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Garrafa 510 – O Caminho do Meio na Política   2 comments

Sou um apreciador de boas metáforas e analogias e acredito que elas podem ser ferramentas poderosas de gestão do conhecimento. Esse assunto é bem abordado no artigo de Ikujiro Nonaka, “A Empresa Criadora do Conhecimento”, que consta do livro “Gestão do Conhecimento”, de Série Harvard Business Review, da Editora Campus, que li em 2001.

“A metáfora é o meio pelo qual indivíduos situados em contextos diferentes e com experiências diversas compreendem algo de maneira intuitiva, mediante o uso da imaginação e de símbolos, sem a necessidade de análises e generalizações. Por intermédio das metáforas, as pessoas reúnem seus conhecimentos sob novas formas, que servem para expressar o que sabem, mas ainda não está traduzido em palavras. Como tal, a metáfora é altamente eficaz em fomentar o comprometimento direto com o processo criativo nos primeiros estágios da criação do conhecimento.”

Já tinha entrado em contato com o tema, também, por meio dos Cursos de Programação Neurolinguística – PNL, que realizei a partir do ano 2000. E meu guru em PNL, Robert Dilts, em seu livro “From Coach to Awakener”, editado pela Meta Publications, em 2003, nos aponta que as metáforas e analogias nos permitem traçar paralelos entre diferentes ambientes ou experiências. Ele usa os conceitos estabelecidos pelo seu próprio guru, Gregory Bateson, antropólogo e teórico da área da comunicação. Cito em adaptação livre:

“A habilidade para encontrar metáforas e analogias é uma função do pensamento abdutivo, que Bateson contrastou com os processos de pensamento dedutivo e indutivo. O pensamento abdutivo, ou analógico, nos conduz a mais criatividade e essa seria a própria fonte da arte e do gênio. Bateson acreditava que as analogias nos levam a focalizar na estrutura profunda da nossa experiencia, ao invés de apenas nas suas diferenças superficiais.

Portanto, uma ideia complexa, que é muito bem descrita por meio de uma bela metáfora e se ajusta com perfeição  a uma determinada área do conhecimento ou experiência, também pode ser transposta para outra  área, trazendo luz e a possibilidade de solução de outro desafio igualmente complexo.

Não sigo qualquer tipo de religião formal e, ao mesmo tempo, respeito quem escolhe fazê-lo. Procuro retirar aquilo que faz sentido pra mim dos aspectos filosóficos de cada uma das doutrinas com as quais já entrei em contato, quer sejam elas as que vivenciei por influencia familiar, ou quer sejam todas as outras que busquei por meu próprio interesse em conhecer mais a respeito, enquanto percorro o meu próprio caminho espiritual. Esse caminho, segundo entendo, não passa necessariamente por abraçar nenhuma religião formal. Tem mais a ver com o conceito de contribuição, de compartilhamento e de inclusão, no nosso círculo de preocupações, de um número cada vez maior de pessoas e de seres sencientes. Mas reconheço que esse caminho individual também pode incluir algum aspecto religioso, para quem assim o desejar.

O conceito de caminho do meio, da filosofia budista, é uma dessas ideias que faz todo o sentido pra mim. Ele se refere ao conhecimento sobre o vazio (Sunyata) que transcende as declarações opostas sobre a existência. Incorpora a prática do não-extremismo, de um caminho de moderação e distância entre a auto-indulgência e a morte; da busca de um meio-termo entre determinadas visões metafísicas; e propõe uma explicação do estado de nirvana, ou de perfeita iluminação, no qual fica claro que todas as dualidades aparentes no mundo são ilusórias. Lao Tsé também nos aponta nessa direção quando nos diz que devemos buscar a justa medida de todas as coisas, fugindo dos extremos, e esse conteúdo já foi postado na Garrafa 159. E penso que esses conceitos do caminho do meio e da justa medida podem ser transpostos para outras áreas do conhecimento, mantendo sua validade como princípios universais. Essas são algumas das minhas crenças orientadoras que procuro utilizar em todas as áreas da vida.

Li essa próxima ideia que vou apresentar em seguida no Blog do escritor Paulo Coelho, há algum tempo atrás. Senti naquela ocasião o perfume sutil da filosofia budista e do taoismo, e a incorporei imediatamente ao meu cinto de utilidades de Metáforas Poderosas:

“A busca espiritual é uma ponte sem corrimão atravessando um abismo. Se alguém está muito perto do lado direito, um bom mestre deve indicar ‘para a esquerda!’ Se alguém se aproxima perigosamente do lado esquerdo, esse mesmo bom mestre deve indicar ‘para a direita!’. Os extremos nos afastam do caminho”.

Nesse caso, podemos substituir a “busca espiritual” por qualquer outro desafio ou área do conhecimento onde seja a escolha natural essa ideia de fugir dos extremos perigosos e de buscar um caminho que, de maneira segura, contemple e procure harmonizar as demandas existentes no ambiente e contexto em questão.

Penso que a área da Política é uma das áreas do conhecimento que muito pode se beneficiar com a utilização dessa metáfora, uma vez que essa retórica de direita e esquerda tem sido um lugar comum e fonte de conflitos e disputas intermináveis, desde a época da revolução francesa. Um olhar mais atento pode indicar que essa discussão pode ter começado muito antes, há cerca de 2.500 anos AC.

Acredito no poder dessa metáfora, apesar de que o seu próprio autor, Paulo Coelho, segundo o meu julgamento, tenha deixado de utilizá-la, de maneira sistemática, ao privilegiar uma visão política claramente “de esquerda” em seus diversos livros, e em algumas outras publicações e entrevistas. Expressou simpatia, quando não militou de maneira mais explícita, chegando até mesmo defender, em alguns momentos, o projeto da quadrilha de malfeitores do PT chefiada pelo ex-presidente Lula. Esse movimento unidirecional para a esquerda, de acordo com a própria metáfora que nos propõe, só poderia apresentar um único resultado, se não fosse interrompido a tempo, o de queda no abismo de uma ditadura de extrema esquerda!

Embora seja sempre desejável, a congruência, ou seja, o alinhamento do pensar, do falar e do agir nem sempre é um valor ou uma qualidade demonstrada por algumas “lideranças” conhecidas, sejam elas literárias, políticas ou espirituais. E isso não elimina o valor das próprias metáforas que são adotadas ora sim, ora não, de acordo com critérios de conveniência momentâneos.

Vamos então dar uma breve olhada na situação política da América Latina e do Brasil, nos últimos anos, e aproveitar para aplicar o conceito subjacente a essa metáfora,  e deixar que cada um siga em paz com suas próprias escolhas e preferencias, mesmo que sejam aparentemente incongruentes.

Se a justa medida, a de se trilhar o caminho do meio, seria aquela de procurar conciliar as visões extremas, sejam elas de direita ou de esquerda, vemos claramente que tanto a maioria dos países da América Latina, bem como o Brasil, oscilaram perigosamente à beira do abismo, alternando visões de extrema direita e de extrema esquerda, nas ultimas décadas.

Em movimentos inspirados e financiados por Cuba e pela antiga União Soviética, a partir dos anos 60, a maioria dos países do continente correu o risco de verem instaladas ditaduras do proletariado (de extrema esquerda) em seus respectivos territórios, um claro cenário de queda no abismo. E também viram, a seguir, como legítima reação de defesa contra esse movimento extremista esquerdizante, a instalação de décadas de governos militares (de extrema direita), um movimento que poderia ser interpretado como sendo em direção ao abismo localizado no outro lado dessa ponte sem corrimão.

Os processos de redemocratização em cada país seguiram seus próprios cursos, cada um ao seu tempo e à sua maneira.

Infelizmente, ao invés de se buscar o caminho do meio, o que seria desejável e razoável, outro movimento pendular de volta à extrema esquerda se seguiu de maneira clara e inexorável em toda a região.

Mesmo que essas visões de extrema esquerda, na maioria das vezes e felizmente não tenham sido completamente implementadas, com exceção do caso da Venezuela,  elas certamente foram a força inspiradora de várias iniciativas de movimento suicida, que foram corrigidas a tempo em alguns casos, antes da inevitável possibilidade de queda no abismo.

Uma fotografia também metafórica da posição de cada um dos países do nosso subcontinente com relação à beira do precipício, nessa ponte sem corrimão, certamente iria colocar a sua quase totalidade novamente à esquerda, na borda do abismo. Isso, graças à atuação continuada, coordenada e deletéria dos partidos de orientação socialista e comunista, desde os anos 90, seguindo a orientação do famigerado Foro de São Paulo. A Venezuela, quem sabe, já seria retratada em plena queda livre, em direção ao fundo do buraco, onde se encontrará certamente com Cuba, para manter os exemplos apenas na nossa própria América Latina.

Ora bolas, o que diria um bom mestre político, em um momento como este, de beira do abismo, ao utilizar a força dessa metáfora para o caso de cada uma das sociedades em questão?

Para a direita! E rápido!

Não me considero nenhum mestre em política, mas posso perfeitamente usar essa metáfora poderosa proposta por verdadeiros mestres consagrados. Eles, que têm me orientado em diversos assuntos existenciais é que são os verdadeiros mestres. E sua mensagem  também está ao alcance de qualquer pessoa de bom senso, desde que tenha olhos para ver e ouvidos para escutar.

A Argentina foi o primeiro país a fazê-lo, ao executar um claro movimento em direção à direita, com a escolha de Macri. E o Brasil, aos trancos e barrancos, parece se mover prudentemente nessa mesma direção, depois do impedimento de Dilma, a esquizofrênica, apesar da situação de transitoriedade e de mandato tampão de Temer. Veremos o que acontece em 2018, e se essa saudável tendência se confirma. Isso, é claro, se não houver nenhum outro sobressalto provocado pela Operação Lava-Jato, e o país mergulhe no abismo simplesmente por ausência de pessoas capazes de assumir o governo, pelo simples fato de estarem todas elas na cadeia.

Já antevejo os olhares de reprovação de alguns dos meus amigos simpatizantes ou militantes de esquerda, que apoiaram e ainda defendem o projeto de poder “bolivariano” do PT, e votaram no candidato do PSOL nas ultimas eleições municipais, e posso imaginar alguns dos seus comentários exaltados no mesmo tom de acusação: Golpista! Coxinha! Reacionário! Blá! Blá! Blá!

E posso sentir os olhares de aprovação e ouvir também avaliações equivocadas de pessoas simpatizantes ou militantes de extrema direita que desejam a volta dos militares ao poder, ou  da adoção de medidas insensatas de instalação de um capitalismo selvagem e insensível. E todos vibrando no mesmo tom: Esse é dos nossos! Direita, volver! Morte aos comunistas! Blá! Blá! Blá!

Mas não me importo com suas opiniões. Escolho me importar sim, com os sentimentos dos meus amigos e familiares mas, ao mesmo tempo, também escolho não dar a mínima para suas respectivas opiniões. Uma equação complexa que inclui equilibrar em justa medida doses generosas de sinceridade e de educação, será utilizada caso a caso. Assim tem sido feito, e assim continuará sendo feito.

