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Garrafa 424 – Mil vagalumes   Leave a comment

Tenho andado interessado em investigar meu lado sombrio, estimulado por um curso de Cabala, do qual estou participando e já inspirou um post no início do mês passado.

Compartilho uma dica com os amigos, fruto da leitura de “O Efeito Sombra” escrito em coautoria por Deepak Chopra, Debbie Ford e Marianne Williamson.

A definição de sombra proposta por Debbie Ford me pareceu interessante e apresento alguns trechos de sua fala:

O grande psicólogo C. G. Jung dizia que a sombra é a pessoa que preferíamos não ser…
A sombra é tudo o que nos irrita, horroriza ou descontenta em relação às pessoas e a nós mesmos. Com essa sabedoria à mão, começamos a ver que a sombra é tudo o que tentamos esconder daqueles que amamos e tudo o que não queremos que os outros saibam a nosso respeito.
Nossa sombra é feita de pensamentos, emoções e impulsos que julgamos excessivamente dolorosos, constrangedores ou desagradáveis de aceitar. Portanto, em vez de lidar com eles nós os reprimimos – e os lacramos em alguma parte de nossa psique, para que não seja preciso sentir o peso e a vergonha que carregamos por causa deles.
É nosso lado sombrio – o lado reprimido e os aspectos repudiados de nossa personalidade.

Diante disso, Debbie Ford sugere que tornar-se intimo de sua sombra é uma das investigações mais fascinantes e frutíferas que você poderá fazer. É uma jornada misteriosa que o conduzirá a descobrir o seu self mais autêntico – um lugar onde você se sente à vontade com quem você é, onde reconhece suas fraquezas e seus pontos fortes, onde pode apreciar seus talentos, admitir suas imperfeições e admirar sua grandeza…

Ela nos diz ainda que é irônico que para encontrar a coragem de levar uma vida autêntica, você terá que entrar nos cantos escuros do seu self mais forjado. Você precisa confrontar exatamente aquelas suas partes que mais teme e encontrar o que estava procurando, porque o mecanismo que o leva a esconder sua escuridão é o mesmo que o faz esconder a luz. Aquilo do que você anda se escondendo pode, na verdade, lhe dar o que você vem tentando encontrar com tanto afinco.

Dito isto, apresento um resumo da sugestão proposta por Deepak Chopra para lidarmos com a nossa sombra:

1. Reconheça sua sombra, quando ela trouxer negatividade para sua vida;
2. Abrace e perdoe sua sombra. Transforme um obstáculo indesejado em um aliado;
3. Pergunte a si mesmo que condições estão dando origem à sombra: estresse, anonimato, permissão para causar danos, pressão de colegas, passividade, condições desumanas, uma mentalidade “nós versus eles”;
4. Compartilhe seus sentimentos com alguém em quem confie: um terapeuta, um amigo de confiança, um bom ouvinte, um conselheiro ou confidente;
5. Inclua um componente físico: trabalho corporal, liberação de energia, respiração de ioga, cura interativa;
6. Para mudar o coletivo, mude a si mesmo – projetar e julgar “os outros” como malfeitores só aumenta o poder da sombra;
7. Pratique a meditação, de modo a experimentar a consciência pura, que está além da sombra.

Assim, como nos propõe Debbie, quando a sombra é abraçada, ela irá curar nosso coração e nos abrir a novas oportunidades, novos comportamentos e um novo futuro.

Instigado por esse grande desafio e partidário que sou de um bom abraço, já me vejo nos próximos meses tateando na escuridão em busca de minha sombra, sem nenhuma dúvida com o coração ainda bastante assustado, mas recitando silenciosamente um breve haicai:

puro negrume,
abraço minha sombra…
mil vagalumes!

