Arquivo para agosto 2019

Garrafa 536 – Testemunha silenciosa   Leave a comment

O alarme está ajustado para despertar às seis horas, mas normalmente já estou acordado um pouco antes disso. Tem sido assim pelo menos desde o início dos anos sessenta.

Costumava despertar às cinco e meia, com o céu ainda escuro, para entrar antes das sete no Colégio Militar. Nos anos setenta, o toque de alvorada do corneteiro soava na Escola Naval às seis, mas o som das gaivotas da Ilha de Villegagnon já entrava pela janela aberta bem antes disso, junto com a brisa impregnada de maresia da Baía de Guanabara. Depois de formado, essa se tornou a rotina para chegar ao trabalho antes das oito, deixando, antes, as meninas no colégio. E isso se entendeu até o início de 2002, ou seja, por mais de quarenta anos.

Após a transferência para a reserva, iniciei nova carreira com outras atividades profissionais e maior flexibilidade com relação a horários, que ficam agora a meu quase exclusivo critério. Mas o hábito de acordar cedo se mantém, apesar de não ser mais tão necessário. Agora é uma escolha do corpo!

Lembro-me de, na infância, precisar de pelo menos dez horas de sono por dia. E esse número foi sendo reduzido para nove na adolescência, e para oito na juventude e início da vida adulta. A partir dos anos 80, seis horas já eram suficientes. Hoje, dificilmente adormeço antes de uma da manhã. Fico bem disposto com apenas cinco horas de sono por noite. Indicaçao da inexorável aproximação da velhice, dizem. Parece que ficamos com mais sede de vida, ao pressentirmos o seu fim, e queremos dormir menos para viver mais. Quem sabe?

Quando estou em casa, ao levantar da cama, meus primeiros passos costumam me levar direto para a varanda, que aponta para o sul da paisagem da Barra da Tijuca. Fico de olho no céu em busca de nuvens cor de rosa ou acinzentadas, ansioso pelo contato com as primeiras luzes da manhã que aparecem do lado esquerdo, a leste, na direção de onde fica a Praia de São Conrado. E procuro pistas sobre a intensidade e direção do vento, no movimento das folhas dos coqueiros, amendoeiras e mangueiras da pracinha, como se ainda estivesse no convés de algumas das embarcações que tripulei ou comandei. As gaivotas silenciosas ficam muito alto no céu matinal e a algazarra da passarinhada é uma composição do canto de sabiás, cambaxirras e de muitos bem-te-vis. Sua plumagem em tons de marrom e amarelo é percebida por entre os galhos e troncos que se mostram já bem secos ou ainda molhados, indicando como transcorreu a madrugada e como promete ser o novo dia, se já choveu ou se teremos céu azul, nublado ou chuvoso.

Aqui no sítio, onde já estou há alguns dias, a rotina é parecida. Salto da cama e corro para fora da casa que é cercada de muitas árvores diferentes. São jaqueiras, mangueiras, jambeiros, o bananal e um grande bambuzal que nos protegem dos ventos que sobem a partir do fundo do vale, a oeste. Preciso me afastar de suas paredes e telhado para olhar em direção das pequenas elevações cercadas de vegetação que cercam a casa por cerca de cento e oitenta graus, na direção do nascente. O sol presencial só depois das oito, em dias de céu claro, apesar de anunciado a partir das quatro pelos galos da vizinhança. Aqui é mais fácil ver o dourado do poente que o do nascer do sol, já que o setor oeste é mais livre de obstáculos próximos, e as montanhas avistadas no fundo do vale ficam muito distantes, no limite do horizonte. No sítio, a sinfonia matinal de passarinhos também é extremamente variada mas, ultimamente, tem sido abafada pela estridência insolente de bandos de maritacas.

Hoje é uma data especial em que é celebrado o dia dos pais e lembro-me do meu bom amigo que já nos deixou há vinte anos. Teria completado cem anos, se ainda estivesse entre nós, e despediu-se precocemente deste mundo aos oitenta. Estou aproveitando a companhia do meu sogro, o patriarca da família que tem noventa e três, e hoje acordou mais cedo para moer cana para todos nós. Meu filho mais velho, que será pai pela primeira vez a partir de janeiro já me chamou em vídeo agora há pouco, diretamente da Alemanha, onde vive. Estava fazendo a barba do meu sogro durante a chamada, e conversamos, ao mesmo tempo, três gerações: avô, pai e filho. Muito riso e pouco sizo! Minhas filhas já estão a caminho, subindo a serra para participar do almoço em família, regado a caldo de cana. Trazem o pequeno Damião, netinho amado, representante da quarta geração que em breve terá a companhia de um priminho ou priminha. Seu sexo, para arrepio dos idiotas defensores da ideologia de gênero, ainda não sabemos, mas sim descobriremos em breve. Vida que segue seu curso!

Sou grato por isso!

De olho na entrada do sítio, no fim da manhã, permaneço pensativo aguardando o barulho e a visão do carro que traz minhas filhas, genro e neto. Como testemunha silenciosa, sinto e ouço o vento mensageiro.

Chegaram!

Hoje, mais cedo, rabisquei no meu bloco de notas:

ah! no bambuzal!
de onde? para onde vai
rajada de vento?

Eduardo Leal

Foto de Eduardo Leal

Garrafa 535 – Aristotolices   Leave a comment

A época do aniversário é, tradicionalmente, momento de realização de balanços de perdas e danos e de celebrações. E a cada ano o resultado é sempre diferente! Como já nos dizia Ortega y Gasset: “Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não me salvo a mim.”

