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Garrafa 385 – Madrugada escura   Leave a comment

que amanheça!
antes que o escuro
não me esqueça…

Eduardo Leal
Foto de Eduardo Leal

Panoramica noturna

Garrafa 349 – Acenos de mão   2 comments

Mais uma madrugada insone, pensamento disperso e, ao mesmo tempo, com a atenção volta e meia guiada pelos ruídos, vultos, sombras e luzes que entram pela janela do quarto, enquanto passam silenciosos os minutos e as horas…

Na lua nova, por três dias ela se torna escura e “desaparece” para renascer e ressuscitar, outra vez, em um novo ciclo.

Lua escura vagando noite adentro e em algum lugar escondida, céu sem nuvens e o Cruzeiro do Sul cintilando acima das árvores fracamente iluminadas pelos postes da pracinha… Sim, minha paisagem aponta para o sul! Sul do ego, sul da noite, sul do planeta, sul da galáxia, sul do Universo… E tão ao sul como um sultão, permaneço ao sul de mim mesmo.

As folhas de duas amendoeiras, algumas bem verdes e outras em diversos tons de marrom, que preservo na memória do dia que passou e que não volta mais, se destacam nessa paisagem noturna, todas agora em tons de cinza claro ou mais escuro.

Olhar desfocado no intervalo entre dois pensamentos, de repente a brisa fresca da madrugada de inverno move gentilmente as folhas das amendoeiras. E parece que uma multidão de mãos, em suave sincronia, acena silenciosamente pra mim do sul da noite, do sul do planeta… E percebo também que, às vezes, algumas folhas se desprendem e, parecendo ainda acenar, só que agora de maneira mais confusa, desaparecem na escuridão…

Quem serão essas pessoas? Porque me acenam na penumbra? O que podem querer me dizer? Amigos e amigas que conheci e nunca mais verei? Onde estarão e para onde irão? Parentes, parceiros e parceiras que se foram ou se vão? Amores que nunca terei?

Surpreendo-me acenando de volta, grito preso na garganta, gesto impensado com o coração sobressaltado… E me levanto silencioso, em busca de papel e lápis.

Pausa para um breve haicai…

folhas ao vento.
de pessoas que se vão,
acenos de mão…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Folhas ao Vento” na voz de Lanna Rodrigues

Garrafa 318 – De madrugada   Leave a comment

doce silêncio…
respiro invisível,
de madrugada.

Eduardo Leal
Inspirado no livro “O convite” de Oriah
Foto de autor desconhecido

Publicado 27/04/2012 por Eduardo Leal em Fotografias, Haicai, Haikai, Haiku, Livros

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Garrafa 129 – Fases da lua   2 comments

Noite de inverno em um quarto de hotel em Nara.

Minhas duas filhas já se recolheram e permanecem bem encolhidas debaixo das cobertas no quarto ao lado. E meu sobrinho, que me acompanhou nessa viagem pelo sul do Japão, também dorme profundamente no beliche em cima da minha cama.

Na mesinha, ao alcance da mão, um bloco de anotações e uma caneta esperam, há algum tempo, que algum hóspede registre um número de telefone importante, faça alguns rabiscos sem nexo ou, quem sabe, escreva uma carta de amor…

Nenhum ruído do lado de fora, enquanto a luz da lua entra pela janela, filtrada pelo ar gelado…

O quarto pequeno, na penumbra, parece crescer de tamanho enquanto observo um pequeno trecho de céu sem estrelas.

E, de repente, sou invadido por uma saudade enorme!
Saudades de um futuro que não volta mais…

Com um pequeno sobressalto, rabisco no bloco de notas um breve haicai:

quarto crescente,
madrugada gelada,
você minguante…

Eduardo Leal
Ilustração de autor desconhecido

Fases da lua

 

Garrafa 119 – Ausência   Leave a comment

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
e eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face
teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
e eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Vinícius de Moraes
Foto de F. Monteiro (Noite) em http://olhares.aeiou.pt/noite/foto451136.html%3cbr

Garrafa 68 – Engano   Leave a comment

madrugada bar aberto
deve haver algum engano
por perto

Paulo Leminski
Foto de autor desconhecido

Abismo

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