Adepto da ideia do desenvolvimento de uma Política Integral, nada mais longe da verdade do que essas acusações simplistas de ser simpatizante ou militante de extrema direita! Ou de ser simplesmente um outro tipo de radical que combate a extrema esquerda!

Como já tive oportunidade de declarar várias vezes, não luto mais contra coisa alguma! Aquilo a que opomos resistência ganha força! Prefiro agir em favor do que considero valioso. E se alguém decidir me atacar pelas escolhas que faço, simplesmente me defendo. A energia flui para onde a atenção está!

No topo da minha escala de valores está a liberdade e, ao agir em favor da democracia, posso ser atacado por extremistas tanto de direita como de esquerda. E estou preparado para enfrentar tranquilamente ambos os tipos de ameaças. Estou apenas utilizando conceitos que considero princípios universais e procurando me alinhar, nesse caso específico, com os ensinamentos do Buda.

Segundo Ken Wilber, criador da Abordagem Integral, quando esses conceitos se aplicam à teoria política, de acordo com alguns dos critérios utilizados o Buda poderia ser considerado o primeiro representante da extrema direita e, ao mesmo tempo, já segundo outros critérios, o mesmo Buda também poderia ser considerado o primeiro representante da extrema esquerda. Nada de surpreendente para alguém cuja doutrina nos diz que todas as dualidades aparentes no mundo são na verdade ilusórias. E tudo isso, muito antes da revolução francesa. Estamos falando de 2.500 AC.

E que critérios propostos pela Abordagem Integral seriam esses?

Ao ser questionado durante um seminário, Wilber, usando como exemplo a situação política da sociedade norte-americana que tem alternado no poder representantes do partido republicano (de direita), também chamados de conservadores, e do partido democrata (de esquerda), também chamados de liberais (aqui no Brasil esse termo não se aplica) usou como critérios básicos o Modelo dos Quatro Quadrantes (EU/ISTO/NÓS/ISTOS) e a ideia dos Níveis e Linhas de Desenvolvimento de Consciência.

Em resposta à pergunta sobre o porque do sofrimento humano, ou sobre o porque de algumas pessoas serem pobres, as pessoas da direita tendem a responder que  eles não trabalham o suficiente, que não são éticos, que eles não respeitam os valores familiares, que eles não assumem responsabilidades, que eles usam drogas, e coisas assim, colocando as causas no interior de cada pessoa. Já os partidários de ideias de esquerda dizem que eles foram reprimidos, que vivem em uma sociedade injusta, e que essa sociedade não lhes deu oportunidades, em resumo, que as causas estão no exterior, na própria sociedade e não no interior do indivíduo. Os republicanos tendem a colocar as causas nos quadrantes interiores (EU/NÓS), enquanto os democratas tendem a colocar as causas nos quadrantes exteriores (ISTO/ISTOS). Nesse sentido, o Buda era um republicano, já que ele atribui 100% da responsabilidade pelo sofrimento a cada indivíduo, ao seu próprio carma criado por atos praticados em vidas passadas, e não se poderia culpar ninguém mais por isso.

Outro critério a ser usado se refere à importância dos direitos do indivíduo quando confrontados com as questões dos direitos da coletividade, e vice-versa. Nesse caso os republicanos (de direita) tendem a privilegiar os direitos individuais, ou seja os quadrantes individuais (EU/ISTO), enquanto os democratas (de esquerda) tendem a privilegiar os direitos coletivos, ou seja os quadrantes coletivos (NÓS/ISTOS).

O terceiro critério tem a ver com os níveis e linhas de desenvolvimento. Os republicanos, de maneira clássica, tendem a se enquadrar no meme azul, são fundamentalistas, acreditam nas verdades da Bíblia, são etnocêntricos, acreditam que o homossexualismo é um pecado, etc. Já os democratas, foram os primeiros a ascender ao meme laranja, e foi quando se falou pela primeira vez em direitos iguais.  Enquanto os azuis eram partidários do sistema de castas, os laranjas não aceitavam essa ideia, o que causou uma verdadeira “revolução” no pensamento da antiga Índia. O pensamento laranja usou a ciência para combater a mitologia, a democracia para combater a escravidão, e a ideia de um sistema representativo contra a ideia da monarquia. Nesse sentido o Buda foi um democrata, uma vez que estendeu a ideia de direitos iguais não só às pessoas, mas a todos os seres sencientes.

Os democratas, portanto estão situados em sua maioria no meme laranja ou acima, no meme verde, e tendem a pensar que as causas dos problemas são externas; já os republicanos estão situados no meme azul e tendem a pensar que as causas dos problemas estão no interior dos indivíduos e na cultura. Pelo fato dos primeiros democratas estarem no meme laranja, eles também começaram a se dizer “progressistas” ao contrário dos republicanos que defendiam valores mais conservadores. Isso tudo aconteceu há cerca de 200 anos atrás. Hoje, a situação evoluiu e em ambos os partidos há grupos azuis e laranjas, como os republicanos “de wall street” que também lutam pelos direitos individuais e falam em meritocracia. Já os democratas têm pessoas no meme verde e bradam seus slogans de multiculturalismo, de pós-modernismo, e também criam fricção com os democratas tradicionais do meme laranja. Um fato curioso, quando se observa a questão dos estágios pré-convencionais e dos pós-convencionais é que ambos votam nos democratas. As pessoas do meme vermelho, que é anterior ao azul, por exemplo tendem a se posicionar a favor dos democratas, assim como os do meme verde.

E esse é um grande desafio, tanto no caso da sociedade americana, mas como em qualquer outra, o de se analisar as questões partidárias específicas com esse olhar Integral. E o  caso brasileiro apresenta um desafio ainda maior, com a enorme pulverização de 35 partidos e legendas, com a ausência de massa crítica qualificada com pessoas estudando o assunto com um olhar integral, e também pela ausência de informações e estatísticas confiáveis a esse respeito. A tarefa daqueles interessados em estabelecer os contornos do que poderá vir a ser uma verdadeira política integral é a de levar em conta não só as visões de todos os quadrantes, mas também contemplar as visões dos diferentes níveis e linhas de desenvolvimento de consciência das pessoas envolvidas.

É claro, seria desejável, também, que os governantes eleitos pudessem estar nos níveis de consciência mais elevados, nos memes amarelo e turquesa, de modo a propor e implementar uma verdadeira visão integral, e não apenas uma visão limitada de nível azul, laranja ou verde, sem falar de uma visão apenas de nível vermelho o que seria simplesmente um retrocesso catastrófico. Segundo Wilber, uma alta dose da responsabilidade que é um valor típico dos conservadores do meme azul é desejável, para que se leve adiante com sucesso uma tarefa dessa envergadura.

Tendo feito todas essas considerações, e voltando à metáfora da ponte sem corrimão e do ponto de beira do abismo onde nos encontramos, depois do país se ver livre de 13 anos de uma agenda de esquerda, inspirada por ideais de extrema esquerda, acredito que é simplesmente uma reação natural que a sociedade brasileira sinta a necessidade de uma guinada à direita, isso apenas para posicionar o país em um caminho mais próximo do caminho do meio, como desejam as pessoas de bom senso e aquelas que acreditam na força dessa metáfora, que tem para mim o valor de um princípio universal.

Nos últimos tempos, temi sinceramente que isso não pudesse ser feito sem uma quebra institucional, o que felizmente não ocorreu, mas os desafios para colocar o país de volta nos trilhos de uma evolução consistente permanecem enormes.

Depois de uma eleição municipal no Rio de janeiro, em que um candidato do nível azul acabou de se eleger, o que nos livrou de outro candidato que se diz de nível verde, mas que flerta descaradamente com seus simpatizantes de nível vermelho, os “Black Blocs”, fica muito claro que temos um longo caminho a percorrer até que os contornos do que poderá se tornar uma Política Integral fiquem melhor definidos.

É o que penso e compartilho com os amigos neste momento.

Eduardo Leal

Ilustração de autor desconhecido

Instruções de utilização: Assistir à resposta de Ken Wilber, em seminário sobre Abordagem Integral.

o-caminho-do-meio

Garrafa 503 – Arco esticado, íris brilhante!   Leave a comment

Em busca de inspiração para minhas brincadeiras com as palavras com a métrica do haicai, volta e meia  minha atenção é despertada pela percepção de alguma sensação corporal inesperada; pela visão de alguma imagem interessante ou pela leitura de algum texto instigante; pela escuta de algum som ou música suave ou surpreendente; pela detecção da presença de algum odor agradável ou repulsivo; ou pela degustação de alguma comida saborosa ou estranha ao próprio paladar.

E, muito frequentemente, isso ocorre pela sinestesia, ou a ocorrência simultânea de algumas dessas situações: uma sensação corporal que evoca uma imagem armazenada na memória afetiva, ou vice-versa; a associação do odor e do sabor de determinadas comidas ou bebidas com os lugares e pessoas em companhia de quem elas foram degustadas; ou de um perfume suave e nuvemovente percebido em uma rua movimentada, o que nos faz interromper nossa apressada caminhada, instintivamente mover nosso corpo todo na direção daquela “inspiração” e, muito mais rapidamente do que qualquer promessa enganosa de cartomantes inescrupulosas, traz sim a pessoa amada “de volta” em um segundo!

A visão de um belo arco-íris,  quando o sol explodiu em sete cores e revelou então os sete mil amores que o Tom guardou pra dar para Luiza, despertou minha memória musical. E as gotículas de água ainda em suspensão na atmosfera de outono, em uma tarde chuvosa, trouxeram de volta também as diversas lendas sobre um misterioso e desejado pote de ouro e brilhantes escondido na extremidade distante daquele arco fugaz e colorido. E pensamentos sobre quem possivelmente teríamos que nos tornaro que teríamos que fazer para chegar até lá, e resgatar o cobiçado premio por nossa eventual coragem e persistência. Tornar-me quem, senão eu mesmo? Fazer o que, senão ação amorosa? Fazer quando, senão agora?

E minha imaginação evocou também outro tipo possível de arco esticado em seu limite pelo filosófico arqueiro zen Eugen Herrigel, de minha memória literária. E a flecha de prata, aguardando a súbita liberação, carrega a sua própria alma, sua mensagem de vida e morte lançada na escuridão silenciosa da noite, enquanto a única fonte de luz perceptível naquele instante é o brilho interno da íris do arqueiro.

Apenas outro tipo de conexão arco-íris…

Pausa para um breve haicai:

arco esticado,
com a flecha de prata,
íris brilhante…

Eduardo Leal
Ilustração de autor desconhecido adaptada por Eduardo Leal
Instruções de utilização: Ouvir Luiza, no piano e voz de Tom Jobim

Íris brilhante 3

Garrafa 499 – Cinquenta tons de saudade   Leave a comment

Como costumava acontecer desde que se conheceram, e mesmo tendo se passado já muitos anos desde que tinham se visto pela ultima vez, ele tinha adormecido acalentando com ternura a memória de sua imagem quase sempre sorridente, e sonhado com ela na noite anterior àquele dia especial.

