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Garrafa 427 – Um certo ar matinal   1 comment

Pensativo, nesse final de uma tarde chuvosa de primavera, vasculhei a estante em busca de inspiração para encerrar o dia com dignidade, após ouvir que os problemas com o servidor de e-mail da minha conta mais antiga, que está “instável” desde segunda-feira, ainda não têm previsão de solução. Enquanto isso, alertas de erro aparecem a todo instante, sempre que tento baixar minhas mensagens, sem sucesso. Pequenas frustrações do dia-a-dia com reflexos indesejados no meu bom-humor habitual.

Lembrei-me imediatamente de um poema de Hermann Hesse que falava da importância de estarmos prontos para novos começos e expedi um mandado de busca e apreensão para mim mesmo. Encontrei-o em dois lugares diferentes, com dois títulos também distintos e com duas traduções ligeiramente diferentes. Em “O Jogo das Contas de Vidro” ele aparece como uma das obras póstumas do personagem José Servo com o título “Degraus”. Já na antologia poética “Andares”, aparece como o poema que emprestou seu nome à obra, com o título “Andares”.

Transcrevo e compartilho com os amigos essa pequena e delicada reflexão poética, retirada de “O Jogo das Contas de Vidro”, cuja tradução me agrada um pouco mais:

Assim como as flores murchas e a juventude
Dão lugar à velhice, assim floresce
Cada período de vida, e a sabedoria e a virtude,
Cada um a seu tempo, pois não podem
Durar eternamente. O coração,
A cada chamado da vida deve estar
Pronto para a partida e um novo início,
Para corajosamente e sem tristeza,
Entregar-se a outros, novos compromissos.
Em todo o começo reside um encanto
Que nos protege e ajuda a viver.
Os espaços, um a um, devíamos
Com jovialidade percorrer,
Sem nos deixar prender a nenhum deles
Qual uma pátria;
O Espírito Universal não quer atar-nos
Nem nos quer encerrar, mas sim
Elevar-nos degrau por degrau, nos ampliando o ser.
Se nos sentimos bem aclimatados
Num círculo de vida e habituados,
Nos ameaça o sono; e só quem de contínuo
Está pronto a partir e a viajar,
Se furtará à paralisação do costumeiro.

Mesmo a hora da morte talvez nos envie
Novos espaços recenados
O apelo da vida que nos chama não tem fim…
Sus, coração, despede-te e haure saúde!

Confesso que fui tocado por esse pequeno poema, que fala da inexorável passagem do tempo e de nosso inevitável destino de percorrer o espaço que nos corresponde, de preferência com jovialidade. Desde que o vi pela primeira vez, em algum momento da década de 1970, sinto que gosto especialmente dessa fala: “O coração, a cada chamado da vida deve estar pronto para a partida e um novo início, para corajosamente e sem tristeza, entregar-se a outros, novos compromissos. Em todo o começo reside um encanto que nos protege e ajuda a viver. Os espaços, um a um, devíamos com jovialidade percorrer, sem nos deixar prender a nenhum deles…”

Quando penso nisso, sinto novamente o frescor da manhã, mesmo daquelas mais nubladas, quando iniciamos cada novo dia com renovada disposição. E pensando que esse é um dos nossos grandes desafios, gostaria de transportar esse mesmo frescor para cada momento que se sucede, um após o outro, a cada chamado da vida, especialmente nesse fim de tarde chuvoso.

Um certo ar matinal… Acho que essa atitude mental deveria ser a minha ideal… Uma meta espiritual…

Isso! Corro para encontrar uma imagem que passe essa ideia de frescor matinal e organizar as ideias com a métrica de um haicai:

espiritual,
a atitude mental,
do ar matinal…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Morning Dance” com Spyro Gyra

Ar matinal

Garrafa 420 – Conciliação   Leave a comment

conciliados,
presentes ao meu lado,
futuro, passado…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Relogio em espiral

Garrafa 414 – Vácuo quântico   Leave a comment

do Nada, do vento,
trajetórias de vidas,
espaço, tempo…

Eduardo Leal
Ilustração de autor desconhecido

velocidade-variavel-da-luz

Garrafa 409 – Passado, passa!   Leave a comment

adocicado,
meu fruto ressecado:
passado, passa!