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Assistir ao filme “The Sahadow Effect”

Mil vagalumes

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Garrafa 410 – Mudança, dança muda…   2 comments

na terra muda,
a semente germina, muda!
e Nada muda…(e Tudo muda)…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

muda

Garrafa 360 – O Ciclo da Abundância   Leave a comment

Nas ultimas semanas de dezembro, como costuma acontecer a cada fim de ano, ou a qualquer momento, a cada fim de ciclo, faço um balanço dos acontecimentos significativos do período considerado. E isso, às vezes, no caso do balanço anual, se estende aos primeiros dias de janeiro. O principal propósito dessa atividade reflexiva é trazer para o campo da consciência algumas percepções e insights e, a partir de cada um deles, estabelecer algumas ações de desenvolvimento e, é claro, ações de celebração e agradecimento por cada uma dessas oportunidades de aprendizado.

Uma das crenças que dão permissão para essa atividade, conforme já mencionado na Garrafa 170 é a escolha assumida de que o Universo é um lugar amistoso, acolhedor e abundante. Como sugere Albert Einstein, podemos, então, usar toda a nossa tecnologia, nossas descobertas cientificas e os recursos naturais disponíveis para criar ferramentas e modelos que nos ajudarão a compreender esse Universo. E o nosso poder e a nossa segurança virão pela compreensão dos seus mecanismos e motivos.

A adoção dessa premissa me faz valorizar o compartilhamento de recursos e, em especial, nas minhas áreas de atuação, o compartilhamento de informações e conhecimentos. E observo que, na mesma medida em que compartilho e ofereço o que tenho de melhor, outras pessoas também se sentem encorajadas a compartilhar comigo seus valiosos recursos, informações e conhecimentos.

Será que com essa atitude já não fui vítima de aproveitadores, parasitas e sanguessugas que só pensam em seu próprio benefício, sem desejar oferecer nada, ou quase nada, em retribuição? Claro que sim! E será que isso não pode voltar a acontecer no futuro? A resposta é a mesma! Mas acho que vale a pena pagar esse preço. Acredito que essas pessoas permanecem estáticas, com o produto do seu pretenso saque, enquanto eu continuo em movimento em direção a outros horizontes de desenvolvimento e conhecimento. E algumas delas, quem sabe, podem até refletir a respeito da eficácia desse tipo de atitude e, no futuro, adotar novas respostas compatíveis com níveis mais elevados de consciência. E isso é positivo também.

Assim, essas crenças permitem que eu dê o primeiro passo na direção do estabelecimento de um Ciclo de Abundância que se inicia com a formulação de um pedido explícito e claro a esse Universo amistoso, acolhedor e abundante. Se acredito que haja espaço, oportunidades e recursos disponíveis para todos, é legítimo que eu formule com clareza meu pedido. E é também provável que eu seja atendido por esse mesmo Universo, que tudo sabe. Por que não seria?

Compartilho, a seguir, meu entendimento a respeito do que podem ser as etapas desse Ciclo de Abundância:

PASSO 1: PEDIR!

Trata-se de, após a realização de um processo de planejamento simplificado, definir um Plano de Vida, ou seja, de estabelecer com clareza, em cada uma das áreas da vida, os objetivos e metas que são valiosos pra mim, de acordo com o meu Nível de Consciência, que condiciona o meu Sistema de Crenças e Valores. Além disso, devem ser definidos nesse passo os respectivos indicadores que vão permitir avaliar o progresso em direção a esses objetivos e metas e, também, que estratégias ou caminhos devem ser utilizados com esse propósito.

Além dos indicadores corporais (ver, ouvir, sentir) também posso estabelecer e utilizar indicadores quantitativos (menos subjetivos) para cada tipo de objetivo ou meta definido em cada área da vida, tais como:

Ambiente Físico: o estado de conservação e conforto do mobiliário do meu apartamento, o estado de conservação, conforto e funcionalidade do mobiliário do meu ambiente de trabalho, o estado de conservação e conforto do veículo com que me desloco de casa para o atendimento dos meus clientes e uso para atividades de lazer, no período considerado;

Saúde: meus indicadores de estado de saúde física, emocional e mental, no período considerado;

