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Garrafa 518 – Nuvens cor de rosa   1 comment

Como tem ocorrido com frequência ao longo das ultimas semanas, ele acordou sobressaltado no meio da noite, depois de parecer ter ouvido aquela voz sussurrando seu nome a partir de algum ponto envolto na penumbra e em um local muito distante…

Ao invés disso, só os latidos de um cão… Frustração provavelmente dirigida na direção de algum gato desafiador que insiste em cruzar seu pretenso território, bem fora do alcance de suas mordidas, em cima de algum muro da vizinhança.

Apenas sorriu, com o canto da boca, ao perceber que ele próprio tem sido às vezes o cão, às vezes o gato.

Por onde tem andado esse gato? Por onde tem andado esse cão?

Seu sono leve, ou a existência de sonhos com conteúdo perturbador o têm colocado em contato com os sons da madrugada. Pelo menos dois post tratam desse tema: Vizinhança Canina e Cão sem dono.

Incapaz de pegar no sono outra vez, aguardou silenciosamente pela chegada de mais um dia de outono, durante a longa e escura madrugada. E viu surgirem pela janela do quarto:

nuvens cor de rosa,
primeiras luzes, depois
da escuridão.

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Prologue” e “Twilight” com Electric Light Orchestra

Solidão 2

Garrafa 465 – Todo dia é dia!   Leave a comment

Ah! O outono! Noites e dias lindos, céu claro, temperaturas amenas, brisa refrescante, madrugadas silenciosas…

Depois de uma noite agradável de encontros familiares com mãe, irmã, filha, cunhado, sobrinhos e sobrinhas, nessa madrugada tive sonhos alvoroçados, coração inquieto, alma esvoaçante percorrendo lugares distantes em busca de pessoas mais ainda, mente confusa… Minha caneta era uma pena…

Despertei ainda no escuro e me levantei para dar prosseguimento às minhas leituras e, de presente, pude assistir da varanda a um belo amanhecer. Um pouco mais da metade da lua ainda visível em sua trajetória rumo ao poente, com seu corpo no formato em “D” cada vez mais decrescente, mas ainda não formalmente minguante que o será apenas no inicio da próxima semana… O azul surgindo da escuridão em um céu sem nuvens… E o calendário anunciando a data de aniversário de pessoas queridas, no dia do índio…

E me dou conta de que todo dia é aniversário de alguém, não só de alguma pessoa, mas também de um novo dia que é sempre único. Todo dia é aniversário de nascimento e morte desse único dia… Que nasce e morre para dar lugar a outro dia… Que nasce e morre para dar lugar a outro dia…

E todo dia é dia de viver.

Feliz Aniversário!

E a brisa da manhã sussurra ao meu ouvido:

que lindo dia!
mais um dia de festa,
de um novo dia!

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Para Lennon & McCartney” na voz de Elis Regina

Todo dia é dia

Garrafa 258 – A Alma   5 comments

Quando olhamos nas profundezas do interior da mente, para a região mais íntima do eu,
quando a mente se torna muito, muito tranqüila, e procuramos escutar com muito
cuidado, nesse silêncio infinito, percebemos que a alma começa a sussurrar e
que sua voz, macia como uma pluma, nos conduz até muito além do que a mente
seria capaz de imaginar, além de qualquer coisa que a racionalidade poderia
tolerar, além de qualquer coisa que a lógica conseguiria suportar.

Em seus gentis sussurros estão as mais lânguidas sugestões de amor infinito, vislumbres
de uma vida que o tempo esqueceu, lampejos de uma felicidade que não precisa
ser mencionada, uma interseção infinita na qual os mistérios da eternidade
insuflam vida no tempo mortal, no qual o sofrimento e a dor se esqueceram de
como pronunciar os seus próprios nomes, essa quieta e secreta interseção do
tempo e da eternidade, uma interseção chamada de alma.

Ken Wilber em Psicologia Integral

Ilustração de autor desconhecido com imagem de Ken Wilber

Garrafa 141 – Primeira vez   1 comment

Eles já se conheciam há alguns meses, mas o primeiro beijo tinha ocorrido apenas há algumas semanas. Intimidade progressiva, mas ainda bastante superficial. Eram adultos, já tinham vivenciado experiências de intimidade com outros parceiros, mas respeitavam um ritual de aproximação e conhecimento mútuo cauteloso.

O desejo crescia a cada encontro e uma pergunta povoava a mente dos dois: Quando aquela fronteira de pudor seria ultrapassada?

Sem nada definido previamente, mas ambos apenas suspeitando que era chegada a hora, encontraram-se naquela tarde de outono, num sábado, para um passeio à beira mar. Parece que tudo começa, além do limite do vale profundo que sempre começa na beira do mar… A vida começa na beira do mar…

O dia estava parcialmente nublado e soprava um vento sudoeste que fazia com que a pele dos dois ficasse o tempo todo bastante arrepiada. Ou seriam aqueles beijos trocados de maneira cada vez mais ousada, e as palavras sussurradas ao ouvido um do outro, cabelos ao vento, em um banco do calçadão do Leme?

Ok. Vamos sair daqui para um lugar onde possamos ficar a sós… Foi como se ambos tivessem dito isso ao mesmo tempo.

O motel escolhido naquela ocasião, há muitos anos atrás, ficava em outro bairro da cidade e tinha a avaliação de cinco coelhinhos em uma conceituada revista masculina, que ele lia apenas em caráter bissexto. Dizia que apreciava alguns artigos que encontrava por lá… Era o máximo no ranking desse tipo de facilidade colocada à disposição de jovens e velhos amantes. Queria bem impressioná-la e, também, escolher um local que não comprometesse negativamente um primeiro encontro de verdadeira intimidade.

A sós, finalmente, as características oferecidas pelo local e colocadas à disposição dos seus hóspedes transitórios não tiveram a menor importância. Uma cama quadrada, com lençóis limpos e macios foram mais do que o necessário e suficiente.

Eles começaram a se despir mutua e carinhosamente, com calma, delicadeza e trocando beijos apaixonados. Estariam se lembrando das sugestões contidas no “Conselho de Kamala”? Leves tremores podiam ser percebidos aqui e ali, a cada toque explorando alguma dobrinha ou área de pele ainda intocada.

E finalmente chegou o momento tão esperado. Ele se levantou, reduziu a iluminação e se despiu completamente, enquanto ela ainda mantinha nos quadris uma ultima peça intima.

Ele ainda se lembra do seu sorriso e do olhar maroto que ela lhe lançou, antes que o quarto mergulhasse em uma leve penumbra.

Até hoje, quando sopra um vento sudoeste, e a sua pele fica arrepiada na beira do mar, ele pensa naqueles instantes com carinho. E a brisa parece sussurrar ao seu ouvido esse breve haicai:

nenhuma vergonha,
ao ver que você sorriu,
da minha nudez…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Beira mar” na voz de Zé Ramalho.

Garrafa 174 - Intimidade (Consigo mesma e com o outro)

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