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Garrafa 352 – Desmanche de Navios   5 comments

Li com profundo pesar, na manhã de hoje, matéria enviada por um bom amigo sobre o triste fim do Navio-Aeródromo Ligeiro (NAeL) Minas Gerais, antigo A-11, em um desmanche de embarcações na India, fato já ocorrido há algum tempo atrás. Foi como descobrir que outro bom amigo, de quem não tinha notícias há muito tempo, havia morrido e tinha sido sepultado como indigente, sozinho, em terra distante, longe de sua família e de seus amigos… Enfim, uma tristeza…

O NAeL foi o meu primeiro navio quando me apresentei na Esquadra, em 1976, ao regressar da viagem de instrução de guardas-marinha. E lá permaneci por dois anos, no Departamento de Aviação, até desembarcar para o Curso de Aperfeiçoamento de Eletrônica. Nessa época, durante o PAM (Período de Atualização e Manutenção) ele não se movimentou, permanecendo atracado ou docado no Arsenal de Marinha no Rio de Janeiro (AMRJ). Só pude experimentar a felicidade de navegar com ele, em águas nacionais e internacionais, embarcando, anos depois, como oficial de Estado-Maior do Comando-em-Chefe da Esquadra. Bem mais tarde, como Capitão dos Portos de Alagoas, pude organizar e preparar a primeira visita do navio ao porto de Maceió. Isso nunca havia ocorrido em razão de pertinentes preocupações da Esquadra com relação à profundidade local e às condições de atracação. A visita foi um sucesso e boas lembranças daqueles momentos de contentamento povoaram minha mente, no dia de hoje.

Refletindo a respeito dos nossos processos de mudança, dos fios brancos que teimam em aparecer no meu bigode e da corrosão que consome os conveses de alguns dos navios onde pisei, as palavras do filósofo Heráclito de Éfeso ecoam, desde a Grécia antiga, no meu ouvido cansado:

“No Universo, a única coisa permanente é a mudança.”

E como sempre faço quando fico meditabundo, busco refúgio em minha trilha sonora. Dessa vez reencontrei esta pérola em forma de música e letra de Quincy Jones, a respeito do inexorável processo de mudança:

Everything must change
Nothing stays the same
Everyone will change
No one stays the same

Os ciclos de nascimento, desenvolvimento, degradação e morte são mesmo implacáveis e vamos, todos nós, de uma maneira ou de outra, passar por cada um deles. E o importante é fazê-lo com dignidade.

O NAeL sempre foi tratado com respeito e reverência por suas antigas tripulações e legiões de admiradores que, enquanto vivermos, assim o preservaremos em nossa memória, a despeito de seu triste fim, em uma praia distante e longe dos seus.

Vendo as fotografias dos seus ultimos momentos, ao lado de outras embarcações de mesmo triste destino, sinto apenas a inspiração para um lamento, com a métrica do haicai:

praia de lama
desmanche de navios
ah! longe dos seus…

Eduardo Leal
Fotos de autores desconhecidos
Instruções de utilização: Ouvir “Everything Must Change” com Quincy Jones

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Garrafa 349 – Acenos de mão   2 comments

Mais uma madrugada insone, pensamento disperso e, ao mesmo tempo, com a atenção volta e meia guiada pelos ruídos, vultos, sombras e luzes que entram pela janela do quarto, enquanto passam silenciosos os minutos e as horas…

Na lua nova, por três dias ela se torna escura e “desaparece” para renascer e ressuscitar, outra vez, em um novo ciclo.

Lua escura vagando noite adentro e em algum lugar escondida, céu sem nuvens e o Cruzeiro do Sul cintilando acima das árvores fracamente iluminadas pelos postes da pracinha… Sim, minha paisagem aponta para o sul! Sul do ego, sul da noite, sul do planeta, sul da galáxia, sul do Universo… E tão ao sul como um sultão, permaneço ao sul de mim mesmo.

As folhas de duas amendoeiras, algumas bem verdes e outras em diversos tons de marrom, que preservo na memória do dia que passou e que não volta mais, se destacam nessa paisagem noturna, todas agora em tons de cinza claro ou mais escuro.