Sonhou que tinham se reencontrado brevemente, a sós, e que conversaram animadamente, sem mágoas nem rancores, revendo os detalhes da fina tapeçaria entretecida com os fios da vida de cada um, tanto durante o período em que estiveram próximos, quanto depois que cada um seguiu o seu próprio caminho. Ela estava feliz com as escolhas que tinha feito no passado, e com sua situação atual, e ele se alegrou de verdade com isso. O que aconteceu foi a única e melhor coisa que poderia ter acontecido.

Ele tinha acordado bem cedo, como costumava fazer todas as manhãs. Mas, naquele dia de celebração do seu aniversário, como também já há muito tempo acontecia, não poderia vê-la pessoalmente. Não poderia estar com ela, nem que fosse apenas por alguns minutos. Não poderia segurar suas mãos e nem lhe dar um abraço longo e apertado. Isso estava simplesmente fora de questão.

Abandonando sentimentos de frustração e tristeza que imediatamente inundaram seu coração, mas que de nada serviriam naquela linda manhã de outono, deu um longo e profundo suspiro, e silenciosamente se perguntou: O que poderia ser feito? Como sentir-se um pouco mais próximo, mesmo que fisicamente muito distante? Como lhe enviar boas vibrações e energia amorosa, estando a criatura em outro hemisfério? E como entrar ele próprio em um estado mais positivo, apesar de uma grande e incômoda saudade da amiga aniversariante?

Procurou então agarrar-se a algumas pequenas lembranças, na verdade alguns objetos transformados em relíquias amorosas, que ele sabia tinham sido manuseados e tocados por ela, há muito tempo atrás. Eles ainda guardavam quem sabe algo de sua presença, de sua vibração original, de sua energia, do seu toque. Assim acreditava, e assim podia sentir, quando os invocava em sua memória cinestésica e os tocava de novo também.

Vasculhou suas gavetas e enfiou-se então dentro daquele short que tinha recebido de presente em um dia do seu próprio aniversário, e com o qual ela o havia surpreendido na saída do trabalho. Gostava dele de verdade, e o usava de vez em quando em suas caminhadas diárias pelas redondezas. Fazia isso também para matar a saudade, e sentia-se acompanhado por ela, quem sabe até dentro dela, em cada uma dessas ocasiões. Naquela manhã, entretanto, a título de uma distante e silenciosa celebração naquela data tão significativa, sentiu que só isso não seria o suficiente, já que era uma atitude rotineira. Precisava de algo mais.

Buscou então na sua estante um livro que ela tinha tomado emprestado por algumas semanas, e que tinha utilizado como referência para o seu trabalho de conclusão de curso. No seu interior encontravam-se preservadas diversas anotações feitas com uma versão de sua letra intencionalmente miúda e compactada, para caber e se acomodar nas laterais, no topo e nos rodapés de inúmeras daquelas páginas.

Lá estavam registrados seus comentários, suas observações, ora usando seu próprio código taquigráfico, ora apenas atribuindo uma nota “10” ou um “M” para longos parágrafos assinalados ou sublinhados a lápis de maneira suave: tudo aquilo que tinha despertado sua atenção e interesse, naquela ocasião.

E muitas emoções há muito tempo represadas voltaram com força, com a releitura de cada trecho, com a visão de cada rabisco, imediatamente associadas à memória do som de sua voz, durante os encontros que ocorreram ao longo do processo de pesquisa para aquele trabalho, e após a devolução do precioso livro para o seu zeloso proprietário.

Lembrou-se de que, nas semanas seguintes, seguiram-se diversas conversas, com a discussão das observações de parte a parte, com suas vozes interrompidas por longos silêncios, acompanhados de olhares ora divertidos ora curiosos, e por longas carícias e beijos apaixonados.

Ele nunca teve acesso ao texto final daquele trabalho. Não importa. Ficou feliz em poder contribuir de alguma maneira naquele projeto acadêmico, como ela já tinha feito em ocasião anterior em um projeto seu, elaborando slides para uma apresentação em PowerPoint, que complementaram e ilustraram a monografia entregue no seu curso de pós-graduação. Por algum tempo, tinham sido muito felizes na companhia um do outro. E não é isso que um sentimento de amor verdadeiro nos sugere fazer? Sempre e muito? Aproveitar a companhia do outro, e torcer e contribuir para o seu sucesso?

Sentiu-se melhor assim, tendo definido o seu ritual de celebração especial incluindo essas duas etapas.

Naquela mesma manhã, realizou uma longa caminhada usando seu short-relíquia. E procurou respirar longa e profundamente o ar fresco da manhã, cumprimentado gentilmente cada árvore e pessoa que encontrou pelo caminho que costumava percorrer para chegar até a praia. E sentiu a brisa levemente salgada fluindo entre suas pernas, no tronco suado, no próprio rosto e nos fios do cabelo. Pele arrepiada, permaneceu longamente com o olhar perdido na linha do horizonte, onde os diversos tons de verde e de azul do mar se encontravam com o azul luminoso e profundo do céu de abril. Cinquenta tons de verde, de azul e de saudade. Voltou para casa em paz.

Já com o livro reencontrado, a decisão foi diferente. Apenas alguns momentos de rápida leitura não seriam o bastante. Resolveu fazer uma celebração mais prolongada, à altura da ocasião. Decidiu reler o livro inteiro, ao longo dos próximos trinta dias, mesmo já estando envolvido com a leitura de outras obras em paralelo. E isso fazia todo o sentido também, em função de quem era o seu autor, seu principal mentor em assuntos de PNL, do tema da modelagem de estratégias de sucesso, e do momento profissional que estava vivenciando. Sincronicidade com o Universo, e o simples reconhecimento e aceitação da presença de coincidências significativas, que sempre aconteciam com ele, com ela, e com cada um de nós, sempre e quando nos mantemos atentos para reconhece-las em nossas vidas. E assim foi feito.

Decorridos os trinta dias de releitura e celebração, deu-se conta de que o livro foi o complemento perfeito para as investigações pessoais que estava realizando na ocasião. Alguns trechos mais significativos podem ter sido os seguintes:

“A solução de conflitos relacionados à identidade implica ‘segmentar’ num nível acima ao da própria identidade. Se cumprirmos esse requisito seremos capazes de ampliar nossos mapas de mundo para percebermos a nós mesmos como parte de sistemas mais amplos que estão à nossa volta, e alcançarmos um senso de missão e propósito global.”

“Uma identidade completa é um oceano inteiro, não simplesmente cada peixe diferente que nada nele. A identidade verdadeira de uma pessoa não é uma determinada imagem ou um sistema de medida, mas preferencialmente a luz que torna ambos possíveis.”

“Talvez não seja acidental que tantas pessoas ao longo da História tenham relacionado identidade e espírito com luz. Quando alguém alinha ou identifica a si mesmo com “matéria” ou “espírito”, corpo ou mente, Ego ou Id, o lado esquerdo do cérebro ou o lado direito do cérebro, lógica ou imaginação, estabilidade ou mudança, então essa pessoa está criando um desequilíbrio e um conflito em potencial. Quando alguém identifica a si mesmo com algo mais parecido com a luz, então a pessoa pode ver que o importante é o relacionamento entre esses elementos. Evolução e adaptação, por exemplo, são uma função de um processo de mudança no nível individual e de um processo de estabilização no nível do ambiente mais amplo. A evolução pessoal requer o mesmo equilíbrio de forças nos diferentes níveis lógicos.”

Recordando o sonho que tinha vivenciado há trinta dias atrás, e desejando que um breve encontro daquele tipo pudesse acontecer em algum momento do futuro, rabiscou no seu bloco de notas:

sem nenhum rancor,
conversa animada,
motivos certos.

Eduardo Leal
Pintura de Waldomiro Sant’ Anna – Leitura a dois
Leitura recomendada: “A Estratégia da Genialidade – Einstein” de Robert Dilts, Summus Editorial

Leitura a dois,

Garrafa 496 – Os nós de todos nós   2 comments

Nos últimos dias, mais precisamente no dia 13 de maio, data simbólica remota e recente, já respirando novos ares com a possibilidade de recuperação do nosso país depois de estar submetido a uma espécie de escravatura política ao longo de 13 anos de governos corruptos e de viés autoritário, iniciei a prazerosa leitura de “Relembramentos – João Guimarães Rosa, meu pai” de Vilma Guimarães Rosa, editado pela Nova Fronteira.

Recomendo com empenho essa leitura aos interessados na vida e na obra desse nosso grande escritor brasileiro, que também foi médico de cidade do interior e, mais tarde, ativo diplomata. Ganhou o mundo com suas viagens, seu profícuo trabalho, e suas obras fantásticas. Trata-se de um livro que apresenta detalhes da vida do imortal autor de “Grandes Sertões: Veredas”, como vista pelo olhar amoroso e sensível de sua filha mais velha, ela que também seguiu a carreira de escritora, e que é reconhecida por uma obra que inclui diversos livros de contos. Desta vez, envereda pelas próprias memórias do seu venerado pai, nas palavras da própria autora organizadas com amor e fidelidade, não uma biografia, apenas um “abreviado de tudo”.

Um trecho extraído de um Curso de Extensão Universitária que a autora ministrou na Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras, em Londrina, no Paraná, em 1970, atraiu especialmente minha atenção. Fala com beleza e delicadeza a respeito do ofício do escritor e da natureza da própria vida:

“O infindável fio da vida entreprende os homens na travessia das épocas. Ninguém inventa nada. Tudo preexiste e nos sucede. O escritor percebe e reconta, olhando o fio, desenovelando-o, tecendo tramas, rebordando tapeçarias finas. É o seu encargo.”

Estive afastado de minhas habituais brincadeiras com as palavras com a métrica do haicai, desde o ano passado, em grande medida por andar atormentado e mergulhado em tristeza profunda por conta desse período acentuado de trevas e de ausência de esperança que o país vem atravessando nos últimos anos. Confesso que não via solução a curto ou médio prazos para os enormes problemas que desafiam a sociedade brasileira. Mais do que isso, pressentia um ambiente propício a uma prolongada guerra civil fratricida, e já me via de alguma maneira sendo empurrado em direção à clandestinidade, se essa quadrilha de malfeitores não saísse do poder. Agora, já consigo ver alguma luz no final do túnel, apesar de persistirem riscos de retrocesso.  A leitura dessa passagem, entretanto, me trouxe de volta alguma inspiração para me aventurar em um breve haicai:

nós infinitos,
de cada vida, fios
entretecidos.

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Leitura recomendada: “Relembramentos – João Guimarães Rosa, meu pai” de Vilma Guimarães Rosa, Editora Nova Fronteira.

Nós de todos nós 3

Garrafa 488 – Mestre e Aprendiz   1 comment

Ao cumprimentar uma antiga aluna de Coaching pelo seu aniversário, na semana passada, recebi um generoso e amável feedback positivo a respeito dos ensinamentos que lhe transmiti durante um curso ministrado em 2007. Isso inundou meu coração com o sentimento de gratidão e me fez refletir a respeito dessa curiosa relação Professor-Aluno, Mestre-Discípulo, Instrutor-Aprendiz, Coach-Explorador de novas possibilidades de futuro e de minhas próprias atitudes em cada uma dessas duas posições complementares, ao longo dos meus diversos processos de aprendizado.