Carreira: o número de clientes que procuram meus serviços de coaching, de consultoria e de treinamento; a quantidade de leitores que enviam feedback sobre o que escrevo, no período considerado;

Relacionamentos: a quantidade e qualidade das interações nos meus relacionamentos familiares, de trabalho e pessoais (amigos e relacionamento afetivo), no período considerado;

Espiritualidade (Contribuição aos outros): tempo que dedico a sessões de coaching gratuito e quantidade de pessoas e organizações que atendo cobrando valores simbólicos; quantidade e qualidade do que considero como minha prática meditativa espiritual (esforço individual), no período considerado;

Finanças: saldo da minha conta bancária e de poupança, valor das minhas despesas mensais, renda obtida com cada tipo de serviço prestado, no período considerado;

Lazer: quantidade e qualidade de viagens e pequenos passeios programados e realizados, quantidade e qualidade de peças e espetáculos teatrais, de filmes e shows musicais a que pude comparecer ou assistir, numero de horas dedicados a ouvir minha trilha sonora preferida, no carro ou em casa, e também o número de livros lidos (pelo menos dois por mês), no período considerado.

E por mais que isso seja fundamental, isto é, definir mentalmente e emocionalmente, com a maior clareza possível o que se quer, transcrevendo a seguir cada ideia no papel (atividade neuropsicomotora) e de maneira afirmativa explicitando nosso desejo para nós mesmos e para o Universo, isso não é, por si só, suficiente. É apenas o primeiro passo. O que costuma cair do céu, se ficamos apenas esperando de maneira passiva, é chuva fria e cocô de passarinho… A seguir, precisamos entrar em ação!

PASSO 2: AGIR!

Trata-se da implementação do planejamento desenvolvido no passo anterior. É o processo de execução das decisões tomadas, seguindo as estratégias estabelecidas. É quando ocorre a ação efetiva.

E quando entro em ação, em busca da conquista dos objetivos e metas declarados que constam do meu Plano de Vida, sempre recebo uma resposta do Universo. Basta contemplar, tocar e escutar com atenção, consultando os indicadores que também estabeleci para cada objetivo ou meta: Já estou vendo o que deveria, se meus pedidos tivessem sido atendidos? Já estou ouvindo o que deveria, se meus pedidos tivessem sido atendidos? Já estou sentindo o que deveria, se meus pedidos tivessem sido atendidos?

O passo seguinte é analisar os resultados obtidos com minhas ações, as respostas que o Universo sempre me dá.

PASSO 3: ACOLHER E INTERPRETAR AS RESPOSTAS DO UNIVERSO!

Em minha contemplação, tato e escuta silenciosos, seguidos de um breve processo de reflexão, costumo perceber o seguinte:

Às vezes recebo mais do que pedi;

Às vezes recebo exatamente o que pedi;

Entretanto, às vezes recebo menos do que pedi ou, o que é ainda mais surpreendente, recebo uma coisa completamente diferente do que pedi. Nessas situações, prefiro acreditar que isso significa apenas que há algo que preciso aprender. Algo que me passou despercebido e que a Vida, que simplesmente é como é, me apresenta com todas as suas cores, volumes, sons, texturas e odores, para meu crescimento, desenvolvimento e aprendizado.

O passo seguinte é, sejam quais forem os resultados obtidos, novamente entrar em ação! Só que, dessa vez, com foco em ações de agradecimento, de celebração e, é claro, de correção de rumo.

PASSO 4: AGRADECER, CELEBRAR E REALIZAR AÇÕES CORRETIVAS!

Com um pensamento, sentimento e atitude de gratidão, cada pequeno avanço, cada passo e cada resultado obtido, mesmo que ainda um resultado desfavorável, deve ser celebrado.

Os benefícios da gratidão, segundo pesquisas realizadas e divulgadas em universidades norte-americanas, a partir do ano de 2007, indicam que essa é a atitude que pode produzir o maior impacto positivo na nossa qualidade de vida.

