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Garrafa 536 – Testemunha silenciosa   Leave a comment

O alarme está ajustado para despertar às seis horas, mas normalmente já estou acordado um pouco antes disso. Tem sido assim pelo menos desde o início dos anos sessenta.

Costumava despertar às cinco e meia, com o céu ainda escuro, para entrar antes das sete no Colégio Militar. Nos anos setenta, o toque de alvorada do corneteiro soava na Escola Naval às seis, mas o som das gaivotas da Ilha de Villegagnon já entrava pela janela aberta bem antes disso, junto com a brisa impregnada de maresia da Baía de Guanabara. Depois de formado, essa se tornou a rotina para chegar ao trabalho antes das oito, deixando, antes, as meninas no colégio. E isso se entendeu até o início de 2002, ou seja, por mais de quarenta anos.

Após a transferência para a reserva, iniciei nova carreira com outras atividades profissionais e maior flexibilidade com relação a horários, que ficam agora a meu quase exclusivo critério. Mas o hábito de acordar cedo se mantém, apesar de não ser mais tão necessário. Agora é uma escolha do corpo!

Lembro-me de, na infância, precisar de pelo menos dez horas de sono por dia. E esse número foi sendo reduzido para nove na adolescência, e para oito na juventude e início da vida adulta. A partir dos anos 80, seis horas já eram suficientes. Hoje, dificilmente adormeço antes de uma da manhã. Fico bem disposto com apenas cinco horas de sono por noite. Indicaçao da inexorável aproximação da velhice, dizem. Parece que ficamos com mais sede de vida, ao pressentirmos o seu fim, e queremos dormir menos para viver mais. Quem sabe?

Quando estou em casa, ao levantar da cama, meus primeiros passos costumam me levar direto para a varanda, que aponta para o sul da paisagem da Barra da Tijuca. Fico de olho no céu em busca de nuvens cor de rosa ou acinzentadas, ansioso pelo contato com as primeiras luzes da manhã que aparecem do lado esquerdo, a leste, na direção de onde fica a Praia de São Conrado. E procuro pistas sobre a intensidade e direção do vento, no movimento das folhas dos coqueiros, amendoeiras e mangueiras da pracinha, como se ainda estivesse no convés de algumas das embarcações que tripulei ou comandei. As gaivotas silenciosas ficam muito alto no céu matinal e a algazarra da passarinhada é uma composição do canto de sabiás, cambaxirras e de muitos bem-te-vis. Sua plumagem em tons de marrom e amarelo é percebida por entre os galhos e troncos que se mostram já bem secos ou ainda molhados, indicando como transcorreu a madrugada e como promete ser o novo dia, se já choveu ou se teremos céu azul, nublado ou chuvoso.

Aqui no sítio, onde já estou há alguns dias, a rotina é parecida. Salto da cama e corro para fora da casa que é cercada de muitas árvores diferentes. São jaqueiras, mangueiras, jambeiros, o bananal e um grande bambuzal que nos protegem dos ventos que sobem a partir do fundo do vale, a oeste. Preciso me afastar de suas paredes e telhado para olhar em direção das pequenas elevações cercadas de vegetação que cercam a casa por cerca de cento e oitenta graus, na direção do nascente. O sol presencial só depois das oito, em dias de céu claro, apesar de anunciado a partir das quatro pelos galos da vizinhança. Aqui é mais fácil ver o dourado do poente que o do nascer do sol, já que o setor oeste é mais livre de obstáculos próximos, e as montanhas avistadas no fundo do vale ficam muito distantes, no limite do horizonte. No sítio, a sinfonia matinal de passarinhos também é extremamente variada mas, ultimamente, tem sido abafada pela estridência insolente de bandos de maritacas.

Hoje é uma data especial em que é celebrado o dia dos pais e lembro-me do meu bom amigo que já nos deixou há vinte anos. Teria completado cem anos, se ainda estivesse entre nós, e despediu-se precocemente deste mundo aos oitenta. Estou aproveitando a companhia do meu sogro, o patriarca da família que tem noventa e três, e hoje acordou mais cedo para moer cana para todos nós. Meu filho mais velho, que será pai pela primeira vez a partir de janeiro já me chamou em vídeo agora há pouco, diretamente da Alemanha, onde vive. Estava fazendo a barba do meu sogro durante a chamada, e conversamos, ao mesmo tempo, três gerações: avô, pai e filho. Muito riso e pouco sizo! Minhas filhas já estão a caminho, subindo a serra para participar do almoço em família, regado a caldo de cana. Trazem o pequeno Damião, netinho amado, representante da quarta geração que em breve terá a companhia de um priminho ou priminha. Seu sexo, para arrepio dos idiotas defensores da ideologia de gênero, ainda não sabemos, mas sim descobriremos em breve. Vida que segue seu curso!

