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Garrafa 403 – Manhã de inverno em Campos do Jordão   Leave a comment

Estive no Japão no inverno de 2008 e, além dos enigmáticos jardins zen decorados com areia e pedras, vi muita neve e árvores desfolhadas. Nenhuma cerejeira em flor para contar a história. Desde então, tenho alimentado o sonho de voltar na primavera, com a ótima desculpa de testemunhar e participar da festa tradicional do desabrochar das belas sakura que acontece em todas as regiões do país e, como descobri depois, em todas as partes do mundo onde há uma significativa colônia japonesa.

Qual não foi a minha surpresa em uma visita a Campos do Jordão, em pleno inverno, ao descobrir que a festa das cerejeiras acontece por lá sempre ao final do Festival de Inverno, nos últimos dias de julho e primeiros dias de agosto.

Como as flores da cerejeira desabrocham apenas uma vez ao ano, como descobri no site do evento, com o uso de modernas técnicas agrícolas os jardineiros da colônia japonesa têm podido controlar a floração para o início do mês de agosto, época da festa, com uma pulverização para a indução floral feita com 30 dias de antecedência, com um produto comercial existente no mercado.

Sempre fico muito pensativo e desconfiado com essas tentativas de manipulação da Natureza, mas não pude deixar de apreciar o espetáculo de delicada beleza dessa floração. Chegando eu também fora de hora, numa terça-feira, quando os eventos festivos ocorrem apenas nos fins de semana, fui recebido por um único jardineiro japonês que não falava uma palavra sequer de português, mas gentilmente me abriu as portas do seu belo paraíso.

Lá dentro, em respeitoso silêncio, além da visão das sakura, a contemplação de alguns beija-flores que, como eu, queriam apenas poder beijar e tocar cada um daqueles maravilhosos brotos rosados. Freud deve ter uma boa explicação pra isso… E, volta e meia, minha atenção era também capturada por alguns sanhaços que, com sua penugem azul me remetiam diretamente para os quintais da minha infância, na cidade vizinha de Caçapava, e pelo canto de bem-te-vis, que conheço bem da minha própria vizinhança aqui no Rio.

Despertado de repente pelo ruído de uma pequena motosserra, habilmente manipulada pelo jardineiro, podando em algum canto do parque um galho partido, pensei comigo mesmo:

broto não espera!
na flor de cerejeira,
já é primavera…

Eduardo Leal
Foto de Eduardo Leal em Campos do Jordão

Em Campos do Jordão 070

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Garrafa 288 – Lua cheia de verão   3 comments

Caminhando na praia da Barra da Tijuca, de volta pra casa, depois de encontrar um bom amigo nessa tarde de verão carioca e assistir a um por do sol espetacular, que incendiou o horizonte com todos os tons de rosa, laranja e vermelho, achei que o dia já estivesse ganho… Tinha valido a pena vivenciá-lo… Água de coco geladinha, boa conversa, algumas metas e planos para o futuro compartilhados…

Enquanto meu cabelo se alinhava com o vento fresco e salitrado, que parecia varrer também qualquer sombra de preocupação e agitação dos meus pensamentos, sequer suspeitava do que ainda iria testemunhar…

De repente, o nascer da lua cheia de março me surpreende!

Minha mente tagarela fica muda, em respeitoso silencio, sem palavras, sem pensamentos, sem ação… Sorrindo com o corpo todo, puro espanto e admiração!

Não me lembro de ter visto uma lua cheia com um disco tão claro e tão grande, como quando surgiu espetaculosa, nesse final da tarde… Realmente não tenho registro de outra igual, mesmo em minhas memórias mais distantes, de noites estreladas na fazenda em Minas Gerais, de passeios enluarados nas praias de Angra e de longas travessias cruzando horizontes em alto mar.

Lentamente, saio desse estado hipnótico e a mente se agita novamente… Queria poder compartilhar esse momento com você…

E meu pensamento voa e vai ao seu encontro!
E caminhamos juntos novamente. Mãos entrelaçadas.
Olhares lunáticos no horizonte, enfeitiçados pelo brilho da lua cheia.

De volta ao momento presente, um sopro de vento parece sussurrar esse breve haicai:

Lua gigante
surge no horizonte!
Sol fica mudo…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização – Ouvir “Tarde” de Milton Nascimento e Marcio Borges, com participação de Wayne Shorter

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