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Garrafa 361 – Nenhuma esperança, em 2013!   1 comment

Em recente reunião de amigos que aconteceu no meu apartamento, fui convidado a dizer algumas palavras, na qualidade de anfitrião, e não por qualquer outra razão, a título de encerramento do encontro e despedidas do grupo que estava de partida para outros compromissos. O tema proposto foi a respeito de minhas esperanças para o ano de 2013.

Surpreendido com o convite, especialmente pelo tema, que tem dado voltas na minha cabeça nos últimos tempos, e que permanece um assunto em aberto, não deixei a resposta em branco. Mas sinto que posso ter frustrado e decepcionado algumas daquelas pessoas. Assumi, então, o compromisso de articular melhor meus pensamentos e formular uma resposta por escrito, o que faço agora, utilizando este canal de comunicação.

Naquela ocasião, minhas palavras devem ter soado vacilantes já que, de memória, só consegui reproduzir parcialmente o conteúdo da Garrafa 182, postada em janeiro de 2009. Minha tradução livre do poema de T. S. Eliot começa assim: Eu disse à minha alma, fica quieta, e espera sem esperança pois a esperança seria pela coisa errada… E penso que esse poema pode ser um bom resumo de minhas crenças a respeito da proposta de se esperar sem esperança, enquanto a sabedoria não chega…

E já tinha postado outros dois Haicai, na Garrafa 179, de dezembro de 2008, inspirado em minhas leituras sobre filosofia zen budista, e na Garrafa 241, de junho de 2011, sobre o mesmo tema. Este último, inspirado na leitura de “A felicidade, desesperadamente” de André Comte-Sponville, livro indicado por um bom amigo e companheiro de angustias existenciais.

Na Garrafa 342, também citei André Comte-Sponville, refletindo sobre a importância de agir com base na vontade, e não na esperança, a diferença fundamental entre os “militantes” e os “simpatizantes” da vida.

Isto posto, passo agora a explicitar a lógica filosófica de Comte-Sponville, apoiada em algumas ideias de filósofos clássicos, modernos e contemporâneos (Platão, Aristóteles, Epicuro, Montaigne, Descartes, Spinoza, Pascal, Santo Agostinho, Schopenhauer, Kant, Marcel Conche, Louis Altusser, Sartre) sobre a felicidade, a vida, a filosofia, a sabedoria e, também, sobre como experimentamos a passagem do tempo. Tudo isso me parece e soa como verdadeiro e, portanto, adoto como meu entendimento do assunto, no momento atual:

1 – “Todos os homens procuram ser felizes, isso não tem exceção. É esse o motivo de todas as ações de todos os homens…”

2 – A filosofia é uma prática discursiva (ela procede “por discursos e raciocínios”) que tem a vida por objeto, a razão por meio e a felicidade por fim. Trata-se de pensar melhor para viver melhor.

3 – Como etimologicamente a meta da filosofia é a sabedoria e, pela tradição grega se reconhece a sabedoria pela felicidade, a felicidade é, portanto, a meta da filosofia. Pelo menos um certo tipo de felicidade, a felicidade do sábio, que não se obtém por meio de drogas, mentiras, ilusões, diversão. É uma felicidade que se obteria por uma certa relação com a verdade: uma verdadeira felicidade ou uma felicidade verdadeira. A beatitude ou a alegria que nasce da verdade.

4 – Só é verdadeiramente filósofo quem ama a felicidade como todo mundo, mas ama mais ainda a verdade – só é filósofo quem prefere uma verdadeira tristeza a uma falsa alegria. Trata-se de pensar não o que me torna feliz, mas o que me parece verdadeiro – e fica a meu encargo tentar encontrar, diante dessa verdade, seja ela triste ou angustiante, o máximo de felicidade possível. A felicidade é a meta; a verdade é o caminho ou a norma.

5 – O essencial é não mentir, e antes de mais nada não se mentir. Não mentir sobre a vida, sobre nós mesmos, sobre a felicidade.

