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Garrafa 119 – Ausência   Leave a comment

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
e eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face
teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
e eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Vinícius de Moraes
Foto de F. Monteiro (Noite) em http://olhares.aeiou.pt/noite/foto451136.html%3cbr

Garrafa 60 – Olhando na mesma direção   Leave a comment

Dois amantes comuns que são solitários sempre olham um para o outro; dois amantes verdadeiros, numa noite de lua cheia, não estarão se olhando.
Eles podem estar de mãos dadas, mas estarão olhando a lua cheia bem alta no céu.
Não estarão olhando um para o outro, estarão juntos olhando algo mais.
Às vezes estarão escutando juntos a uma sinfonia de Mozart ou Beethoven ou Wagner.
Às vezes estarão sentados ao lado de uma árvore e apreciando o tremendo ser da árvore envolvendo-os.
Às vezes podem estar sentados ao lado de uma cachoeira escutando a música selvagem que está continuamente sendo criada.
Às vezes, perto do mar, ambos estarão olhando para a mais longínqua possibilidade que os olhos possam alcançar.

Sempre que duas pessoas solitárias se encontram, olham uma para a outra, porque estão constantemente buscando modos e meios de explorar o outro: como usar o outro, como ser feliz através do outro.

Mas duas pessoas que estão profundamente contentes consigo mesmas não estão tentando usar uma à outra.
Em vez disso, tornam-se companheiras de viagem; se movem numa peregrinação.
A meta é alta, a meta está distante. Seus interesses comuns as unem.

Osho
Foto de autor desconhecido

Olhando na mesma direção

Garrafa 51 – Olhar de menino   Leave a comment

olhar de menino
sustentando — leve — no ar
a bolha de sabão

Eunice Arruda
Foto de autor desconhecido

O menino e a bolha

Garrafa 32 – Reflexo   Leave a comment

nada tem nexo
tudo é apenas
um reflexo

Millôr Fernandes
Foto de autor desconhecido

Garrafa 8 – Bom vai ser   Leave a comment

Se a gente melhorasse
Se a gente cultivasse
o dom de olhar por dentro
de repensar, de refletir
de escolher o caminho a seguir:

Atrás do silêncio,
atrás da beleza,
atrás da ciência,
que nos dão a certeza
do encantamento
e da obediência
à generosa natureza.

Remoçando o ar, a brisa, o vento,
a água toda que bebemos
e o verde que ainda temos.

Bom seria…
Bom vai ser.

Ivan Lins
Foto de Eduardo Leal em Kyoto – Japão
Instruções de utilização: Ouvir “Bom vai ser” na voz de Ivan Lins

 

Garrafa 182 - Mente tranquila

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