Arquivo para junho 2016

Garrafa 505 – Circunspecção   Leave a comment

A palavra circunspecção é de origem latina  e vem de “circum” que significa “volta” ou “em volta” e “pectionem” que significa “inspeção”. A ideia geral é a de se olhar ao redor de si e fazer  uma avaliação sobre tudo aquilo que nos rodeia, para que em nada possamos ser surpreendidos. Traz também a ideia do exame de um objeto por todos os lados, além de ser a qualidade associada a quem tem cuidado no falar e no agir. E indica a presença das características de moderação, prudência, reserva, cautela e seriedade.

Salvo melhor juízo, penso que essa deva ser a atitude correta para um juiz, e demais agentes da lei, em todos os momentos de sua vida. Muito especialmente durante a realização do seu importante trabalho de investigar e julgar outras pessoas mas, também, em sua vida pessoal e privada.

Nosso país, infelizmente, vem atravessando um período de prolongada escuridão moral, nas ultimas décadas. E um destino triste e sombrio estará sempre à espreita daquelas nações que elegem, em eleições fraudadas ou não, pessoas sem caráter. O tempo dirá!

Constatamos, acompanhando o noticiário diário, o importante trabalho realizado pelo assim chamado jornalismo investigativo, ao destampar e expor penicos malcheirosos, de escândalo em escândalo. O mau cheiro vem da constatação de que a maior parte dos integrantes das classes política e empresarial do país estão envolvidos em tenebrosas transações, com corruptos e corruptores envolvidos em pedidos e respectivos pagamentos de propinas da ordem de muitos milhões. Com isso, os prejuízos já contabilizados para os cofres públicos ao longo dos últimos anos são da ordem de bilhões!

E há vários indícios e suspeitas de que parcela significativa da mais alta corte do Poder Judiciário, o STF, também já estaria comprometida, cooptada. Com seus integrantes atuando ora como apenas simpatizantes, ora como ativos militantes do projeto criminoso de poder do “lulopetismo”.

Os fatos que chegam ao nosso conhecimento indicam que a corrupção, no Brasil e no mundo, que anteriormente poderia ser  considerada como apenas endêmica, ou ocorrendo apenas em determinados locais ou regiões, depois de diversos surtos epidêmicos, com seus efeitos se espalhando rapidamente por largas regiões do planeta, já podemos dizer que atingiu o nível de pandemia, ou seja, uma epidemia que atingiu grandes proporções, tendo se espalhado por vários continentes e por todo o mundo. Em tempos de Jogos Olímpicos que se aproximam, examinando apenas os casos da FIFA, uma organização de âmbito mundial, com suas diversas federações esportivas locais, como a nossa CBF, e os recentes casos de “doping” de atletas na Rússia, para citar apenas um deles, podemos fazer uma ideia da amplitude da disseminação dessa grande epidemia, isso com respeito apenas à área do esporte.

Entretanto, o fato de que a corrupção em todas as suas formas é um mal que já se espalhou pelo mundo todo não deveria “servir de consolo”, se é que isso seria possível na cabeça de pessoas de bom senso, como é o caso da maioria de nós. Quando examinamos mais especificamente a situação da corrupção em nosso próprio país, o triste diagnóstico é o de que, além de epidêmica, com vários casos de “doping” registrados ao longo dos últimos anos entre nossos atletas, em várias modalidades esportivas, na área da política ela se tornou também sistêmica. A proliferação da contaminação desse mal foi patrocinada pela própria estrutura do Estado Brasileiro, agindo como corruptora, e com seus agentes se beneficiando também de maneira pessoal, agindo como corruptos. Motivo de vergonha e de tristeza profundas, pelo péssimo exemplo oferecido por uma das piores safras de “lideranças” que o Brasil já escolheu, pelo voto, desde sua independência.

Neste momento de sensação de beira do abismo, nossas esperanças se voltam principalmente para as Cortes de Justiça de Primeira Instância, onde tudo começa, e é importante que comece bem, e que prossiga até a prisão, o julgamento dos acusados e a punição de todos os culpados.

Esperança, atenção e apoio incondicional devem então ser dedicados em especial àquela instância que ficou conhecida como a “República de Curitiba”.

Atualmente, a simples menção do nome do Juiz Sérgio Moro, e das notícias e boatos sobre os resultados e desdobramentos das diversas fases da Operação Lava-Jato, já enchem de terror os criminosos de colarinho branco instalados em todas as unidades da federação. Aterrorizam não só a eles, mas, principalmente, àqueles encastelados há décadas no planalto central,  ocupando cargos de destaque nos poderes executivo e legislativo. E é assim que deve ser, e deve continuar sendo!