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Tendo a lua” com Paralamas do Sucesso

passas

Garrafa 352 – Desmanche de Navios   5 comments

Li com profundo pesar, na manhã de hoje, matéria enviada por um bom amigo sobre o triste fim do Navio-Aeródromo Ligeiro (NAeL) Minas Gerais, antigo A-11, em um desmanche de embarcações na India, fato já ocorrido há algum tempo atrás. Foi como descobrir que outro bom amigo, de quem não tinha notícias há muito tempo, havia morrido e tinha sido sepultado como indigente, sozinho, em terra distante, longe de sua família e de seus amigos… Enfim, uma tristeza…

O NAeL foi o meu primeiro navio quando me apresentei na Esquadra, em 1976, ao regressar da viagem de instrução de guardas-marinha. E lá permaneci por dois anos, no Departamento de Aviação, até desembarcar para o Curso de Aperfeiçoamento de Eletrônica. Nessa época, durante o PAM (Período de Atualização e Manutenção) ele não se movimentou, permanecendo atracado ou docado no Arsenal de Marinha no Rio de Janeiro (AMRJ). Só pude experimentar a felicidade de navegar com ele, em águas nacionais e internacionais, embarcando, anos depois, como oficial de Estado-Maior do Comando-em-Chefe da Esquadra. Bem mais tarde, como Capitão dos Portos de Alagoas, pude organizar e preparar a primeira visita do navio ao porto de Maceió. Isso nunca havia ocorrido em razão de pertinentes preocupações da Esquadra com relação à profundidade local e às condições de atracação. A visita foi um sucesso e boas lembranças daqueles momentos de contentamento povoaram minha mente, no dia de hoje.

Refletindo a respeito dos nossos processos de mudança, dos fios brancos que teimam em aparecer no meu bigode e da corrosão que consome os conveses de alguns dos navios onde pisei, as palavras do filósofo Heráclito de Éfeso ecoam, desde a Grécia antiga, no meu ouvido cansado:

“No Universo, a única coisa permanente é a mudança.”

E como sempre faço quando fico meditabundo, busco refúgio em minha trilha sonora. Dessa vez reencontrei esta pérola em forma de música e letra de Quincy Jones, a respeito do inexorável processo de mudança:

Everything must change
Nothing stays the same
Everyone will change
No one stays the same

Os ciclos de nascimento, desenvolvimento, degradação e morte são mesmo implacáveis e vamos, todos nós, de uma maneira ou de outra, passar por cada um deles. E o importante é fazê-lo com dignidade.

O NAeL sempre foi tratado com respeito e reverência por suas antigas tripulações e legiões de admiradores que, enquanto vivermos, assim o preservaremos em nossa memória, a despeito de seu triste fim, em uma praia distante e longe dos seus.

Vendo as fotografias dos seus ultimos momentos, ao lado de outras embarcações de mesmo triste destino, sinto apenas a inspiração para um lamento, com a métrica do haicai:

praia de lama
desmanche de navios
ah! longe dos seus…

Eduardo Leal
Fotos de autores desconhecidos
Instruções de utilização: Ouvir “Everything Must Change” com Quincy Jones

Garrafa 349 – Acenos de mão   2 comments

Mais uma madrugada insone, pensamento disperso e, ao mesmo tempo, com a atenção volta e meia guiada pelos ruídos, vultos, sombras e luzes que entram pela janela do quarto, enquanto passam silenciosos os minutos e as horas…

Na lua nova, por três dias ela se torna escura e “desaparece” para renascer e ressuscitar, outra vez, em um novo ciclo.

Lua escura vagando noite adentro e em algum lugar escondida, céu sem nuvens e o Cruzeiro do Sul cintilando acima das árvores fracamente iluminadas pelos postes da pracinha… Sim, minha paisagem aponta para o sul! Sul do ego, sul da noite, sul do planeta, sul da galáxia, sul do Universo… E tão ao sul como um sultão, permaneço ao sul de mim mesmo.