Olhar desfocado no intervalo entre dois pensamentos, de repente a brisa fresca da madrugada de inverno move gentilmente as folhas das amendoeiras. E parece que uma multidão de mãos, em suave sincronia, acena silenciosamente pra mim do sul da noite, do sul do planeta… E percebo também que, às vezes, algumas folhas se desprendem e, parecendo ainda acenar, só que agora de maneira mais confusa, desaparecem na escuridão…

Quem serão essas pessoas? Porque me acenam na penumbra? O que podem querer me dizer? Amigos e amigas que conheci e nunca mais verei? Onde estarão e para onde irão? Parentes, parceiros e parceiras que se foram ou se vão? Amores que nunca terei?

Surpreendo-me acenando de volta, grito preso na garganta, gesto impensado com o coração sobressaltado… E me levanto silencioso, em busca de papel e lápis.

Pausa para um breve haicai…

folhas ao vento.
de pessoas que se vão,
acenos de mão…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Folhas ao Vento” na voz de Lanna Rodrigues

Garrafa 276 – Início de primavera… Quase verão… Quase inverno   2 comments

Apesar de ter ido dormir depois de uma da madrugada, acordei cedo pra buscar o filho que chegou para o fim de semana, vindo de Belo Horizonte, sempre motivo de alegria para toda a família! Além da presença física, presentinhos e mimos na mochila, diretamente de sua recente viagem à Itália e Alemanha. Meu mimo veio diretamente do Salão do Automóvel de Frankfurt. Super chique! Diretamente do stand da MINI, ainda não é o meu Audi A4, mas… Tudo bem!

Na chegada, meu amigo Bem-te-vi nos recepciona com seu canto. Nessa bela manhã de primavera, de ar fresco e limpo, mais motivo de celebração com café quentinho e pãozinho torrado na chapa!

Passei o resto da manhã fazendo a revisão de texto do artigo que será publicado em breve no livro “Leader Coach” do qual participo como coautor. Acho que ficou bom, apesar de ter sido obrigado a lidar com a frustração de cortar muito do que gostaria de dizer, por limitação de espaço. Depois de olhar para o papel várias vezes, em inúmeras revisões, pressinto a cegueira para os “gatinhos” do texto e o pedido de ajuda ao meu amigo Gil, consultor, escritor e “babilaca das letras”, para o seu parecer final, é inevitável. Aguardo por seus comentários precisos e pertinentes. Escolho a frase de abertura, na verdade um breve haicai já postado por aqui sobre o Líder Coach. Seleciono também as três perguntas poderosas para provocar a reflexão dos futuros leitores, que desejo sejam muitos milhares, por que não milhões?

Perdido em pensamentos, sobre os motivos inconscientes da procrastinação que fez com que meus outros artigos e meus próprios livros ainda não tenham sido publicados, passa pela mente a imagem da cigarra e da formiga, aquela da fábula… E, de repente, o canto de uma cigarra me atinge como um raio!

Taquilosparo! A primavera mal começou! Será que perdi alguma coisa? A “máquina do tempo” ataca outra vez? Isso não é “coisa de verão”?
O primeiro canto de cigarra, depois do inverno, também será motivo de celebração, ou apenas e, mais ainda, de preocupação? Ecos de uma terrível premonição – a ameaça do inverno do próximo ano? Formigas trabalhadeiras em festa, cigarras nem tanto…

O tempo não para! Como diz a letra da musica “E mi viene da pensare” do grupo de rock progressivo italiano “Banco del Mutuo Soccorso”: “A primavera é inexorável!”. E penso com meus botões, ao som da cigarra: O verão é inexorável! O outono é inexorável! O inverno é inexorável! E a música continua…

Antes de voltar ao trabalho, atropelado por reflexões mirabolantes, neutrinos, etc… Pausa para um breve haicai:

cigarra cantou
ainda primavera…
verão começou!

Eduardo Leal

Foto de autor desconhecido

Publicado 01/10/2011 por Eduardo Leal em Haicai, Haikai, Haiku, Prosa

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Garrafa 254 – Manhã de inverno   1 comment

bendita prece…
na manhã de inverno,
sol aparece!

