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Garrafa 510 – O Caminho do Meio na Política   2 comments

Sou um apreciador de boas metáforas e analogias e acredito que elas podem ser ferramentas poderosas de gestão do conhecimento. Esse assunto é bem abordado no artigo de Ikujiro Nonaka, “A Empresa Criadora do Conhecimento”, que consta do livro “Gestão do Conhecimento”, de Série Harvard Business Review, da Editora Campus, que li em 2001.

“A metáfora é o meio pelo qual indivíduos situados em contextos diferentes e com experiências diversas compreendem algo de maneira intuitiva, mediante o uso da imaginação e de símbolos, sem a necessidade de análises e generalizações. Por intermédio das metáforas, as pessoas reúnem seus conhecimentos sob novas formas, que servem para expressar o que sabem, mas ainda não está traduzido em palavras. Como tal, a metáfora é altamente eficaz em fomentar o comprometimento direto com o processo criativo nos primeiros estágios da criação do conhecimento.”

Já tinha entrado em contato com o tema, também, por meio dos Cursos de Programação Neurolinguística – PNL, que realizei a partir do ano 2000. E meu guru em PNL, Robert Dilts, em seu livro “From Coach to Awakener”, editado pela Meta Publications, em 2003, nos aponta que as metáforas e analogias nos permitem traçar paralelos entre diferentes ambientes ou experiências. Ele usa os conceitos estabelecidos pelo seu próprio guru, Gregory Bateson, antropólogo e teórico da área da comunicação. Cito em adaptação livre:

“A habilidade para encontrar metáforas e analogias é uma função do pensamento abdutivo, que Bateson contrastou com os processos de pensamento dedutivo e indutivo. O pensamento abdutivo, ou analógico, nos conduz a mais criatividade e essa seria a própria fonte da arte e do gênio. Bateson acreditava que as analogias nos levam a focalizar na estrutura profunda da nossa experiencia, ao invés de apenas nas suas diferenças superficiais.

Portanto, uma ideia complexa, que é muito bem descrita por meio de uma bela metáfora e se ajusta com perfeição  a uma determinada área do conhecimento ou experiência, também pode ser transposta para outra  área, trazendo luz e a possibilidade de solução de outro desafio igualmente complexo.

Não sigo qualquer tipo de religião formal e, ao mesmo tempo, respeito quem escolhe fazê-lo. Procuro retirar aquilo que faz sentido pra mim dos aspectos filosóficos de cada uma das doutrinas com as quais já entrei em contato, quer sejam elas as que vivenciei por influencia familiar, ou quer sejam todas as outras que busquei por meu próprio interesse, enquanto percorro o meu caminho espiritual individual. Esse caminho, segundo entendo, não passa necessariamente por abraçar nenhuma religião formal. Tem mais a ver com o conceito de contribuição, de compartilhamento e de inclusão, no nosso círculo de preocupações, de um número cada vez maior de pessoas e de seres sencientes. Mas reconheço que esse caminho individual também pode incluir algum aspecto religioso, para quem assim o desejar.

O conceito de caminho do meio, da filosofia budista, é uma dessas ideias que faz todo o sentido pra mim. Ele se refere ao conhecimento sobre o vazio (Sunyata) que transcende as declarações opostas sobre a existência. Incorpora a prática do não-extremismo, de um caminho de moderação e distância entre a auto-indulgência e a morte; da busca de um meio-termo entre determinadas visões metafísicas; e propõe uma explicação do estado de nirvana, ou de perfeita iluminação, no qual fica claro que todas as dualidades aparentes no mundo são ilusórias. Lao Tsé também nos aponta nessa direção quando nos diz que devemos buscar a justa medida de todas as coisas, fugindo dos extremos, e esse conteúdo já foi postado na Garrafa 159. E penso que esses conceitos do caminho do meio e da justa medida podem ser transpostos para outras áreas do conhecimento, mantendo sua validade como princípios universais. Essas são algumas das minhas crenças orientadoras que procuro utilizar em todas as áreas da vida.