Na mesma semana, incluindo na minha rotina semanal novas atividades para melhor harmonizar minha Prática de Vida Integral, depois de um flerte de vários anos com essa arte marcial, iniciei meu treinamento como aprendiz em um Curso de Aikido, após terminar a leitura de “A Arte da Paz” de Morihei Ueshiba. No dojo onde fui acolhido, sou o praticante menos graduado.

Pra começo de conversa, vale a pena ressaltar as palavras do nosso brilhante escritor João Guimarães Rosa quando nos diz que “Mestre não é quem sempre ensina mas aquele que, de repente aprende.” Infeliz daquele que, assumindo uma posição de instrutoria em algum assunto, acha que já sabe tudo sobre o tema em questão e despreza os raros mas valiosos ensinamentos que pode receber de seus respectivos aprendizes. Igualmente infeliz é aquele iniciante em qualquer prática que deixa de ver as coisas com aquele “Olhar de imigrante” ou “Olhar de deslumbramento” de quem vê um novo mundo pela primeira vez, e se deixa abater pela própria falta de conhecimento e experiência, sentindo-se intimidado e deprimido e desperdiçando diversas oportunidades de aprendizado e de autodesenvolvimento. E, como no provérbio em que “A primeira pessoa que escuta o que dizemos somos nós mesmos” podemos obter percepções e “insights” até mesmo ouvindo a nossa própria voz durante o processo, quando estamos citando e usando como referência o trabalho de alguém mais experiente.

Em qualquer situação meu feedback favorito é: “Puxa, nunca tinha pensado nisso dessa maneira!” Maravilha! Provoquei reflexão em alguém, ou eu mesmo fui levado por outra pessoa a ver as coisas de uma maneira ainda não explorada!

Meus questionamentos me levaram a rever o conteúdo de pelo menos dois livros: “From Coach to Awakener” de Robert Dilts e “Duas Perspectivas sobre a Iluminação” de A. S. Dalal.

Robert Dilts, usando seu elegante Modelo de Níveis NeuroLógicos que é amplamente usado pelos adeptos do Coaching com Programação Neurolinguística (PNL), discute os diferentes tipos de apoio que podem ser prestados, segundo sua visão, por um Coach com “C” maiúsculo. Dilts considera que o Coach com “C” minúsculo, que costumo denominar Coach Convencional, focaliza mais no Nível de Mudança Comportamental referindo-se ao processo de apoiar outra pessoa a obter ou melhorar um determinado desempenho comportamental. Essa abordagem é derivada primariamente do modelo esportivo de treinamento. Já o Coach com “C” maiúsculo envolve apoiar as pessoas no processo de obter resultados palpáveis em diversos Níveis de Mudança, enfatizando o fortalecimento da identidade e dos valores e procurando transformar sonhos e metas em realidade. Abrange as habilidades desenvolvidas por um Coach com “C” minúsculo, mas inclui muito mais. Para cada um dos diferentes Níveis de Mudança (Ambiente / Comportamento / Capacidade / Crenças e Valores / Identidade / Espiritual), além das respectivas perguntas poderosas que nos permitem investigar qualquer questão em cada Nível, são apresentados os tipos de apoio que podem/devem ser prestados (Guia / Coach com “C” minúsculo / Professor ou Consultor / Mentor / Patrocinador / Guru) e os respectivos estilos de liderança que melhor se adaptam a cada papel. Se o próprio Coach não puder exercer todos esses papéis, e é esperado que não consiga fazê-lo em todos os Níveis e para todos os tipos de Objetivos ou Metas, deve ajudar seu Explorador de novas possibilidades de futuro a encontrar quem possa complementar seu apoio, dependendo dos tipos de Objetivos/Metas que estejam sendo trabalhados.

TIPOS DE APOIO QUE PODEM SER PRESTADOS DURANTE UM PROCESSO DE COACHING

Tipos de Apoio Prestados por um Coach

No Nível do Ambiente relacionado ao Objetivo/Meta, o Coach com “C” maiúsculo assume o papel de Guia, se está familiarizado com esse ambiente, e pode adotar o estilo de liderança de Gerenciamento por exceção. Caso contrário, algum outro Guia que domine esse ambiente deve ser consultado. A necessidade de convite a outros profissionais acontece comigo com frequência pois não posso pretender estar familiarizado com os ambientes de todos os tipos de Objetivos/Metas em que sou convidado a apoiar o processo de exploração de novas possibilidades de futuro.

No Nível de Comportamentos relacionado ao Objetivo/Meta, o Coach com “C” maiúsculo assume o papel de Coach com “C” minúsculo, atendo-se aos aspectos comportamentais e às melhores práticas recomendadas para essa situação específica e pode adotar o estilo de liderança Estímulo por recompensa. A necessidade de convite a outros profissionais acontece comigo com menor frequência pois é possível descobrir um conjunto de boas práticas relacionadas aos diversos tipos de Objetivos/Metas em que sou convidado a apoiar o processo de exploração de novas possibilidades de futuro, tanto em pesquisas na literatura especializada quanto na Internet. Eventualmente, o mesmo profissional convidado a atuar como Guia pode prestar apoio nesse nível também.

No Nível de Capacidades relacionado ao Objetivo/Meta, o Coach com “C” maiúsculo pode eventualmente assumir o papel de Professor ou Consultor, ministrando os conhecimentos julgados necessários para se lidar com essa situação específica e pode adotar o estilo de liderança de Estímulo intelectual. Essa é uma situação extremamente delicada uma vez que o papel do Consultor (o Professor é um tipo de Consultor) é sugerir o que fazer, e a ultima coisa que um Coach deve fazer é sugerir o que fazer, apresentando no máximo sugestões indiretas, quando a pessoa não consegue perceber alternativas para avançar. Sugiro que as eventuais Sessões de Consultoria prestadas pela mesma pessoa que conduz um Processo de Coaching sejam realizadas em outro local e em outro momento, para que não haja confusão de papéis na cabeça do Explorador de novas possibilidades de futuro/Cliente/Aluno. Tenho me sentido confortável em oferecer consultoria em Comunicação Interpessoal, Desenvolvimento de Habilidades Gerenciais e de Liderança e Elaboração de Planos de Negócio. Eventualmente, o mesmo profissional convidado a atuar como Guia ou Coach com “C” minúsculo pode prestar apoio nesse nível também.

No Nível de Crenças e Valores relacionado ao Objetivo/Meta, o Coach com “C” maiúsculo pode e deve assumir o papel de Mentor, buscando identificar e neutralizar eventuais crenças limitantes e implantar e reforçar um conjunto de crenças poderosas que deem permissão para a pessoa avançar em relação à direção desejada e pode adotar o estilo de liderança Inspiracional. Esse é o nível em que me sinto mais à vontade, uma vez que a abordagem de Coaching Centrado em Valores, que desenvolvi a partir de 2006, enfatiza a exploração desse nível lógico uma vez que possuímos crenças (limitantes ou não) a respeito de todos os outros níveis de mudança (tanto acima como abaixo desse nível). Além disso, os diversos Níveis de Desenvolvimento de Consciência propostos pela Abordagem de Coaching Integral, que também fazem parte do conjunto de ferramentas que utilizo, são em grande medida relacionados a diferentes Sistemas de Crenças e Valores com os quais nos identificamos, em maior ou menor grau, à medida que avançamos em nosso próprio processo de desenvolvimento.

No Nível de Identidade relacionado ao Objetivo/Meta, o Coach com “C” maiúsculo pode e deve assumir o papel de Patrocinador, reforçando a autoestima da pessoa, oferecendo feedback positivo e construtivo, além de fornecer estimulo constante para o reconhecimento e a utilização de seus talentos, transformando-os em pontos fortes para utilização em proveito da conquista de seus respectivos Objetivos e Metas. Em uma Abordagem de Coaching Integral, como a que adoto, o trabalho com a Sombra da pessoa (aqueles conteúdos que são varridos para o inconsciente e que envolvem emoções primárias que não se deseja admitir, mas que volta e meia reaparecem como emoções secundárias sabotando suas ações) pode recomendar a participação, em paralelo ao Processo de Coaching, de um profissional da área de psicanálise ou psicoterapia. O estilo de liderança sugerido é o de Consideração individualizada. Sinto-me bastante confortável em adotar esse estilo de liderança e atuar nesse nível lógico que tem um profundo impacto nas mudanças que ocorrem em todos os níveis inferiores e que recebe a influência decisiva das eventuais mudanças promovidas no Nível de Crenças e Valores. Nosso Nível de Identidade é, em grande medida, a expressão de uma crença a respeito de quem pensamos que somos.

Finalmente, no Nível Espiritual relacionado ao Objetivo/Meta, que nada tem necessariamente a ver com religião e sim com “a quem mais nos sentimos conectados e a quem mais incluímos no nosso círculo de preocupações, cuidados e contribuições”, e ainda, “de quem podemos obter apoio para desenvolvimento de nossos projetos pessoais e coletivos”, o Coach com “C” maiúsculo pode eventualmente assumir o papel de Guru (o que promove o despertar), contribuindo para promover a elevação do nível de desenvolvimento de consciência da pessoa, meta recorrente em uma Abordagem de Coaching Integral e, muito mais raramente, no seu despertar para estados/níveis de consciência intuitivos (além da mente). Com muito maior frequência, o que costumo fazer é estimular o questionamento a respeito da necessidade de apoio externo proveniente da família, de amigos, de guias, de consultores e professores, de mentores, de patrocinadores, de gurus espirituais e até mesmo de algum tipo de divindade. Se a pessoa possui uma crença religiosa, a crença em uma Divindade pode exercer uma forte influência na quantidade de esforço que pode ser alocada às suas tarefas de desenvolvimento pessoal. Identificadas essas necessidades, apoio o processo de sua obtenção. O estilo de liderança sugerido é a Liderança Carismática e Visionária.

Os questionamentos provocados pela necessidade de apoio às mudanças no Nível Espiritual me fizeram voltar a consultar o ótimo livro de A. S. Dalal em que ele nos oferece um estudo comparativo das abordagens propostas por dois Mestres Espirituais Iluminados para o despertar de um nível de consciência além da mente: Sri Aurobindo e Echart Tolle. Selecionei alguns comentários apenas referentes ao conteúdo do Anexo II dessa obra em que são apresentados “Os Três Instrumentos do Professor”, na verdade de um Guru ou Mestre Espiritual, na visão de Sri Aurobindo. Após a definição de cada um desses “Instrumentos” apresento, como sempre gosto de fazer, uma breve brincadeira com as palavras, com a métrica de um haicai, e que foi inspirada nessa leitura. Incluí um título em cada haicai.

“Instrução, exemplo e influência – esses são os três instrumentos do Guru.”