É o momento de evocarmos o sentido da palavra circunspecção. De apoiarmos sem medo e sem reservas as atitudes do corajoso juiz Moro, e dos diversos integrantes da Polícia Federal e do Ministério Público Federal que conduzem as investigações, para que a faxina vá às ultimas consequências.

Desejamos que o exame dos objetos de investigação seja feito “por todos os lados”, com a identificação dos corruptos e dos corruptores. E que as autoridades envolvidas sejam exemplos de cuidado no falar e no agir. E que, em todos os momentos, estejam presentes os valores de moderação, prudência, reserva, cautela e seriedade.

Enquanto aguardamos a prisão do chefe da quadrilha e grande patrocinador da corrupção sistêmica, também desejamos ardentemente que, ao final do processo, tanto ele quanto os demais integrantes da sua quadrilha considerados culpados sejam exemplarmente punidos, na forma da lei!

 Pausa para um breve haicai:

sempre convicto,
o juiz circunspecto,
no veredicto.

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Veredicto

Garrafa 504 – Errando melhor   2 comments

Saber de cor é como saber sem fazer esforço para evocar o conteúdo do conhecimento, quando esse conhecimento provém de uma sabedoria corporal, diretamente do “coração”. Em latim, “cor” quer dizer coração.

E de maneira semelhante à empregada na língua portuguesa, em inglês, a expressão “to know by heart” tem exatamente o mesmo sentido e usa as mesmas palavras, “saber com o coração”. E o mesmo se dá em francês, com a expressão “savoir par coeur”, que significa “saber por intermédio do coração”.

Mas o que podemos ou devemos fazer para alcançarmos esse nível de aprendizado, a ponto de saber com o coração?

Em um dos modelos de “Ciclo de Aprendizado” mais conhecidos, podem ser identificadas quatro fases distintas para alcançarmos o completo domínio de algum tipo de conhecimento:

a) No início do processo de aprendizado, seja lá do que for, há uma fase em que se pode dizer que “nem sei que não sei”, um momento de desconhecimento total, de completa ignorância a respeito do nosso próprio desconhecimento e até mesmo da existência daquele determinado tema;

b) Até que descobrimos que há “algo” que não sabemos, que há um tema de que antes nunca tínhamos ouvido falar, e sobre o qual tudo desconhecemos, iniciando a fase do “sei que não sei”;

c) Se decidimos então aprender a respeito desse tema e ultrapassar essa segunda fase, saímos em busca de informações a respeito e, principalmente, começamos a colocar em pratica esse novo saber progressivamente adquirido, até que chega um momento em que podemos dizer que “sei que sei” algo a respeito desse tema e apresentamos algum grau de domínio a respeito do assunto em questão; e

d) Finalmente, a prática continuada e prolongada nos leva então à ultima fase do processo, com o completo domínio – com toda a maestria – no trato da questão. Nos tornamos “um mestre”. O tema já foi introjetado, sabemos de cor, sabemos com o coração, e não mais apenas com o pensamento. E podemos dizer até que “nem sei que sei”.

Como já mencionado no post da Garrafa 502 – O fazer é lei!, nas fase c) e d) do Ciclo de Aprendizado, a ênfase está no fazer, na prática continuada e prolongada.

Seres imperfeitos que somos, em contínuo processo de desenvolvimento e evolução, até mesmo um mestre é passível de cometer erros e enganos. Mas erra melhor! Erra menos! Comete erros novos, ao invés de repetir os mesmos erros! Está, a cada passo, mais próximo da perfeição!

Pausa para um breve haicai:

errando melhor,
vou querendo acertar,
que não sei de cor.

Eduardo Leal
Ilustração de autor desconhecido

Errando melhor

Garrafa 503 – Arco esticado, íris brilhante!   Leave a comment

Em busca de inspiração para minhas brincadeiras com as palavras com a métrica do haicai, volta e meia  minha atenção é despertada pela percepção de alguma sensação corporal inesperada; pela visão de alguma imagem interessante ou pela leitura de algum texto instigante; pela escuta de algum som ou música suave ou surpreendente; pela detecção da presença de algum odor agradável ou repulsivo; ou pela degustação de alguma comida saborosa ou estranha ao próprio paladar.