O dia de ontem foi ótimo! Caminhada rotineira na manhã ensolarada e, à noite, recebi em casa a parcela local da família: mãe, irmã e filhas, com seus respectivos companheiros (genros) e, como sempre, o personagem de destaque da família, até a chegada de outros componentes já anunciados, o pequeno Damião, netinho querido.

Várias ligações do filho, de amigos e amigas, algumas internacionais, e muitas mensagens recebidas pelas redes sociais temperaram a tarde, enquanto as panelas já estavam no fogo, antecipando na agitação da cozinha, a chegada do pequeno grupo de convidados.

Uma garrafa de vinho tinto espanhol, de uva tempranillo, hábito adquirido durante o Caminho de Santiago – 2015, molhou a palavra durante as animadas conversas noturnas.

Sobre a minha inescapável e complexa circunstância, apenas algumas notas de rodapé, a título de leitura recomendada:

  1. Terminei a leitura da pequena joia “Aristóteles em nova perspectiva – A Teoria dos Quatro Discursos” de Olavo de Carvalho. Li e reli o seu conteúdo ao longo de duas semanas, deliciando-me com a sua proposta original e inovadora de considerar como uma Teoria Geral do Discurso as quatro obras do filósofo estagirita: as duas primeiras, a Poética e a Retórica se prolongando e aprofundando nas duas ultimas, a Dialética e a Lógica – Analítica. E não menos deliciosa foi a leitura do texto suplementar “Aristóteles no Dentista – Polêmica entre o Autor e a SBPC”, na época do encaminhamento de seu trabalho “Uma filosofia aristotélica da cultura” para avaliação e eventual publicação na revista Ciência Hoje. Essa situação insólita se iniciou em 1983, com o envio do trabalho, e se estendeu por 1984 e 1985, com artigos publicados em jornais e a correspondência pessoal e institucional trocada entre os envolvidos. Segundo o autor, foi nesse instante que nasceu a inspiração para o livro “O Imbecil Coletivo”, como uma espécie de tratamento de choque para despertar a nossa moribunda intelectualidade;
  2. Motivado pela leitura do livro sobre Aristóteles, dei continuidade à leitura de “O Imbecil Coletivo”, também de Olavo de Carvalho, igualmente espetacular e dessa vez profético, do qual destaco o artigo “Bandidos & Letrados” que explicita com precisão a trajetória de uma revolução cultural que se encontra em curso, e que só poderia resultar na atual situação de decrepitude moral do STF, instituição transformada por seus atuais integrantes em defensora de bandidos e do crime organizado. Destaco o parágrafo inicial: “Entre as causas do banditismo carioca, há uma que todo mundo conhece mas que jamais é mencionada, porque se tornou tabu: há sessenta anos, os nossos escritores e artistas produzem uma cultura de idealização da malandragem, do vício e do crime. Como isso poderia deixar de contribuir, ao menos a longo prazo, para criar uma atmosfera favorável à propagação do banditismo?” Recomendo a leitura pelo menos desse artigo, já que as reflexões produzidas pela obra completa podem levar a um estado de depressão grave, com consequências devastadoras para as pessoas mais sensíveis, de boa fé e de bom senso, e ainda com alguma esperança residual nos destinos do nosso país;
  3. A leitura da Teoria dos Quatro Discursos me induziu também a reler, pela quarta vez, “A Estratégia da Genialidade – Volume 1” de Robert Dilts. Nessa série composta de três volumes, Dilts utiliza as ferramentas de modelagem e princípios da PNL – Programação Neurolinguística para investigar os padrões cognitivos de pessoas reconhecidamente geniais. No Capítulo 1 desse livro espetacular, o alvo da investigação é justamente Aristóteles! E constatamos que o seu reconhecimento como gênio não adveio simplesmente daquilo que ele sabia, mas da sua capacidade de expressar o que sabia. A estratégia de Aristóteles para identificar a relação entre o geral e o particular, encontrando a causa ou o `meio´, foi a base dos seus famosos `silogismos´: Todos os homens são mortais; Sócrates é homem; Sócrates é mortal. Para quem se interessa por filosofia e também por PNL, penso que essa pode ser uma leitura complementar proveitosa;
  4. Finalmente, atualmente também estou lendo “A Vida Intelectual” de A.-D. Sertillanges, que tem prefácio de Olavo de Carvalho. É leitura recomendada para quem se interessa por filosofia e já atendeu, ou pretende atender em breve ao chamado vocacional do trabalho intelectual e do desenvolvimento do espírito. Tudo isso, mesmo para quem só disponha de duas horas por dia para dedicar a essa nobre atividade.

Dito isto, sentado no banco da pracinha em frente ao meu prédio, sentindo na pele o calor do sol da manhã no dia seguinte ao do meu aniversário, folheando o meu exemplar de “A Vida Intelectual”, fiquei perdido em reflexões depois de ler o seguinte trecho:

“O homem isolado demais torna-se tímido, abstrato, um pouco bizarro, titubeia no mundo real como um marinheiro recém-desembarcado; não tem mais o senso de seu destino; parece olhar-nos como uma `proposição´que deve ser inserida em um silogismo, ou como um exemplo a ser registrado em um bloco de notas.”

Ainda processando as mensagens de aniversário que recebi, fiquei imaginando  também aquelas que, por diversas razões, deixaram de ser a mim enviadas e rabisquei na borda do livro o seguinte haicai:

apaixonado,
do silogismo, o meio,
você é termo.

Eduardo Leal
Ilustração de autor desconhecido

O Convite

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