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Garrafa 471 – Hora de partir   Leave a comment

Seu sorriso de felicidade era simplesmente lindo!

Na verdade eram vários tipos de riso que podiam vir à tona em cada momento. E eram percebidos com pura visão silenciosa, com imagem e som, ou apenas com aquele som delicioso e musical, quando ao telefone. Um para cada ocasião: o de surpresa, o de puro prazer, o de divertimento, o de alegria infantil, o de provocação… Uns para a luz do dia, outros para a luz da lua, outros para a penumbra. E outros para a escuridão total, só perceptíveis pelo som ou pelo tato, pelo método “braile” desenvolvido ao longo do tempo e que ele aprendeu a desvendar. E seus dedos ágeis e delicados, ou às vezes áreas maiores da pele da palma ou das costas das mãos, eram capazes de indicar o que se passava com sua expressão facial com muita precisão.

E ele sorria junto. Você é tão linda quando sorri, dizia…

Mas ele descobriu depois: ela também tinha aquele outro tipo de riso quando ficava nervosa, sem saber o que dizer… como dizer… Não tinha intenção de magoar ninguém. Só não sabia como se comportar naquelas ocasiões.

Como encerrar um relacionamento? Ninguém nos ensina esse tipo de coisa.

Agora ele sabe perceber mais esse detalhe. Tecnologia inútil. Não se verão mais…

Mas se acontecesse de novo daquele jeito, mesmo que o sorriso chegasse apenas por um canal de voz, ele saberia o que fazer.

Dizia para si mesmo, em fragmentos de sonhos:

se você sorrir,
eu vou compreender: é
hora de partir…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “One summer dream” com Electric Light Orchestra

Sorriso de prazer

Garrafa 214 – Palavras são janelas (ou são paredes)   4 comments

Sinto-me tão condenada por tuas palavras,
tão julgada e dispensada.
Antes de ir, preciso saber:
Foi isso que você quis dizer?
Antes que eu me levante em minha defesa,
antes que eu fale com mágoa ou medo,
antes que eu erga aquela muralha de palavras,
responda: eu realmente ouvi isso?

Palavras são janelas ou paredes.
Elas nos condenam ou nos libertam.

Quando eu falar e quando eu ouvir,
que a luz do amor brilhe através de mim.

Há coisas que preciso dizer,
coisas que significam muito para mim.
Se minhas palavras não forem claras,
você me ajudará a me libertar?
Se pareci menosprezar você,
se você sentiu que não me importei,
tente escutar por entre as minhas palavras
os sentimentos que compartilhamos.

Ruth Bebermeyer
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Nothing to say” na voz de Ian Anderson com Jethro Tull

Garrafa 119 – Ausência   Leave a comment

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
e eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face
teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
e eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Vinícius de Moraes
Foto de F. Monteiro (Noite) em http://olhares.aeiou.pt/noite/foto451136.html%3cbr

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