Sou grato por isso!

De olho na entrada do sítio, no fim da manhã, permaneço pensativo aguardando o barulho e a visão do carro que traz minhas filhas, genro e neto. Como testemunha silenciosa, sinto e ouço o vento mensageiro.

Chegaram!

Hoje, mais cedo, rabisquei no meu bloco de notas:

ah! no bambuzal!
de onde? para onde vai
rajada de vento?

Eduardo Leal

Foto de Eduardo Leal

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Garrafa 533 – Diante da vastidão do tempo e do espaço   Leave a comment

Como já mencionei na página Minhas Razões, algumas das garrafas que lanço no mar da Internet trazem informações sobre o endereço de destino, e esta é uma delas. Nesta bela manhã de outono, ou de primavera, dependendo do hemisfério em que estejam os endereços do remetente e o de destino, quero dizer apenas que foi ótimo ter conhecido você há algum tempo atrás. Que coisa espetacular você ter nascido, e nesta época do ano! E mais ainda por termos nos encontrado!

Ontem mesmo tropecei nesta citação do astrônomo Carl Sagan, enquanto pensava no que dizer na mensagem que pretendia postar no dia de hoje. Sincronicidade em ação:

“Diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo, é um imenso prazer para mim dividir um planeta e uma época com você.”

Hoje à noite, surgirá no horizonte mais uma Lua Cheia de Outono, como tantas outras têm surgido desde que o planeta e seu satélite existem. E fico feliz que ainda possamos testemunhar algumas delas (que registro por aqui), nesta nossa curta existência, diante da vastidão do tempo e do espaço.

Você surgiu pra mim como uma bela lua cheia, em uma noite de outono!

Sou grato por isso!

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Fases da lua

Garrafa 516 – Buraco negro existencial   2 comments

De acordo com o resultado de pesquisas científicas disponíveis na Internet, um buraco negro seria uma região do espaço-tempo com matéria maciça e altamente compactada, resultante da deformação espacial decorrente do colapso gravitacional de uma estrela. No coração desse corpo estelar o tempo, conforme o percebemos, pararia de fluir e o espaço simplesmente deixaria de existir. E, teoricamente, nada, nem mesmo um único raio de luz poderia escapar de suas escuras fronteiras conhecidas como horizonte de eventos.

De minha parte, penso também em buracos negros como uma poderosa metáfora para um estado de depressão severa resultante do colapso emocional de uma pessoa. Um estado mental em que ela se vê esmagada pelo peso de emoções e sentimentos negativos que não consegue mais suportar, e do qual sente-se incapaz de escapar.

Há alguns anos atrás, cruzei perigosamente a região próxima ao horizonte de eventos de um buraco negro. No momento em que minha carreira profissional estava no auge, ascendendo a um novo ambiente e ao exato local onde tinha planejado chegar vinte anos atrás, a área de relacionamentos sofria com a recente perda de uma pessoa muito importante e com a reversão de expectativas e a frustração decorrente do comportamento surpreendente de outra criatura que tinha se tornado muito próxima (estava literalmente refém de sua atração gravitacional). A saúde física, emocional e mental foram afetadas e levaram-me a um quadro emocional que, se bem me recordo, foi classificado como depressão moderada. Não cheguei a mergulhar completamente no fundo do buraco negro, mas cheguei muito próximo para sentir uma amostra dos seus efeitos devastadores: sob uma enorme pressão existencial, não era capaz de ver as coisas ao meu redor com um mínimo de clareza e tinha enorme dificuldade de tomar decisões rotineiras simples.

