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Garrafa 443 – Contra a correnteza   Leave a comment

Pode parecer contraditório para algumas pessoas, mas entendo que “nadar contra a correnteza, em direção à nascente do rio” não é a mesma coisa que “lutar contra a correnteza”. Podemos sempre encontrar caminhos de menor resistência, onde nossa própria força é mais que suficiente pra vencer a corrente existente.

O salmão salta no ar e, quem sabe, pode até contar com um ventinho a favor…

Não luto mais contra coisa alguma. Prefiro agir em favor do que considero importante. Aquilo a que opomos resistência ganha força! Sigo na direção que escolhi e, se alguém resolver me atacar por causa dessa escolha, me defendo…

Ao invés de “lutar contra” a corrupção, podemos “agir em favor” da honestidade (até mesmo prendendo corruptos, dentro da lei)…

Ao invés de “lutar contra a violência”, podemos agir em favor da paz (até mesmo prendendo guerrilheiros e terroristas, dentro da lei)…

Ao invés de “lutar contra” a doença, podemos “agir em favor” da saúde…

Ao invés de “lutar contra” a miséria, podemos “agir em favor” da prosperidade…

A energia flui para onde a atenção está! E ela deve estar em descobrir a nossa verdadeira natureza e, com congruência, em agir de acordo.

Pausa para um breve haicai:

um salmão em mim,
contra a correnteza,
vai até o fim…

Ou, em uma versão estendida, para um poema curto:

um salmão em mim,
contra a correnteza,
o mundo enfim…

um salmão em mim,
vai até o fim…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Garrafa 156 – O Explorador   1 comment

We shall not cease from exploration
and the end of all our exploring
will be to arrive where we started
and know the place for the first time.
Não devemos parar de explorar
e o fim de toda a nossa exploração
será chegar onde partimos
e conhecer o lugar pela primeira vez.
T. S. Eliot
Foto de autor desconhecido
explorador

Garrafa 119 – Ausência   Leave a comment

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
e eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face
teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
e eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Vinícius de Moraes
Foto de F. Monteiro (Noite) em http://olhares.aeiou.pt/noite/foto451136.html%3cbr

Garrafa 61 – Sozinho   Leave a comment

Por sobre a terra se estendem
ruas e caminhos mil,
mas levam todos
ao mesmo fim.

De dois em dois, três em três,
indo a pé ou a cavalo,
o último passo – sozinho
hás de dá-lo.

Não há, portanto, saber
nem poder algum melhor
do que o difícil a gente
fazer só.

Hermann Hesse
Tradução de Geir Campos
Foto de autor desconhecido

Garrafa 41 – Dentro da noite   Leave a comment

Muitas vezes desperto com a ideia
de que um navio singra a noite fria,
ganha os mares e ruma a litorais
dos quais me sinto arder de nostalgia.

De que em lugares que marujo algum
conhece, brilha uma aurora boreal
nunca vista. De que em meu travesseiro
há um braço de mulher, belo e sensual.

De que alguém, feito para amigo meu,
longe no mar chega a um obscuro fim.
De que minha mãe, que não me conhece
mais, em sonho talvez chame por mim.

Hermann Hesse – Tradução de Geir Campos
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Dream Sequence” com Spyro Gyra

Aurora boreal

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