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Garrafa 514 – Azedinho doce   Leave a comment

No pomar do sítio da família, há atualmente apenas uma amoreira em momento de total exuberância. Árvore de tronco esguio, carregadinha com amoras pretinhas e doces, nos galhos cheios de folhas tenras em tom verde claro.

O chão no entorno da árvore está salpicado de manchas roxas das amoras caídas pela ação da chuva, do vento forte ou da mais leve brisa, e das bicadas dos passarinhos das redondezas. Na terra, foram esmagadas pelo impacto da própria queda ou pisoteadas de maneira distraída por visitantes apressados. Trilhas de disciplinadas formigas levam alguns desses despojos em direção a seu abrigo subterrâneo. Que façam bom proveito!

Sou extremamente grato por estar aqui e agora diante desta oportunidade única: pencas de amoras maduras ao alcance da mão.

Cada vez que aperto suavemente uma amora entre a língua e o céu da boca, sou transportado imediatamente para a época e o local de outras duas frondosas amoreiras, no quintal de uma casa em que vivi na infância em Caçapava, SP. Aguardava com ansiedade pela época do verão, como agora, para encher as mãos e alguma cumbuca apanhada de maneira apressada na cozinha com a preciosa carga. Comia a maioria delas embaixo da árvore, como agora, mas levava suprimentos para consumo tardio, em algum outro momento do dia ou da noite.

 Segurando o minúsculo cabinho da fruta junto à boca, não há modo evitar ficar com a ponta dos dedos pintados com tinta roxa, do caldo suculento da amora madura. E é tinta persistente, que resiste à lavagem inicial. Tinta que marcava a língua, os lábios, os dedos, a palma da mão, e que às vezes escorria pelo pulso e antebraço, manchando o calção e a camisa do menino feliz.

Agora sou mais cuidadoso. Mais triste? Certamente que não! Pelo menos não quando posso estar assim comigo mesmo, com as pontas dos dedos manchados pelo suco da amora madura. E lembrar-me com carinho de lugares, pessoas e amores. E só de coisas boas. E daqueles beijos de gosto azedinho doce, cometas percorrendo o céu da boca, que salpicaram o chão da memória com tantas marcas persistentes.

Nesse território, nessa confluência do espaço e do tempo, sou visitante atento. Fui e sou muito feliz!.

Pausa para um breve haicai:

azedinho doce,
tinta roxa no dedo,
lembro de você.

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

amora-madura-2

Garrafa 471 – Hora de partir   Leave a comment

Seu sorriso de felicidade era simplesmente lindo!

Na verdade eram vários tipos de riso que podiam vir à tona em cada momento. E eram percebidos com pura visão silenciosa, com imagem e som, ou apenas com aquele som delicioso e musical, quando ao telefone. Um para cada ocasião: o de surpresa, o de puro prazer, o de divertimento, o de alegria infantil, o de provocação… Uns para a luz do dia, outros para a luz da lua, outros para a penumbra. E outros para a escuridão total, só perceptíveis pelo som ou pelo tato, pelo método “braile” desenvolvido ao longo do tempo e que ele aprendeu a desvendar. E seus dedos ágeis e delicados, ou às vezes áreas maiores da pele da palma ou das costas das mãos, eram capazes de indicar o que se passava com sua expressão facial com muita precisão.

E ele sorria junto. Você é tão linda quando sorri, dizia…

Mas ele descobriu depois: ela também tinha aquele outro tipo de riso quando ficava nervosa, sem saber o que dizer… como dizer… Não tinha intenção de magoar ninguém. Só não sabia como se comportar naquelas ocasiões.

Como encerrar um relacionamento? Ninguém nos ensina esse tipo de coisa.

Agora ele sabe perceber mais esse detalhe. Tecnologia inútil. Não se verão mais…

Mas se acontecesse de novo daquele jeito, mesmo que o sorriso chegasse apenas por um canal de voz, ele saberia o que fazer.

Dizia para si mesmo, em fragmentos de sonhos:

se você sorrir,
eu vou compreender: é
hora de partir…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “One summer dream” com Electric Light Orchestra

Sorriso de prazer

Garrafa 273 – Linha da vida   1 comment

Há alguns anos, uma bela mulher com alma cigana tocou de leve minha mão, acenou com lindas promessas e se foi…

na palma da mão,
linha da vida… via
de mão única!

Eduardo Leal
Ilustração de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “The witch´s promise” na voz de Ian Anderson com Jethro Tull

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