Em 2016, um dos maiores físicos teóricos e destacado estudioso dos buracos negros de todos os tempos, Stephen Hawking declarou que já não pensa que o que quer que seja sugado para dentro de um buraco negro seja completamente destruído.  Ele pensa que poderia haver um caminho para se escapar através de um outro universo…

Também penso assim no caso do buraco negro existencial. Uma vez que nosso  próprio “Universo” não passa de uma percepção que construímos através da filtragem que fazemos com as informações que recebemos por meio de nossos sentidos; e que pessoas diferentes veem “Universos” bem diferentes, mesmo quando colocadas lado a lado na mesma região do espaço; tudo o que precisamos fazer é uma mudança desses filtros mentais e pronto! Entramos em um novo Universo! E isso pode funcionar mesmo quando nos encontramos submetidos a uma pressão emocional esmagadora no fundo de um buraco negro existencial!

No meu caso, a mudança de filtros mentais se deu pela leitura de diversos bons livros sobre psicologia e psicanálise que me caíram nas mãos, pelas conversas instigantes com uma psicoterapeuta que adota a abordagem de Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), e com a descoberta e intensa participação em um curso de Practitioner em Programação Neurolinguística (PNL).

Com o apoio de pessoas queridas que já faziam parte de meu círculo de relacionamentos e com o de outras pessoas especiais que encontrei ao longo do caminho, quando me pus em movimento, empreendi meus melhores esforços com o desejo ardente de sair da região escura em que me vi momentaneamente, e fui capaz de cavalgar a extremidade de um raio de luz que escapou da escuridão, emergindo em uma nova região do espaço.

Naquela ocasião, diante da possibilidade de meu mergulho iminente nas profundezas do buraco negro, observadores externos atentos e bem intencionados eram capazes de perceber meus lamentos, escutando o som da minha voz cada vez mais distorcido pelo Efeito Doppler, enquanto eu ainda encontrava um mínimo de energia para brincar com a métrica de um haicai:

buraaaco neeegro!
fuuugir para não caiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiirrrr…
c    o    m    o         e    s    c    a    a   a   a   p    a    a   a   a   r   r   r   r   r   r?

A solução veio com a compreensão do sábio provérbio indiano que tornou-se um mantra pra mim, depois que o vivenciei:

Nada mudou.
Só eu mudei.
Portanto, tudo mudou!

Esta é a mensagem de encorajamento que envio para todas as pessoas que se encontram na borda de um sombrio horizonte de eventos em qualquer uma das Áreas da Vida, quer seja a do Ambiente Físico, da Saúde, da Carreira, do Desenvolvimento Pessoal, dos Relacionamentos, das Finanças, da Espiritualidade, ou até mesmo na área do Lazer.

Em tempos dessa estupidez chamada de “Baleia Azul” que teria se espalhado pelo mundo a partir de sites localizados na Russia, recuso-me simplesmente a chamar essa atividade de “Jogo”, por propor aos seus participantes a  realização de uma sequencia de 50 atividades, sendo cada uma mais degradante que a outra, incluindo ações de mutilação do próprio corpo e culminando com uma sugestão de suicídio. Escolho agir assim, para não lhe emprestar qualquer caráter lúdico, uma vez que sabemos que as diversas formas de jogo já conhecidas, ou aquelas anunciadas como tal, sejam elas saudáveis ou não, têm o poder de atrair a atenção de jovens e adultos de todas as idades.

Apresento, de acordo com minha própria experiência, uma vez que não sou psicoterapeuta, algumas propostas para se lidar com essa situação ameaçadora: a de captura da atenção de pessoas fragilizadas por um estado depressivo, por parte de verdadeiros criminosos, apenas interessados em exercer o poder de conduzi-las para o fundo de um buraco negro existencial, com o sério risco desse processo culminar com a auto destruição de suas vítimas, se essa situação não for reconhecida e interrompida a tempo pelas próprias vítimas, ou por pessoas presentes no seu ambiente familiar, escolar, pessoal ou de trabalho:

PARA PAIS, EDUCADORES, AMIGOS E COLEGAS DE TRABALHO DE POSSÍVEIS VÍTIMAS:

  1. Procurar conhecer de verdade seus filhos, alunos, amigos e colegas de trabalho, buscando sua companhia com frequência e o estabelecimento de uma conexão genuína;
  2. Buscar ajuda para si próprio, quando for o caso, para evitar ser arrastado para o buraco negro junto com a pessoa que se pretende ajudar;
  3. Durante as diversas conversas, buscar estabelecer formas de comunicação compassiva com foco na escuta com empatia, ao invés de procurar impor a própria opinião;
  4. Incrementar a prática do elogio sincero, o “feedback positivo” que não tem contra-indicações, e reforça a auto-estima de quem o recebe e o reconhece como verdadeiro; e
  5. Buscar o apoio de terapeutas qualificados, ao longo de todo o processo, uma vez que nada substitui sua valiosa orientação.

