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Garrafa 461 – O Conceito de Reenquadramento   4 comments

No exercício de minhas atividades como Coach e Consultor faço uso de uma pequena “caixa de ferramentas” ou, como também costumo dizer, de um “cinto de utilidades” com diversos recursos de que posso lançar mão a cada instante, dependendo da situação que me é apresentada. Uso cada um desses recursos com o propósito de provocar reflexão nas pessoas que me procuram em busca de apoio para seus projetos organizacionais ou pessoais.

Compartilho uma dessas ferramentas – o Reenquadramento – com os amigos que participam de alguns dos meus círculos de relacionamentos, por acreditar firmemente em sua utilidade, incentivando a sua prática e uso no dia-a-dia de cada um.

Como toda ferramenta ou recurso colocado à nossa disposição, é claro que o seu emprego dependerá da nossa intenção e propósito. Da mesma maneira que o nosso conhecimento a respeito da estrutura atômica pode ser utilizado de maneira construtiva, quer seja para produzir energia, quer seja para salvar ou prolongar a vida na área da medicina, ele pode também ser utilizado de maneira destrutiva para produzir e empregar armamento de destruição em massa.

Entendo que o uso construtivo do reenquadramento é no sentido de expandir a nossa capacidade de percepção, utilizando molduras espaciais e temporais cada vez mais amplas, e de contribuir para elevar o nosso nível de consciência, em nossa permanente jornada de busca da verdade. Seu uso de maneira destrutiva, ao contrário, pode ser pelo emprego sistemático de uma perspectiva mais restrita, manipuladora e parcial, com o propósito de distorção e encobrimento de fatos relevantes para entendimento de um determinado problema ou situação. Não podemos perder de vista, entretanto, que o uso de uma perspectiva mais restrita, às vezes pode ser extremamente útil, e até desejável para que se possa aprofundar o conhecimento de um determinado aspecto de uma questão. Isto, desde que, em seguida, voltemos a expandir a nossa moldura espacial e temporal, em uma perspectiva mais ampla, para incluir outros aspectos não considerados anteriormente e igualmente importantes para o entendimento da situação.

Não pretendo me estender em discussões filosóficas a respeito do conceito de verdade. Para efeito de utilização neste breve artigo proponho apenas que se empregue a ideia de se estar de acordo com os fatos. Nesse sentido, qualquer tentativa de se omitir ou distorcer fatos não contribui para o nosso esforço de busca da verdade.

Com a utilização sistemática dessa ferramenta, penso que poderemos então, todos em conjunto, buscar e encontrar novos significados e alternativas criativas para a solução de antigos problemas comuns.

Reenquadramento (Ressignificação)

Conceituação

O Reenquadramento é uma ferramenta que podemos utilizar para contornar as restrições e limites impostos à nossa percepção (por outras pessoas ou por nós mesmos) a respeito de uma determinada imagem, situação ou experiência. Literalmente significa colocar essa experiência sob uma nova e diferente moldura ou contexto cognitivo, fazendo com que seja possível perceber novos significados e dirigir nossa atenção a outros aspectos ainda não considerados, ampliando nosso mapa de mundo. Alguns autores, focalizando mais no seu efeito do que no processo, a chamam de Ressignificação.

Meu Mentor a respeito desse assunto tem sido Robert Dilts, que propõe e discute maneiras saudáveis de utilização dessa ferramenta em diversas publicações e artigos. De “From Coach to Awakener” , no meu entendimento um dos melhores livros já escritos sobre a abordagem de Coaching com Programação Neurolingüística, aproveito abaixo alguns comentários e exemplos.

Dilts nos lembra de que nossas experiências e interpretações a respeito do que nos acontece são influenciadas pela nossa própria perspectiva e contexto. Por exemplo, o fato de que começou a chover no presente instante, pode ser uma benção para alguém submetido a uma seca prolongada, uma ótima desculpa para quem está procurando uma justificativa para ficar em casa, ao invés de comparecer ao churrasco de confraternização da empresa, um mero inconveniente para quem planeja fazer compras no shopping, e uma catástrofe para quem programou realizar uma cerimonia de casamento ao ar livre. Às vezes ficamos presos a apenas um dos aspectos da situação e é importante tomarmos consciência de que há sempre muitas maneiras de apreciarmos a paisagem ao nosso redor e o que nos acontece.

