Arquivo para dezembro 2011

Garrafa 284 – Falar ou calar?   7 comments

Nas ultimas semanas, tive que lidar com uma situação delicada que me causou alguma frustração e decepção. Não é o caso de explicitá-la aqui. Mas vale a pena refletirmos juntos a respeito de algumas maneiras construtivas que podemos utilizar para sermos assertivos, sem sermos agressivos, tema recorrente em situações de coaching, terapia e consultoria: Expressar desagrado.

Para enfrentar esse desafio, inicialmente busquei inspiração em minha própria experiência, apostilas e artigos publicados e em elaboração e, a seguir, na bibliografia que conheço sobre o assunto. Foi especialmente importante reler “Comunicação não-violenta” de Marshall Rosenberg e “Preciso saber se estou indo bem” de Richard Williams. E, como frequentemente acontece, a sincronicidade com o Universo veio em meu auxilio quando recebi um e-mail, enviado por um bom amigo, que nem sequer suspeitava da situação em que me encontrava, com o seguinte provérbio persa:

“Duas coisas indicam fraqueza: calar-se quando é preciso falar, e falar quando é preciso calar-se.”

Mas o que dizer, e quando, e como fazê-lo, quando desejamos expressar desagrado? Apresento a seguir algumas sugestões, fruto das minhas ultimas pesquisas e reflexões.

1. Nesse caso, vale aquela regra de ouro que diz: “Elogios em público, críticas em particular.” Os comentários elogiosos devem ser feitos na presença de testemunhas, para amplificar os seus efeitos positivos. E a expressão de desagrado deve ser feita em particular, à pessoa que deve tomar conhecimento do problema, para reduzir ao mínimo os constrangimentos inerentes à situação. Entretanto, às vezes, inevitavelmente, outras pessoas terão que tomar conhecimento de que houve alguma manifestação de desagrado, mas somente algum tempo depois do ocorrido, quando os efeitos desse conhecimento terão sido atenuados;

2. Os elogios deverão ser feitos no nível de identidade, com expressões do tipo “Você é ótimo na realização dessa tarefa!”. As críticas deverão ser feitas no nível de comportamento, com expressões do tipo “Você fez, ou deixou de fazer tal coisa.” o que é um fato, que pode ser comprovado, e não um juízo de valor;

3. O momento de fazer os elogios deve ser o mais próximo possível do instante em que ocorreu a situação que motivou o comentário favorável, o que não impede que seja repetido e reforçado em diversas outras ocasiões. Já o momento de fazer a crítica, sempre que possível, deve ser cuidadosamente escolhido e planejado para que seus efeitos sejam mais próximos daqueles desejados, e menos contaminados pelas emoções negativas que motivaram a sua necessidade;

4. E agora, o cerne da questão, como expressar desagrado, de maneira assertiva, sem ser agressiva: O “Método do Hambúrguer”, técnica de Programação Neurolingüística (PNL) que sugere encapsular uma crítica – a carne do hambúrguer – entre dois comentários positivos – os dois pedaços de pão macio – é uma ótima dica. Devemos, entretanto, tomar os seguintes cuidados na aplicação dessa técnica:

a) Os elogios devem ser verdadeiros e não apenas fabricados para compor a técnica. Quem os faz deve acreditar naquilo que está sendo dito. Caso contrário, a expressão corporal e outros elementos da comunicação verbal irão, de alguma maneira, indicar alguma incongruência. Seus efeitos serão mais negativos do que positivos;

b) Se você não tem nada de favorável a falar a respeito daquela pessoa, provavelmente o problema é mais seu do que dela! Cada pessoa é única e valiosa, tem diversos talentos individuais e faz algo de positivo em algum contexto. Você é que ainda não lhe dedicou atenção suficiente. Converse com alguém que a conheça melhor, que conviva com ela. Observe você mesmo, com atenção e, muito provavelmente, encontrará diversos elogios reais dos quais ela é merecedora. Só então inclua esses comentários positivos nos pãezinhos do seu hambúrguer;

c) Os elogios iniciais podem dizer o que a pessoa faz bem e os elogios finais podem dizer, em sua opinião, o que a pessoa faz de melhor; e

d) A carne do hambúrguer – a expressão de desagrado – merece atenção especial. Os cursos de PNL de que participei inicialmente não me ajudaram nessa tarefa. Só descobri um caminho interessante durante algumas sessões de terapia cognitivo-comportamental que vivenciei periodicamente, a partir do ano 2000. Desde então, tenho utilizado uma sequencia de quatro passos proposta por Beck que inclui:

i) Explicitar o comportamento da outra pessoa que nos causa desagrado;

ii) Expor os nossos sentimentos a respeito desse comportamento;

iii) Propor o comportamento que desejamos que seja observado, no lugar daquele indesejado e, finalmente; e

iv) Explicitar para a outra pessoa as consequências positivas dessa mudança de comportamento, e as consequências negativas de se manter a situação atual.

Marshall Rosenberg propõe uma sequencia de quatro passos ligeiramente diferente, incluindo explicitar as nossas necessidades que não estão sendo atendidas com a situação atual ao invés de mencionar as consequências.

5. Nada nos garante que, após a nossa exposição, a outra pessoa irá mudar o seu comportamento na direção sugerida. E então, nesse caso, deveremos agir de acordo com as consequências negativas anunciadas em caso de manutenção da situação atual. E isso é fundamental. A pessoa deverá assumir as consequências de sua escolha.

Aqueles que desejarem saber mais a respeito do assunto FEEDBACK CONSTRUTIVO, que é como tenho chamado esse conjunto de procedimentos em meus cursos, palestras e artigos publicados, em uma sessão de Consultoria em Gestão Pessoal ou de Coaching Centrado em Valores, fiquem à vontade para entrar em contato.

Tenho observado que o desconhecimento dessa ferramenta de comunicação, complementado ou não pela presença de outras crenças limitantes que merecem ser identificadas e consideradas, que não dão permissão para que a pessoa tome determinadas atitudes saudáveis e ecológicas, é o que as impede de expressar seu desagrado, de maneira assertiva. E isso é um fator que contribui para a presença de desarmonia, desequilíbrio e, em ultima análise, de doença.

Pegando carona no provérbio persa, e brincando com as palavras e com a métrica do haicai, deixo essa reflexão final para essa tarde chuvosa, na expectativa de que o tempo melhore, para nos permitir observar, na noite escura que se aproxima, a ultima lua cheia do ano:

nossa fraqueza:
calar, quando o falar
é com justeza…

Eduardo Leal
Foto autor desconhecido

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