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Garrafa 300 – Mergulhar fundo   Leave a comment

na minha tristeza,
mergulhar muito fundo…
e retornar…ar!

Eduardo Leal
Inspirado no livro “O convite” de Oriah
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Deep” com Moody Blues

Garrafa 251 – Muitos meninos…   1 comment

há, dentro de mim,
uma multidão de homens!
muitos meninos…

Eduardo Leal
Ilustração de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Bola de meia, bola de gude” de Fernando Brandt e Milton Nascimento, na voz de Milton Nascimento

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Garrafa 222- A-ah, Matsushima, ah!   Leave a comment

Estive na região nordeste do Japão com minha família, em janeiro de 2008, mais precisamente em Sendai, Matsushima e Shiogama e acompanho com tristeza e preocupação as informações que chegam a cada instante dando conta do maremoto e sua subsequente tsunami, ocorridos no dia de ontem naquela região. Preocupação com a falta de notícias de alguns amigos e amigas que fizemos por lá e tristeza pelas milhares de vidas interrompidas e também pelos prejuizos materiais e culturais decorrentes dessa tragédia.

Além das imagens de devastação em Sendai e arredores, minhas pesquisas pela Internet revelaram, até o momento, apenas duas fotos de trens descrrilados em Matsushima (link1 e link2), o que me faz pensar na triste possibilidade de danos ainda não revelados, por dificuldades de acesso ao local.

Trago comigo as melhores lembranças, no sopro gelado de uma fria manhã de inverno, de um dos lugares mais bonitos que já conheci. Fecho os olhos por um momento e vejo a Baia de Matsushima com suas centenas de ilhas rochosas cobertas de pinheiros, sendo sobrevoadas por gaivotas que insistem em seguir o rastro deixado pelo nosso barco e nos observar com olhares curiosos e inquisidores. Vejo ainda alguns dos seus pequenos tesouros arquitetonicos e culturais à beira mar tais como o Templo de Zuigan-ji e seu silencioso e misterioso jardim zen. Será que meu firme desejo de regresso, da próxima vez na primavera, será interrompido por um outro vento gelado, desta vez carregado de radioatividade, tornando essas paisagens proibidas por décadas, como as cercanias de Chernobil? Um calafrio incomodo me percorre a espinha!

A partir de 1689, durante cerca de quatro anos, o sensível poeta Matsuo Basho percorreu as trilhas da região norte da ilha de Honshu, no arquipélago do Japão, tendo como iluminação apenas o clarão da lua cheia… Durante sua passagem por Matsushima, quase sem palavras, deixou-nos o registro de sua embevecida admiração, por meio do seguinte haikai:

Ah Matsushima!
A-ah, Matsushima, ah!
Ah, Matsushima!

 

Revendo as fotos que tirei na ocasião de minha breve visita ao jardim zen do templo de Zuigan-ji, uma delas me chama a atenção, como distantes ecos premonitórios dos sábios monges que o idealizaram, com a imagem do arquipélago do Japão cercado de tsunamis, nas águas nada tranquilas do Pacífico…

A-ah, Matsushima, ah…

Jardim Zen em Zuigan-ji

Foto de Eduardo Leal

Garrafa 110 – Milágrimas   Leave a comment

Em caso de dor, ponha gelo
Mude o corte do cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema, dê um sorriso
Ainda que amarelo
Esqueça seu cotovelo
Se amargo for já ter sido
Troque já este vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério, deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada mil lágrimas sai um milagre

Em caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa
Coma somente a cereja
Jogue para cima, faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra apenas, viva apenas
Sendo só fissura, ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena, reze um terço
Caia fora do contexto, invente seu endereço
A cada mil lágrimas sai um milagre

Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal do sal do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas, três, dez, cem mil lágrimas, sinta o milagre
A cada mil lágrimas sai um milagre

Música de Itamar Assumpção – Letra de Alice Ruiz
Gravação na voz de Zélia Duncan

A dor já se foi

Garrafa 84 – O Convite   Leave a comment

Não me interessa saber como você ganha a vida. Quero saber o que mais deseja e se ousa sonhar em satisfazer os anseios do seu coração.

Não me interessa saber a sua idade. Quero saber se você correria o risco de parecer tolo por amor, pelo seu sonho, pela aventura de estar vivo.

Não me interessa saber que planetas estão em quadratura com sua lua. O que eu quero saber é se você já foi até o fundo de sua própria tristeza, se as traições da vida o enriqueceram ou se você se retraiu e se fechou, com medo de mais dor. Quero saber se você consegue conviver com a dor, a minha a sua, sem tentar escondê-la, disfarçá-la ou remediá-la.

Quero saber se você é capaz de conviver com a alegria, a minha ou a sua, de dançar com total abandono e deixar o êxtase penetrar até a ponta dos seus dedos, sem nos advertir que sejamos cuidadosos, que sejamos realistas, que nos lembremos das limitações da condição humana.

Não me interessa se a história que você me conta é verdadeira. Quero saber se é capaz de desapontar o outro para se manter fiel a si mesmo. Se é capaz de suportar uma acusação de traição e não trair sua própria alma, ou ser infiel e, mesmo assim, ser digno de confiança.

Quero saber se você é capaz de enxergar a beleza no dia-a-dia, ainda que ela não seja bonita, e fazer dela a fonte da sua vida.

Quero saber se você consegue conviver com o fracasso, o seu e o meu, e ainda assim por-se de pé na beira do lago e gritar para o reflexo da lua cheia: “Sim!”

Não me interessa saber onde você mora ou quanto dinheiro tem. Quero saber se, após uma noite de tristeza e desespero, exausto e ferido até os ossos, é capaz de fazer o que precisa ser feito para alimentar seus filhos.

Não me interessa quem você conhece ou como chegou até aqui. Quero saber se vai permanecer no centro do fogo comigo sem recuar.

Não me interessa onde, o que ou com quem estudou. Quero saber o que o sustenta, no seu íntimo, quando tudo mais desmorona.

Quero saber se é capaz de ficar só consigo mesmo e se nos momentos vazios realmente gosta da sua companhia.

 

Oriah Mountain Dreamer

Instruções de utilização: Ler o livro de mesmo nome, “O Convite”, da Editora Sextante

 

O Convite

Garrafa 12 – Canção   Leave a comment

Viver não dói. O que dói
é a vida que não se vive.
Tanto mais bela sonhada,
quanto mais triste perdida.

Viver não dói. O que dói
é o tempo, essa força onírica
em que se criam os mitos
que o próprio tempo devora.

Viver não dói. O que dói
é essa estranha lucidez,
misto de fome e de sede
com que tudo devoramos.

Viver não dói. O que dói
ferindo fundo, ferindo,
é a distância infinita
entre a vida que se pensa
e o pensamento vivido.

Que tudo o mais é perdido.

Emílio Moura

Ilustração de autor desconhecido.
Instruções de utilização: Ouvir “A Song for You” na voz de Karen Carpenter

Solidão 2

 

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