Como um fotógrafo ou um pintor que deseja retratar uma determinada cena, podemos escolher fazer a nossa composição incluindo apenas um detalhe, como uma árvore, ou mesmo um único inseto pousado no seu tronco. E podemos, também, escolher incluir o bosque, com suas muitas arvores e animais, o riacho e o lago, ou ainda, incluir as montanhas e o céu, azul ou carregado de nuvens cinzentas e ameaçadoras, no horizonte mais distante.

O ato de se escolher um novo enquadramento e de colocar uma nova moldura ao redor de uma determinada imagem é uma ótima metáfora desse processo e dessa ferramenta. E não devemos deixar de considerar que as novas perspectivas podem ser de natureza espacial ou temporal e, também, no sentido de estreitar o foco ou de ampliar a visão da situação em questão.

Visualização Gráfica

Utilizando alguns recortes feitos em ilustração de Carlos Fernando Souza Leal e a discussão proposta por Robert Dilts, poderemos refletir em seguida a respeito do efeito da utilização de diferentes molduras de enquadramento:

1. Considerando por um momento a figura apresentada abaixo na Moldura 1, com um enquadramento mais restrito, podemos constatar que ela não possui nenhum outro grande significado, a não ser de que se trata da ilustração de algum tipo de peixe de cor esverdeada nadando de maneira despreocupada em seu ambiente natural.

Moldura 1 Mod

2. Quando o enquadramento é ampliado na Moldura 2, de repente nos damos conta de uma situação diferente. O peixinho verde agora não é apenas um peixe, mas um peixe pequeno prestes a ser devorado por um peixe maior. O peixinho verde parece distraído e sem consciência de sua situação, que nós podemos perceber facilmente apenas pelo fato de selecionarmos uma perspectiva mais ampla. Podemos experimentar um sentimento de alerta e de preocupação pelo peixe pequeno, ou apenas aceitar que o peixe maior precisa se alimentar para sobreviver.

Moldura 2 Mod

3. Quando ampliamos ainda mais o enquadramento, temos uma nova perspectiva da situação e podemos lhe atribuir novos significados. Vemos que não é só o peixinho verde que está em perigo. O peixe vermelho também está prestes a ser devorado por um peixe verde e amarelo ainda maior. Em sua preocupação com a sobrevivência, o peixe vermelho ficou tão focado em comer o peixe verde, que não se deu conta de que sua própria sobrevivência estava ameaçada por um peixe ainda maior.

Moldura 3 Mod

A situação retratada pela Moldura 3, e o novo nível de consciência que emerge do reenquadramento de nossa perspectiva da situação funcionam como uma ótima metáfora do processo de reenquadramento e do seu efeito. As pessoas frequentemente se colocam na situação do peixe verde ou do peixe vermelho. Desatentas, permanecem alheias aos desafios impostos pelo seu ambiente, como o peixe menor, ou tão focadas em obter algum resultado, como o peixe do meio, que não chegam a perceber a crise que se aproxima. O paradoxo da situação do peixe vermelho é que ele focou sua atenção em apenas um determinado comportamento relacionado à sua sobrevivência, e essa decisão colocou a sua própria sobrevivência em risco, de outra maneira. O uso do reenquadramento, portanto, nos permite observar o ambiente mais amplo, de modo que escolhas mais apropriadas e novas ações podem ser planejadas e implementadas.

Desejo firmemente que essas informações possam ser de utilidade para os eventuais leitores desse post, especialmente aqueles que pretendem se aventurar na utilização dessa simples e poderosa ferramenta em seus processos de reflexão.

Eduardo Leal
Ilustrações de Carlos Fernando Souza Leal
Adaptação a partir de tradução livre de trechos de “From Coach to Awakener” de Robert Dilts

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Garrafa 378 – Campeonato Mundial de Surf na Barra – Final 2013   Leave a comment

Terminou um pouco depois do meio-dia de hoje a etapa Rio do Campeonato Mundial de Surf com a vitória do sul-africano Jordy Smith na bateria final contra Adriano de Souza, o Mineirinho, que ficou em segundo lugar. Com esse resultado mineirinho assume o primeiro lugar do ranking mundial.

Em cada uma das duas semifinais, Adriano venceu a Gustavo Medina em bateria emocionante, disputada onda a onda e Jordy venceu com facilidade a Mick Fanning.

Entre as principais atrações estrangeiras, de quem se podia esperar melhor desempenho nessa etapa, Kelly Slater chegou até as quartas de final, mas foi batido pelo próprio Adriano e Joel Parkinson não passou da terceira rodada. Outros nomes se destacaram dessa vez.