E o que dizer sobre a atitude de celebração? Ainda impactados pela espetacular queima de fogos, sincronizada com música, que nos foi oferecida pela cidade do Rio de Janeiro, na virada do ano de 2012 para 2013, poderíamos ser levados a pensar que celebração é só assim, com fogos de artifício de investimentos altíssimos, com o consumo de champanhe importado e charutos havana… Será que devemos estar limitados também apenas a ocasiões especiais? À conquista de grandes objetivos e metas?

Proponho que, a partir de 2013, para aqueles que desejem compartilhar essa minha crença, possamos adotar uma postura diferente: todos os dias e várias vezes ao dia, realizarmos um maior número de pequenas celebrações de baixíssimo investimento. Podem ser realizadas acompanhadas com agua filtrada sem gás, com um saquinho de pipoca salgada, com uma barra de chocolate ou um saquinho de balas de leite. Ou, em tempos de maior contenção de despesas ainda, com uma simples respiração profunda e um olhar amoroso dirigido a quem esteja ao nosso lado na ocasião. E para celebrar o que? O dom da vida, o reflexo do sol nos cabelos cacheados de uma criança, cada pequeno avanço e o aprendizado com nossos acertos e erros. Posso garantir que, assim, nossa vida tem grandes chances de se tornar uma festa permanente!

E quando recebermos menos ou algo completamente diferente do que pedimos, que a pergunta de aprendizado que poderemos nos fazer, depois dessas percepções seja apenas: “Da próxima vez, o que escolho fazer diferente?” E isso nos colocará em movimento e com a possibilidade de realizar ações corretivas.

Enfim, com outras palavras, essa é minha receita para para experimentarmos mais momentos de contentamento, durante a nossa passagem por esse nosso pequeno planeta azul.

E o Ciclo de Abundância pode ser reiniciado…

Para alguns observadores mais atentos e familiarizados com o Processo de Gestão, neste momento devem estar claras as grandes semelhanças do Ciclo da Abundância, como o percebo, com o Ciclo de Gestão PDCA (Plan/Do/Check/Act) de Shewhart/Deming. Planejar, Executar, Monitorar e Corrigir! E isso não é simples coincidência. É como os utilizo no Processo de Coaching Centrado em Valores, entendido como uma maneira personalizada de apoiar a realização da Gestão Pessoal dos Exploradores de Novas Possibilidades de Futuro.

Na primeira semana de 2013, será que essa informação pode ser útil para vocês? Já estabeleceram o seu Plano de Vida? Estão prontos para dar início a um novo Ciclo de Abundância? Que tal buscar mais informações a esse respeito e agendar uma sessão inicial gratuita de Coaching Centrado em Valores?

Pensem nisso! Tudo começa com um pensamento!

Eduardo Leal
Ilustrações de Eduardo Leal

Ciclo de Abundância 3

Ciclo PDCA

Garrafa 352 – Desmanche de Navios   5 comments

Li com profundo pesar, na manhã de hoje, matéria enviada por um bom amigo sobre o triste fim do Navio-Aeródromo Ligeiro (NAeL) Minas Gerais, antigo A-11, em um desmanche de embarcações na India, fato já ocorrido há algum tempo atrás. Foi como descobrir que outro bom amigo, de quem não tinha notícias há muito tempo, havia morrido e tinha sido sepultado como indigente, sozinho, em terra distante, longe de sua família e de seus amigos… Enfim, uma tristeza…

O NAeL foi o meu primeiro navio quando me apresentei na Esquadra, em 1976, ao regressar da viagem de instrução de guardas-marinha. E lá permaneci por dois anos, no Departamento de Aviação, até desembarcar para o Curso de Aperfeiçoamento de Eletrônica. Nessa época, durante o PAM (Período de Atualização e Manutenção) ele não se movimentou, permanecendo atracado ou docado no Arsenal de Marinha no Rio de Janeiro (AMRJ). Só pude experimentar a felicidade de navegar com ele, em águas nacionais e internacionais, embarcando, anos depois, como oficial de Estado-Maior do Comando-em-Chefe da Esquadra. Bem mais tarde, como Capitão dos Portos de Alagoas, pude organizar e preparar a primeira visita do navio ao porto de Maceió. Isso nunca havia ocorrido em razão de pertinentes preocupações da Esquadra com relação à profundidade local e às condições de atracação. A visita foi um sucesso e boas lembranças daqueles momentos de contentamento povoaram minha mente, no dia de hoje.