As folhas de duas amendoeiras, algumas bem verdes e outras em diversos tons de marrom, que preservo na memória do dia que passou e que não volta mais, se destacam nessa paisagem noturna, todas agora em tons de cinza claro ou mais escuro.

Olhar desfocado no intervalo entre dois pensamentos, de repente a brisa fresca da madrugada de inverno move gentilmente as folhas das amendoeiras. E parece que uma multidão de mãos, em suave sincronia, acena silenciosamente pra mim do sul da noite, do sul do planeta… E percebo também que, às vezes, algumas folhas se desprendem e, parecendo ainda acenar, só que agora de maneira mais confusa, desaparecem na escuridão…

Quem serão essas pessoas? Porque me acenam na penumbra? O que podem querer me dizer? Amigos e amigas que conheci e nunca mais verei? Onde estarão e para onde irão? Parentes, parceiros e parceiras que se foram ou se vão? Amores que nunca terei?

Surpreendo-me acenando de volta, grito preso na garganta, gesto impensado com o coração sobressaltado… E me levanto silencioso, em busca de papel e lápis.

Pausa para um breve haicai…

folhas ao vento.
de pessoas que se vão,
acenos de mão…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Folhas ao Vento” na voz de Lanna Rodrigues

Garrafa 328 – Só o tempo dirá…   Leave a comment

Aquele poderia ser apenas mais um encontro do casal apaixonado, depois do trabalho, para um fim de tarde e inicio de noite de amor e troca de confidências. Mas foi mais que isso…

Ela tornou aquele momento mágico, sempre aguardado com ansiedade e doce expectativa, em algo ainda mais digno de ser guardado para sempre, como um momento único e especial.

Planejou cada detalhe…

Na sua bolsa de mulher, além do trivial, trouxe alguns pequenos acessórios para compor um ambiente de sonho que passaram despercebidos quando ela entrou no carro e, depois, subiram juntos no elevador.

Enquanto ele tomava uma ducha rápida, o cenário foi preparado… E o impacto da surpresa visual e olfativa fez seus olhos ficarem úmidos e brilhantes e os passos vacilantes. E fez sua voz, ainda trêmula, pronunciar apenas… Eu amo você.

Três toques de simplicidade e sensibilidade:

Dezenas de pequenas velas aromáticas verdes, que foram espalhadas pelo quarto e delicadamente acesas num ritual calculado para transformá-las em vagalumes perfumados na penumbra do ambiente;

Incenso aromático, que complementava o delicado perfume das velas, havia sido aceso em seguida; e

Um pequeno reprodutor de CDs com um único disco, sua escolha para compor a trilha sonora daquele momento, esperava ao lado da cama pela ocasião de entrar em cena.

Ela estava linda como sempre, olhos brilhantes, sorriso maroto, seu cabelo castanho com cachos de anjinho barroco e seu corpo de formas curvas e firmes, o seu número para o encaixe perfeito. Cada dobrinha da pele suavemente perfumada com seu cheiro natural que sempre o enlouquecia e permanecia nas mãos e na memória olfativa ainda por algum tempo, depois de cada encontro…

Ser tocado por ela era sempre uma experiência cinestésica carregada de energia curativa. E explorar o relevo e textura do seu corpo então…

Nos minutos seguintes, como sempre acontecia quando se encontravam, o tempo passou a andar um pouco mais devagar.

E então, a ultima surpresa da noite… Sua voz acompanhava suavemente as musicas que ela escolheu como trilha sonora para aquele momento, enquanto seus corpos se tocavam delicadamente e as mãos passeavam pelos seus cabelos ainda molhados depois do banho apressado. Ela nunca havia cantarolado para ele antes, nem cantou mais, depois…

Ele descobriu mais tarde que a letra da musica, “Only time”, diz assim:

Who can say where the road goes
Where the day flows, only time
And who can say if your love grows
As your heart chose, only time

Who can say why your heart sighs
As your love flies, only time
And who can say why your heart cries
When your love lies, only time

Who can say when the roads meet
That love might be in your heart
And who can say when the day sleeps
If the night keeps all your heart
Night keeps all your heart

Who can say if your love grows
As your heart chose
Only time
And who can say where the road goes
Where the day flows, only time

Who knows? Only time

E adormeceram abraçados, observando os primeiros vagalumes se apagarem, mãos e bocas silenciosas, depois da festa do amor.

