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Garrafa 349 – Acenos de mão   2 comments

Mais uma madrugada insone, pensamento disperso e, ao mesmo tempo, com a atenção volta e meia guiada pelos ruídos, vultos, sombras e luzes que entram pela janela do quarto, enquanto passam silenciosos os minutos e as horas…

Na lua nova, por três dias ela se torna escura e “desaparece” para renascer e ressuscitar, outra vez, em um novo ciclo.

Lua escura vagando noite adentro e em algum lugar escondida, céu sem nuvens e o Cruzeiro do Sul cintilando acima das árvores fracamente iluminadas pelos postes da pracinha… Sim, minha paisagem aponta para o sul! Sul do ego, sul da noite, sul do planeta, sul da galáxia, sul do Universo… E tão ao sul como um sultão, permaneço ao sul de mim mesmo.

As folhas de duas amendoeiras, algumas bem verdes e outras em diversos tons de marrom, que preservo na memória do dia que passou e que não volta mais, se destacam nessa paisagem noturna, todas agora em tons de cinza claro ou mais escuro.

Olhar desfocado no intervalo entre dois pensamentos, de repente a brisa fresca da madrugada de inverno move gentilmente as folhas das amendoeiras. E parece que uma multidão de mãos, em suave sincronia, acena silenciosamente pra mim do sul da noite, do sul do planeta… E percebo também que, às vezes, algumas folhas se desprendem e, parecendo ainda acenar, só que agora de maneira mais confusa, desaparecem na escuridão…

Quem serão essas pessoas? Porque me acenam na penumbra? O que podem querer me dizer? Amigos e amigas que conheci e nunca mais verei? Onde estarão e para onde irão? Parentes, parceiros e parceiras que se foram ou se vão? Amores que nunca terei?

Surpreendo-me acenando de volta, grito preso na garganta, gesto impensado com o coração sobressaltado… E me levanto silencioso, em busca de papel e lápis.

Pausa para um breve haicai…

folhas ao vento.
de pessoas que se vão,
acenos de mão…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Folhas ao Vento” na voz de Lanna Rodrigues

Garrafa 288 – Lua cheia de verão   3 comments

Caminhando na praia da Barra da Tijuca, de volta pra casa, depois de encontrar um bom amigo nessa tarde de verão carioca e assistir a um por do sol espetacular, que incendiou o horizonte com todos os tons de rosa, laranja e vermelho, achei que o dia já estivesse ganho… Tinha valido a pena vivenciá-lo… Água de coco geladinha, boa conversa, algumas metas e planos para o futuro compartilhados…

Enquanto meu cabelo se alinhava com o vento fresco e salitrado, que parecia varrer também qualquer sombra de preocupação e agitação dos meus pensamentos, sequer suspeitava do que ainda iria testemunhar…

De repente, o nascer da lua cheia de março me surpreende!

Minha mente tagarela fica muda, em respeitoso silencio, sem palavras, sem pensamentos, sem ação… Sorrindo com o corpo todo, puro espanto e admiração!

Não me lembro de ter visto uma lua cheia com um disco tão claro e tão grande, como quando surgiu espetaculosa, nesse final da tarde… Realmente não tenho registro de outra igual, mesmo em minhas memórias mais distantes, de noites estreladas na fazenda em Minas Gerais, de passeios enluarados nas praias de Angra e de longas travessias cruzando horizontes em alto mar.

Lentamente, saio desse estado hipnótico e a mente se agita novamente… Queria poder compartilhar esse momento com você…

E meu pensamento voa e vai ao seu encontro!
E caminhamos juntos novamente. Mãos entrelaçadas.
Olhares lunáticos no horizonte, enfeitiçados pelo brilho da lua cheia.

De volta ao momento presente, um sopro de vento parece sussurrar esse breve haicai:

Lua gigante
surge no horizonte!
Sol fica mudo…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização – Ouvir “Tarde” de Milton Nascimento e Marcio Borges, com participação de Wayne Shorter

Garrafa 269 – Despertador   2 comments

Amor interrompido… haverá evento mais dolorido?

noite de amor…
o som do despertador
deperta a dor.

Eduardo Leal
Fotos de autores desconhecidos

Garrafa 255 – Relâmpago!   Leave a comment

no meio da noite…
oh! olha lá! você viu?
depois… negrume…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Publicado 28/06/2011 por Eduardo Leal em Fotografias, Haicai, Haikai, Haiku

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Garrafa 237 – Yang forte   1 comment

dentro do dia
a semente da noite
olhar sombrio

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Garrafa 236 – Ying forte   1 comment

dentro da noite
a semente do dia
brilho no olhar!

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Garrafa 129 – Fases da lua   2 comments

Noite de inverno em um quarto de hotel em Nara.

Minhas duas filhas já se recolheram e permanecem bem encolhidas debaixo das cobertas no quarto ao lado. E meu sobrinho, que me acompanhou nessa viagem pelo sul do Japão, também dorme profundamente no beliche em cima da minha cama.

Na mesinha, ao alcance da mão, um bloco de anotações e uma caneta esperam, há algum tempo, que algum hóspede registre um número de telefone importante, faça alguns rabiscos sem nexo ou, quem sabe, escreva uma carta de amor…

Nenhum ruído do lado de fora, enquanto a luz da lua entra pela janela, filtrada pelo ar gelado…

O quarto pequeno, na penumbra, parece crescer de tamanho enquanto observo um pequeno trecho de céu sem estrelas.

E, de repente, sou invadido por uma saudade enorme!
Saudades de um futuro que não volta mais…

Com um pequeno sobressalto, rabisco no bloco de notas um breve haicai:

quarto crescente,
madrugada gelada,
você minguante…

Eduardo Leal
Ilustração de autor desconhecido

Fases da lua

 

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