Li essa próxima ideia que vou apresentar em seguida no Blog do escritor Paulo Coelho, há algum tempo atrás. Senti naquela ocasião o perfume sutil da filosofia budista e do taoismo, e a incorporei imediatamente ao meu cinto de utilidades de Metáforas Poderosas:

“A busca espiritual é uma ponte sem corrimão atravessando um abismo. Se alguém está muito perto do lado direito, um bom mestre deve indicar ‘para a esquerda!’ Se alguém se aproxima perigosamente do lado esquerdo, esse mesmo bom mestre deve indicar ‘para a direita!’. Os extremos nos afastam do caminho”.

Nesse caso, podemos substituir a “busca espiritual” por qualquer outro desafio ou área do conhecimento onde seja a escolha natural essa ideia de fugir dos extremos perigosos e de buscar um caminho que, de maneira segura, contemple e procure harmonizar as demandas existentes no ambiente e contexto em questão.

Penso que a área da Política é uma das áreas do conhecimento que muito pode se beneficiar com a utilização dessa metáfora, uma vez que essa retórica de direita e esquerda tem sido um lugar comum e fonte de conflitos e disputas intermináveis, desde a época da revolução francesa. Um olhar mais atento pode indicar que as raízes dessa discussão podem ser encontradas muito antes, há cerca de 2.500 anos AC.

Acredito no poder dessa metáfora, apesar de que o seu próprio autor, Paulo Coelho, segundo o meu julgamento, tenha deixado de utilizá-la, de maneira sistemática, ao privilegiar uma visão política claramente “de esquerda” em seus diversos livros, e em algumas outras publicações e entrevistas. Expressou simpatia, quando não militou de maneira mais explícita, chegando até mesmo defender, em alguns momentos, o projeto da quadrilha de malfeitores do PT chefiada pelo ex-presidente Lula. Esse movimento unidirecional para a esquerda, de acordo com a própria metáfora que nos propõe, só poderia apresentar um único resultado, se não fosse interrompido a tempo, o de queda no abismo de uma ditadura de extrema esquerda!

Embora seja sempre desejável, a congruência, ou seja, o alinhamento do pensar, do falar e do agir nem sempre é um valor ou uma qualidade demonstrada por algumas “lideranças” conhecidas, sejam elas literárias, políticas ou espirituais. E isso não elimina o valor das próprias metáforas que são adotadas ora sim, ora não, de acordo com critérios de conveniência momentâneos.

Vamos então dar uma breve olhada na situação política da América Latina e do Brasil, nos últimos anos, e aproveitar para aplicar o conceito subjacente a essa metáfora,  e deixar que cada um siga em paz com suas próprias escolhas e preferencias, mesmo que sejam aparentemente incongruentes.

Se a justa medida, a de se trilhar o caminho do meio, seria aquela de procurar conciliar as visões extremas, sejam elas de direita ou de esquerda, vemos claramente que tanto a maioria dos países da América Latina, bem como o Brasil, oscilaram perigosamente à beira do abismo, alternando visões de extrema direita e de extrema esquerda, nas ultimas décadas.

Em movimentos inspirados e financiados por Cuba e pela antiga União Soviética, a partir dos anos 60, a maioria dos países do continente correu o risco de verem instaladas ditaduras do proletariado (de extrema esquerda) em seus respectivos territórios, um claro cenário de queda no abismo. E também viram, a seguir, como legítima reação de defesa contra esse movimento extremista esquerdizante, a instalação de décadas de governos militares (de extrema direita), um movimento que poderia ser interpretado como sendo em direção ao abismo localizado no outro lado dessa ponte sem corrimão.

Os processos de redemocratização em cada país seguiram seus próprios cursos, cada um ao seu tempo e à sua maneira.

Infelizmente, ao invés de se buscar o caminho do meio, o que seria desejável e razoável, outro movimento pendular de volta à extrema esquerda se seguiu de maneira clara e inexorável em toda a região.

Mesmo que essas visões de extrema esquerda, na maioria das vezes e felizmente não tenham sido completamente implementadas, com exceção do caso da Venezuela,  elas certamente foram a força inspiradora de várias iniciativas de movimento suicida, que foram corrigidas a tempo em alguns casos, antes da inevitável possibilidade de queda no abismo.

Uma fotografia também metafórica da posição de cada um dos países do nosso subcontinente com relação à beira do precipício, nessa ponte sem corrimão, certamente iria colocar a sua quase totalidade novamente à esquerda, na borda do abismo. Isso, graças à atuação continuada, coordenada e deletéria dos partidos de orientação socialista e comunista, desde os anos 90, seguindo a orientação do famigerado Foro de São Paulo. A Venezuela, quem sabe, já seria retratada em plena queda livre, em direção ao fundo do buraco, onde se encontrará certamente com Cuba, para manter os exemplos apenas na nossa própria América Latina.