PARA AS VÍTIMAS DE DEPRESSÃO:

  1.  Buscar estabelecer formas de comunicação compassiva consigo mesmo com foco em uma espécie de investigação apreciativa pessoal para trazer à consciência cada vez mais motivos para reconhecimento e gratidão e não apenas para lamentação;
  2. Buscar o apoio de terapeutas qualificados, ao longo de todo o processo, uma vez que nada substitui sua valiosa orientação.

Isto também pode ser dito de outra maneira, como nos sugeriu Albert Einstein, em um de seus imaginativos experimentos teóricos que o levaram à descoberta da Teoria da Relatividade:

Desenvolver a capacidade de, mentalmente, colocar-nos na extremidade de um intrépido raio de luz, e apreciar o Universo a partir dessa nova perspectiva!

Eduardo Leal
Ilustrações de autores desconhecidos

Buraco NegroEspiral colorida

Garrafa 504 – Errando melhor   2 comments

Saber de cor é como saber sem fazer esforço para evocar o conteúdo do conhecimento, quando esse conhecimento provém de uma sabedoria corporal, diretamente do “coração”. Em latim, “cor” quer dizer coração.

E de maneira semelhante à empregada na língua portuguesa, em inglês, a expressão “to know by heart” tem exatamente o mesmo sentido e usa as mesmas palavras, “saber com o coração”. E o mesmo se dá em francês, com a expressão “savoir par coeur”, que significa “saber por intermédio do coração”.

Mas o que podemos ou devemos fazer para alcançarmos esse nível de aprendizado, a ponto de saber com o coração?

Em um dos modelos de “Ciclo de Aprendizado” mais conhecidos, podem ser identificadas quatro fases distintas para alcançarmos o completo domínio de algum tipo de conhecimento:

a) No início do processo de aprendizado, seja lá do que for, há uma fase em que se pode dizer que “nem sei que não sei”, um momento de desconhecimento total, de completa ignorância a respeito do nosso próprio desconhecimento e até mesmo da existência daquele determinado tema;

b) Até que descobrimos que há “algo” que não sabemos, que há um tema de que antes nunca tínhamos ouvido falar, e sobre o qual tudo desconhecemos, iniciando a fase do “sei que não sei”;

c) Se decidimos então aprender a respeito desse tema e ultrapassar essa segunda fase, saímos em busca de informações a respeito e, principalmente, começamos a colocar em pratica esse novo saber progressivamente adquirido, até que chega um momento em que podemos dizer que “sei que sei” algo a respeito desse tema e apresentamos algum grau de domínio a respeito do assunto em questão; e

d) Finalmente, a prática continuada e prolongada nos leva então à ultima fase do processo, com o completo domínio – com toda a maestria – no trato da questão. Nos tornamos “um mestre”. O tema já foi introjetado, sabemos de cor, sabemos com o coração, e não mais apenas com o pensamento. E podemos dizer até que “nem sei que sei”.

Como já mencionado no post da Garrafa 502 – O fazer é lei!, nas fase c) e d) do Ciclo de Aprendizado, a ênfase está no fazer, na prática continuada e prolongada.

Seres imperfeitos que somos, em contínuo processo de desenvolvimento e evolução, até mesmo um mestre é passível de cometer erros e enganos. Mas erra melhor! Erra menos! Comete erros novos, ao invés de repetir os mesmos erros! Está, a cada passo, mais próximo da perfeição!

Pausa para um breve haicai:

errando melhor,
vou querendo acertar,
que não sei de cor.

Eduardo Leal
Ilustração de autor desconhecido

Errando melhor

Garrafa 503 – Arco esticado, íris brilhante!   Leave a comment

Em busca de inspiração para minhas brincadeiras com as palavras com a métrica do haicai, volta e meia  minha atenção é despertada pela percepção de alguma sensação corporal inesperada; pela visão de alguma imagem interessante ou pela leitura de algum texto instigante; pela escuta de algum som ou música suave ou surpreendente; pela detecção da presença de algum odor agradável ou repulsivo; ou pela degustação de alguma comida saborosa ou estranha ao próprio paladar.