6 – E por que não somos felizes?

a) Não somos felizes, às vezes, porque tudo vai mal. Os que sofrem a miséria, o desemprego, a exclusão, os que são afetados por uma doença grave ou têm um ente próximo morrendo… A maior urgência, sem dúvida não é filosofar, antes é preciso sobreviver e lutar, ajudar, tratar e curar.

b) Mas, se não somos felizes, nem sempre é porque tudo vai mal. O que nos falta para ser feliz, quando temos tudo para ser e não somos? Falta-nos sabedoria, saber viver. Ser feliz é, pelo menos numa primeira aproximação, ter o que desejamos. Mas, e agora quando nos damos conta que, segundo diversos filósofos (Platão, Pascal, Schopenhauer, Sartre) o desejo é falta: “O que não temos, o que não somos, o que nos falta, eis os objetos do desejo e do amor.” Ora, se só desejamos o que não temos, nunca temos o que desejamos, logo nunca somos felizes. Assim que um desejo é satisfeito, já não há falta, logo já não há desejo. Temos, então, o que desejávamos e já não desejamos. Ora desejamos o que não temos, e sofremos e ficamos frustrados com essa falta, ora temos o que, portanto, já não desejamos e nos entediamos ou nos apressamos a desejar outra coisa, e voltamos a sofrer. A vida oscila, pois, como um pêndulo, do sofrimento ao tédio. E a esperança é a própria falta, no tempo e na ignorância. Só esperamos o que não temos, e por isso mesmo somos tanto menos felizes quanto mais esperamos ser felizes. Estamos constantemente separados da felicidade pela esperança que a busca.

7 – Em nossa incapacidade de viver o momento presente, vivemos um pouco para o passado e principalmente muito, muito, para o futuro. “Assim, nunca vivemos, esperamos viver; e, dispondo-nos sempre a ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos.”

8 – Então, o que fazer? Como escapar desse ciclo da frustração e do tédio, da esperança e da decepção?

a) Primeira Estratégia: O esquecimento, a diversão. Pensemos rápido em outra coisa! Façamos como todo mundo: finjamos ser felizes, finjamos não nos entediar… É uma estratégia não filosófica, pois em filosofia trata-se justamente de não fingir;

b) Segunda Estratégia: Fuga para frente, de esperanças em esperanças. Consolar-se por ainda não ter conquistado o que se deseja, na esperança de que a conquista virá na semana seguinte…

c) Terceira Estratégia: Salto para frente, uma esperança absoluta, religiosa, que não é suscetível de ser decepcionada. É o salto religioso: esperar a felicidade para depois da morte. Passar da esperança como paixão, para a esperança como virtude teologal: porque ela tem Deus mesmo por objeto;

d) Quarta Estratégia: Uma tentativa de nos libertar da própria esperança. Entre a felicidade esperada e a decepção, entre o sofrimento e o tédio, lançar um olhar ao prazer e à alegria. Ora, quando há prazer? Quando há alegria? Há prazer, há alegria, quando desejamos o que temos, o que fazemos, o que é: há prazer, há alegria, quando desejamos o que não falta! Toda vez que Platão, Pascal, Schopenhauer e Sartre estão errados! E quando esse erro ocorre? Quando confundem o desejo com a esperança. Toda esperança é um desejo, mas nem todo desejo é uma esperança. Como é bom tomar uma bebida bem gelada quando se tem sede! Como é bom fazer amor quando se tem vontade, com a pessoa que se deseja, tanto mais quando ela não nos falta, quando está aqui, quando se entrega, maravilhosamente oferecida, maravilhosamente disponível! O prazer do passeio é estar onde desejamos estar, darmos os passos que estamos dando, desejar dá-los, e não desejar estar alhures ou efetuar outros passos, os que daremos mais tarde ou dali adiante… O prazer da viagem, é partir por partir. Triste viajante o que só espera a felicidade na chegada! E isso vale para qualquer ação. Ai do corredor que só deseja as passadas por vir, não as que ele dá, do militante que só deseja a vitória, não o combate, do amante que só deseja o orgasmo, não o amor! Todo ato necessita de uma causa próxima, eficiente e não final, e o desejo, como notava Aristóteles, é a única força motriz. É por isso que podemos ser felizes, é por isso que às vezes o somos: porque fazemos o que desejamos, porque desejamos o que fazemos! É o que Comte-Sponville chama de felicidade em ato, que outra coisa não é senão o próprio ato como felicidade: desejar o que temos, o que fazemos, o que é – o que não falta. Em outras palavras, gozar e regozijar-se. Mas essa felicidade em ato é ao mesmo tempo uma felicidade desesperada, pelo menos em certo sentido: é uma felicidade que não espera nada.