Ora bolas, o que diria um bom mestre político, em um momento como este, de beira do abismo, ao utilizar a força dessa metáfora para o caso de cada uma das sociedades em questão?

Para a direita! E rápido!

Não me considero nenhum mestre em política, mas posso perfeitamente usar essa metáfora poderosa proposta por verdadeiros mestres consagrados. Eles, que têm me orientado em diversos assuntos existenciais é que são os verdadeiros mestres. E sua mensagem  também está ao alcance de qualquer pessoa de bom senso, desde que tenha olhos para ver e ouvidos para escutar.

A Argentina foi o primeiro país a fazê-lo, ao executar um claro movimento em direção à direita, com a escolha de Macri. E o Brasil, aos trancos e barrancos, parece se mover prudentemente nessa mesma direção, depois do impedimento de Dilma, a esquizofrênica, apesar da situação de transitoriedade e de mandato tampão de Temer. Veremos o que acontece em 2018, e se essa saudável tendência se confirma. Isso, é claro, se não houver nenhum outro sobressalto provocado pela Operação Lava-Jato, e o país mergulhe no abismo simplesmente por ausência de pessoas capazes de assumir o governo, pelo simples fato de estarem todas elas na cadeia.

Já antevejo os olhares de reprovação de alguns dos meus amigos simpatizantes ou militantes de esquerda, que apoiaram e ainda defendem o projeto de poder “bolivariano” do PT, e votaram no candidato do PSOL nas ultimas eleições municipais, e posso imaginar alguns dos seus comentários exaltados no mesmo tom de acusação: Golpista! Coxinha! Reacionário! Blá! Blá! Blá!

E posso sentir os olhares de aprovação e ouvir também avaliações equivocadas de pessoas simpatizantes ou militantes de extrema direita que desejam a volta dos militares ao poder, ou  da adoção de medidas insensatas de instalação de um capitalismo selvagem e insensível. E todos vibrando no mesmo tom: Esse é dos nossos! Direita, volver! Morte aos comunistas! Blá! Blá! Blá!

Mas não me importo com suas opiniões. Escolho me importar sim, com os sentimentos dos meus amigos e familiares mas, ao mesmo tempo, também escolho não dar a mínima para suas respectivas opiniões. Uma equação complexa que inclui equilibrar em justa medida doses generosas de sinceridade e de educação, será utilizada caso a caso. Assim tem sido feito, e assim continuará sendo feito.

Adepto da ideia do desenvolvimento de uma Política Integral, nada mais longe da verdade do que essas acusações simplistas de ser simpatizante ou militante de extrema direita! Ou de ser simplesmente um outro tipo de radical que combate a extrema esquerda!

Como já tive oportunidade de declarar várias vezes, não luto mais contra coisa alguma! Aquilo a que opomos resistência ganha força! Prefiro agir em favor do que considero valioso. E se alguém decidir me atacar pelas escolhas que faço, simplesmente me defendo. A energia flui para onde a atenção está!

No topo da minha escala de valores está a liberdade e, ao agir em favor da democracia, posso ser atacado por extremistas tanto de direita como de esquerda. E estou preparado para enfrentar tranquilamente ambos os tipos de ameaças. Estou apenas utilizando conceitos que considero princípios universais e procurando me alinhar, nesse caso específico, com os ensinamentos do Buda.

Segundo Ken Wilber, criador da Abordagem Integral, quando esses conceitos se aplicam à teoria política, de acordo com alguns dos critérios utilizados o Buda poderia ser considerado o primeiro representante da extrema direita e, ao mesmo tempo, já segundo outros critérios, o mesmo Buda também poderia ser considerado o primeiro representante da extrema esquerda. Nada de surpreendente para alguém cuja doutrina nos diz que todas as dualidades aparentes no mundo são na verdade ilusórias. E tudo isso, muito antes da revolução francesa. Estamos falando de 2.500 AC.

E que critérios propostos pela Abordagem Integral seriam esses?