Sobre a Instrução, Sri Aurobindo nos adverte que:

“… o Professor prudente não visará se impor ou impor suas opiniões na aceitação passiva da mente recebedora; ele oferecerá somente o que é produtivo e seguro como uma semente que crescerá sob a proteção interior divina. Ele buscará despertar muito mais do que instruir; objetivará o desenvolvimento das faculdades e das experiências por um processo natural e uma expansão livre. Ele ensinará um método como um apoio, um dispositivo utilizável, não como uma forma imperativa ou uma rotina fixa. E, ele estará na guarda contra qualquer transformação dos recursos em uma limitação, contra a mecanização do processo. Sua atividade completa é despertar a luz divina e iniciar as atividades da força divina da qual ele é em seus próprios termos apenas uma ferramenta e um apoio, um corpo ou um canal.”

Germinação

Instrução divina

rota que seduz:
de dentro da semente
impulso de Luz!

 

Sobre o Exemplo, Sri Aurobindo nos diz que:

“O exemplo é mais poderoso do que a instrução; mas, não é o exemplo dos atos externos nem da natureza pessoal que tem a maior importância. Eles têm seu lugar e sua utilidade; no entanto, o que na maior parte dos casos estimulará aspiração nos outros é o fato central da realização divina dentro dele governando toda sua vida e seu estado interior e todas as suas atividades. Esse é o elemento essencial e universal; o restante pertence à pessoa e às circunstâncias individuais. É essa realização dinâmica que o sadhaka (Praticante de desenvolvimento espiritual) deve sentir e reproduzir em si mesmo de acordo com sua própria natureza; ele não necessita de esforço após uma imitação do exterior que pode muito bem ser mais esterilizador do que gerador de frutos corretos e naturais.”

Exemplo de conduta

Exemplo

mais poderosa
que qualquer informação:
ação amorosa!

 

Sobre a Influência, essas são as palavras de Sri Aurobindo:

“A influência é mais importante do que o exemplo. A influência não é a autoridade exterior do Mestre sobre seu discípulo, mas sim o poder de seu contato, sua Presença, da proximidade de sua alma com a alma do outro, infiltrando-se por ela, muito embora em silêncio, o que ele propriamente é e possui. Essa é a marca suprema do Mestre. Assim, o maior de todos os Mestres é muito menos um Professor do que uma Presença derramando a consciência divina e sua luz, poder, pureza e êxtase em todos que se mostram receptivos ao seu redor.”

Mestre e discípulo

Influência

em plena calma,
mestre e discípulo,
alma com alma.

 

Eduardo Leal
Ilustração de Eduardo Leal baseada no conteúdo de “From Coach to Awakener” de Robert Dilts
Haicais de Eduardo Leal
Fotos de autores desconhecidos

Garrafa 485 – O pássaro   Leave a comment

Recebi na tarde de ontem, pelo correio, presente de aniversário que enviei para mim mesmo: o último livro de poesias de Zélia Guardiano “Caderno de Desapontamentos”, da Editora Penalux.

Obra cheia de delicadezas poéticas, que sorvi sofregamente de um só gole assim que chegou, será novamente degustada lentamente como convém fazer com o conteúdo das garrafas de vinho das melhores safras e procedências.

Transcrevo abaixo um dos poemas que me encantou:

Parece empalhado
O pássaro que
Ensimesmado
Pousa
Sobre o mourão
Da cerca
De arame farpado

Suas tênues penas
(Só as penas)
Sutilmente
Movem-se
Ao sopro
De uma leve brisa

Ninguém precisa
Perguntar-lhe:
Em que pensa?

Vê-se:
Com olhos
Embaçados
Fixos num ponto
Tenta decifrar
Enigma

(Seria a vida?)

Zélia Guardiano
Foto de autor desconhecido

Anu-branco rabo-de-palha

Garrafa 472 – Hierarquia não é palavrão!   2 comments

Tenho observado em meus círculos de relacionamento, e vejo isso com grande curiosidade e atenção, e também com alguma preocupação e tristeza, um discurso cada vez mais frequente que alardeia aos quatro ventos que “Todas as hierarquias são opressoras” ou “Abaixo todas as formas de hierarquia”. Essas pessoas aparentemente não se dão conta de que, quando sobem em seu pequeno caixote de madeira com seu megafone na mão, vociferando palavras de ordem, na verdade estão pretendendo, de uma maneira hierárquica, se colocar acima das outras pessoas “inferiores” que não pensam como elas e que ainda não foram esclarecidas pelo sopro do conhecimento da verdade que só elas detêm. E não se dão conta, também, de que há pelo menos dois tipos bem diferentes de hierarquias: as “hierarquias de dominação” e as “hierarquias de crescimento”.

Hierarquias de Dominação X Hierarquias de Crescimento

Uma hierarquia de dominação, como seu próprio nome indica é opressiva, um sistema de categorias e castas que de alguma maneira domina, explora e oprime as pessoas. E toda hierarquia que impede o crescimento individual ou coletivo é uma hierarquia de dominação. O sistema de castas, com a divisão da sociedade indiana em grupos sociais rígidos, com raízes na sua história milenar e que ordenou a vida dos indianos por milênios, tendo sido abolido em sua ultima Constituição, mas não dos corações e mentes de muitas pessoas, é um exemplo desse tipo. O comunismo, com sua ideia utópica de que é possível eliminar todas as classes, criando uma classe “única” em uma “ditadura do proletariado” e, é claro, controlada por uma “classe dirigente” autocrática, é outro exemplo de hierarquia de dominação. Já as hierarquias de crescimento, também chamadas de hierarquias de realização são, por sua vez, os próprios estágios ou níveis do desenvolvimento que se pretende alcançar ao longo de um processo de crescimento e realização de qualquer natureza. No mundo natural, as hierarquias de crescimento estão espalhadas em todas as partes, sendo a mais comum a que envolve a transformação de átomos em moléculas, de moléculas em células e de células em organismos. E nesse caso os níveis mais elevados não oprimem os menos elevados, mas os abraçam, os abarcam, os incluem, os abrangem. São sempre hierarquias aninhadas (nidiformes), implicando que cada nível mais elevado transcende e inclui os seus precedentes.

Dando seguimento ao meu impulso de buscar novas formas de apoiar o desenvolvimento de pessoas e organizações com as quais estabeleço contato, em novembro de 2005, em um Curso de Coaching Integral, fui apresentado a uma elegante estrutura teórica (Modelo Integral) para organizar o mundo e suas atividades em cinco categorias simples que são, ao mesmo tempo, aspectos de nossa própria experiência: os Quadrantes, os Níveis, as Linhas, os Estados e os Tipos. Essa abordagem, proposta pelo filósofo Ken Wilber, nos ajuda a ver a nós mesmos e o mundo que nos cerca de um modo mais abrangente que inclui as realidades objetivas (Cosmos) e as subjetivas, e tudo isso de um ponto de vista individual e também do coletivo. Essas realidades estão associadas a um conceito mais abrangente de Kosmos, palavra grega que significa o Todo padronizado de toda a existência, incluindo os reinos físico, emocional, mental e espiritual.

Quadrantes Ken Wilber 3

Relendo, nas últimas semanas, trechos de “A Visão Integral” (Editora Cultrix), “Boomerite” (Editora Madras), “Éden queda ou ascensão?” (Verus Editora) esses dois últimos brilhantemente traduzidos por meu bom amigo Ari Raynsford, e “A Brief History of Everything” (Shambhala) vejo novamente que quando analisamos qualquer situação com o apoio dos quatro Quadrantes propostos por Wilber, podemos perceber como qualquer evento Físico – Matéria/Energia – ISTO (do quadrante superior direito) representa apenas um quarto da história. E que as dimensões da Consciência – EU (do quadrante superior esquerdo) com nossas emoções, estados psicológicos, imaginação e intenções; da Cultura – NÓS (do quadrante inferior esquerdo) com nossos valores culturais, religiosos e visão de mundo comuns e dos Sistemas Sociais – ISTOS (quadrante inferior direito) com nossas estruturas materiais, sociais e econômicas surgem simultaneamente à ocorrência desse evento e interagem entre si. E podemos perceber também como esses Quadrantes se desdobram em Níveis de Consciência, Linhas de Desenvolvimento (Inteligências Múltiplas), Estados de Consciência e Tipos.

A partir dessas leituras renovadas de parte da obra de Ken Wilber, resolvi fazer um resumo do Modelo Integral e de sua relação, conforme a percebo, com a questão da hierarquia. E o faço para mim mesmo, como parte do meu processo de reflexão e, é claro, para compartilhar com os amigos que também podem se interessar por esses temas. E, principalmente, como um estímulo para que os interessados possam buscar mais informações nas fontes originais, cuja leitura recomendo com empenho.

O crescimento, desenvolvimento e evolução que ocorrem em cada um dos quadrantes se apresentam em alguns tipos de estágios ou níveis, não como os degraus rígidos de uma escada, mas como ondas que fluem e se desdobram naturalmente e abraçam, abarcam, incluem e abrangem os níveis antecedentes. E o aumento dos níveis interiores de consciência vem acompanhado de um aumento de níveis exteriores de complexidade física do sistema que a abriga. E o mecanismo chave desse desenvolvimento é o de “transcender e incluir”. O nível de cima “transcende e inclui” o nível precedente e, como menciona Wilber, traz novas capacidades e ao mesmo tempo a possibilidade de novos desastres; não só novos potenciais, mas também novas patologias; novas forças e novas doenças.

No Quadrante Físico – Matéria/Energia – ISTO (quadrante superior direito), em que se vê qualquer evento individual de fora, no caso de cada um de nós como indivíduos temos nossos comportamentos físicos, componentes materiais (neurotransmissores, sistema límbico, neocórtex, estruturas moleculares complexas, células, sistemas orgânicos, DNA), corpo concreto, e a energia do “isto” se expande fenomenologicamente de grosseira para sutil e causal. No Quadrante da Consciência – EU (quadrante superior esquerdo) com nossos pensamentos, emoções, estados psicológicos, imaginação e intenções, o “eu” passa do estágio egocêntrico para o etnocêntrico e para o mundicêntrico, ou do corpo, para a mente e para o espírito. No Quadrante da Cultura – NÓS (quadrante inferior esquerdo) com nossos valores culturais, religiosos e visão de mundo comuns, o “nós” expande-se do estágio egocêntrico (“eu”) para o etnocêntrico (“nós”) e para o mundicêntrico (“todos nós”). No Quadrante dos Sistemas Sociais – ISTOS (quadrante inferior direito) com nossas estruturas materiais, sociais e econômicas essas estruturas se expandem de simples grupos, para nações e, finalmente, para sistemas globais.