9 – De fato, o que é a esperança? É um desejo: não podemos esperar o que não desejamos. Toda esperança é um desejo; mas nem todo desejo é uma esperança. O desejo é o gênero próximo, como diria Aristóteles, da qual a esperança é uma espécie. Vou lhes propor três características da esperança:

a) Uma esperança é um desejo referente ao que não temos, ou ao que não é, em outras palavras, um desejo a que falta seu objeto. É o desejo segundo Platão. E é de fato o motivo pelo qual, na maioria das vezes, a esperança se refere ao futuro: porque o futuro nunca está aqui, porque do futuro, por definição, não temos o gozo efetivo. É por isso que esperamos: esperar é desejar sem gozar.

b) Podemos também esperar algo que não está por vir: a solução pode se referir ao presente, ou até, paradoxalmente, ao passado. “Espero que você esteja melhor” é uma esperança referente ao presente. “Espero que a operação tenha corrido bem” é uma esperança referente ao passado. Uma esperança é um desejo que ignora se foi ou será satisfeito: esperar é desejar sem saber. Só se espera o que se ignora: quando se sabe, já não há por que esperar. A esperança e o conhecimento nunca se encontram, em todo caso nunca têm o mesmo objeto: nunca esperamos o que sabemos, nunca conhecemos o que esperamos.

c) Ninguém espera aquilo de que se sabe capaz. É isso que distingue a esperança da vontade: uma esperança é um desejo cuja satisfação não depende de nós, como diziam os estóicos – diferentemente da vontade, a qual, ao contrário, é um desejo cuja satisfação depende de nós. Só esperamos o que somos incapazes de fazer, o que não depende de nós. Quando podemos fazer, não cabe mais esperar, trata-se de querer. A esperança é um desejo cuja satisfação não depende de nós: esperar é desejar sem poder.

10 – Integrando as três características apresentadas acima, Comte-Sponville nos apresenta sua definição de esperança: “É um desejo que se refere ao que não temos (uma falta), que ignoramos se foi ou será satisfeito, enfim, cuja satisfação não depende de nós: esperar é desejar sem gozar, sem saber, sem poder.” O prazer, o conhecimento e a ação não têm a ver com a esperança, e até, relativamente à realidade deles, a excluem.

a) Por que o prazer? O contrário de desejar sem gozar, na medida em que haja desejo (mas se estamos vivos, há desejo), é desejar gozando, desejar aquilo de que gozamos – na sexualidade, na arte, no passeio, na amizade, na gastronomia, no esporte, no trabalho, etc. É, portanto, o próprio prazer.

b) Por que o conhecimento? O contrário de desejar sem saber é desejar o que se sabe. É, portanto, o próprio conhecimento, pelo menos para quem o deseja, para aquele que ama a verdade, e tanto mais quanto ela não falta. O sábio, nesse sentido, é um “conhecedor”, como dizemos em matéria de vinhos ou de culinária. O “conhecedor” não é apenas aquele que conhece, mas também aquele que aprecia. O sábio é um conhecedor da vida: ele sabe conhecê-la e apreciá-la!

c) Por que a ação? O contrário de desejar sem poder é desejar o que podemos, logo o que fazemos. A única maneira de poder efetivamente é querer; e a única maneira verdadeira de querer é fazer. É a imensa lição estóica, sempre queremos o que fazemos, sempre fazemos o que queremos – nem sempre o que desejamos ou o que esperamos, longe disso, mas sempre o que queremos. É a diferença entre a esperança (desejar o que não depende de nós) e a vontade (desejar o que depende de nós). Não é a esperança que faz os heróis: é a coragem e a vontade.