Refletindo a respeito dos nossos processos de mudança, dos fios brancos que teimam em aparecer no meu bigode e da corrosão que consome os conveses de alguns dos navios onde pisei, as palavras do filósofo Heráclito de Éfeso ecoam, desde a Grécia antiga, no meu ouvido cansado:

“No Universo, a única coisa permanente é a mudança.”

E como sempre faço quando fico meditabundo, busco refúgio em minha trilha sonora. Dessa vez reencontrei esta pérola em forma de música e letra de Quincy Jones, a respeito do inexorável processo de mudança:

Everything must change
Nothing stays the same
Everyone will change
No one stays the same

Os ciclos de nascimento, desenvolvimento, degradação e morte são mesmo implacáveis e vamos, todos nós, de uma maneira ou de outra, passar por cada um deles. E o importante é fazê-lo com dignidade.

O NAeL sempre foi tratado com respeito e reverência por suas antigas tripulações e legiões de admiradores que, enquanto vivermos, assim o preservaremos em nossa memória, a despeito de seu triste fim, em uma praia distante e longe dos seus.

Vendo as fotografias dos seus ultimos momentos, ao lado de outras embarcações de mesmo triste destino, sinto apenas a inspiração para um lamento, com a métrica do haicai:

praia de lama
desmanche de navios
ah! longe dos seus…

Eduardo Leal
Fotos de autores desconhecidos
Instruções de utilização: Ouvir “Everything Must Change” com Quincy Jones

Garrafa 343 – Mudar mesmo assim!   Leave a comment

Da leitura recente de André Comte-Sponville, um trecho despertou minha atenção:

“Não duvido, senhorita, que você espere a justiça; eu também. Mas a verdadeira questão é ‘O que fazemos?’ Não se trata de não mudar nada, como você parece temer, mas ao contrário de aceitar tudo o que não depende de nós, e é preciso, para mudar tudo o que depende de nós. Como transformar o real sem aceitar primeiro enxergá-lo tal como é, conhecê-lo, compreendê-lo? Vocês conhecem a fórmula de Spinoza, no Tratado político: ‘Não escarnecer, não chorar, não detestar, mas compreender.’ O mundo é para pegar ou largar, e ninguém pode transformá-lo se antes não o pega.”

Refletindo a respeito, a inspiração para um breve haicai:

aceitar tudo…
que não depende de mim.
mudar mesmo assim!

Eduardo Leal – 02/07/2012
Inspirado no livro “A felicidade, desesperadamente” de André Comte-Sponville
Ilustração de autor desconhecido

Garrafa 329 – Mente evapora   Leave a comment

Sempre procuro aproveitar ao máximo os lindos dias de outono, com suas temperaturas amenas e céus de um azul profundo seguidos de noites agradáveis e estreladas. Pressentir o inverno que se aproxima faz minha alma ficar mais silenciosa e o corpo mais sensível. E a chegada de uma sequência de dias frios e chuvosos despertou meu desejo de antecipar a mudança do botão do aquecedor da posição “verão” para “inverno”. Fiz isso hoje, antes de tomar minha ducha diária.

Apesar de ainda não poder contar com um ofurô no meu banheiro, é durante o banho que entro em contato com meu corpo e aproveito, também, para fazer uma limpeza mental. Faço isso já há muito tempo e fiquei surpreso e feliz ao confirmar, durante minhas ultimas leituras, que essa é uma tradição oriental.

