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Garrafa 423 – Falo, porque ainda não sei…   Leave a comment

Tenho um pequeno grupo de bons amigos e amigas (e acho que cabem todos numa van) que leem, e às vezes também comentam e compartilham os posts publicados neste Blog. Essas criaturas gentis também se dão ao trabalho de visualizar as fotos e ler os textos que são reproduzidos em minhas páginas nas redes sociais, ou que são divulgados em outros Blogs que mantenho em atividade. Trazem, sempre, novos desafios com seus questionamentos e contribuições, para que eu busque maior clareza na exposição de ideias, quer sejam das poucas que são de minha própria lavra, ou daquela grande maioria que não foi parida por mim mesmo, e sim adotada como valiosa e verdadeira, até prova em contrário.

Os temas do desenvolvimento de consciência e da espiritualidade têm sido aqui frequentemente abordados, por estarem no centro da minha área de interesse, e julgo oportuno reconhecer, desde já, minha total incompetência diante desse enorme desafio.

O salto quântico do nível de desenvolvimento de consciência da Mente (onde se encontra a maioria de nós) para o nível da Alma (onde poucos estiveram por breves períodos, e muito poucos por lá permanecem por temporadas mais prolongadas) é uma experiência individual. É vivenciada sem a interferência ou participação de intermediários, sejam eles padres, pastores, rabinos, aiatolás, gurus, monges, coaches ou consultores. O caminho que leva até a borda do precipício onde esse salto deve ser dado é único. E há tantos caminhos quantos indivíduos existem neste nosso pequeno planeta azul. Mesmo quando duas pessoas parecem caminhar lado a lado, durante algum tempo, seus caminhos são distintos. A senda é estreita como o fio da navalha, para utilizar uma imagem cara aos mestres Zen. E lá chegando, seja que caminho individual tenha sido percorrido e aonde quer que ele tenha levado cada um, é preciso saltar da borda do penhasco no grande Vazio! Sentir essa vertigem!

Além disso, como o nível da Alma transcende e inclui o nível da Mente e, portanto, está além da razão, além da lógica, em contato apenas com a fonte da nossa sabedoria intuitiva, qualquer tentativa de expressar essa experiência em palavras, depois de vivenciá-la, estará fadada ao fracasso. Nosso falatório e escrita serão apenas tímidas tentativas de explicar o inexplicável.

As escrituras Védicas, de milênios atrás, são sábias ao declarar que “Aqueles que sabem, não falam. Os que falam, não sabem”.

E revelador foi o sermão silencioso de Buda, apresentando à sua audiência, por entre os dedos, uma simples flor de cor branca, cujo significado foi percebido apenas por seu discípulo Mahakasyapa.

Com todo respeito por todo esse falatório e suas correspondentes transcrições e publicações em diversas escrituras, de todos os matizes, origens e tendências (várias vezes transcritas neste Blog e posts correspondentes), todo o material disponível sobre esses temas – desenvolvimento de consciência/espiritualidade – pode servir no máximo como um tipo de sinal ou indicação. Uma sinalização que aponta para essa Verdade que pode ser apenas percebida por aqueles que estão prontos e preparados para recebe-la. Verdade essa que também será sempre interpretada no próprio nível de consciência daqueles que vivenciarem essa experiência.

Conforme sugerido nas sábias palavras proferidas pelo Mestre Doogen, que ecoam para nós do fundo do precipício, desde o século XIII, “O dedo que aponta para a lua, não é a lua”. É preciso ver a lua! Olhar na direção indicada pelo dedo, e não para o próprio dedo!

É preciso ver a lua!

E, nesta fase de lua minguante, em que ver a lua se torna uma tarefa sempre um pouco mais desafiadora, situação agravada pelo prenúncio da continuação de um período chuvoso e nublado, em nossa bela cidade do Rio de Janeiro, resta-me apenas brincar com a sabedoria das palavras milenares, usando a métrica do haicai:

não sabe, quem fala.
mas, aquele que sabe,
não fala, cala…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido e
Ilustração de Tsukioka Yoshitoshi – One Hundred Views of the Moon “Moon of Enlightenment”

Lua minguante

O dedo que aponta para a lua

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Garrafa 293 – Mão na maçaneta 2   1 comment

não quero ficar,
a menos que eu saiba
que posso partir…

Eduardo Leal
Inspirado no livro “O convite” de Oriah
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Eu te amo”, de Tom Jobim e Chico Buarque, na voz de Chico Buarque.