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Garrafa 242 – Dia gelado   Leave a comment

dia gelado
inverno na alma
fim de outono

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Publicado 04/06/2011 por Eduardo Leal em Fotografias, Haicai, Haikai, Haiku

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Garrafa 222- A-ah, Matsushima, ah!   Leave a comment

Estive na região nordeste do Japão com minha família, em janeiro de 2008, mais precisamente em Sendai, Matsushima e Shiogama e acompanho com tristeza e preocupação as informações que chegam a cada instante dando conta do maremoto e sua subsequente tsunami, ocorridos no dia de ontem naquela região. Preocupação com a falta de notícias de alguns amigos e amigas que fizemos por lá e tristeza pelas milhares de vidas interrompidas e também pelos prejuizos materiais e culturais decorrentes dessa tragédia.

Além das imagens de devastação em Sendai e arredores, minhas pesquisas pela Internet revelaram, até o momento, apenas duas fotos de trens descrrilados em Matsushima (link1 e link2), o que me faz pensar na triste possibilidade de danos ainda não revelados, por dificuldades de acesso ao local.

Trago comigo as melhores lembranças, no sopro gelado de uma fria manhã de inverno, de um dos lugares mais bonitos que já conheci. Fecho os olhos por um momento e vejo a Baia de Matsushima com suas centenas de ilhas rochosas cobertas de pinheiros, sendo sobrevoadas por gaivotas que insistem em seguir o rastro deixado pelo nosso barco e nos observar com olhares curiosos e inquisidores. Vejo ainda alguns dos seus pequenos tesouros arquitetonicos e culturais à beira mar tais como o Templo de Zuigan-ji e seu silencioso e misterioso jardim zen. Será que meu firme desejo de regresso, da próxima vez na primavera, será interrompido por um outro vento gelado, desta vez carregado de radioatividade, tornando essas paisagens proibidas por décadas, como as cercanias de Chernobil? Um calafrio incomodo me percorre a espinha!

A partir de 1689, durante cerca de quatro anos, o sensível poeta Matsuo Basho percorreu as trilhas da região norte da ilha de Honshu, no arquipélago do Japão, tendo como iluminação apenas o clarão da lua cheia… Durante sua passagem por Matsushima, quase sem palavras, deixou-nos o registro de sua embevecida admiração, por meio do seguinte haikai:

Ah Matsushima!
A-ah, Matsushima, ah!
Ah, Matsushima!

 

Revendo as fotos que tirei na ocasião de minha breve visita ao jardim zen do templo de Zuigan-ji, uma delas me chama a atenção, como distantes ecos premonitórios dos sábios monges que o idealizaram, com a imagem do arquipélago do Japão cercado de tsunamis, nas águas nada tranquilas do Pacífico…

A-ah, Matsushima, ah…

Jardim Zen em Zuigan-ji

Foto de Eduardo Leal

Garrafa 129 – Fases da lua   2 comments

Noite de inverno em um quarto de hotel em Nara.

Minhas duas filhas já se recolheram e permanecem bem encolhidas debaixo das cobertas no quarto ao lado. E meu sobrinho, que me acompanhou nessa viagem pelo sul do Japão, também dorme profundamente no beliche em cima da minha cama.

Na mesinha, ao alcance da mão, um bloco de anotações e uma caneta esperam, há algum tempo, que algum hóspede registre um número de telefone importante, faça alguns rabiscos sem nexo ou, quem sabe, escreva uma carta de amor…

Nenhum ruído do lado de fora, enquanto a luz da lua entra pela janela, filtrada pelo ar gelado…

O quarto pequeno, na penumbra, parece crescer de tamanho enquanto observo um pequeno trecho de céu sem estrelas.

E, de repente, sou invadido por uma saudade enorme!
Saudades de um futuro que não volta mais…

Com um pequeno sobressalto, rabisco no bloco de notas um breve haicai:

quarto crescente,
madrugada gelada,
você minguante…

Eduardo Leal
Ilustração de autor desconhecido

Fases da lua

 

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