11 – Platão, Pascal, Schopenhauer, portanto, nem sempre têm razão, com relação a suas ideias a respeito do desejo. Se é verdade que desejamos principalmente o que não temos e, portanto, se é verdade que nossos desejos na maioria das vezes são esperanças, também podemos desejar o que gozamos (isso se chama prazer, e todos sabem que há uma alegria do prazer); podemos desejar o que sabemos (isso se chama conhecer, e todos sabem que há uma alegria do conhecimento, pelo menos para quem ama a verdade); podemos desejar o que fazemos (isso se chama agir, e todos sabem que há uma alegria da ação).

12 – Se é verdade que somos tanto menos felizes quanto mais esperamos sê-lo, também é verdade que esperamos tanto menos sê-lo quanto mais já o somos. O contrário de esperar não é temer, como se acredita comumente. Como diz Espinoza, “Não há esperança sem temor, nem temor sem esperança.” A esperança e o temor não são dois contrários, mas antes as duas faces da mesma moeda: nunca temos uma sem a outra. O contrário de esperar não é temer; o contrário de esperar é saber, poder e gozar. É também o que chamamos de felicidade, que só existe no presente (não mais a felicidade perdida, mas a felicidade em ato). É também o que chamamos amor, que só se refere ao real.

Depois de apresentar as armadilhas e fazer uma crítica da esperança, Comte-Sponville nos coloca em uma uma encruzilhada. O desejo é a própria essência do homem; mas há três maneiras principais de desejar, três ocorrências principais do desejo: o amor, a vontade e a esperança.

Que diferença há entre a esperança e a vontade? Em ambos os casos há desejo. Mas, como apresentado, a esperança é um desejo que se refere ao que não depende de nós; a vontade, um desejo que se refere ao que depende de nós.

Que diferença há entre a esperança e o amor? Em ambos os casos há desejo. Mas a esperança é um desejo que se refere ao irreal; o amor, um desejo que se refere ao real. Só esperamos o que não é; só gostamos do que é.

O momento presente, portanto, nos desafia a fazer escolhas a cada instante. Todos as fazemos, diante dos desafios que a vida nos apresenta, de acordo com nosso nível de consciência.

A seleção do título deste post foi uma dessas escolhas e aqui cabe um esclarecimento: é mais uma frase de efeito do que a minha realidade, pois sinto que ainda não estarei livre de esperanças em 2013! Querem um exemplo? Como sempre faço, desde a Garrafa Zero, em outubro de 2005, “espero que essas palavras possam ser úteis para alguém, em algum lugar, em algum momento…”

Ao rever minhas anotações da primeira leitura de “A felicidade, desesperadamente”, de agosto de 2011, encontrei um haicai ainda não postado sobre a proposta de se esperar sem esperança, parido no dia 11 de agosto, que agora compartilho, com uma pequena alteração. Na inspiração original a última palavra era “amar”, agora escolho “agir”. Entendo, entretanto, que, aqui e agora, só cabem ações amorosas…

desesperançar!
o luto do que não é;
só resta… agir!

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Esperanca 2

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Garrafa 291 – Cara ou coroa   Leave a comment

Nos ultimos dois Posts, abordei alguns aspectos do Metaprograma “Aproximação X Afastamento”, conceito de Programação Neurolinguística – PNL, usando cada um dos dois lados da moeda freudiana sobre nossas motivações, ou seja, “Busca do prazer X Fuga da dor”. Agreguei alguns breves comentários sobre como entendo que esses fatores podem ser levados em consideração em um processo de Coaching: Embora nosso mecanismo psiquico tenha uma preferência pelo padrão de fuga da dor, podemos e devemos fazer um esforço consciente para persistir em nossa busca do prazer, em suas diversas formas, da maneira mais ecológica possível com as nossas crenças e valores e nosso nível de consciência.

Além de minha prática como Coach Centrado em Valores, que serve de laboratório para muitas reflexões a esse respeito, as outras áreas da minha vida, nos ultimos tempos em especial as de Saúde (física, emocional, mental) e de Relacionamentos (familiares, de trabalho e afetivos), têm me trazido materia prima permanente para percepções e insights.