Quatro Quadrantes nos Seres Humanos

Em nossa trajetória de elevação do nosso Nível de Consciência, podemos fazê-lo também em cada uma das diversas Linhas de Desenvolvimento ou Inteligências Múltiplas de que somos dotados de maneira potencial e que podemos desenvolver e explorar. Diversos pesquisadores respeitados realizaram trabalhos notáveis de estabelecimento das características de cada estágio ou nível que poderia ser alcançado em cada Linha de Desenvolvimento. Abraham Maslow explorou a Linha de Necessidades e demonstrou que as pessoas tendem a se mover através de uma sequencia crescente de necessidades (Fisiológicas; Segurança; Pertencimento; Autoestima; Realização Pessoal; e Transcendência de si mesmo) e com a satisfação de cada uma tende a surgir outra mais elevada; Jean Gebser explorou a Linha de Visões de Mundo (Arcaica; Mágica; Mítica; Racional; Pluralista; Integral; e Transcendência de si mesmo); Michael Commons & Francis Richards, Jean Piaget e Sri Aurobindo exploraram suas respectivas ideias a respeito da Linha Cognitiva [Sensório-motora; Pré-operacional (Simbiótica); Pré-operacional (Conceitual); Operacional concreta (Mente regra/papel); Operacional formal (Mente racional); Mente pluralista (Mente Meta-sistêmica, Mente planetária); Baixa Visão-lógica (Paradigmática); Alta Visão-lógica (Transparadigmática, Mente global); Mente intuitiva, Meta mente; Mente iluminada, Para-mente; Mente transcendental (Overmind); e Supermente]. Robert Kegan explorou as Ordens de Consciência (Ordem 0; Ordem 1; Ordem 2; Ordem 3; Ordem 4; Ordem 4,5; e Ordem 5). Loevinger e Cook-Greuter exploraram a Linha de Auto-identidade (Simbiótica; Impulsiva; Autodefensiva; Conformista; Conscienciosa; Individualista; Autônoma; Ciente do seu papel (Integrada); Consciente do Ego; e Transpessoal). E Clare Graves, Don Beck & Christopher Cowan, e Wade exploraram a Linha de Valores [Sobrevivência (Bege, Arcaico-Instintivo); Espírito de Agregação (Roxo, Mágico-Animista); Deuses de Poder (Vermelho, Egocêntrico); Força da Verdade (Azul, Absolutista, Ordem Mítica); Instinto de Luta (Laranja, Multiplista); Vínculo Humano (Verde, Relativista); Flexibilidade e Fluidez (Amarelo, Sistêmico); Visão Global (Turquesa, Sistêmico); Transcendente; e Unidade].

Linhas de Desenvolvimento

Deixo de incluir neste resumo a abordagem de aspectos relacionados a Estados de Consciência e Tipos, para não tornar o texto ainda mais extenso, e em virtude de que esses aspectos, mais propriamente os Tipos, têm menos a ver com a questão da hierarquia.

E o que tudo isso que foi anteriormente mencionado tem a ver com a questão da hierarquia?

Para responder a essa pergunta, uma vez que desenvolvi minha própria abordagem de Coaching Centrado em Valores em grande medida a partir da Linha de Desenvolvimento de Valores conhecida como o Modelo da Espiral Dinâmica de Don Beck e Christopher Cowan, apresentarei a seguir, com base em alguns conteúdos dos livros citados anteriormente, um breve resumo de cada um dos Níveis de Desenvolvimento que emergiram desses estudos e com os quais estou um pouco mais familiarizado. Lembrando sempre que:

a) O Modelo da Espiral Dinâmica é baseado no trabalho pioneiro de Clare Graves que, procurando identificar o que seria um adulto psicologicamente saudável, trouxe à luz o seu Modelo Gravesiano (modelo emergente, cíclico, de hélice dupla, do desenvolvimento de sistemas biopsicossociais adultos);
b) O modelo é emergente porque ninguém nasce com ele completo, mas apenas em potencial. Ele vai emergindo, surgindo na vida das pessoas. A ontogenia (desenvolvimento do indivíduo desde a fecundação até a maturidade para reprodução) recapitula a filogenia (gênese e história evolucionária das espécies);
c) O modelo é cíclico porque os níveis alternam ciclos de preocupações individuais (auto-expressão, com referencial interno) com os de preocupações coletivas (sacrifício pelo bem geral, com referencial externo). É como um pêndulo que oscila do “eu” para o “nós” e de volta do “nós” para o “eu”, indefinidamente, de um lado para o outro.
d) O modelo é de hélice dupla porque em cada nível são identificadas novas condições de vida que estimulam o surgimento de uma nova estrutura de resposta (capacidade mental/cerebral, psiconeurológica) formando binômios distintos (condição de vida-estrutura de resposta);
e) O modelo é de desenvolvimento de sistemas biopsicossociais adultos porque depende do desenvolvimento de fatores biológicos, psicológicos e sociais em pessoas adultas considerando a maturidade inerente a cada ser humano; e
f) O nível de cima “transcende e inclui” o nível precedente.

Níveis de Primeira Camada:

Sobrevivência (Bege, Arcaico-Instintivo, Eu)
“Nível básico de sobrevivência; alimento, água, abrigo, sexo e segurança são prioritários. Usa hábitos e instintos apenas para sobreviver. A individualidade está no início do despertar e quase não se sustenta. Reúne-se em bandos de sobrevivência para perpetuar a vida. Onde é encontrado: primeiras sociedades humanas, recém-nascidos, pessoas senis, pessoas em estágio avançado do Mal de Alzheimer, moradores de rua mentalmente doentes, massas famintas, pessoas com traumas de guerra. Aproximadamente 0,1% da população mundial adulta, 0% de poder.”

Espírito de agregação (Roxo, Mágico-Animista, Nós)
“O pensamento é animista; espíritos mágicos, bons e maus, fervilham pela Terra trazendo bênçãos, maldições e encantamentos que determinam os acontecimentos. Reúnem-se em tribos étnicas. Os espíritos existem nos antepassados e aglutinam a tribo. Parentesco e linhagem estabelecem vínculos políticos. Aparenta ser “holístico”, mas na verdade é atomístico: Há um nome para cada curva do rio, mas nenhum nome para o rio. Onde é encontrado: crença em maldições do tipo vodu, juramentos de sangue, mágoas antigas, amuletos de boa sorte, rituais de família, superstições e crenças étnicas mágicas; forte em comunidades do terceiro mundo, gangues, equipes esportivas e “tribos” corporativas; também em crenças mágicas da New Age, cristais, tarô, astrologia. 10% da população, 1% de poder.”

Deuses de poder (Vermelho, Egocêntrico, Eu)
“Primeira emergência de um eu distinto da tribo; poderoso, impulsivo, egocêntrico, heroico. Espíritos, arquétipos, dragões e feras místicos. Deuses e deusas arquetípicos, seres poderosos, forças com que se pode contar, tanto boas quanto más. Senhores feudais protegem os súditos em troca de obediência e trabalho. A base dos impérios feudais – poder e glória. O mundo é uma selva cheia de ameaças e de predadores. Conquista, engana e domina; aproveita ao máximo, sem pena ou remorso; aqui e agora. Onde é encontrado: Os “terríveis dois” (referência aos dois anos de idade, quando a criança “nasce” realmente para um “eu” com emoções e sentimentos separados, o seu nascimento psicológico), juventude rebelde, mentalidades limítrofes, reinos feudais, heróis épicos, vilões de James Bond, líderes de gangues, soldados mercenários, astros de rock pesado, Átila rei dos Hunos, “Senhor das Moscas” (Romance de William Golding que descreve em detalhes a transição de um bando de crianças da civilização para a barbárie), envolvimento mítico. 20% da população, 5% de poder.”

Força da Verdade (Azul, Absolutista, Ordem Mítica, Nós)
“A vida tem significado, direção e propósito, com eventos determinados por um ‘Outro’ ou ‘Ordem’ todo-poderosos. Esta Ordem justa impõe um código de conduta baseado em princípios absolutos e invariáveis de certo e errado. A violação do código ou das regras apresenta severas, e talvez permanentes repercussões. A obediência ao código gera recompensas para os fiéis. Base das nações antigas. Hierarquias sociais rígidas; paternalista; um, e apenas um, modo correto de pensar sobre tudo. Lei e ordem; impulsividade controlada através da culpa; crença concreto-liberal e fundamentalista; obediência à regra da Ordem; fortemente convencional e conformista. Frequentemente religioso no sentido mítico-fundamentalista; Graves e Beck referem-se a ele como o nível ‘religioso/absolutista’, mas pode ser também uma Ordem ou Missão secular ou ateísta. Onde é encontrado: América Puritana, China Confucionista, Inglaterra Dickensiana, disciplina de Singapura, totalitarismo, códigos de cavalaria e de honra, obras de caridade, fundamentalismo religioso (por exemplo, cristão e islâmico), Escoteiros e Bandeirantes, maioria moralista, patriotismo. 40% de população, 30% de poder.”

Instinto de Luta (Laranja, Conquista Científica, Multiplista, Eu)
“Nesta onda, o indivíduo escapa da ‘mentalidade de rebanho’ do nível azul e procura a verdade e o significado em termos individualistas e científicos. O mundo é uma máquina racional, bem lubrificada, com leis naturais que podem ser aprendidas, controladas e manipuladas visando a interesses próprios. Altamente orientado para a conquista de objetivos; especialmente na América para ganhos materiais. As leis da ciência regulam a política, a economia e os acontecimentos humanos. O mundo é um tabuleiro de xadrez onde partidas são jogadas e os vencedores conquistam superioridade e privilégios em detrimento dos perdedores. Alianças de mercado; manipulação dos recursos naturais visando a ganhos estratégicos. Base dos estados corporativos. Onde é encontrado: No Iluminismo, ‘A Revolta de Atlas’ Romance de Ayn Rand em que um homem diz que pararia o motor do mundo – e o faz, Wall Street, classe média emergente em todo o mundo, indústria de cosméticos, caça a troféus, colonialismo, Guerra Fria, indústria da moda, materialismo, capitalismo de mercado, auto-interesse liberal. 30%da população, 50% de poder.”

Vínculo humano (Verde, O Eu Sensível, Relativista, Nós)
“Comunitário, sensibilidade ecológica, operação em rede. O espírito humano deve se livrar da ganância, dos dogmas, das divergências; sentimentos e cuidados substituem a fria racionalidade; acalentar a Terra, Gaia, a vida. Contra hierarquias; estabelece vínculos e ligações laterais. Eu permeável relacional, inter-relacionamento de grupos. Ênfase no diálogo e nos relacionamentos. Base das comunidades coletivas (isto é, afiliações, baseadas em sentimentos comuns, escolhidas livremente). Decide através da reconciliação e do consenso (lado negativo: ‘processamento’ interminável e incapacidade de chegar a decisões). Renova a espiritualidade, cria harmonia, enriquece o potencial humano. Fortemente igualitário, anti-hierárquico, valores pluralistas, construção social da realidade, diversidade, multiculturalismo, sistemas de valores relativos; esta visão de mundo é frequentemente denominada de ‘relativismo pluralista’. Pensamento subjetivo, não linear, demonstra um alto grau de calor humano, sensibilidade e cuidado pela Terra e por todos os seus habitantes. Onde é encontrado: ecologia profunda, pós-modernismo, idealismo holandês, terapia rogeriana, sistema de saúde canadense, psicologia humanista, teologia da libertação, cooperativismo, Conselho Mundial de Igrejas, Greenpeace, eco psicologia, direitos dos animais, eco feminismo, pós-colonialismo, Foucault/Derrida, o politicamente correto, movimentos de diversidade, tema de direitos humanos. 10% da população, 15% de poder.”