Ao ser questionado durante um seminário, Wilber, usando como exemplo a situação política da sociedade norte-americana que tem alternado no poder representantes do partido republicano (de direita), também chamados de conservadores, e do partido democrata (de esquerda), também chamados de liberais (aqui no Brasil esse termo não se aplica) usou como critérios básicos o Modelo dos Quatro Quadrantes (EU/ISTO/NÓS/ISTOS) e a ideia dos Níveis e Linhas de Desenvolvimento de Consciência.

Em resposta à pergunta sobre o porque do sofrimento humano, ou sobre o porque de algumas pessoas serem pobres, as pessoas da direita tendem a responder que  eles não trabalham o suficiente, que não são éticos, que eles não respeitam os valores familiares, que eles não assumem responsabilidades, que eles usam drogas, e coisas assim, colocando as causas no interior de cada pessoa. Já os partidários de ideias de esquerda dizem que eles foram reprimidos, que vivem em uma sociedade injusta, e que essa sociedade não lhes deu oportunidades, em resumo, que as causas estão no exterior, na própria sociedade e não no interior do indivíduo. Os republicanos tendem a colocar as causas nos quadrantes interiores (EU/NÓS), enquanto os democratas tendem a colocar as causas nos quadrantes exteriores (ISTO/ISTOS). Nesse sentido, o Buda era um republicano, já que ele atribui 100% da responsabilidade pelo sofrimento a cada indivíduo, ao seu próprio carma criado por atos praticados em vidas passadas, e não se poderia culpar ninguém mais por isso.

Outro critério a ser usado se refere à importância dos direitos do indivíduo quando confrontados com as questões dos direitos da coletividade, e vice-versa. Nesse caso os republicanos (de direita) tendem a privilegiar os direitos individuais, ou seja os quadrantes individuais (EU/ISTO), enquanto os democratas (de esquerda) tendem a privilegiar os direitos coletivos, ou seja os quadrantes coletivos (NÓS/ISTOS).

O terceiro critério tem a ver com os níveis e linhas de desenvolvimento. Os republicanos, de maneira clássica, tendem a se enquadrar no meme azul, são fundamentalistas, acreditam nas verdades da Bíblia, são etnocêntricos, acreditam que o homossexualismo é um pecado, etc. Já os democratas, foram os primeiros a ascender ao meme laranja, e foi quando se falou pela primeira vez em direitos iguais.  Enquanto os azuis eram partidários do sistema de castas, os laranjas não aceitavam essa ideia, o que causou uma verdadeira “revolução” no pensamento da antiga Índia. O pensamento laranja usou a ciência para combater a mitologia, a democracia para combater a escravidão, e a ideia de um sistema representativo contra a ideia da monarquia. Nesse sentido o Buda foi um democrata, uma vez que estendeu a ideia de direitos iguais não só às pessoas, mas a todos os seres sencientes.

Os democratas, portanto estão situados em sua maioria no meme laranja ou acima, no meme verde, e tendem a pensar que as causas dos problemas são externas; já os republicanos estão situados no meme azul e tendem a pensar que as causas dos problemas estão no interior dos indivíduos e na cultura. Pelo fato dos primeiros democratas estarem no meme laranja, eles também começaram a se dizer “progressistas” ao contrário dos republicanos que defendiam valores mais conservadores. Isso tudo aconteceu há cerca de 200 anos atrás. Hoje, a situação evoluiu e em ambos os partidos há grupos azuis e laranjas, como os republicanos “de wall street” que também lutam pelos direitos individuais e falam em meritocracia. Já os democratas têm pessoas no meme verde e bradam seus slogans de multiculturalismo, de pós-modernismo, e também criam fricção com os democratas tradicionais do meme laranja. Um fato curioso, quando se observa a questão dos estágios pré-convencionais e dos pós-convencionais é que ambos votam nos democratas. As pessoas do meme vermelho, que é anterior ao azul, por exemplo tendem a se posicionar a favor dos democratas, assim como os do meme verde.

E esse é um grande desafio, tanto no caso da sociedade americana, mas como em qualquer outra, o de se analisar as questões partidárias específicas com esse olhar Integral. E o  caso brasileiro apresenta um desafio ainda maior, com a enorme pulverização de 35 partidos e legendas, com a ausência de massa crítica qualificada com pessoas estudando o assunto com um olhar integral, e também pela ausência de informações e estatísticas confiáveis a esse respeito. A tarefa daqueles interessados em estabelecer os contornos do que poderá vir a ser uma verdadeira política integral é a de levar em conta não só as visões de todos os quadrantes, mas também contemplar as visões dos diferentes níveis e linhas de desenvolvimento de consciência das pessoas envolvidas.

