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Garrafa 495 – Tão perto, tão longe…   Leave a comment

Desde o dia em que se conheceram, não se passa um só dia em sua vida sem que ele pense nela, em algum momento, com muito carinho e gratidão. E, no dia do seu aniversário, um dia especial sempre lembrado, ele agradece ao Universo por ela ter nascido neste planeta, nesta nossa época e por aquele encontro mágico que os colocou frente a frente pela primeira vez, há muitos anos atrás. E, também, por ela ainda estar entre nós neste mundo, mesmo que em outro hemisfério, e acompanhada de outras pessoas desconhecidas com quem escolheu compartilhar esse novo trecho do seu caminho.

No mesmo dia, ou em dias muito próximos dessa data, há muitos anos, ele envia mensagens a esse mesmo Universo na esperança de que ela possa de alguma maneira tomar conhecimento de suas palavras, sinta-se muito amada, e possa esboçar pelo menos um leve sorriso.

Esta pode ser uma dessas mensagens colocadas dentro de uma pequena garrafa, que as correntes do mar da Internet podem fazer chegar a uma praia muito distante, ser recolhida intacta, e lida pela pessoa certa com algum sobressalto, reconhecendo a caligrafia no papel desdobrado por entre os dedos trêmulos das mãos, ainda tomadas pela surpresa desse achado… Quem sabe?

Ele gosta de pensar que ela já se deu conta desse delicado ritual de gratidão e, a partir de alguns dias antes e outros depois dessa data, se permite caminhar descalça pelas praias mais próximas do seu litoral e, sentindo a água fria que banha seus pés delicados e o vento fresco que revolve seus cabelos, com olhar curioso na direção da arrebentação, percorre aquela linha em que a água salgada lambe a areia molhada num vai e vem infinito. Entre uma concha e outra, ou entre uma e outra estrela do mar, quando olha com bastante atenção, sempre pode encontrar alguma mensagem colocada com cuidado dentro de uma pequena garrafa colorida e só a ela endereçada. E tomar conhecimento do seu conteúdo não implica, de sua parte, nenhum outro tipo de compromisso. Apenas o simples reconhecimento e recebimento de um afago de um amigo distante, em uma data especial.

A inspiração para o texto desta mensagem surgiu no dia de ontem, durante a leitura de um livro interessante sobre as experiências de uma mulher que percorreu, de maneira ao mesmo tempo alegre e sofrida, há alguns anos atrás, o mesmo Caminho de Santiago de Compostela que ele pretende percorrer em breve. Mais do que um simples relato de viagem, o livro apresenta em suas entrelinhas, isso sim, uma bela história de amor incondicional entre um homem e uma mulher. Depois de um longo suspiro, rabiscou com traços firmes em uma daquelas páginas o seguinte haicai:

em qualquer idade,
quem se ama de verdade:
doce saudade…

Eduardo Leal
Fotos de autores desconhecidos

Sinais ao longo do Caminho Na beira do mar

Garrafa 427 – Um certo ar matinal   1 comment

Pensativo, nesse final de uma tarde chuvosa de primavera, vasculhei a estante em busca de inspiração para encerrar o dia com dignidade, após ouvir que os problemas com o servidor de e-mail da minha conta mais antiga, que está “instável” desde segunda-feira, ainda não têm previsão de solução. Enquanto isso, alertas de erro aparecem a todo instante, sempre que tento baixar minhas mensagens, sem sucesso. Pequenas frustrações do dia-a-dia com reflexos indesejados no meu bom-humor habitual.

Lembrei-me imediatamente de um poema de Hermann Hesse que falava da importância de estarmos prontos para novos começos e expedi um mandado de busca e apreensão para mim mesmo. Encontrei-o em dois lugares diferentes, com dois títulos também distintos e com duas traduções ligeiramente diferentes. Em “O Jogo das Contas de Vidro” ele aparece como uma das obras póstumas do personagem José Servo com o título “Degraus”. Já na antologia poética “Andares”, aparece como o poema que emprestou seu nome à obra, com o título “Andares”.