Um bom público lotou as areias da Barra da Tijuca, ontem e hoje, jovens em sua maioria, levando seu apoio aos semifinalistas brasileiros Adriano de Souza e Gustavo Medina. Mas só um deles poderia participar da final, pelo arranjo da tabela. Os dois deram o melhor de si e abrilhantaram os dois últimos dias de competições.

As notas dissonantes de tudo que vi e ouvi, nas últimas semanas, foram duas:

1. Um vândalo, aparentemente de ontem para hoje, rasgou parcialmente a lona plástica onde os resultados da competição eram registrados e podiam ser consultados por quem passava na calçada em frente ao palco principal do evento. Não chegou a destruir completamente o marcador, mas deixou a sua marca antissocial dificultando a leitura de resultados da quinta rodada e das quartas de final;
2. No momento da premiação, um pequeno grupo de jovens que estava a uns poucos metros de onde me encontrava, gritou palavras depreciativas ao campeão sul-africano, referindo-se à sua aparência física, com barba e bigode por fazer, e chamando-o de “bigode de porteiro”, demonstrando atitude preconceituosa e falta de respeito para com um atleta de ponta e, também, para com toda uma classe de trabalhadores.

O jovem líder desse grupo, garoto de classe média com cerca de quinze anos, certamente quer se destacar de alguma maneira no seu meio e impressionar seus companheiros. E, aparentemente, é adepto de um estilo de humor ultimamente tão em voga na televisão e na Internet: utilizar as diferenças desfavoráveis, segundo a sua opinião, para ridicularizar e atacar verbalmente (num primeiro momento insultos, depois, quem sabe?) pessoas surpresas e indefesas. Normalmente as vítimas dessas discriminações têm aparência física fora dos padrões de beleza impostos pela mídia, baixo nível social e baixa capacidade financeira ou são parte de algum tipo de minoria agrupada por preferência sexual, escolha religiosa, raça, etc… Nesse caso, uma atitude por si só já classificável com desumana, foi adotada de maneira covarde valendo-se do anonimato por estar no meio de uma pequena multidão e, também, do desconhecimento do nosso idioma por parte do atleta depreciado e atacado verbalmente. Fico triste sempre que presencio esse tipo de atitude.

Infelizmente, não consegui alcançar esse jovem e os integrantes do seu grupo, antes da dispersão da multidão para, da maneira mais respeitosa possível, dizer algumas palavras, fazer algumas perguntas e, talvez, provocar alguma reflexão no seu caminho de volta pra casa. Poderia ter dito:

O atleta que venceu essa competição, no dia de hoje, tem se esforçado e dado tudo de si para conquistar bons resultados. Está, no momento, fora do seu país e longe de sua família. Viaja o mundo todo participando de competições, com grande sacrifício pessoal e, apesar de todas as dificuldades, atingiu um nível de proficiência invejável. Nessa manhã, venceu de maneira inequívoca o surfista brasileiro de maior destaque e atual líder do ranking mundial. Isso é o que costumam fazer as pessoas que se destacam em algum tipo de atividade: Dar o melhor de si. Imagino que você também seja bom em alguma coisa e espero que um dia possa ter sucesso comparável, na área que escolher, ao que obteve o Jordy Smith nessa etapa do campeonato. E desejo que tenha bons resultados em outras áreas da vida também. Mas acho que para isso, pode ajudar bastante se escolher estender essa atitude vencedora – dar o melhor de si mesmo – a todas as suas atividades, sejam elas quais forem. Veja, há alguns momentos atrás, você era parte de uma plateia que assistia a uma premiação. Será que a sua atitude depreciativa era o melhor que você podia fazer em um momento como aquele?

Pausa para reflexão…

O sul-africano Jordy Smith leva para casa o respeito e admiração dos verdadeiros apreciadores do esporte e, antes que me esqueça, um prêmio de U$ 100,000 (cem mil dólares) e algumas posições a mais no ranking mundial.

Parabéns Jordy e Adriano!

Eduardo Leal
Fotos de Eduardo Leal

Público na areia, na final do campeonato.

Público na areia, na final do campeonato.

Surfistas na água, Ilhas Tijucas ao fundo.

Surfistas na água, Ilhas Tijucas ao fundo.

Vandalismo no cartaz de resultados.

Vandalismo no cartaz de resultados.

Entrevista de Adriano de Souza com Jordy Smith ao lado

Entrevista de Adriano de Souza com Jordy Smith ao lado

Premiação Jordy Smith

Premiação Jordy Smith

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