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Garrafa 362 – Visgo da jaca   4 comments

Passei o dia de ontem no sítio da família, em Miguel Pereira.

Viajando cedinho, fugindo das temperaturas acima de 40 graus do Rio de Janeiro neste início de verão, fiquei atento ao fresquinho chegando pela janela estrada acima, e ao cheiro de mato no ar…

Caldo de cana com limão na chegada, linguiça frita no almoço.

Atrás de jabuticaba madura, só três bem pretinhas e doces. O resto, verdinha, esperando o seu tempo certo na árvore carregadinha. Mangas maduras e suculentas amenizaram a pequena frustração…

Uma jaca enorme, perfumada, aguardava por alguém que liberasse seus gomos macios de sua proteção externa áspera e de seu interior compacto e gosmento…

Fazia já muito tempo que não vivia essa experiência cinestésica: a de ficar com as mãos e dedos grudentos, por horas, com os resquícios do visgo da jaca! Como fazer para nos vermos livres disso? A simples lavagem com água transforma essa substância em cola super-resistente… A sugestão caseira de óleo de cozinha seguida de detergente não foi suficiente. Adotei uma solução “à milanesa”: passei nas mãos um pouco de areia e terra do quintal, o que criou uma película levemente abrasiva que finalmente deu conta do recado. Na última lavagem, sucesso!

À tardinha, ao invés do por do sol no fundo do vale, mudança de planos da Natureza. Só nuvens baixas e neblina espessa, acompanhadas de chuva fininha…

Escutando a passarinhada que procurava abrigo nas árvores das redondezas, momento oportuno para a prática meditativa na varanda.

No espaço entre dois pensamentos, pausa para um breve haicai:

dia no sítio,
apegos do ego… ah!
visgo da jaca!

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Visgo de jaca” com Martinho da Vila

Visgo da jaca

Garrafa 274 – A Máquina do Tempo   1 comment

Nos últimos dias, véspera da chegada da primavera de 2011, noticias em sites científicos de todo o mundo dão conta de que pesquisadores europeus encontraram as primeiras evidencias de partículas subatômicas – os neutrinos – viajando mais rápido que a velocidade da luz. Esses resultados, se confirmados, poderiam significar que é possível teoricamente “enviar informações para o passado”. Em outras palavras, a viagem para o passado poderia ser possível…

Imediatamente, começo mentalmente a arrumar minhas malas e a escolher o meu destino. Quantas opções interessantes!

No quintal arborizado da casa da infância, anos sessenta, sentir novamente, quase ao mesmo tempo, o gosto e o contraste dos sabores da manga, da pitanga, da goiaba, do jambo e da amora!

Vivenciar o entusiasmo de fabricar, com inesperado sucesso, um dos meus primeiros artefatos que faziam parte do kit de sobrevivência na infância, junto com cinco bolas de gude coloridas – meu estilingue. Ele era construído com forquilha cuidadosamente selecionada e serrada de um ramo seco e firme de goiabeira, complementado com elástico recortado da câmara de um pneu careca do velho Mercury do meu pai e com o pequeno retângulo de couro macio também recortado de um antigo sapato usado pela minha mãe.

Esse prodígio de engenharia bélica primitiva era municiado e carregado com caroços redondos e firmes de pitangas maduras. Era preciso comer muitas delas para manter os bolsos cheios da munição usada nas disputas com meus amigos da vizinhança. Acho que poderia fazer novamente esse sacrifício…

Quem sabe poderia agora me esquivar do impacto produzido por um desses caroços, que me atingiu o rosto, quando saí do esconderijo por detrás da parede da cozinha e passei a temer a mira precisa do meu amigo Mané!

E impedir o gesto impensado de alvejar aquela rolinha distraída no galho da mangueira… Sua pequena carcaça ainda deve estar sepultada por entre as raízes do jambeiro, após cerimonial fúnebre providenciado imediatamente com profundo arrependimento…

Se meu novo amigo Bem-te-vi soubesse desse passado, ainda cantaria todo dia pra mim?

Depois de consultar cuidadosamente os registros de minha máquina do tempo, finalmente me decido por um destino mais recente… Ah! Aquele beijo… Relâmpagos iluminando o céu da boca…

Tá marcado!
Bagagem pra que?
Naquele momento estava pelado…

Já sentindo de novo aquela vertigem, sigo balbuciando um breve haicai…

desengonçado,
no lombo de um neutrino,
volto ao passado…

Eduardo Leal

Fotos de autores desconhecidos
Instruções de utilização: Ouvir “Time” com Alan Parsons Project

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