A experiência cinestésica e espiritual de se aproveitar o momento do banho para também limpar a mente é descrita por Murillo Nunes de Azevedo em seus livros “As raízes da criação” e “Ecologia mental”. Diz ele:

“O banho japonês não é um simples ato de lavar; é, antes de tudo, um ritual do corpo. Tudo é de madeira. O chão. As paredes. O teto. A tina. Só a água é água mesmo, e quase fervendo. Lave-se primeiro com sabão. Lave todas as partes, sem esquecer nenhuma. Mergulhe então no ventre materno, na tina profunda e fumegante. E contemple os desenhos da madeira. Sinta o calor na pele. O tempo desaparecendo no vapor. E a alma endurecida, aos poucos amolecendo. Amolecendo. Endo…”

E a leitura de sua experiência, vivida no Japão no Monte Koya, me fez reviver minhas breves visitas ao Mosteiro Zen Morro da Vargem em Ibiraçu, a partir dos anos 1980, e os banhos no ofurô, com direito à vista espetacular para a vegetação abundante que cerca o local.

Em minhas pesquisas na Internet, não encontrei fotos originais da sala de banho no mosteiro, localizado no Estado do Espírito Santo (até o local é inspirador) e posto algumas fotos alternativas para dar uma idéia do ambiente, que é muito mais espartano que o dessas imagens, e evocar sensações cinestésicas.

Essas suaves lembranças me dão inspiração para um breve haicai:

ducha gelada,
mergulho no ofurô,
mente evapora…

Eduardo Leal
Fotos de autores desconhecidos

Garrafa 284 – Falar ou calar?   7 comments

Nas ultimas semanas, tive que lidar com uma situação delicada que me causou alguma frustração e decepção. Não é o caso de explicitá-la aqui. Mas vale a pena refletirmos juntos a respeito de algumas maneiras construtivas que podemos utilizar para sermos assertivos, sem sermos agressivos, tema recorrente em situações de coaching, terapia e consultoria: Expressar desagrado.

Para enfrentar esse desafio, inicialmente busquei inspiração em minha própria experiência, apostilas e artigos publicados e em elaboração e, a seguir, na bibliografia que conheço sobre o assunto. Foi especialmente importante reler “Comunicação não-violenta” de Marshall Rosenberg e “Preciso saber se estou indo bem” de Richard Williams. E, como frequentemente acontece, a sincronicidade com o Universo veio em meu auxilio quando recebi um e-mail, enviado por um bom amigo, que nem sequer suspeitava da situação em que me encontrava, com o seguinte provérbio persa:

“Duas coisas indicam fraqueza: calar-se quando é preciso falar, e falar quando é preciso calar-se.”

Mas o que dizer, e quando, e como fazê-lo, quando desejamos expressar desagrado? Apresento a seguir algumas sugestões, fruto das minhas ultimas pesquisas e reflexões.

1. Nesse caso, vale aquela regra de ouro que diz: “Elogios em público, críticas em particular.” Os comentários elogiosos devem ser feitos na presença de testemunhas, para amplificar os seus efeitos positivos. E a expressão de desagrado deve ser feita em particular, à pessoa que deve tomar conhecimento do problema, para reduzir ao mínimo os constrangimentos inerentes à situação. Entretanto, às vezes, inevitavelmente, outras pessoas terão que tomar conhecimento de que houve alguma manifestação de desagrado, mas somente algum tempo depois do ocorrido, quando os efeitos desse conhecimento terão sido atenuados;

2. Os elogios deverão ser feitos no nível de identidade, com expressões do tipo “Você é ótimo na realização dessa tarefa!”. As críticas deverão ser feitas no nível de comportamento, com expressões do tipo “Você fez, ou deixou de fazer tal coisa.” o que é um fato, que pode ser comprovado, e não um juízo de valor;

3. O momento de fazer os elogios deve ser o mais próximo possível do instante em que ocorreu a situação que motivou o comentário favorável, o que não impede que seja repetido e reforçado em diversas outras ocasiões. Já o momento de fazer a crítica, sempre que possível, deve ser cuidadosamente escolhido e planejado para que seus efeitos sejam mais próximos daqueles desejados, e menos contaminados pelas emoções negativas que motivaram a sua necessidade;

