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Garrafa 515 – Faro no escuro   Leave a comment

O velho Nick, um poodle com pelo de cor “branco encardido” e nariz esponjoso e molhado fareja a brisa de verão no sítio da família de maneira permanente. A qualquer hora do dia ou da noite, apesar da idade avançada, seu olfato é sincronizado com olhos e ouvidos atentos, e sua cabeça aponta imediatamente na direção de qualquer coisa que desperte sua atenção. Suas orbitas e orelhas se movem e se ajustam automaticamente para sintonia fina de sinais imperceptíveis pra mim.

Li na Internet que seu focinho tem dois compartimentos diferentes: um só para respirar e outro só para farejar. E são capazes de identificar imediatamente a direção de onde vem o cheiro mais intenso, em concentrações cerca de cem milhões de vezes menores que as percebidas pelo nosso nariz, facilitando a identificação e localização de sua fonte com grande precisão. Para realizar essa proeza, possuem cerca de cinquenta vezes mas células olfativas que os humanos e, proporcionalmente, a área cerebral em que essas informações são processadas é 40% maior que a área usada para essa mesma finalidade em nosso próprio cérebro.

Essa criaturinha fiel prefere ficar perto de nós, mas entra no modo “patrulha de combate” a todo instante, com latidos e correrias em defesa de seu território imaginário que é nada mais nada menos que o mundo inteiro.

Sem muita coisa para fazer, quando a ideia é aproveitar para relaxar e escutar o mato crescendo por trás da cerca de bambu, costumo passar um bom tempo só observando suas reações e tentando imaginar o que se passa dentro de sua sua cabeça felpuda.

Gatos atrevidos invadem seu território de tempos em tempos, mantendo-se a uma distância segura em cima do muro ou da cerca de madeira construída pelas mãos hábeis e calejadas do meu velho sogro. Durante o dia, passarinhos também se arriscam bicando o chão de terra ou de cimento, em busca de insetos e migalhas de comida. Mas os campeões de insolência são os integrantes dos bandos de saguis que povoam as árvores das redondezas. Se a casa ficar silenciosa e as portas e janelas estiverem abertas, entram na cozinha não só em busca de comida, mas também de saciar sua curiosidade que parece sem limites.

Anoiteceu já faz algumas horas, e espero sem pressa pela hora do jantar. Depois de um dia de céu anuviado, é daquelas noites escuras sem nesga de luz do luar, só com uma ou outra estrela de brilho intermitente por trás de nuvens espessas que se movem devagar. Ouço grilos e sapos, mas vejo apenas as sombras do que já foram as árvores imponentes que circundam a casa com sua presença silenciosa.

De repente, além do cheiro de tempero que vem da cozinha, farejo algumas palavras que se movem no inconsciente, enquanto o nariz esponjoso e molhado do Nick aponta para o meio da escuridão:

gatos no muro
e micos no escuro,
cão e seu faro.

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

gato-no-muro-no-escuro

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Garrafa 514 – Azedinho doce   Leave a comment

No pomar do sítio da família, há atualmente apenas uma amoreira em momento de total exuberância. Árvore de tronco esguio, carregadinha com amoras pretinhas e doces, nos galhos cheios de folhas tenras em tom verde claro.

O chão no entorno da árvore está salpicado de manchas roxas das amoras caídas pela ação da chuva, do vento forte ou da mais leve brisa, e das bicadas dos passarinhos das redondezas. Na terra, foram esmagadas pelo impacto da própria queda ou pisoteadas de maneira distraída por visitantes apressados. Trilhas de disciplinadas formigas levam alguns desses despojos em direção a seu abrigo subterrâneo. Que façam bom proveito!

Sou extremamente grato por estar aqui e agora diante desta oportunidade única: pencas de amoras maduras ao alcance da mão.

Cada vez que aperto suavemente uma amora entre a língua e o céu da boca, sou transportado imediatamente para a época e o local de outras duas frondosas amoreiras, no quintal de uma casa em que vivi na infância em Caçapava, SP. Aguardava com ansiedade pela época do verão, como agora, para encher as mãos e alguma cumbuca apanhada de maneira apressada na cozinha com a preciosa carga. Comia a maioria delas embaixo da árvore, como agora, mas levava suprimentos para consumo tardio, em algum outro momento do dia ou da noite.

 Segurando o minúsculo cabinho da fruta junto à boca, não há modo evitar ficar com a ponta dos dedos pintados com tinta roxa, do caldo suculento da amora madura. E é tinta persistente, que resiste à lavagem inicial. Tinta que marcava a língua, os lábios, os dedos, a palma da mão, e que às vezes escorria pelo pulso e antebraço, manchando o calção e a camisa do menino feliz.

Agora sou mais cuidadoso. Mais triste? Certamente que não! Pelo menos não quando posso estar assim comigo mesmo, com as pontas dos dedos manchados pelo suco da amora madura. E lembrar-me com carinho de lugares, pessoas e amores. E só de coisas boas. E daqueles beijos de gosto azedinho doce, cometas percorrendo o céu da boca, que salpicaram o chão da memória com tantas marcas persistentes.

Nesse território, nessa confluência do espaço e do tempo, sou visitante atento. Fui e sou muito feliz!.

Pausa para um breve haicai:

azedinho doce,
tinta roxa no dedo,
lembro de você.

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

amora-madura-2

Garrafa 513 – Folha da mangueira   Leave a comment

Na semana do carnaval, em retiro forçado no sítio da família, acompanhando a recuperação da saúde de uma criaturinha idosa e querida.

Vibro com emoção quando ouço o ritmo da bateria de uma bela escola de samba e aprecio o requebrado sedutor de suas porta-bandeiras e passistas, além do giro sincronizado das integrantes da ala das baianas. Mas troco de bom grado, sempre que posso, a folia de Momo pela quietude de áreas rurais.

Comida caseira, amoras, jabuticabas e goiabas maduras ao alcance da mão, e tempo de sobra para longas caminhadas para facilitar a digestão. Oportunidade, também, para a prática da escuta com empatia em longas conversas com meus sogros, que sempre nos surpreendem e encantam com suas histórias carregadas de fortes lembranças e muitas emoções. E de alguns momentos de silenciosa contemplação, escutando o mato crescendo em baixo de uma frondosa mangueira.

Uma forte lufada de vento, antes de uma breve chuva de verão, provoca uma precipitação antecipada de pequenos galhos retorcidos, um ninho de passarinho vazio, e muitas folhas secas. Mangas ainda verdes balançam perigosamente, mas não caem. Ao longe, uma jaca madura desprende-se do tronco carregado e cai com um baque surdo no meio do matagal.

Pausa para um breve haicai:

folha da mangueira,
da estação primeira?
caiu sambando…

Eduardo Leal
Foto de Kelly Casseres – Squel, porta-bandeira da Mangueira em 2016

porta-bandeira-da-mangueira

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