É claro, seria desejável, também, que os governantes eleitos pudessem estar nos níveis de consciência mais elevados, nos memes amarelo e turquesa, de modo a propor e implementar uma verdadeira visão integral, e não apenas uma visão limitada de nível azul, laranja ou verde, sem falar de uma visão apenas de nível vermelho o que seria simplesmente um retrocesso catastrófico. Segundo Wilber, uma alta dose da responsabilidade que é um valor típico dos conservadores do meme azul é desejável, para que se leve adiante com sucesso uma tarefa dessa envergadura.

Tendo feito todas essas considerações, e voltando à metáfora da ponte sem corrimão e do ponto de beira do abismo onde nos encontramos, depois do país se ver livre de 13 anos de uma agenda de esquerda, inspirada por ideais de extrema esquerda, acredito que é simplesmente uma reação natural que a sociedade brasileira sinta a necessidade de uma guinada à direita, isso apenas para posicionar o país em um caminho mais próximo do caminho do meio, como desejam as pessoas de bom senso e aquelas que acreditam na força dessa metáfora, que tem para mim o valor de um princípio universal.

Nos últimos tempos, temi sinceramente que isso não pudesse ser feito sem uma quebra institucional, o que felizmente não ocorreu, mas os desafios para colocar o país de volta nos trilhos de uma evolução consistente permanecem enormes.

Depois de uma eleição municipal no Rio de janeiro, em que um candidato do nível azul acabou de se eleger, o que nos livrou de outro candidato que se diz de nível verde, mas que flerta descaradamente com seus simpatizantes de nível vermelho, os “Black Blocs”, fica muito claro que temos um longo caminho a percorrer até que os contornos do que poderá se tornar uma Política Integral fiquem melhor definidos.

É o que penso e compartilho com os amigos neste momento.

Eduardo Leal

Ilustração de autor desconhecido

Instruções de utilização: Assistir à resposta de Ken Wilber, em seminário sobre Abordagem Integral.

o-caminho-do-meio

Garrafa 423 – Falo, porque ainda não sei…   Leave a comment

Tenho um pequeno grupo de bons amigos e amigas (e acho que cabem todos numa van) que leem, e às vezes também comentam e compartilham os posts publicados neste Blog. Essas criaturas gentis também se dão ao trabalho de visualizar as fotos e ler os textos que são reproduzidos em minhas páginas nas redes sociais, ou que são divulgados em outros Blogs que mantenho em atividade. Trazem, sempre, novos desafios com seus questionamentos e contribuições, para que eu busque maior clareza na exposição de ideias, quer sejam das poucas que são de minha própria lavra, ou daquela grande maioria que não foi parida por mim mesmo, e sim adotada como valiosa e verdadeira, até prova em contrário.

Os temas do desenvolvimento de consciência e da espiritualidade têm sido aqui frequentemente abordados, por estarem no centro da minha área de interesse, e julgo oportuno reconhecer, desde já, minha total incompetência diante desse enorme desafio.

O salto quântico do nível de desenvolvimento de consciência da Mente (onde se encontra a maioria de nós) para o nível da Alma (onde poucos estiveram por breves períodos, e muito poucos por lá permanecem por temporadas mais prolongadas) é uma experiência individual. É vivenciada sem a interferência ou participação de intermediários, sejam eles padres, pastores, rabinos, aiatolás, gurus, monges, coaches ou consultores. O caminho que leva até a borda do precipício onde esse salto deve ser dado é único. E há tantos caminhos quantos indivíduos existem neste nosso pequeno planeta azul. Mesmo quando duas pessoas parecem caminhar lado a lado, durante algum tempo, seus caminhos são distintos. A senda é estreita como o fio da navalha, para utilizar uma imagem cara aos mestres Zen. E lá chegando, seja que caminho individual tenha sido percorrido e aonde quer que ele tenha levado cada um, é preciso saltar da borda do penhasco no grande Vazio! Sentir essa vertigem!