Acabei de chegar de mais um sepultamento de um integrante da nossa família. O terceiro desde dezembro do ano passado. Idades de 54, 86 e 49 anos, o que indica que não é preciso ter idade avançada para deixar este mundo. E pude testemunhar a vontade de viver de cada um deles, em sua tagarelice nos momentos de consciência da iminência da partida e nos longos silêncios ocasionados pelos tubos e anestésicos, ou simplesmente a voluntária, eloquente e silenciosa contemplação do vazio.

Cada vez que me deparo com isso, fico mais convencido da importância de viver intensamente uma vida digna e plena, em que o amor ocupe um lugar central, e que comece com o amor próprio como poderosa fonte de luz e energia compassiva, irradiando em todas as outras dimensões e direções.

Nesta noite de lua em quarto crescente, deixo minha trilha sonora preferida sobre o tema da auto estima e mais uma brincadeira com as palavras com a métrica do haicai…

entre fuga da dor
e busca do prazer,
fico com ambas…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “The greatest love of all” de Michael Masser e Linda Creed, na voz de Whitney Houston

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Garrafa 290 – Busca do prazer   Leave a comment

Depois de refletir sobre a “Fuga da dor”, na Garrafa 289, e ainda movido pelos questionamentos a respeito das nossas fontes de motivação e do Metaprograma “Afastamento X Aproximação”, terminei, nos últimos dias, a leitura do livro de Desmond Morris “A essência da felicidade” – Editora Rocco, uma das referências que podemos utilizar sobre o outro lado da moeda freudiana, a “Busca do prazer”. Ainda sobre esse tema, já se encontra sobre a minha mesa, aguardando o seu momento, “O nascimento do prazer” de Carol Gilligan, também da Editora Rocco.

Em sua definição de felicidade, Desmond procura diferenciá-la de contentamento, satisfação ou paz de espírito, que são estados internos que surgem quando a vida está boa, ao passo que a felicidade é a sensação que experimentamos quando a vida de repente melhora. Em suas próprias palavras: “No momento exato em que algo maravilhoso acontece conosco, há uma onda de emoção, uma sensação de prazer intenso, uma explosão de absoluto deleite – e este é o momento em que estamos verdadeiramente felizes. Infelizmente ele não dura muito. Felicidade intensa é uma sensação transitória, efêmera.”

Em seu livro, após um breve retrospecto do desenvolvimento de nossa espécie ao longo de milhões de anos, de catadores de frutas nas árvores, caçadores nas planícies, e fazendeiros, até os realizadores de atividades especializadas na divisão do trabalho da nova estrutura urbana, ele procura identificar as diferentes fontes possíveis de felicidade e propõe algumas categorias. Algumas delas são, por exemplo, “Felicidade alvo” que deriva do nosso passado ancestral de caçadores; “Felicidade competitiva”, a alegria de vencer de nossa herança social; “Felicidade cooperativa” da necessidade de apoio mútuo para a sobrevivência; “Felicidade sensual” da satisfação de nossas necessidades biológicas; “Felicidade cerebral” da satisfação de nossas necessidades intelectuais.

A felicidade, portanto, surge de diversas formas e pode ser encontrada em diferentes contextos e associada a diferentes papéis. E cada uma dessas formas, para cada pessoa, tem suas vantagens e desvantagens e pode ser mais ou menos atraente. Algumas podem ser até, para a maioria de nós, repulsivas, perigosas ou anti-sociais. Apresentamos abaixo uma classificação que associa fontes de felicidade com alguns tipos de papéis:

Alvo – Conquistador
Competitiva – Vencedor, Sádico, Torturador
Cooperativa – Auxiliador, Ecologista
Genética – Parente
Sensual – Hedonista
Cerebral – Intelectual, Cientista, Artista, Jogador de Xadrez
Rítmica – Bailarino, Cantor, Ginasta, Atleta
Dolorosa – Masoquista, Puritano, Pudico, Suicida
Perigosa – Destemido, Jogador de azar, Esportista radical
Seletiva – Histérico
Tranquila – Meditador
Devota – Crente, Religioso
Negativa – Sofredor
Química – Usuário de drogas
Imaginária – Sonhador, Radialista, Profissional de Cinema e TV e seus Publicos alvo
Cômica – Risonho, Comediante, Humorista
Acidental – Afortunado