4. E agora, o cerne da questão, como expressar desagrado, de maneira assertiva, sem ser agressiva: O “Método do Hambúrguer”, técnica de Programação Neurolingüística (PNL) que sugere encapsular uma crítica – a carne do hambúrguer – entre dois comentários positivos – os dois pedaços de pão macio – é uma ótima dica. Devemos, entretanto, tomar os seguintes cuidados na aplicação dessa técnica:

a) Os elogios devem ser verdadeiros e não apenas fabricados para compor a técnica. Quem os faz deve acreditar naquilo que está sendo dito. Caso contrário, a expressão corporal e outros elementos da comunicação verbal irão, de alguma maneira, indicar alguma incongruência. Seus efeitos serão mais negativos do que positivos;

b) Se você não tem nada de favorável a falar a respeito daquela pessoa, provavelmente o problema é mais seu do que dela! Cada pessoa é única e valiosa, tem diversos talentos individuais e faz algo de positivo em algum contexto. Você é que ainda não lhe dedicou atenção suficiente. Converse com alguém que a conheça melhor, que conviva com ela. Observe você mesmo, com atenção e, muito provavelmente, encontrará diversos elogios reais dos quais ela é merecedora. Só então inclua esses comentários positivos nos pãezinhos do seu hambúrguer;

c) Os elogios iniciais podem dizer o que a pessoa faz bem e os elogios finais podem dizer, em sua opinião, o que a pessoa faz de melhor; e

d) A carne do hambúrguer – a expressão de desagrado – merece atenção especial. Os cursos de PNL de que participei inicialmente não me ajudaram nessa tarefa. Só descobri um caminho interessante durante algumas sessões de terapia cognitivo-comportamental que vivenciei periodicamente, a partir do ano 2000. Desde então, tenho utilizado uma sequencia de quatro passos proposta por Beck que inclui:

i) Explicitar o comportamento da outra pessoa que nos causa desagrado;

ii) Expor os nossos sentimentos a respeito desse comportamento;

iii) Propor o comportamento que desejamos que seja observado, no lugar daquele indesejado e, finalmente; e

iv) Explicitar para a outra pessoa as consequências positivas dessa mudança de comportamento, e as consequências negativas de se manter a situação atual.

Marshall Rosenberg propõe uma sequencia de quatro passos ligeiramente diferente, incluindo explicitar as nossas necessidades que não estão sendo atendidas com a situação atual ao invés de mencionar as consequências.

5. Nada nos garante que, após a nossa exposição, a outra pessoa irá mudar o seu comportamento na direção sugerida. E então, nesse caso, deveremos agir de acordo com as consequências negativas anunciadas em caso de manutenção da situação atual. E isso é fundamental. A pessoa deverá assumir as consequências de sua escolha.

Aqueles que desejarem saber mais a respeito do assunto FEEDBACK CONSTRUTIVO, que é como tenho chamado esse conjunto de procedimentos em meus cursos, palestras e artigos publicados, em uma sessão de Consultoria em Gestão Pessoal ou de Coaching Centrado em Valores, fiquem à vontade para entrar em contato.

Tenho observado que o desconhecimento dessa ferramenta de comunicação, complementado ou não pela presença de outras crenças limitantes que merecem ser identificadas e consideradas, que não dão permissão para que a pessoa tome determinadas atitudes saudáveis e ecológicas, é o que as impede de expressar seu desagrado, de maneira assertiva. E isso é um fator que contribui para a presença de desarmonia, desequilíbrio e, em ultima análise, de doença.

Pegando carona no provérbio persa, e brincando com as palavras e com a métrica do haicai, deixo essa reflexão final para essa tarde chuvosa, na expectativa de que o tempo melhore, para nos permitir observar, na noite escura que se aproxima, a ultima lua cheia do ano:

nossa fraqueza:
calar, quando o falar
é com justeza…

Eduardo Leal
Foto autor desconhecido

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