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Garrafa 366 – Leste é Oeste!   Leave a comment

Durante a releitura de “Zen no trabalho”, de Les Kaye, fiquei surpreso quando li que Huston Smith, no Preâmbulo, afirmou que o livro atenderia a uma necessidade específica: ao ser introduzido nos Estados Unidos neste século (o livro foi lançado por lá em 1977), o budismo retomou a marcha a leste que primeiro o levou à China, depois à Coreia e ao Japão.

Como? Marcha a leste?

Minha mente cartesiana, que imediatamente associa o Continente Americano ao Ocidente/Oeste e não ao Oriente/Leste acionou um alarme cognitivo que me provocou algum desconforto.

O Japão é conhecido como Terra do Sol Nascente e sabemos que o sol nasce a leste… Mas o Continente Americano fica a oeste…

Mas o desconforto durou pouco. É claro! O Arquipélago do Havaí fica a leste do Japão. E o Continente Americano a leste do Arquipélago do Havaiano. E os Continentes Europeu e Africano ficam a leste do Continente Americano…

O sol nasce antes nas terras que ficam a leste! E rumando sempre para leste… Chegamos ao que convencionamos chamar de oeste!

Nunca tinha pensado sobre isso dessa maneira… Ok! O mapa não é o território!

Pausa para um breve haicai:

Norte é Sul,
Leste é Oeste! ah!
são só convenções…

Eduardo Leal
Ilustração de autor desconhecido

Mundo invertido

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Garrafa 349 – Acenos de mão   2 comments

Mais uma madrugada insone, pensamento disperso e, ao mesmo tempo, com a atenção volta e meia guiada pelos ruídos, vultos, sombras e luzes que entram pela janela do quarto, enquanto passam silenciosos os minutos e as horas…

Na lua nova, por três dias ela se torna escura e “desaparece” para renascer e ressuscitar, outra vez, em um novo ciclo.

Lua escura vagando noite adentro e em algum lugar escondida, céu sem nuvens e o Cruzeiro do Sul cintilando acima das árvores fracamente iluminadas pelos postes da pracinha… Sim, minha paisagem aponta para o sul! Sul do ego, sul da noite, sul do planeta, sul da galáxia, sul do Universo… E tão ao sul como um sultão, permaneço ao sul de mim mesmo.

As folhas de duas amendoeiras, algumas bem verdes e outras em diversos tons de marrom, que preservo na memória do dia que passou e que não volta mais, se destacam nessa paisagem noturna, todas agora em tons de cinza claro ou mais escuro.

Olhar desfocado no intervalo entre dois pensamentos, de repente a brisa fresca da madrugada de inverno move gentilmente as folhas das amendoeiras. E parece que uma multidão de mãos, em suave sincronia, acena silenciosamente pra mim do sul da noite, do sul do planeta… E percebo também que, às vezes, algumas folhas se desprendem e, parecendo ainda acenar, só que agora de maneira mais confusa, desaparecem na escuridão…

Quem serão essas pessoas? Porque me acenam na penumbra? O que podem querer me dizer? Amigos e amigas que conheci e nunca mais verei? Onde estarão e para onde irão? Parentes, parceiros e parceiras que se foram ou se vão? Amores que nunca terei?

Surpreendo-me acenando de volta, grito preso na garganta, gesto impensado com o coração sobressaltado… E me levanto silencioso, em busca de papel e lápis.

Pausa para um breve haicai…

folhas ao vento.
de pessoas que se vão,
acenos de mão…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Folhas ao Vento” na voz de Lanna Rodrigues

Garrafa 129 – Fases da lua   2 comments

Noite de inverno em um quarto de hotel em Nara.

Minhas duas filhas já se recolheram e permanecem bem encolhidas debaixo das cobertas no quarto ao lado. E meu sobrinho, que me acompanhou nessa viagem pelo sul do Japão, também dorme profundamente no beliche em cima da minha cama.

Na mesinha, ao alcance da mão, um bloco de anotações e uma caneta esperam, há algum tempo, que algum hóspede registre um número de telefone importante, faça alguns rabiscos sem nexo ou, quem sabe, escreva uma carta de amor…

Nenhum ruído do lado de fora, enquanto a luz da lua entra pela janela, filtrada pelo ar gelado…

O quarto pequeno, na penumbra, parece crescer de tamanho enquanto observo um pequeno trecho de céu sem estrelas.

E, de repente, sou invadido por uma saudade enorme!
Saudades de um futuro que não volta mais…

Com um pequeno sobressalto, rabisco no bloco de notas um breve haicai:

quarto crescente,
madrugada gelada,
você minguante…

Eduardo Leal
Ilustração de autor desconhecido

Fases da lua

 

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