Além disso, como o nível da Alma transcende e inclui o nível da Mente e, portanto, está além da razão, além da lógica, em contato apenas com a fonte da nossa sabedoria intuitiva, qualquer tentativa de expressar essa experiência em palavras, depois de vivenciá-la, estará fadada ao fracasso. Nosso falatório e escrita serão apenas tímidas tentativas de explicar o inexplicável.

As escrituras Védicas, de milênios atrás, são sábias ao declarar que “Aqueles que sabem, não falam. Os que falam, não sabem”.

E revelador foi o sermão silencioso de Buda, apresentando à sua audiência, por entre os dedos, uma simples flor de cor branca, cujo significado foi percebido apenas por seu discípulo Mahakasyapa.

Com todo respeito por todo esse falatório e suas correspondentes transcrições e publicações em diversas escrituras, de todos os matizes, origens e tendências (várias vezes transcritas neste Blog e posts correspondentes), todo o material disponível sobre esses temas – desenvolvimento de consciência/espiritualidade – pode servir no máximo como um tipo de sinal ou indicação. Uma sinalização que aponta para essa Verdade que pode ser apenas percebida por aqueles que estão prontos e preparados para recebe-la. Verdade essa que também será sempre interpretada no próprio nível de consciência daqueles que vivenciarem essa experiência.

Conforme sugerido nas sábias palavras proferidas pelo Mestre Doogen, que ecoam para nós do fundo do precipício, desde o século XIII, “O dedo que aponta para a lua, não é a lua”. É preciso ver a lua! Olhar na direção indicada pelo dedo, e não para o próprio dedo!

É preciso ver a lua!

E, nesta fase de lua minguante, em que ver a lua se torna uma tarefa sempre um pouco mais desafiadora, situação agravada pelo prenúncio da continuação de um período chuvoso e nublado, em nossa bela cidade do Rio de Janeiro, resta-me apenas brincar com a sabedoria das palavras milenares, usando a métrica do haicai:

não sabe, quem fala.
mas, aquele que sabe,
não fala, cala…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido e
Ilustração de Tsukioka Yoshitoshi – One Hundred Views of the Moon “Moon of Enlightenment”

Lua minguante

O dedo que aponta para a lua

Garrafa 412 – Onde não havia poesia   1 comment

cada poesia
nos traz mil raios de luz,
onde não havia…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
No Dia do Poeta
Instruções de utilização: Ouvir “Morning Comes” com Acqua Fragile

raios de luz

Garrafa 357 – Espelho meu   Leave a comment

Nas cartas de linhagem dos mestres Zen chineses, o Quinto Patriarca Hung-Jen foi sucedido por Hui-Neng, que veio a se tornar o Sexto Patriarca, no século VII DC. Foi uma transmissão surpreendente, uma vez que todos os seus discípulos esperavam que seu sucessor fosse Jinshu, o monge mais erudito do mosteiro.

Hung-Jen havia solicitado que seus discípulos expressassem seu estado de espírito por meio de gathas (poemas) que deveriam ser apresentados para sua apreciação. Pretendia transferir o manto e a escudela, que estavam sendo transmitidos desde o Primeiro Patriarca, para aquele que tivesse alcançado a Verdadeira Iluminação.

O único discípulo que se atreveu a transcrever um poema na parede do mosteiro foi de fato Jinshu, que assim se expressou:

O Corpo é a Árvore da Sabedoria Búdica,
A Mente é semelhante a um espelho brilhante;
Trata de limpá-la constantemente,
Não deixes que sobre ela se acumule o pó.

Jinshu afirmava que a prática consistia em polir o espelho da mente, em outras palavras, removendo o pó de nossos pensamentos e ações ilusórios, o espelho poderia brilhar e estaríamos purificados.

Ao tomar conhecimento da existência do poema de Jinshu, um simples serviçal analfabeto que trabalhava no mosteiro, pediu que um monge transcrevesse na mesma parede seus pensamentos:

A Sabedoria Búdica nunca foi uma árvore,
A Mente nunca foi um espelho brilhante;
Na verdade, não existe coisa alguma!
Onde irá então acumular-se o pó?

Esse serviçal, de nome Lu, teve o seu poema apreciado e escolhido como um sinal da Verdadeira Iluminação, vindo então a se tornar o Sexto Patriarca, com o nome de Hui-Neng. Afirmava que, desde o princípio só existe o vazio, a não-mente, não há espelho onde se mirar, não há espelho a ser polido e não há onde o pó se apegar.