Transcrevo e compartilho com os amigos essa pequena e delicada reflexão poética, retirada de “O Jogo das Contas de Vidro”, cuja tradução me agrada um pouco mais:

Assim como as flores murchas e a juventude
Dão lugar à velhice, assim floresce
Cada período de vida, e a sabedoria e a virtude,
Cada um a seu tempo, pois não podem
Durar eternamente. O coração,
A cada chamado da vida deve estar
Pronto para a partida e um novo início,
Para corajosamente e sem tristeza,
Entregar-se a outros, novos compromissos.
Em todo o começo reside um encanto
Que nos protege e ajuda a viver.
Os espaços, um a um, devíamos
Com jovialidade percorrer,
Sem nos deixar prender a nenhum deles
Qual uma pátria;
O Espírito Universal não quer atar-nos
Nem nos quer encerrar, mas sim
Elevar-nos degrau por degrau, nos ampliando o ser.
Se nos sentimos bem aclimatados
Num círculo de vida e habituados,
Nos ameaça o sono; e só quem de contínuo
Está pronto a partir e a viajar,
Se furtará à paralisação do costumeiro.

Mesmo a hora da morte talvez nos envie
Novos espaços recenados
O apelo da vida que nos chama não tem fim…
Sus, coração, despede-te e haure saúde!

Confesso que fui tocado por esse pequeno poema, que fala da inexorável passagem do tempo e de nosso inevitável destino de percorrer o espaço que nos corresponde, de preferência com jovialidade. Desde que o vi pela primeira vez, em algum momento da década de 1970, sinto que gosto especialmente dessa fala: “O coração, a cada chamado da vida deve estar pronto para a partida e um novo início, para corajosamente e sem tristeza, entregar-se a outros, novos compromissos. Em todo o começo reside um encanto que nos protege e ajuda a viver. Os espaços, um a um, devíamos com jovialidade percorrer, sem nos deixar prender a nenhum deles…”

Quando penso nisso, sinto novamente o frescor da manhã, mesmo daquelas mais nubladas, quando iniciamos cada novo dia com renovada disposição. E pensando que esse é um dos nossos grandes desafios, gostaria de transportar esse mesmo frescor para cada momento que se sucede, um após o outro, a cada chamado da vida, especialmente nesse fim de tarde chuvoso.

Um certo ar matinal… Acho que essa atitude mental deveria ser a minha ideal… Uma meta espiritual…

Isso! Corro para encontrar uma imagem que passe essa ideia de frescor matinal e organizar as ideias com a métrica de um haicai:

espiritual,
a atitude mental,
do ar matinal…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Morning Dance” com Spyro Gyra

Ar matinal

Garrafa 415 – Poeira de estrelas (do pó ao pó)   Leave a comment

de onde venho,
onde estou e quem sou,
é pra onde vou…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Poeira de estrelas 3

Garrafa 352 – Desmanche de Navios   5 comments

Li com profundo pesar, na manhã de hoje, matéria enviada por um bom amigo sobre o triste fim do Navio-Aeródromo Ligeiro (NAeL) Minas Gerais, antigo A-11, em um desmanche de embarcações na India, fato já ocorrido há algum tempo atrás. Foi como descobrir que outro bom amigo, de quem não tinha notícias há muito tempo, havia morrido e tinha sido sepultado como indigente, sozinho, em terra distante, longe de sua família e de seus amigos… Enfim, uma tristeza…

O NAeL foi o meu primeiro navio quando me apresentei na Esquadra, em 1976, ao regressar da viagem de instrução de guardas-marinha. E lá permaneci por dois anos, no Departamento de Aviação, até desembarcar para o Curso de Aperfeiçoamento de Eletrônica. Nessa época, durante o PAM (Período de Atualização e Manutenção) ele não se movimentou, permanecendo atracado ou docado no Arsenal de Marinha no Rio de Janeiro (AMRJ). Só pude experimentar a felicidade de navegar com ele, em águas nacionais e internacionais, embarcando, anos depois, como oficial de Estado-Maior do Comando-em-Chefe da Esquadra. Bem mais tarde, como Capitão dos Portos de Alagoas, pude organizar e preparar a primeira visita do navio ao porto de Maceió. Isso nunca havia ocorrido em razão de pertinentes preocupações da Esquadra com relação à profundidade local e às condições de atracação. A visita foi um sucesso e boas lembranças daqueles momentos de contentamento povoaram minha mente, no dia de hoje.

