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Garrafa 486 – Tapete mágico   Leave a comment

Havia um belo e frondoso jambeiro na minha casa da infância em Caçapava – SP. Seguindo as sábias instruções contidas nas bases hidrogenadas do seu DNA, na época combinada, suas flores salpicavam um grande setor do quintal, bem em frente à janela do meu quarto, e formavam um tapete cor de rosa em torno do lugar onde jogava búrica com meus amigos paulistas – bola de gude como é chamada pela molecada do Rio de Janeiro.

Quando chegava a época dos frutos, para minha alegria e alvoroço dos sanhaços que esvoaçavam pela vizinhança, ouvia da minha cama quando alguns jambos, impulsionados por alguma brisa ou pela bicada de algum pássaro, caiam do pé. Espalhavam então seu perfume aos ventos, parte de sua casca entreaberta revelava seu interior branco e macio e algumas sementes grandes e escuras rolavam na terra protegida pela sombra da sua copa. Saltava imediatamente da cama com a expectativa de selecionar aquele que me parecesse mais apetitoso, pela cor viva e perfume agradável. Feita a escolha, mastigava aquela polpa saborosa, mesmo antes de tomar o meu café da manhã. Pura delícia visual, olfativa e gustativa.

Agora tenho outro jambeiro na saída da minha rua. E é época de floração! Viajo na memória a cada passo. Tapete mágico.

o meu caminho:
nas flores do jambeiro,
tapete mágico…

Eduardo Leal
Foto de Eduardo Leal

Tapete mágico

Garrafa 403 – Manhã de inverno em Campos do Jordão   Leave a comment

Estive no Japão no inverno de 2008 e, além dos enigmáticos jardins zen decorados com areia e pedras, vi muita neve e árvores desfolhadas. Nenhuma cerejeira em flor para contar a história. Desde então, tenho alimentado o sonho de voltar na primavera, com a ótima desculpa de testemunhar e participar da festa tradicional do desabrochar das belas sakura que acontece em todas as regiões do país e, como descobri depois, em todas as partes do mundo onde há uma significativa colônia japonesa.

Qual não foi a minha surpresa em uma visita a Campos do Jordão, em pleno inverno, ao descobrir que a festa das cerejeiras acontece por lá sempre ao final do Festival de Inverno, nos últimos dias de julho e primeiros dias de agosto.

Como as flores da cerejeira desabrocham apenas uma vez ao ano, como descobri no site do evento, com o uso de modernas técnicas agrícolas os jardineiros da colônia japonesa têm podido controlar a floração para o início do mês de agosto, época da festa, com uma pulverização para a indução floral feita com 30 dias de antecedência, com um produto comercial existente no mercado.

Sempre fico muito pensativo e desconfiado com essas tentativas de manipulação da Natureza, mas não pude deixar de apreciar o espetáculo de delicada beleza dessa floração. Chegando eu também fora de hora, numa terça-feira, quando os eventos festivos ocorrem apenas nos fins de semana, fui recebido por um único jardineiro japonês que não falava uma palavra sequer de português, mas gentilmente me abriu as portas do seu belo paraíso.

Lá dentro, em respeitoso silêncio, além da visão das sakura, a contemplação de alguns beija-flores que, como eu, queriam apenas poder beijar e tocar cada um daqueles maravilhosos brotos rosados. Freud deve ter uma boa explicação pra isso… E, volta e meia, minha atenção era também capturada por alguns sanhaços que, com sua penugem azul me remetiam diretamente para os quintais da minha infância, na cidade vizinha de Caçapava, e pelo canto de bem-te-vis, que conheço bem da minha própria vizinhança aqui no Rio.

Despertado de repente pelo ruído de uma pequena motosserra, habilmente manipulada pelo jardineiro, podando em algum canto do parque um galho partido, pensei comigo mesmo:

broto não espera!
na flor de cerejeira,
já é primavera…

Eduardo Leal
Foto de Eduardo Leal em Campos do Jordão

Em Campos do Jordão 070

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