Características dos Níveis de Primeira e de Segunda Camada:

Quando as pessoas fazem seu centro de gravidade e se identificam com o conjunto de crenças e valores dominantes em cada um desses estágios de primeira camada (do nível bege até o verde) apresentados anteriormente, acreditam firmemente que seus valores sejam os únicos verdadeiros e corretos e que todos os outros estejam profundamente equivocados; reagem negativamente quando desafiadas e agridem, usando suas armas, quando se sentem ameaçadas.

É como se esquecessem, como se não conseguissem sequer perceber a existência, quando estão em um determinado nível, que de fato já percorreram e se identificaram fortemente, em algum momento do passado, com os níveis precedentes em resposta a alguma condição de vida: não se lembram de que em situações de emergência ativamos impulsos vermelhos poderosos; que em resposta ao caos, temos necessidade de ativar a ordem azul; que ao procurar um novo emprego, precisamos de impulsos laranjas de conquista; que no casamento e com amigos, buscamos os laços íntimos verdes. “E na verdade a ordem azul se sente extremamente desconfortável tanto com a impulsividade vermelha quanto com o individualismo laranja. O individualismo laranja pensa que a ordem azul é para trouxas e o igualitarismo verde é para fracos e frescos.” Ou ainda: “O igualitarismo verde não consegue aguentar facilmente a excelência e a classificação de valores, grandes imagens, hierarquias ou qualquer coisa que pareça autoritária; portanto, o verde tende a bater no azul, no laranja e em tudo que for pós-verde”.

“De maneira bem objetiva: qualquer nível de primeira camada contribuirá para impedir a paz mundial.”

“Tudo, entretanto, começa a mudar com o pensamento de segunda camada que será apresentado a seguir. Porque a consciência de segunda camada está completamente ciente dos estágios anteriores de desenvolvimento; ela se recorda de que já pensou assim, dá um passo atrás e capta a imagem global, percebendo, portanto, o papel necessário que cada nível desempenha para que se possa avançar. A consciência de segunda camada pensa em termos da espiral completa de desenvolvimento, e não, simplesmente, em termos de um nível específico. Daí, com a consciência de segunda camada, o mundo passa a fazer sentido, a transformar-se como um todo, a tornar-se consistente pela primeira vez. Enquanto o nível verde – o mais elevado dos estágios de primeira camada – começa a perceber a rica diversidade e o maravilhoso pluralismo das diferentes culturas, o pensamento de segunda camada dá um passo adiante, um salto quântico. Ele procura por elos que liguem e juntem essas diferentes culturas e, portanto, considera esses sistemas separados e começa a abraça-los, incluí-los e integrá-los em espirais holísticas e malhas integrais. Ele é fundamental para passarmos do pluralismo para o integralismo.”

Operando-se com a consciência de segunda camada, como diz Wilber, abre-se, convidativa, no horizonte, a possibilidade de paz genuína.

Níveis de Segunda Camada:

Flexibilidade e fluidez (Amarelo, Sistêmico, Eu)
“A vida é um caleidoscópio de sistemas fluentes, inter-relacionados. Flexibilidade, espontaneidade, e funcionalidade têm a máxima prioridade. Diferenças e pluralismos podem ser integrados em fluxos naturais interdependentes. Igualitarismo é complementado por graus naturais de excelência, distinções e julgamentos qualitativos. Conhecimento e competência devem substituir posição, poder, status ou grupo. A ordem mundial prevalecente é resultado da existência de diferentes níveis de realidade (ou Memes) e dos inevitáveis padrões de movimento para cima e para baixo na Dinâmica da Espiral. Um bom governo facilita a emergência de entidades por meio dos níveis de crescente complexidade (hierarquia nidiforme). 1% da população, 5% de poder.”

Visão Global (Turquesa, Sistêmico, Nós)
“Sistema holístico universal, ondas de energias integrativas; une sentimento e conhecimento; múltiplos níveis interconectados num sistema consciente; a base da totalidade extensiva. Ordem universal, mas de modo vivo e consciente, não baseado em regras externas (azul) ou vínculos de grupo (verde). É possível uma “grande unificação” ou uma grande imagem em teoria e na prática. Algumas vezes envolve a emergência de uma nova espiritualidade como uma teia de toda a existência. Pensamento turquesa é totalmente integral e usa a espiral completa; vê múltiplos níveis de interação; detecta harmônicos, as forças místicas e os estados de fusos de fluxos que permeiam todas as organizações. 0,1% da população e 1 % do poder.”

E, depois do nível turquesa, desde que novas condições de vida sejam percebidas e sejam favoráveis, o pêndulo da evolução desenvolve novas respostas em termos de estruturas psiconeurológicas e inclina-se mais uma vez na direção de um “eu” com um nível de desenvolvimento ainda mais elevado do que aquele dos níveis amarelo e turquesa, cujos contornos em termos de conjunto de crenças e valores ainda não foram suficientemente definidos.

Espiral Dinâmica

Condições de Vida

E vale a pena tecer algumas considerações a respeito do que Graves se referia quando falava de condições de vida. Condição de vida é o meio em que vive o ser humano. Seu estudo leva em conta fatores interdependentes tais como: tempo histórico, espaço geográfico, condições sociais e circunstâncias econômicas. Portanto, não existe apenas uma condição de vida, mas inúmeras! E isso também não significa que uma pessoa, ao ativar um novo sistema de crenças e valores, tenha abandonado suas antigas visões de mundo. Ela simplesmente as incluiu e transcendeu. E antigos modos de pensar podem ser reativados em caso de degradação das condições de vida. Um hipotético professor de filosofia residente no Haiti, anteriormente operando no nível de consciência turquesa, pode estar operando agora a partir de um conjunto de crenças e valores roxo e/ou vermelho, quando tem que disputar com outras pessoas uma ração de água e comida para levar para sua família e para o próprio consumo, nos postos de distribuição assistencial organizados pela Força de Paz da Organização das Nações Unidas, no espaço geográfico, social e econômico seu país ainda devastado, depois do terrível terremoto de 2010.

E o que pode ser um entrave para esse desejado salto quântico da humanidade dos níveis de primeira camada para os de segunda camada? Excluindo-se situações de degradação das condições de vida, ou seja, supondo-se que as condições evoluam de maneira favorável, ainda assim temos o seguinte: o fundamentalismo religioso (azul) frequentemente sente-se afrontado pela segunda camada, na qual vê uma tentativa de derrubar sua Ordem instituída; o egocentrismo (vermelho) também ignora a segunda camada; o mágico (roxo) lança um feitiço contra ela; e o verde acusa a consciência de segunda camada de ser autoritária, hierárquica, patriarcal, marginalizadora, opressora, racista e sexista. Exatamente o fato de que o nível de consciência verde, o mais elevado da primeira camada, ele próprio ser ainda um nível de primeira camada, com suas novas capacidades com relação ao nível laranja e, ao mesmo tempo, com a possibilidade de novos desastres; não só novos potenciais, mas também novas patologias; novas forças e novas doenças. E é essa “doença” do nível verde que Ken Wilber chama de Boomerite.

O Conceito de Boomerite

Os Boomers nascidos após a Segunda Guerra Mundial – a geração Baby Boom – formam a primeira geração a crescer nesta aldeia global: um tempo em que todas as culturas estão disponíveis umas para as outras. Isto nunca aconteceu antes no planeta Terra. Como nos aponta Wilber:
“Desde alguns milhões de anos até agora uma pessoa nascia numa cultura que não sabia praticamente nada sobre nenhuma outra. Você nascia chinês, crescia chinês, casava com uma chinesa, seguia uma religião chinesa e muitas vezes vivia na mesma cabana a vida inteira, num espaço de terra em que seus ancestrais se fixaram havia séculos. Uma vez ou outra, este isolamento cultural era interrompido por uma estranha e grotesca forma de Eros conhecida por guerra, onde culturas se uniam violentamente por meios brutais de violação, embora o resultado misterioso sempre fosse um tipo de relacionamento cultural erótico. As culturas passavam a conhecer-se num sentido bíblico – um feliz sadomasoquismo oculto que norteou a história até a presente aldeia global. Das tribos e bandos isolados aos pequenos povoados, às cidades-estados antigas, aos gloriosos impérios feudais, aos vastos estados internacionais, até a atual aldeia global: muitos ovos foram quebrados para se fazer essa extraordinária omelete global.”

E quando reli esse parágrafo não resisti à tentação de rabiscar no rodapé do livro:

ovos quebrados,
na omelete global:
sangue derramado…

E como nos aponta Wilber:

“E nesta aldeia global – a única que temos – sobreviveremos juntos ou nos destruiremos.”

E não se trata de forçar uma uniformidade comunista tentando nivelar ou eliminar todas as maravilhosas diferenças existente mas, isso sim, no sentido de se buscar uma unidade-na-diversidade, de se vivenciar crenças e valores comuns, apesar de nossas diferenças: substituindo rancor por reconhecimento mútuo, hostilidade por respeito, convidando a todos a estabelecer e compartilhar um espaço do entendimento mútuo. Não há necessidade de se concordar com tudo que é dito mas, pelo menos, de se procurar entender o que é dito por cada uma das pessoas em cada um dos níveis de consciência. Entender que cada nível é crucialmente importante para a saúde de toda a espiral, devendo ser abraçado e tratado com carinho.

Voltando a abordar alguns aspectos dessa doença que pode acometer a geração Baby Boom, os Boomers responsáveis pelo desenvolvimento do nível de consciência verde, a primeira geração verde da história, Wilber às vezes usa outra terminologia que tomou emprestada de um romance de Edwin A. Abbott “Flatland: A Romance of Many Dimensions” que é uma história do Século XIX sobre um mundo de duas dimensões inspirado particularmente na geometria. Flatland é a crença de que a realidade é plana, que não há níveis de consciência. E nos lembra que “não podemos sequer falar em ajudar as pessoas a crescer e desenvolver-se através dos níveis de consciência se elas, em primeiro lugar, não souberem que existem níveis de consciência.”

“Os Boomers moveram-se além do tradicionalismo dos azuis e do modernismo científico dos laranjas e foram os primeiros de uma compreensão multicultural, pluralista, pós-moderna – o nível verde e o eu sensível. Exatamente por isso os Boomers lideraram os direitos civis, as preocupações ecológicas, o feminismo e a diversidade multicultural. Esta é a parte ‘alta’ da mistura, a parte verdadeiramente comovente da geração Boomer e das revoluções explosivas dos anos 60, o amplo movimento do azul para o laranja, até o verde.”

“Mas todo nível tem seu lado negativo, sua sombra, sua possível patologia e, no caso do verde, seu lado negativo foi que ele realmente transformou-se num imenso ímã para o narcisismo – eu faço o meu, você faz o seu, com ênfase em ‘eu’ e ‘meu’. E este é o lado desastroso da equação dos Boomers, a parte ‘baixa’ da mistura, a parte que causou quase tantos danos quanto a parte alta causou benefícios.”

