esperamos.

c) Ninguém espera aquilo de que se sabe capaz. É isso que distingue a esperança da vontade: uma esperança é um desejo cuja satisfação não depende de nós, como diziam os estóicos – diferentemente da vontade, a qual, ao contrário, é um desejo cuja satisfação depende de nós. Só esperamos o que somos incapazes de fazer, o que não depende de nós. Quando podemos fazer, não cabe mais esperar, trata-se de querer. A esperança é um desejo cuja satisfação não depende de nós: esperar é desejar sem poder.

10 – Integrando as três características apresentadas acima, Comte-Sponville nos apresenta sua definição de esperança: “É um desejo que se refere ao que não temos (uma falta), que ignoramos se foi ou será satisfeito, enfim, cuja satisfação não depende de nós: esperar é desejar sem gozar, sem saber, sem poder.” O prazer, o conhecimento e a ação não têm a ver com a esperança, e até, relativamente à realidade deles, a excluem.

a) Por que o prazer? O contrário de desejar sem gozar, na medida em que haja desejo (mas se estamos vivos, há desejo), é desejar gozando, desejar aquilo de que gozamos – na sexualidade, na arte, no passeio, na amizade, na gastronomia, no esporte, no trabalho, etc. É, portanto, o próprio prazer.

b) Por que o conhecimento? O contrário de desejar sem saber é desejar o que se sabe. É, portanto, o próprio conhecimento, pelo menos para quem o deseja, para aquele que ama a verdade, e tanto mais quanto ela não falta. O sábio, nesse sentido, é um “conhecedor”, como dizemos em matéria de vinhos ou de culinária. O “conhecedor” não é apenas aquele que conhece, mas também aquele que aprecia. O sábio é um conhecedor da vida: ele sabe conhecê-la e apreciá-la!

c) Por que a ação? O contrário de desejar sem poder é desejar o que podemos, logo o que fazemos. A única maneira de poder efetivamente é querer; e a única maneira verdadeira de querer é fazer. É a imensa lição estóica, sempre queremos o que fazemos, sempre fazemos o que queremos – nem sempre o que desejamos ou o que esperamos, longe disso, mas sempre o que queremos. É a diferença entre a esperança (desejar o que não depende de nós) e a vontade (desejar o que depende de nós). Não é a esperança que faz os heróis: é a coragem e a vontade.

11 – Platão, Pascal, Schopenhauer, portanto, nem sempre têm razão, com relação a suas ideias a respeito do desejo. Se é verdade que desejamos principalmente o que não temos e, portanto, se é verdade que nossos desejos na maioria das vezes são esperanças, também podemos desejar o que gozamos (isso se chama prazer, e todos sabem que há uma alegria do prazer); podemos desejar o que sabemos (isso se chama conhecer, e todos sabem que há uma alegria do conhecimento, pelo menos para quem ama a verdade); podemos desejar o que fazemos (isso se chama agir, e todos sabem que há uma alegria da ação).

12 – Se é verdade que somos tanto menos felizes quanto mais esperamos sê-lo, também é verdade que esperamos tanto menos sê-lo quanto mais já o somos. O contrário de esperar não é temer, como se acredita comumente. Como diz Espinoza, “Não há esperança sem temor, nem temor sem esperança.” A esperança e o temor não são dois contrários, mas antes as duas faces da mesma moeda: nunca temos uma sem a outra. O contrário de esperar não é temer; o contrário de esperar é saber, poder e gozar. É também o que chamamos de felicidade, que só existe no presente (não mais a felicidade perdida, mas a felicidade em ato). É também o que chamamos amor, que só se refere ao real.

Depois de apresentar as armadilhas e fazer uma crítica da esperança, Comte-Sponville nos coloca em uma uma encruzilhada. O desejo é a própria essência do homem; mas há três maneiras principais de desejar, três ocorrências principais do desejo: o amor, a vontade e a esperança.

Que diferença há entre a esperança e a vontade? Em ambos os casos há desejo. Mas, como apresentado, a esperança é um desejo que se refere ao que não depende de nós; a vontade, um desejo que se refere ao que depende de nós.

Que diferença há entre a esperança e o amor? Em ambos os casos há desejo. Mas a esperança é um desejo que se refere ao irreal; o amor, um desejo que se refere ao real. Só esperamos o que não é; só gostamos do que é.

O momento presente, portanto, nos desafia a fazer escolhas a cada instante. Todos as fazemos, diante dos desafios que a vida nos apresenta, de acordo com nosso nível de consciência.

A seleção do título deste post foi uma dessas escolhas e aqui cabe um esclarecimento: é mais uma frase de efeito do que a minha realidade, pois sinto que ainda não estarei livre de esperanças em 2013! Querem um exemplo? Como sempre faço, desde a Garrafa Zero, em outubro de 2005, “espero que essas palavras possam ser úteis para alguém, em algum lugar, em algum momento…”

Ao rever minhas anotações da primeira leitura de “A felicidade, desesperadamente”, de agosto de 2011, encontrei um haicai ainda não postado sobre a proposta de se esperar sem esperança, parido no dia 11 de agosto, que agora compartilho, com uma pequena alteração. Na inspiração original a última palavra era “amar”, agora escolho “agir”. Entendo, entretanto, que, aqui e agora, só cabem ações amorosas…

desesperançar!
o luto do que não é;
só resta… agir!

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Esperanca 2

Garrafa 238 – Quem tem um amigo…   2 comments

“Passados dois meses de tantas histórias, comecei a pensar no sentido da solidão. Um estado interior que não depende da distância…nem do isolamento; um vazio que invade as pessoas… E que a simples companhia ou presença humana não pode preencher. Solidão foi a única coisa que eu não senti, depois que parti…nunca…em momento algum. Estava, sim, atacado de uma voraz saudade. De tudo e de todos, de coisas e de pessoas que há muito tempo não via. Mas a saudade às vezes faz bem ao coração. Valoriza os sentimentos, acende as esperanças e apaga as distâncias. Quem tem um amigo, mesmo que um só, não importa onde se encontre, jamais sofrerá de solidão; poderá morrer de saudade…mas não estará só!”

Amyr Klink
Foto de Amyr Klink

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