E, muito frequentemente, isso ocorre pela sinestesia, ou a ocorrência simultânea de algumas dessas situações: uma sensação corporal que evoca uma imagem armazenada na memória afetiva, ou vice-versa; a associação do odor e do sabor de determinadas comidas ou bebidas com os lugares e pessoas em companhia de quem elas foram degustadas; ou de um perfume suave e nuvemovente percebido em uma rua movimentada, o que nos faz interromper nossa apressada caminhada, instintivamente mover nosso corpo todo na direção daquela “inspiração” e, muito mais rapidamente do que qualquer promessa enganosa de cartomantes inescrupulosas, traz sim a pessoa amada “de volta” em um segundo!

A visão de um belo arco-íris,  quando o sol explodiu em sete cores e revelou então os sete mil amores que o Tom guardou pra dar para Luiza, despertou minha memória musical. E as gotículas de água ainda em suspensão na atmosfera de outono, em uma tarde chuvosa, trouxeram de volta também as diversas lendas sobre um misterioso e desejado pote de ouro e brilhantes escondido na extremidade distante daquele arco fugaz e colorido. E pensamentos sobre quem possivelmente teríamos que nos tornaro que teríamos que fazer para chegar até lá, e resgatar o cobiçado premio por nossa eventual coragem e persistência. Tornar-me quem, senão eu mesmo? Fazer o que, senão ação amorosa? Fazer quando, senão agora?

E minha imaginação evocou também outro tipo possível de arco esticado em seu limite pelo filosófico arqueiro zen Eugen Herrigel, de minha memória literária. E a flecha de prata, aguardando a súbita liberação, carrega a sua própria alma, sua mensagem de vida e morte lançada na escuridão silenciosa da noite, enquanto a única fonte de luz perceptível naquele instante é o brilho interno da íris do arqueiro.

Apenas outro tipo de conexão arco-íris…

Pausa para um breve haicai:

arco esticado,
com a flecha de prata,
íris brilhante…

Eduardo Leal
Ilustração de autor desconhecido adaptada por Eduardo Leal
Instruções de utilização: Ouvir Luiza, no piano e voz de Tom Jobim

Íris brilhante 3

Garrafa 500 – Quinhentos tons de celebração   3 comments

Esta é uma mensagem de celebração pelas 500 postagens realizadas desde outubro de 2005, quando o Blog “Três Coisas” marcou sua presença na Internet pela primeira vez, com o lançamento da Garrafa 1 – Três Coisas, que incluía no corpo do texto a Garrafa 0 – Primeiras Palavras. Só em 2011 o conteúdo da “Garrafa 0” foi replicado em uma página separada, e renomeada como “Garrafa Zero – Minhas Razões“.

E sei que esse não é um número tão grande assim. São 500 postagens em 155 meses, o que me diz que, em média, teria me manifestado de alguma maneira por três vezes em cada mês. Mas alterno períodos em que publico um post todo dia, como ocorreu em todos os dias do mês de abril de 2012, com outros de silêncios mais prolongados, até de um ano inteiro, como ocorreu agora, desde abril de 2015. E a quantidade de posts ou frequência de publicação não são a minha preocupação principal. Publico, quanto sinto que tenho algo relevante a dizer. E assim tem sido.

Com um pouco mais de dez anos de existência do Blog, muita coisa aconteceu comigo e com o meu entorno pessoal e profissional. Mas o conjunto de temas utilizados nas postagens não sofreu muitas alterações ao longo do tempo. Uma breve verificação de quais foram as palavras-chave mais usadas como “tags” ou “rótulos de busca” e que podem ser vistas na área da esquerda, em cada página, nos indica que os temas mais citados foram: Percepções, Aqui, Agora, Amor, Vida, Tempo, Oriah, O Convite, Coração, entre outros.

Ao longo desse tempo, quando senti que algum tema estava merecendo uma atenção especial, optei por lançar outro Blog com posts específicos enfocando o assunto em questão. Foi assim que surgiu o Blog “Sou Grato por Isso!” abordando o tema da gratidão; o Blog “Dieta de Notícias” abordando apenas notícias de conteúdo positivo; e o Blog “Vendo o mundo da varanda” abordando minhas percepções depois da prática meditativa matinal realizada rotineiramente na varanda do meu apartamento. Um outro Blog chamado de “Politicamente Integral” foi lançado há algum tempo, mas ainda não recebeu conteúdo significativo, o que pretendo fazer na medida da minha disponibilidade para estudar e pesquisar mais a respeito do tema. O Blog mais recente, que está em fase final de elaboração se chama “Um passo de cada vez” e deverá conter, inicialmente,  minhas percepções a respeito das fases de preparação e de caminhada efetiva ao longo do Caminho de Santiago de Compostela.

