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Garrafa 114 – Nem sempre sou igual   Leave a comment

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo. 
Mudo, mas não mudo muito.
 
A cor das flores não é a mesma ao sol 
de que quando uma nuvem passa 
ou quando entra a noite 
e as flores são cor da sombra.
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores. 
 
Por isso quando pareço não concordar comigo,
reparem bem para mim: 
Se estava virado para a direita, 
voltei-me agora para a esquerda, 
mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés — 
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra 
e aos meus olhos e ouvidos atentos 
e à minha clara simplicidade de alma …
 
Alberto Caeiro/Fernando Pessoa
em O Guardador de Rebanhos
 

 
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Garrafa 103 – O meu olhar   Leave a comment

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
olhando para a direita e para a esquerda,
e de, vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
é aquilo que nunca antes eu tinha visto,
e eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
que tem uma criança se, ao nascer,
reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
para a eterna novidade do Mundo…

Creio no mundo como num malmequer,
porque o vejo. Mas não penso nele
porque pensar é não compreender …

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(pensar é estar doente dos olhos)
mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
mas porque a amo, e amo-a por isso,
porque quem ama nunca sabe o que ama
nem sabe por que ama, nem o que é amar …
Amar é a eterna inocência,
e a única inocência não pensar…

Alberto Caeiro/Fernando Pessoa em “O Guardador de Rebanhos”
Instruções de utilização: Ouvir “Innocent Soul” com Spyro Gyra

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