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Garrafa 528 – Guardando encontros à luz do dia   2 comments

Aproveito cada momento da minha vida, em qualquer época do ano, em qualquer lugar, e em qualquer hora do dia. Esse é um compromisso que assumi comigo mesmo há muito tempo: o de viver intensamente cada instante.

E, como acredito firmemente que as coisas mais importantes que fazemos são aquelas que podem ser compartilhadas com alguém, que assim tudo fica muito melhor, sempre que possível dou preferência por fazê-las em ótima companhia.

E, ao mesmo tempo, fico muito bem sozinho, quando não tenho a companhia de outra pessoa ou de um grupo, ou escolho eventualmente não tê-la por vontade própria. Aliás, preciso de muitos momentos de recolhimento e introspecção para recarga de minhas baterias. Pratico meditação várias vezes por dia e faço longas e frequentes caminhadas sozinho.

Apesar dessa disposição incondicional (em qualquer lugar, em qualquer tempo), tenho que admitir que os meses de outono são minha época do ano favorita, seguidos dos meses de primavera. Há algo na qualidade da luz dos meses de abril, maio e junho que me encanta, e aguardo por eles alegremente, antecipando o gozo já a partir de meados de março. Céus de um azul profundo, algumas nuvens brancas aqui e ali e temperaturas sempre amenas e agradáveis. Isso sem falar das frutas, especialmente dos saborosos caquis que alegram meus dias com suas explosões de cor, textura e doçura.

Essa é também uma época em que eu mesmo e muitas pessoas importantes pra mim celebramos datas especiais nos nossos calendários pessoais e afetivos. E celebro comigo mesmo e com elas, de maneira presencial ou virtual, estejam onde estiverem.

E esse é também um dos motivos para ter criado e ainda manter em atividade este blog, enviando garrafas com mensagens pelos mares da Internet, como já mencionado na página Minhas Razões : o de viver e celebrar encontros especiais.

Assim sendo, uma das mensagens que costumo enviar nesta época do ano desta vez está sendo postada com mais de dez dias de atraso, em função de uma conjuntura pessoal bem específica, que escolho não mencionar neste momento.

E o que escolho compartilhar agora nesta postagem?

Nas ultimas semanas tive minha atenção atraída por um poema de Antonio Cicero e, desde então essas palavras têm ecoado e reverberado em minha alma ao mesmo tempo com força e delicadeza.

Guardar

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro
Do que um pássaro sem voos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

É o que faço agora, e o que tenho feito em muitas postagens deste blog: escrevo, digo, publico, declaro e declamo, guardo à plena luz do dia o valor desse encontro em pequenos contos e em poemas curtos, para mantê-los à vista. Para olhá-los, fitá-los, mirá-los, admirá-los, iluminá-los ou ser por eles iluminado. Para vigiá-los, fazer vigília e velar por eles, estar acordado por eles, estar por eles e ser por eles.

Selecionei um desses poemas curtos, já postado na Garrafa 460, para trazê-lo novamente à luz e dizer o que escolho dizer novamente nesta noite de lua cheia de outono:

talvez não devesse…
mas, apesar de tudo,
amo e pronto!

Eduardo Leal

Garrafa 189 – Cinco homens   Leave a comment

1.
Eles os levaram de manhã
para o pátio de pedra
e os puseram contra o muro

cinco homens
dois deles muito jovens
os outros de meia-idade
nada mais
pode ser dito sobre eles

2.
quando o pelotão
aponta seus fuzis
tudo aparece de repente
à luz berrante
da obviedade

o muro amarelo
o azul frio
o arame preto no muro
em vez de um horizonte

esse é o momento
em que os cinco sentidos se rebelam
eles escapariam de bom grado
como ratos de um navio que afunda

antes que a bala chegue a seu destino
o olho perceberá o vôo do projétil
o ouvido registrará o sussurro afiado

as narinas se encherão de fumaça cáustica
uma pétala de sangue roçará o palato
o toque se contrairá e depois se afrouxará
agora jazem no chão
cobertos de sombra até os olhos
o pelotão se afasta
suas abotoaduras
e capacetes de aço
estão mais vivos
que os homens prostrados junto ao muro

3.
Não aprendi isto hoje
Sabia antes de ontem

por que então andei escrevendo
poemas sem importância sobre flores
sobre o que falaram os cinco
na noite antes da execução
de sonhos proféticos
de uma escapada num bordel
de peças de automóvel
de uma viagem por mar
de como quando ele tinha a seqüência de espadas
não a devia ter aberto
de como vodca é o melhor
depois do vinho você tem dor de cabeça
de moças
de frutas
de vida
assim podemos usar em poesia
nomes de pastores gregos
podemos tentar captar a cor do céu da manhã
escrever sobre amor
e também
mais uma vez
com completa gravidade
oferecer ao mundo desiludido
uma rosa

Zbigniew Herbert
Foto de autor desconhecido

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