Não houve, infelizmente, e me dou conta disso agora, uma celebração formal no aniversário de dez anos do Blog “Três Coisas”, em 21 de outubro de 2015, contando o tempo a partir da data de sua primeira postagem, como seria de se esperar pelo meu apreço por celebrações de todos os tipos. Isso se deu pelo silencio e recolhimento que voluntariamente me impus, a partir do lançamento da Garrafa 496, de 20 de abril de 2015. Naquela ocasião, entrei em ritmo de preparação para percorrer o Caminho de Santiago de Compostela, o que efetivamente ocorreu entre setembro e outubro do ano passado.

Saí do Rio de Janeiro em 08 de setembro e iniciei a opção conhecida como “Caminho Francês” em 10 de setembro, a partir de Saint Jean de Pied de Port, na França, aos pés dos Montes Pirineus e percorri a maior parte do tempo atravessando as belas paisagens espanholas, até chegar em Santiago de Compostela. Durante esse período, quando cheguei ao povoado de Agés, próximo de Burgos, tive que fazer uma interrupção de uma semana, para tratar de tristes questões familiares na Alemanha, em Bremen, voltando ao mesmo ponto do Caminho onde tinha feito a interrupção, para só então concluir o trajeto previsto. Ao retornar ao Brasil, em 26 de outubro de 2015, levei um bom tempo ruminando, processando e degustando comigo mesmo tudo que vivenciei ao longo dos cerca de 800 quilômetros percorridos a cada passo daquela jornada inesquecível. Conheci lugares e pessoas especiais que estarão comigo, para sempre, na memória corporal e afetiva.

Retomei as postagens por aqui somente em abril de 2016,  há apenas uma semana atrás, para celebrar algumas datas especiais, entre elas o lançamento desta quingentésima garrafa.

Além deste texto, elaborei uma ilustração comemorativa fazendo uma composição com imagens encontradas na Internet sobre as quinhentas garrafas. Ao buscar nos posts já enviados uma trilha sonora que pudesse estar à altura da ocasião, optei por incluir algo ainda não postado e que é uma das peças de que mais gosto e que compõe a trilha sonora da minha vida. Como o tema do Amor, em todas as suas formas, é um dos mais abordados por aqui, enquanto dei conta de lançar apenas 500 garrafas com mensagens, o Grupo de Rock Progressivo italiano dos anos 70, “Banco del Mutuo Soccorso”, um dos meus preferidos, nos lembra que o amor faz já 750.000 anos!

Esta Garrafa 500 é portanto o meu presente tanto para os muitos seguidores do Blog, que me enchem de alegria quando costumam deixar seus comentários aqui e ali, quanto para os visitantes eventuais que não deixam outro traço de sua presença, além de um local de acesso em alguma praia distante de algum país, onde a garrafa lançada foi recolhida, e um número registrado nas estatísticas de acesso. São todos, tanto os muito ativos como os mais silenciosos, sempre muito bem-vindos ao Blog.

Se alguém, em algum lugar, em algum momento, encontrando uma dessas garrafinhas, ao bisbilhotar o seu conteúdo:

  • esboçar o mais leve sorriso;
  • ouvir aquele ruído característico de uma ficha caindo dentro da própria cabeça;
  • se lembrar, com carinho, de algum amor antigo ou atual, que já não veja há muito tempo (às vezes cinco minutos parecem uma eternidade); ou
  • for levado a refletir sobre a própria vida, a dos seus semelhantes e sobre os destinos desse nosso pequeno planeta azul…

Já terá valido a pena!

Como sempre gosto de fazer, brinco mais uma vez com as palavras, usando a métrica do haicai:

cinco, cinquenta,
já quinhentas garrafas!
recolheu alguma?

Eduardo Leal

Composição de Eduardo Leal com fotos de autores desconhecidos
Instruções de utilização: Ouvir “750.000 anni fa l’amore” com Banco del Mutuo Soccorso.

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Garrafa 498 – Pressentimentos   1 comment

De onde viemos?

Quem somos?

Para onde vamos?

Pausa para um breve haicai:

só pressentido,
no corpo e na alma,
onde sentido?

Eduardo Leal
Ilustração de autor desconhecido

Busca de sentido

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