“Pluralismo, igualitarismo, e multiculturalismo, no que têm de melhor, provêm de uma postura desenvolvimentista muito elevada – o nível verde – e desta posição de integridade e preocupação, o nível verde tenta tratar todos os níveis anteriores com igual atenção e compaixão, um intento verdadeiramente nobre. Mas porque ele abraça um intenso igualitarismo, falha em ver que sua própria postura – que é a primeira capaz de igualitarismo – é muito elitista (algo em torno de 10% da população mundial). Pior, o nível verde nega ativamente os estágios que o produziram, em primeiro lugar, o próprio nível verde, porque deseja visualizar todos os níveis igualitariamente. Mas o igualitarismo verde é produto, como já vimos, de pelo menos seis principais estágios de desenvolvimento, um desenvolvimento contra o qual se volta e nega agressivamente em nome do igualitarismo!”

“Sob a nobre aparência do pluralismo, todas as ondas prévias de existência, não importa quão superficiais, egocêntricas ou narcisistas, são encorajadas a ‘serem elas mesmas’, já que nenhuma delas é considerada, intrinsecamente, melhor que as outras. Mas se o ‘pluralismo’ for realmente verdadeiro, então devemos convidar os nazistas e a Ku Klux Klan para o banquete multicultural, pois supõe-se que nenhuma postura seja melhor ou pior que as outras e, portanto, todas devem ser tratadas de uma maneira igualitária – neste ponto, a autocontradição do pluralismo vem à tona de maneira gritante.”

“Assim, o ponto de vista extremamente elevado do pluralismo – o produto de pelo menos seis estágios de transformação – vira-se de costas e nega-se o próprio caminho que produziu sua nobre postura. Abraça igualitariamente todas as posturas, não importa quão superficiais ou narcisistas. Desse modo, quanto mais o igualitarismo é implementado, tanto mais ele convida, na verdade encoraja, a cultura do Narcisismo. E a Cultura do Narcisismo é a antítese da cultura integral, o oposto de um mundo em paz.”

“No dicionário, a definição de narcisismo é ‘interesse excessivo em si mesmo, em sua importância, em sua grandeza, em sua capacidade; egocentrismo.’ Os terapeutas nos explicam que o estado interior de narcisismo é, frequentemente, o de um eu vazio e fragmentado, que tenta, desesperadamente, preencher o espaço inflando seu ego e desinflando o dos outros. A disposição emocional é: ‘Ninguém vai me dizer o que fazer!’

“Em resumo, a postura relativamente elevada do pluralismo transforma-se num super-ímã para o estágio relativamente baixo de narcisismo egóico. E isso nos leva diretamente a Boomerite.”

“Boomerite é, simplesmente, pluralismo infectado por narcisismo: é a estranha mistura de capacidade cognitiva muito elevada (o nível verde e o pluralismo nobre) infectada por narcisismo emocional bem baixo (níveis roxo e vermelho) – exatamente a mistura que vem sendo notada por tantos críticos sociais. O eu sensível, tentando honestamente ajudar, exagera excitadamente em sua própria importância.”

A Falácia Pré-Pós ou Pré-Trans

Tendo sito definidos os contornos de Boomerite, ou do “pluralismo infectado de narcisismo”, e de como as coisas podem dar errado ao longo do desejável processo de desenvolvimento de consciência – de egocêntrico, para etnocêntrico, para globocêntrico – como nos sugere Wilber, vemos que uma fonte de narcisismo é, simplesmente, a falha no crescimento e evolução.

“Particularmente, no difícil crescimento de egocêntrico para etnocêntrico, aspectos da consciência que recusem esta transição podem ficar ‘empacados’ nos domínios egocêntricos, com dificuldades de adaptação às regras e papéis da sociedade. É lógico que algumas dessas regras e papéis não merecem respeito; podem apresentar uma necessidade muito grande de crítica e rejeição. Mas essa atitude pós-convencional – que verifica, reflete sobre e critica as normas sociais – somente pode ser atingida passando primeiramente pelos estágios pré-convencionais, porque as capacidades obtidas nesses estágios são pré-requisitos para a consciência pós-convencional. Em outras palavras, alguém que não consiga superar os estágios convencionais fará, não uma crítica pós-convencional da sociedade, mas uma rebelião pré-convencional. ‘Ninguém vai me dizer o que fazer!’

“Os críticos concordam que os Boomers foram uma geração notoriamente rebelde. Parte dessa rebeldia, sem dúvida, surgiu de indivíduos pós-convencionais, sinceramente engajados em reformar aspectos errados, injustos ou imorais da sociedade. Mas tão certo quanto isso – e há suficientes evidencias empíricas – uma alarmante fatia dessa atitude rebelde partiu de impulsos pré-convencionais que apresentavam muita dificuldade de crescer para as realidades convencionais.”

E algumas de suas palavras de ordem, que ecoam desde os anos 1960, podem ser: “Combatam o sistema”; “Questionem a autoridade”; “Todas as hierarquias são opressoras” ; “Abaixo todas as formas de hierarquia”.

“O estudo de caso clássico são os protestos estudantis de Berkeley no final dos anos 60 – protestos especialmente contra a Guerra do Vietnã. Os estudantes afirmavam, em uníssono, que estavam agindo de uma elevada posição moral. Mas quando foram aplicados testes reais de desenvolvimento moral, a larga maioria foi enquadrada em níveis pré-convencionais, não pós-convencionais (houve poucos tipos convencionais ou conformistas porque, por definição, eles não são muito rebeldes). Obviamente, a moralidade pós-convencional e globocêntrica da minoria dos participantes do protesto deve ser aplaudida – não necessariamente suas crenças, mas o fato de chegarem a elas a partir de um raciocínio moral altamente desenvolvido. Entretanto, o egocentrismo pré-convencional da vasta maioria dos participantes do protesto deve ser igualmente reconhecido.”

“O ponto mais fascinante dessa pesquisa é algo geralmente definido como situações ‘pré’ e ‘pós’ – pois, uma vez que tanto pré-X quanto pós-X são não-X, frequentemente são confundidos. Isto é, tanto pré-convencional quanto pós-convencional são não-convencionais, estão fora das normas e regras convencionais, e, assim, são muitas vezes confundidos e até mesmo igualados. Em tais situações, ‘pré’ e ‘pós’ frequentemente usarão a mesma retórica e a mesma ideologia, mas, de fato, estão efetivamente separados por um imenso abismo de crescimento e desenvolvimento. Nos protestos de Berkeley, praticamente todos os estudantes afirmaram agir de acordo com princípios morais universais – por exemplo, ‘A Guerra do Vietnã viola direitos humanos universais e, portanto, como um ser moral, recuso-me a lutar nessa guerra.’ Porém, testes provaram inequivocamente que somente uma minoria – menos de 20% – agia de acordo com princípios morais pós-convencionais; a grande maioria dos estudantes agia seguindo impulsos egocêntricos pré-convencionais: ‘Ninguém vai me dizer o que fazer!’; Pegue essa guerra e desapareça.’

“Parece que nesse caso ideais genéricos muito nobres foram usados para apoiar, de fato, impulsos muito desprezíveis. A estranha semelhança superficial de estágios de desenvolvimento ‘pré’ e ‘pós’ permite esse subterfúgio – permite, em outras palavras, que o narcisismo pré-convencional frequente os salões daquilo que é ruidosamente aclamado como idealismo pós-convencional. Esta confusão entre pré-convencional e pós-convencional, porque ambos são não-convencionais, é chamada de falácia pré-pós e parece que pelo menos parte do idealismo dos Boomers deve ser interpretada ou reinterpretada sob esse enfoque mais severo. Quase todo mundo notou, naquela época, que quando cessou a convocação para a guerra, os protestos perderam muito da sua intensidade – chega de moralidade, não é?”

“Este é um ponto crucial, pois alerta-nos para o fato de que, não importa quão generosa, idealista e altruísta uma causa possa parecer – da ecologia para a diversidade cultural, para a espiritualidade, para a paz mundial – o simples falar da boca para fora em apoio à causa não é suficiente para determinar por que, de fato, a causa está sendo abraçada. Muitos críticos sociais simplesmente assumiram que, se os Boomers clamavam por ‘harmonia, amor, respeito mútuo e multiculturalismo’, eles se moviam nesse rumo idealista. Entretanto, em muitos casos, não só os Boomers não estavam se movendo naquela direção, em termos do seu crescimento interior, como estavam abraçando, espalhafatosamente, uma perspectiva idealista, precisamente para esconder sua postura egocêntrica. A hipocrisia aqui é absolutamente impressionante!”

O Imperativo Moral do Desenvolvimento de Consciência

A título de conclusão desse Resumo da Abordagem Integral, em que procurei enfatizar os diversos aspectos da hierarquia de crescimento dos nossos níveis de consciência, que penso ser a direção do desenvolvimento de um adulto psicologicamente saudável, apresento em minha tradução livre o conceito que Ken Wilber denomina “Intuição Básica Moral” (“Basic Moral Intuition”) que ele acredita ser a verdadeira forma e estrutura da intuição espiritual.

“… quando intuímos o Espírito, nós O estamos intuindo como aparece nos quatro quadrantes (porque o Espírito se manifesta nos quatro quadrantes – ou de maneira simplificada no Eu, no Nós, e no Isto/Istos). Portanto, quando estou intuído claramente o Espírito, eu intuo sua preciosidade não apenas em mim mesmo, na minha própria profundidade, no meu domínio do Eu, mas igualmente O intuo no domínio de todos os outros seres, que compartilham comigo o mesmo Espírito (em sua própria profundidade). E portanto desejo proteger e promover esse Espírito, não somente em mim mesmo, mas em todos os seres possuindo esse Espírito, e sou movido, e intuo claramente esse Espírito, no sentido de implementar esse desdobramento Espiritual em tantos seres quanto seja possível: intuo o Espírito não somente como Eu, e não somente como Nós, mas também como um impulso para implementar essa realização como Fatos Objetivos (Isto) no mundo.”

“Assim, precisamente porque o Espírito realmente se manifesta como todos os quatro quadrantes (ou como Eu, Nós e Isto), então a intuição Espiritual, quando claramente apreendida, o faz como um desejo para estender a profundidade do “Eu” para a abrangência do “Nós”, como Fatos Objetivos (A verdade), “Istos” no mundo… Assim, protegendo e promovendo a maior profundidade na maior abrangência possível.”

A ideia é que, na tentativa de promover a maior profundidade na maior abrangência, devemos fazer julgamentos objetivos sobre diferenças de valor intrínseco e sobre o grau de profundidade que eventualmente destruímos, nas tentativas de atender às nossas necessidades vitais.

Colocando essa conclusão em minhas próprias palavras, como tenho feito em diversas oportunidades, e particularizando nossas ações como indivíduos em cada uma de nossas sociedades:

“Devemos pensar, falar e agir de maneira congruente, procurando contribuir para a elevação do nível de desenvolvimento de consciência de todas as pessoas, cada uma a seu tempo.”

Mistério 1

Publicado 21/05/2014 por Eduardo Leal em Abordagem Integral, Coaching, Crenças, Espiritualidade, Filosofia, Gestão Organizacional, Gestão Pessoal, Haicai, Haikai, Haiku, Ilustrações, Livros, Política, Prosa, Saúde e bem-estar

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