E, muito frequentemente, isso ocorre pela sinestesia, ou a ocorrência simultânea de algumas dessas situações: uma sensação corporal que evoca uma imagem armazenada na memória afetiva, ou vice-versa; a associação do odor e do sabor de determinadas comidas ou bebidas com os lugares e pessoas em companhia de quem elas foram degustadas; ou de um perfume suave e nuvemovente percebido em uma rua movimentada, o que nos faz interromper nossa apressada caminhada, instintivamente mover nosso corpo todo na direção daquela “inspiração” e, muito mais rapidamente do que qualquer promessa enganosa de cartomantes inescrupulosas, traz sim a pessoa amada “de volta” em um segundo!

A visão de um belo arco-íris,  quando o sol explodiu em sete cores e revelou então os sete mil amores que o Tom guardou pra dar para Luiza, despertou minha memória musical. E as gotículas de água ainda em suspensão na atmosfera de outono, em uma tarde chuvosa, trouxeram de volta também as diversas lendas sobre um misterioso e desejado pote de ouro e brilhantes escondido na extremidade distante daquele arco fugaz e colorido. E pensamentos sobre quem possivelmente teríamos que nos tornaro que teríamos que fazer para chegar até lá, e resgatar o cobiçado premio por nossa eventual coragem e persistência. Tornar-me quem, senão eu mesmo? Fazer o que, senão ação amorosa? Fazer quando, senão agora?

E minha imaginação evocou também outro tipo possível de arco esticado em seu limite pelo filosófico arqueiro zen Eugen Herrigel, de minha memória literária. E a flecha de prata, aguardando a súbita liberação, carrega a sua própria alma, sua mensagem de vida e morte lançada na escuridão silenciosa da noite, enquanto a única fonte de luz perceptível naquele instante é o brilho interno da íris do arqueiro.

Apenas outro tipo de conexão arco-íris…

Pausa para um breve haicai:

arco esticado,
com a flecha de prata,
íris brilhante…

Eduardo Leal
Ilustração de autor desconhecido adaptada por Eduardo Leal
Instruções de utilização: Ouvir Luiza, no piano e voz de Tom Jobim

Íris brilhante 3

Garrafa 502 – O fazer é lei!   1 comment

Diz o provérbio oriental que:

“Do que eu ouço, me esqueço; do que eu vejo, me lembro, e o que eu faço eu sei!”

A milenar sabedoria oriental é confirmada pelo corpo de conhecimentos da Programação Neurolinguístca – PNL e ambos nos indicam que, além de complementaridade, há uma hierarquia entre os canais auditivo, visual e cinestésico, com nítida vantagem para esse ultimo, com relação à capacidade de retenção de informações e memórias e, consequentemente, também, com o nosso próprio processo de aprendizagem. Apesar da importância da imagem, que vale mais do que mil palavras, a ação repetida e a prática introjetam a experiência fazendo com que sua assimilação interior seja mais completa e  duradoura. O que eu faço eu sei!

É na prática que uma determinada teoria é comprovada e seus resultados vêm à luz do dia. É na ação que “malhamos os músculos” da memória e do aprendizado.

O aprender está no fazer!

Pausa para um breve haicai:

por onde andei,
aprender o que não sei,
o fazer é lei!

Eduardo Leal
Ilustração de autor desconhecido

O que eu faço eu sei

Garrafa 501 – Dono do próprio nariz!   Leave a comment

Na contramão de uma grande maioria que anseia apenas por ter! Obter! Possuir! Descobrir o impulso da própria semente!

Ser independente, livre, e capaz de assumir a responsabilidade pelos próprios atos são alguns dos requisitos para que se possa empreender a instigante jornada do autodesenvolvimento, passando pelo autodescobrimento, sem a qual ninguém chega a lugar nenhum que seja valioso e verdadeiro.

Autodescobrir-se para autodesenvolver-se!

Mas, quem sou eu? De que sou feito? Qual o impulso e intenção da minha própria semente? Autodescobrimento!

E, a partir daí, conhecendo essa intenção e impulso seminal, dar-lhe livre expressão e desenvolvimento. Autodesenvolvimento!

O descobrir-se! O simplesmente ser! Antes do fazer, e antes do ter!

Só assim o nosso fazer poderá estar alinhado com a intenção da própria semente, o nosso propósito!

Pausa para um breve haicai:

para ser feliz,
de ser dono não preciso.
tenho meu nariz!

Eduardo Leal
Ilustração de autor desconhecido

Nariz

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