Refletindo a respeito dos nossos processos de mudança, dos fios brancos que teimam em aparecer no meu bigode e da corrosão que consome os conveses de alguns dos navios onde pisei, as palavras do filósofo Heráclito de Éfeso ecoam, desde a Grécia antiga, no meu ouvido cansado:

“No Universo, a única coisa permanente é a mudança.”

E como sempre faço quando fico meditabundo, busco refúgio em minha trilha sonora. Dessa vez reencontrei esta pérola em forma de música e letra de Quincy Jones, a respeito do inexorável processo de mudança:

Everything must change
Nothing stays the same
Everyone will change
No one stays the same

Os ciclos de nascimento, desenvolvimento, degradação e morte são mesmo implacáveis e vamos, todos nós, de uma maneira ou de outra, passar por cada um deles. E o importante é fazê-lo com dignidade.

O NAeL sempre foi tratado com respeito e reverência por suas antigas tripulações e legiões de admiradores que, enquanto vivermos, assim o preservaremos em nossa memória, a despeito de seu triste fim, em uma praia distante e longe dos seus.

Vendo as fotografias dos seus ultimos momentos, ao lado de outras embarcações de mesmo triste destino, sinto apenas a inspiração para um lamento, com a métrica do haicai:

praia de lama
desmanche de navios
ah! longe dos seus…

Eduardo Leal
Fotos de autores desconhecidos
Instruções de utilização: Ouvir “Everything Must Change” com Quincy Jones

Garrafa 189 – Cinco homens   Leave a comment

1.
Eles os levaram de manhã
para o pátio de pedra
e os puseram contra o muro

cinco homens
dois deles muito jovens
os outros de meia-idade
nada mais
pode ser dito sobre eles

2.
quando o pelotão
aponta seus fuzis
tudo aparece de repente
à luz berrante
da obviedade

o muro amarelo
o azul frio
o arame preto no muro
em vez de um horizonte

esse é o momento
em que os cinco sentidos se rebelam
eles escapariam de bom grado
como ratos de um navio que afunda

antes que a bala chegue a seu destino
o olho perceberá o vôo do projétil
o ouvido registrará o sussurro afiado

as narinas se encherão de fumaça cáustica
uma pétala de sangue roçará o palato
o toque se contrairá e depois se afrouxará
agora jazem no chão
cobertos de sombra até os olhos
o pelotão se afasta
suas abotoaduras
e capacetes de aço
estão mais vivos
que os homens prostrados junto ao muro

3.
Não aprendi isto hoje
Sabia antes de ontem

por que então andei escrevendo
poemas sem importância sobre flores
sobre o que falaram os cinco
na noite antes da execução
de sonhos proféticos
de uma escapada num bordel
de peças de automóvel
de uma viagem por mar
de como quando ele tinha a seqüência de espadas
não a devia ter aberto
de como vodca é o melhor
depois do vinho você tem dor de cabeça
de moças
de frutas
de vida
assim podemos usar em poesia
nomes de pastores gregos
podemos tentar captar a cor do céu da manhã
escrever sobre amor
e também
mais uma vez
com completa gravidade
oferecer ao mundo desiludido
uma rosa

Zbigniew Herbert
Foto de autor desconhecido

Garrafa 70 – Quero ser como Plutão   Leave a comment

Plutão era considerado, até 2006, o nono planeta do do Sistema Solar.

Provavelmente nasceu com ele e ainda percorre sua rota silenciosa ao redor do Sol, acompanhado por sua lua Caronte e seus dois satélites menores Nix e Hydra.

Recentemente foi rebaixado! Recebeu o novo status de planeta anão.
Mas não dá a mínima pra isso…
Continua cumprindo o seu destino até o colapso final, no fim dos tempos.

Quero ser como Plutão!

Simplesmente… Cumprir o meu destino.
Apenas ser… Plutão.

Mas… Qual será o meu destino?

Eduardo Leal
Ilustração de autor desconhecido

Garrafa 53 – Construindo o futuro 3   Leave a comment

Todo homem é o arquiteto do seu próprio destino.

Appius Claudius
Foto de autor desconhecido

Arquitetura do destino

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