P.S. A respeito da escolha da trilha sonora, feita há alguns anos atrás, devo dizer que admiro a obra poética e musical do Chico Buarque, mas discordo completamente de sua militância política, defendendo abertamente regimes autocráticos e ditatoriais, e desejando que o modelo cubano seja a opção para o nosso país e seus vizinhos latino-americanos. Atitude hipócrita de quem necessita do máximo de liberdade para criação e divulgação de sua obra, como do próprio ar que respira, e flerta descaradamente com regimes restritivos de liberdade de expressão. E ainda deseja posar de “defensor da democracia”. Idiotice e incongruência, a meu juízo. Isso, sem falar da defesa da maior quadrilha de malfeitores que o país já viu instalada no governo e em um mesmo partido político, nos últimos 13 anos. Vade retro! Fazendo um exercício de tolerância, separando obra poética e musical de opções ideológicas, decidi manter, por enquanto, essa música como complemento do texto. É o que penso e sinto. E sinto muito!

Garrafa 292 – Mão na maçaneta 1   1 comment

No ano de 2001, recebi um presente na forma de um apelo para viver uma vida plena no livro “O convite” da escitora canadense Oriah, que na ocasião usava também um sobrenome ritual de “Mountain Dreamer”.

Desde então, essa publicação da Editora Sextante tem me acompanhado e tem sido objeto, ao mesmo tempo, de prazerosa e sofrida reflexão. Transcrevi o texto do convite na Garrafa 84, e mencionei outros trechos que me inspiram na Garrafa 86 e Garrafa 112.

Meu interesse pelas brincadeiras com as palavras com a métrica do haicai é anterior a isso, mas ganhou um canal de expressão a partir da criação deste Blog em 2005. Neste ano de 2012, em que o Blog completa 7 anos no mês de outubro, escolhi o mês de abril, que é para mim uma das épocas mais bonitas e significativas do ano, para me propor o desafio de publicar um haicai por dia. E escolhi usar a inspiração que me proporcionam as imagens e reflexões que já surgiram, e ainda vão surgir, a partir desse “convite”.

Meu desejo é que as pessoas que têm o hábito de bisbilhotar o conteúdo dessas garrafinhas que lanço no mar da Internet possam, pelo menos, esboçar um leve sorriso…

Recebam todos o meu melhor abraço!

intensamente,
sabendo que posso ir,
desejar ficar…

Eduardo Leal
Inspirado no livro “O convite” de Oriah
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Todo sentimento” de Cristovão Bastos e Chico Buarque, na voz de Chico Buarque

P.S. A respeito da escolha da trilha sonora, feita há alguns anos atrás, devo dizer que admiro a obra poética e musical do Chico Buarque, mas discordo completamente de sua militância política, defendendo abertamente regimes autocráticos e ditatoriais, e desejando que o modelo cubano seja a opção para o nosso país e seus vizinhos latino-americanos. Atitude hipócrita de quem necessita do máximo de liberdade para criação e divulgação de sua obra, como do próprio ar que respira, e flerta descaradamente com regimes restritivos de liberdade de expressão. E ainda deseja posar de “defensor da democracia”. Idiotice e incongruência, a meu juízo. Isso, sem falar da defesa da maior quadrilha de malfeitores que o país já viu instalada no governo e em um mesmo partido político, nos últimos 13 anos. Vade retro! Fazendo um exercício de tolerância, separando obra poética e musical de opções ideológicas, decidi manter, por enquanto, essa música como complemento do texto. É o que penso e sinto. E sinto muito!

Garrafa 244 – Amores da minha vida   2 comments

Quantos amores de verdade cabem em uma vida?
Quem sabe?
Mas eles sim me permitiram Ser quem sou agora.
Com gratidão, acendo uma vela perfumada para cada um deles, no dia de hoje…

Pausa para um breve haicai:

quem eu quero Ser?
amores da minha vida
me fazem saber!

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Quando o amor acontece” com João Bosco

Garrafa 207 – Saber para onde ir   Leave a comment

Tudo o que existe já foi, no início,
somente um sonho… uma idéia abstrata…
na cabeça de alguém.

Eduardo Leal
Ilustração de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir música inspiradora “Mercy Street” de Peter Gabriel.

Garrafa 119 – Ausência   Leave a comment

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
e eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face
teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
e eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Vinícius de Moraes
Foto de F. Monteiro (Noite) em http://olhares.aeiou.pt/noite/foto451136.html%3cbr

Garrafa 61 – Sozinho   Leave a comment

Por sobre a terra se estendem
ruas e caminhos mil,
mas levam todos
ao mesmo fim.

De dois em dois, três em três,
indo a pé ou a cavalo,
o último passo – sozinho
hás de dá-lo.

Não há, portanto, saber
nem poder algum melhor
do que o difícil a gente
fazer só.

Hermann Hesse
Tradução de Geir Campos
Foto de autor desconhecido

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