O paradoxo que nos aponta Charlotte Joko Beck em seu livro “Sempre Zen” é que, desde sempre, embora o verso do Sexto Patriarca seja o entendimento verdadeiro, temos que praticar com o verso que não foi aceito! Uma vez que ainda não enxergamos com clareza, ainda não somos capazes de ver com nitidez, precisamos, por meio do Zazen (meditação sentado), polir o espelho da mente; de fato tomar consciência de nossos pensamentos e atos, de nossas falsas reações à vida, até que possamos sentir a verdade em nossas vísceras. Assim, poderemos, em algum momento, enxergar que, já desde o princípio, nada era necessário.

Refletindo a respeito, me arrisco a recitar um breve haicai, antes de cada uma de minhas práticas diárias de Zazen:

retirar o pó,
do espelho que não há…
ah! polir sem dó!

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Inspirado na leitura de “Sempre Zen” de Charlotte Joko Beck

Espelho meu

Garrafa 232 – Questão de atitude   Leave a comment

salta no vazio
rio de correnteza
diante da queda

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Publicado 18/05/2011 por Eduardo Leal em Fotografias, Haicai, Haikai, Haiku

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Garrafa 213 – Curso de Escutatória   2 comments

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.

Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir.

Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular…

Escutar é complicado e sutil.

Diz Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa) que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”. Filosofia é um monte de ideias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro: Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma.

Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios.

Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial.

Aí, de repente, alguém fala. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.

Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. É preciso tempo para entender o que o outro falou.

Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, […]. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as ideias estranhas.

Na nossa civilização, se eu falar logo a seguir são duas as possibilidades.

Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado”.

Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou”.

Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.

O longo silêncio, na verdade deve querer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou”.

Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.

Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. A música acontece no silêncio.

A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio.

Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.

Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

RUBEM ALVES
Ilustração de autor desconhecido

Garrafa 193 – O Conselho de Kamala   4 comments

O tema do sexo é sempre assunto palpitante e um dos tópicos mais pesquisados nas ferramentas de busca na Internet. A partir da curiosidade infantil, passando pelos sobressaltos da adolescência e chegando à idade adulta, é tema de conversas, livros, pinturas, esculturas, filmes e, é claro, de muita ação cinestésica.

Compartilho neste post algumas informações e reflexões a esse respeito, porque durante os processos de Coaching Centrado em Valores e de Consultoria em Gestão Pessoal que tenho conduzido ao longo dos últimos anos o assunto sempre vem à tona. Isso acontece, principalmente, quando os Exploradores de Novas Possibilidades de Futuro analisam suas respectivas Áreas da Vida denominadas “SAÚDE” (Física / Emocional / Mental), “RELACIONAMENTOS” (Família / Trabalho / Pessoal) e, às vezes, “LAZER”.

Objeto de repressão severa em diversas culturas e épocas, em função de crenças religiosas ou de simples preconceito, a partir dos anos 1960 houve uma explosão de liberação da expressão sexual em várias partes do mundo, com a popularização das pílulas anticoncepcionais. Podemos observar, ao mesmo tempo, que essa liberação sexual nem sempre foi acompanhada da desejável e correspondente elevação do nível de consciência que poderia ser esperada das pessoas supostamente liberadas.

No mundo ocidental o sexo foi tema de interesse constante: cercado de hipocrisia e de repressão religiosa na Idade Média, passando pelo Renascimento e chegando aos trancos e barrancos à Idade Moderna como assunto de interesse científico. Esse interesse ganhou relevância com as pesquisas e trabalhos conduzidos no Século XX por Sigmund Freud, que buscou disseminar a ideia de que o desejo sexual é a energia motivacional primária da vida humana. Em sua obra, Freud fez surgir uma nova compreensão do ser humano: a de uma pessoa influenciada por seus desejos e sentimentos que criam em sua mente um tormento pela contradição entre esses impulsos e a vida em sociedade.

Já na tradição oriental, desde a mais remota antiguidade, sua importância também não foi desprezada. No Tantra Yoga, por exemplo, o sexo entra como parte fundamental no estabelecimento das raízes de uma família e parte importante da vida de um casal saudável. Por isso no Tantra o sexo também é ensinado como um ato sagrado, como uma forma de trazer prazer e alegria ao seu companheiro ou companheira e como a oportunidade do encontro entre o “deus masculino” e a “deusa feminina” que vive em cada um dos parceiros. O sexo, de acordo com essa concepção, é visto antes de tudo como uma prática de elevação espiritual. E no Tantra podemos encontrar também a prática do Maithuna, que é uma técnica que procura alcançar o domínio dos apetites sexuais.