Como Coach, esse passeio pelas diferentes fontes da efêmera felicidade, me fez reforçar a percepção da importância de provocar reflexão nos diferentes “Exploradores de novas possibilidades de futuro” a respeito das diversas formas capazes de nos fazer desfrutar momentos de grande felicidade. Essas oportunidades surgem quando acontece uma dramática melhora em algum dos aspectos de nossas vidas, preferencialmente por meio de ações que estão ao nosso alcance, desde que alinhadas com o conjunto de crenças e valores correspondente ao nosso nível de consciência.

Como sempre gosto de fazer, porque me proporciona algum prazer intelectual com essas brincadeiras com as palavras usando a métrica do Haicai, escolho a imagem do lampejo provocado por uma explosão de luz repentina, como uma metáfora dessa nossa breve e fugidia felicidade…

felicidade!
explosão luminosa!
na escuridão…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido – Colisão Galaxias Antennae
Instruções de utilização: Ouvir “A felicidade” de Tom Jobim e Vinicius de Moraes

Garrafa 193 – O Conselho de Kamala   4 comments

O tema do sexo é sempre assunto palpitante e um dos tópicos mais pesquisados nas ferramentas de busca na Internet. A partir da curiosidade infantil, passando pelos sobressaltos da adolescência e chegando à idade adulta, é tema de conversas, livros, pinturas, esculturas, filmes e, é claro, de muita ação cinestésica.

Compartilho neste post algumas informações e reflexões a esse respeito, porque durante os processos de Coaching Centrado em Valores e de Consultoria em Gestão Pessoal que tenho conduzido ao longo dos últimos anos o assunto sempre vem à tona. Isso acontece, principalmente, quando os Exploradores de Novas Possibilidades de Futuro analisam suas respectivas Áreas da Vida denominadas “SAÚDE” (Física / Emocional / Mental), “RELACIONAMENTOS” (Família / Trabalho / Pessoal) e, às vezes, “LAZER”.

Objeto de repressão severa em diversas culturas e épocas, em função de crenças religiosas ou de simples preconceito, a partir dos anos 1960 houve uma explosão de liberação da expressão sexual em várias partes do mundo, com a popularização das pílulas anticoncepcionais. Podemos observar, ao mesmo tempo, que essa liberação sexual nem sempre foi acompanhada da desejável e correspondente elevação do nível de consciência que poderia ser esperada das pessoas supostamente liberadas.

No mundo ocidental o sexo foi tema de interesse constante: cercado de hipocrisia e de repressão religiosa na Idade Média, passando pelo Renascimento e chegando aos trancos e barrancos à Idade Moderna como assunto de interesse científico. Esse interesse ganhou relevância com as pesquisas e trabalhos conduzidos no Século XX por Sigmund Freud, que buscou disseminar a ideia de que o desejo sexual é a energia motivacional primária da vida humana. Em sua obra, Freud fez surgir uma nova compreensão do ser humano: a de uma pessoa influenciada por seus desejos e sentimentos que criam em sua mente um tormento pela contradição entre esses impulsos e a vida em sociedade.

Já na tradição oriental, desde a mais remota antiguidade, sua importância também não foi desprezada. No Tantra Yoga, por exemplo, o sexo entra como parte fundamental no estabelecimento das raízes de uma família e parte importante da vida de um casal saudável. Por isso no Tantra o sexo também é ensinado como um ato sagrado, como uma forma de trazer prazer e alegria ao seu companheiro ou companheira e como a oportunidade do encontro entre o “deus masculino” e a “deusa feminina” que vive em cada um dos parceiros. O sexo, de acordo com essa concepção, é visto antes de tudo como uma prática de elevação espiritual. E no Tantra podemos encontrar também a prática do Maithuna, que é uma técnica que procura alcançar o domínio dos apetites sexuais.