Se isso realmente aconteceu, se ainda vai acontecer no futuro próximo ou distante, ou se não passou de mais um daqueles sonhos de uma noite de verão, só o tempo dirá…

Enquanto penso nessa possibilidade, o vento sopra em meu ouvido um breve haicai:

amor virá, nas
escolhas do coração?
o tempo dirá…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Only time” na voz de Enia

Velas aromáticas

Garrafa 308 – Tempo precioso   Leave a comment

mas o que fazer
com o precioso tempo
que nos foi dado?

Eduardo Leal
Inspirado no livro “O convite” de Oriah
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Time” com Pink Floyd

Publicado 17/04/2012 por Eduardo Leal em Filosofia, Fotografias, Haicai, Haikai, Haiku, Livros, Música

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Garrafa 292 – Mão na maçaneta 1   1 comment

No ano de 2001, recebi um presente na forma de um apelo para viver uma vida plena no livro “O convite” da escitora canadense Oriah, que na ocasião usava também um sobrenome ritual de “Mountain Dreamer”.

Desde então, essa publicação da Editora Sextante tem me acompanhado e tem sido objeto, ao mesmo tempo, de prazerosa e sofrida reflexão. Transcrevi o texto do convite na Garrafa 84, e mencionei outros trechos que me inspiram na Garrafa 86 e Garrafa 112.

Meu interesse pelas brincadeiras com as palavras com a métrica do haicai é anterior a isso, mas ganhou um canal de expressão a partir da criação deste Blog em 2005. Neste ano de 2012, em que o Blog completa 7 anos no mês de outubro, escolhi o mês de abril, que é para mim uma das épocas mais bonitas e significativas do ano, para me propor o desafio de publicar um haicai por dia. E escolhi usar a inspiração que me proporcionam as imagens e reflexões que já surgiram, e ainda vão surgir, a partir desse “convite”.

Meu desejo é que as pessoas que têm o hábito de bisbilhotar o conteúdo dessas garrafinhas que lanço no mar da Internet possam, pelo menos, esboçar um leve sorriso…

Recebam todos o meu melhor abraço!

intensamente,
sabendo que posso ir,
desejar ficar…

Eduardo Leal
Inspirado no livro “O convite” de Oriah
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Todo sentimento” de Cristovão Bastos e Chico Buarque, na voz de Chico Buarque

P.S. A respeito da escolha da trilha sonora, feita há alguns anos atrás, devo dizer que admiro a obra poética e musical do Chico Buarque, mas discordo completamente de sua militância política, defendendo abertamente regimes autocráticos e ditatoriais, e desejando que o modelo cubano seja a opção para o nosso país e seus vizinhos latino-americanos. Atitude hipócrita de quem necessita do máximo de liberdade para criação e divulgação de sua obra, como do próprio ar que respira, e flerta descaradamente com regimes restritivos de liberdade de expressão. E ainda deseja posar de “defensor da democracia”. Idiotice e incongruência, a meu juízo. Isso, sem falar da defesa da maior quadrilha de malfeitores que o país já viu instalada no governo e em um mesmo partido político, nos últimos 13 anos. Vade retro! Fazendo um exercício de tolerância, separando obra poética e musical de opções ideológicas, decidi manter, por enquanto, essa música como complemento do texto. É o que penso e sinto. E sinto muito!

Garrafa 279 – Som de gaivotas   Leave a comment

aves marinhas,
som de gaivotas… o
mar dentro de mim.

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir música “Sounds of the Sea” de Renaissance na voz de Annie Haslam.

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