Maithuna ou Mithuna é um termo sânscrito que, na maioria das vezes, é traduzido como a união sexual em um contexto ritualista. Apesar de alguns escritores, seitas e escolas como, por exemplo, a de Yogananda considerarem que este é um ato puramente mental e simbólico, outros entendem que a palavra Maithuna se refere claramente a casais (com integrantes do sexo masculino e feminino) realizando sua união no sentido físico e sexual. E essa união seria equivalente à oportunidade de realização de uma espécie de “limpeza madura” do casal apenas quando a união é consagrada pelo ato do casamento, ou pelo amor verdadeiro.

Confesso que tenho simpatia por essa concepção que reconhece “efeitos terapêuticos” e de “limpeza” por conta dessa ligação física, emocional e espiritual e de um certo esquecimento momentâneo dos próprios egos.

No entanto, segundo outras concepções, seria possível experimentar uma forma de Maithuna sem união física. O ato poderia existir em um plano metafísico, sem penetração sexual, através apenas da transferência de energia através dos seus corpos sutis. E é quando esta transferência de energia ocorre que o casal, encarnado como duas divindades e com a sublimação momentânea dos seus respectivos egos, confrontam a realidade última e experiências de bem-aventurança através da união dos seus corpos sutis.

Descobri também recentemente, em um Curso de Cabala de que estou participando, que esse encontro físico e sexual também é visto pelos Cabalistas com um dos momentos com maior capacidade de se gerar LUZ, desde que essa união seja tratada com o cuidado que o assunto merece, com ênfase nas preliminares, como uma oportunidade de doação e de compartilhamento, mais do que de simples recebimento, como um encontro sagrado e não apenas como uma ocasião para obtenção de gratificação instantânea e prazer automático.

Quando tenho que lidar com essas questões por minha própria conta, o faço acreditando firmemente que o sexo é o momento de maior intimidade possível entre duas pessoas, com troca de fluidos corporais, compartilhamento de emoções e, finalmente, com um encontro iluminado de duas almas que se buscam. E, portanto, entendo que o sexo deve ser precedido de cuidadosa avaliação e seleção, sem preconceitos desnecessários, mas ao mesmo tempo considerado com o devido respeito e atenção que um assunto dessa natureza, de máxima intimidade com alguém, deve ser tratado. Penso que o assunto é suficientemente importante para que se evite que simples tabus sem sentido como “virgindade” e “proibição de sexo antes do casamento” influenciem nas escolhas feitas com consciência e naturalidade por pessoas responsáveis.

Essa foi a ideia que procurei compartilhar com meus três filhos, especialmente com minhas duas filhas, quando lhes dei o meu voto de confiança dizendo que estava certo de que saberiam escolher muito bem quando e com quem fazer sua iniciação sexual.

Para ilustrar a delicadeza com que penso que o assunto deva ser tratado e vivenciado, escolhi para este post a imagem de “um casal” formado por dois bonecos infláveis em uma cama de pregos… Em que qualquer movimento em falso, ou estabanado, pode ser desastroso para ambos os participantes da festa do amor…

E sobre “o que”, que tipo de prática pode ser considerada saudável “dentro das quatro linhas” imaginárias que podem ser delimitadas pelo colchão em uma cama, a relva macia do campo, ou qualquer outro lugar onde o amor e o desejo entre um homem e uma mulher se façam presentes, fico com o conselho da jovem cortesã Kamala oferecido a Sidarta, ambos personagens do belo romance ou “poema indiano” “Sidarta” de Hermann Hesse, que li na juventude e que até hoje me inspira:

Os amantes não devem separar-se, depois da festa do amor,
sem que um parceiro sinta admiração pelo outro;
sem que ambos sejam tanto vencedores como vencidos,
de maneira que em nenhum dos dois possa surgir a sensação de enfado ou de vazio
e ainda menos a impressão desagradável de terem-se maltratado mutuamente.

Eduardo Leal
Ilustração de autor desconhecido

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