Maithuna ou Mithuna é um termo sânscrito que, na maioria das vezes, é traduzido como a união sexual em um contexto ritualista. Apesar de alguns escritores, seitas e escolas como, por exemplo, a de Yogananda considerarem que este é um ato puramente mental e simbólico, outros entendem que a palavra Maithuna se refere claramente a casais (com integrantes do sexo masculino e feminino) realizando sua união no sentido físico e sexual. E essa união seria equivalente à oportunidade de realização de uma espécie de “limpeza madura” do casal apenas quando a união é consagrada pelo ato do casamento, ou pelo amor verdadeiro.

Confesso que tenho simpatia por essa concepção que reconhece “efeitos terapêuticos” e de “limpeza” por conta dessa ligação física, emocional e espiritual e de um certo esquecimento momentâneo dos próprios egos.

No entanto, segundo outras concepções, seria possível experimentar uma forma de Maithuna sem união física. O ato poderia existir em um plano metafísico, sem penetração sexual, através apenas da transferência de energia através dos seus corpos sutis. E é quando esta transferência de energia ocorre que o casal, encarnado como duas divindades e com a sublimação momentânea dos seus respectivos egos, confrontam a realidade última e experiências de bem-aventurança através da união dos seus corpos sutis.

Descobri também recentemente, em um Curso de Cabala de que estou participando, que esse encontro físico e sexual também é visto pelos Cabalistas com um dos momentos com maior capacidade de se gerar LUZ, desde que essa união seja tratada com o cuidado que o assunto merece, com ênfase nas preliminares, como uma oportunidade de doação e de compartilhamento, mais do que de simples recebimento, como um encontro sagrado e não apenas como uma ocasião para obtenção de gratificação instantânea e prazer automático.

Quando tenho que lidar com essas questões por minha própria conta, o faço acreditando firmemente que o sexo é o momento de maior intimidade possível entre duas pessoas, com troca de fluidos corporais, compartilhamento de emoções e, finalmente, com um encontro iluminado de duas almas que se buscam. E, portanto, entendo que o sexo deve ser precedido de cuidadosa avaliação e seleção, sem preconceitos desnecessários, mas ao mesmo tempo considerado com o devido respeito e atenção que um assunto dessa natureza, de máxima intimidade com alguém, deve ser tratado. Penso que o assunto é suficientemente importante para que se evite que simples tabus sem sentido como “virgindade” e “proibição de sexo antes do casamento” influenciem nas escolhas feitas com consciência e naturalidade por pessoas responsáveis.

Essa foi a ideia que procurei compartilhar com meus três filhos, especialmente com minhas duas filhas, quando lhes dei o meu voto de confiança dizendo que estava certo de que saberiam escolher muito bem quando e com quem fazer sua iniciação sexual.

Para ilustrar a delicadeza com que penso que o assunto deva ser tratado e vivenciado, escolhi para este post a imagem de “um casal” formado por dois bonecos infláveis em uma cama de pregos… Em que qualquer movimento em falso, ou estabanado, pode ser desastroso para ambos os participantes da festa do amor…

E sobre “o que”, que tipo de prática pode ser considerada saudável “dentro das quatro linhas” imaginárias que podem ser delimitadas pelo colchão em uma cama, a relva macia do campo, ou qualquer outro lugar onde o amor e o desejo entre um homem e uma mulher se façam presentes, fico com o conselho da jovem cortesã Kamala oferecido a Sidarta, ambos personagens do belo romance ou “poema indiano” “Sidarta” de Hermann Hesse, que li na juventude e que até hoje me inspira:

Os amantes não devem separar-se, depois da festa do amor,
sem que um parceiro sinta admiração pelo outro;
sem que ambos sejam tanto vencedores como vencidos,
de maneira que em nenhum dos dois possa surgir a sensação de enfado ou de vazio
e ainda menos a impressão desagradável de terem-se maltratado mutuamente.

Eduardo Leal
Ilustração de autor desconhecido

Garrafa 165 – A gente é só amigo   Leave a comment

a gente é só amigo
e de repente
eu bem que podia
ser essa mosca
perto do teu umbigo

Alice Ruiz
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Simple pleasures” com Spyro Gyra

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