Arquivo para a Tag ‘tempo

Garrafa 497 – Elos encadeados   Leave a comment

A credito firmemente que no Universo tudo está interconectado, que vivemos em um mundo interdependente e que nossa simples presença, aqui e agora, reverbera de alguma maneira até os confins da galáxia e da eternidade. E, mais ainda, que cada uma de nossas escolhas, por ação ou omissão, desencadeia nesse mesmo Universo uma série de consequências. Alguns desses resultados podem nos ser favoráveis, de uma perspectiva egóica, e outros, nem tanto. Mas são todos inescapáveis.

Outra maneira de expressar a mesma coisa, como teria feito Pablo Neruda, é  dizer que somos livres para fazer nossas próprias escolhas mas, assim fazendo, nos tornamos prisioneiros de cada uma de suas consequências.

Esse encadeamento de ações e reações, e de fatos e suas respectivas consequências me leva às vezes a pensar na vida como uma grande corrente com elos já previamente “encadeados”, mas cuja conexão efetiva apenas se dá a cada instante, a cada momento. E é interessante notar que a palavra cadeia, de onde a palavra encadeados procede, tanto pode ter como significado uma determinada sequencia de etapas ou estruturas, como também pode significar uma prisão.  Na corrente da vida, quando examinamos cada um dos seu elos, o do nosso momento atual, por exemplo, constatamos que ele está inexoravelmente atrelado aos elos que o precederam, com todas as escolhas que lá ficaram registradas no “Moleskine” do Universo. E, da mesma maneira, estará conectado aos elos que lhe sucederão. E é essa a mesma corrente que nos mantem aprisionados ao nosso passado, pelas consequências de nossas escolhas anteriores no momento atual. Nosso futuro, entretanto,  em alguma medida permanece em nossas próprias mãos, uma vez que os elos seguintes serão automaticamente selecionados apenas após as escolhas que fizermos no aqui e agora. As consequências serão automáticas, ou seja, já há diversos elos prontinhos para entrarem no gramado, fecharem permanentemente sua conexão, dependendo de cada uma das escolhas que fizermos no momento atual. Mas essas mesmas escolhas não precisam ser automáticas, e não o são, estão em aberto! Aqui! Agora! Aqui! Agora! Aqui! Agora! Agora!

Creio que é esse o principal trabalho de nossa consciência, o de iluminar nossas opções, nossas escolhas no momento atual. E de examinar, também, com um olhar apreciativo, as consequências de nossas escolhas do passado. Sistemas adaptativos complexos que somos, podemos e devemos aprender com nossas escolhas anteriores. E a famosa pergunta de aprendizado deve estar sempre presente em nossa consciência, no momento presente:

O que escolho fazer diferente, na próxima vez?

Pausa para um breve haicai:

corrente da vida
um elo de cada vez
encadeado

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Correntes 2

Garrafa 479 – A casa do Rei   Leave a comment

a casa do Rei
é o mundo inteiro
essa é a Lei.

Eduardo Leal
Ilustração NASA/WMAP
Instruções de utilização: Ouvir “House of the King” com Focus

A casa do rei

Garrafa 473 – Leva-se tempo   Leave a comment

leva-se tempo
para se descobrir que
não há mais tempo…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Ampulheta quebrada

Garrafa 427 – Um certo ar matinal   1 comment

Pensativo, nesse final de uma tarde chuvosa de primavera, vasculhei a estante em busca de inspiração para encerrar o dia com dignidade, após ouvir que os problemas com o servidor de e-mail da minha conta mais antiga, que está “instável” desde segunda-feira, ainda não têm previsão de solução. Enquanto isso, alertas de erro aparecem a todo instante, sempre que tento baixar minhas mensagens, sem sucesso. Pequenas frustrações do dia-a-dia com reflexos indesejados no meu bom-humor habitual.

Lembrei-me imediatamente de um poema de Hermann Hesse que falava da importância de estarmos prontos para novos começos e expedi um mandado de busca e apreensão para mim mesmo. Encontrei-o em dois lugares diferentes, com dois títulos também distintos e com duas traduções ligeiramente diferentes. Em “O Jogo das Contas de Vidro” ele aparece como uma das obras póstumas do personagem José Servo com o título “Degraus”. Já na antologia poética “Andares”, aparece como o poema que emprestou seu nome à obra, com o título “Andares”.

Transcrevo e compartilho com os amigos essa pequena e delicada reflexão poética, retirada de “O Jogo das Contas de Vidro”, cuja tradução me agrada um pouco mais:

Assim como as flores murchas e a juventude
Dão lugar à velhice, assim floresce
Cada período de vida, e a sabedoria e a virtude,
Cada um a seu tempo, pois não podem
Durar eternamente. O coração,
A cada chamado da vida deve estar
Pronto para a partida e um novo início,
Para corajosamente e sem tristeza,
Entregar-se a outros, novos compromissos.
Em todo o começo reside um encanto
Que nos protege e ajuda a viver.
Os espaços, um a um, devíamos
Com jovialidade percorrer,
Sem nos deixar prender a nenhum deles
Qual uma pátria;
O Espírito Universal não quer atar-nos
Nem nos quer encerrar, mas sim
Elevar-nos degrau por degrau, nos ampliando o ser.
Se nos sentimos bem aclimatados
Num círculo de vida e habituados,
Nos ameaça o sono; e só quem de contínuo
Está pronto a partir e a viajar,
Se furtará à paralisação do costumeiro.

Mesmo a hora da morte talvez nos envie
Novos espaços recenados
O apelo da vida que nos chama não tem fim…
Sus, coração, despede-te e haure saúde!

Confesso que fui tocado por esse pequeno poema, que fala da inexorável passagem do tempo e de nosso inevitável destino de percorrer o espaço que nos corresponde, de preferência com jovialidade. Desde que o vi pela primeira vez, em algum momento da década de 1970, sinto que gosto especialmente dessa fala: “O coração, a cada chamado da vida deve estar pronto para a partida e um novo início, para corajosamente e sem tristeza, entregar-se a outros, novos compromissos. Em todo o começo reside um encanto que nos protege e ajuda a viver. Os espaços, um a um, devíamos com jovialidade percorrer, sem nos deixar prender a nenhum deles…”

Quando penso nisso, sinto novamente o frescor da manhã, mesmo daquelas mais nubladas, quando iniciamos cada novo dia com renovada disposição. E pensando que esse é um dos nossos grandes desafios, gostaria de transportar esse mesmo frescor para cada momento que se sucede, um após o outro, a cada chamado da vida, especialmente nesse fim de tarde chuvoso.

Um certo ar matinal… Acho que essa atitude mental deveria ser a minha ideal… Uma meta espiritual…

Isso! Corro para encontrar uma imagem que passe essa ideia de frescor matinal e organizar as ideias com a métrica de um haicai:

espiritual,
a atitude mental,
do ar matinal…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Morning Dance” com Spyro Gyra

Ar matinal

Garrafa 420 – Conciliação   Leave a comment

conciliados,
presentes ao meu lado,
futuro, passado…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Relogio em espiral

Garrafa 414 – Vácuo quântico   Leave a comment

do Nada, do vento,
trajetórias de vidas,
espaço, tempo…

Eduardo Leal
Ilustração de autor desconhecido

velocidade-variavel-da-luz

Garrafa 409 – Passado, passa!   Leave a comment

adocicado,
meu fruto ressecado:
passado, passa!

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Tendo a lua” com Paralamas do Sucesso

passas

%d blogueiros gostam disto: