Arquivo para a Tag ‘filosofia

Garrafa 539 – E quando chegarmos ao poder teremos de matá-lo   2 comments

Meu interesse permanente pela literatura e pela filosofia tem sido saciado, nos últimos anos, pela participação em diversos cursos e por muitas leituras sugeridas pelos instrutores de cada um deles. E isso, claro, complementado por minhas próprias pesquisas realizadas tanto na Internet como em obras de referência.

Foi assim que descobri, no ano passado, a existência do filósofo alemão Eric Voegelin, um dos maiores filósofos do Século XX (1901-1985), que adotou a cidadania americana a partir de 1942, depois de ter emigrado para os EUA em 1938, escapando do nazismo. Infelizmente ainda pouco divulgado e explorado no Brasil, quase nada sabia a seu respeito, até a semana passada, além das muitas referências elogiosas por parte de escritores e filósofos da minha confiança.

Autor de vasta obra intelectual, também descobri que a melhor maneira de travar conhecimento com sua vida e seu pensamento seria iniciando pela leitura do livro Reflexões Autobiográficas, da É Realizações Editora, e que faz parte da Coleção Filosofia Atual. Esse conteúdo  foi ditado em 1973 a um de seus alunos e discípulos, Ellis Sandoz,  ao longo de vários encontros. Naquela ocasião, o texto foi registrado pela secretária do autor e essa transcrição foi corrigida pelo próprio Voegelin. No livro “The Voegelinian Revolution: A Biografical Introduction”, em 1981, Ellis Sandoz citou esse texto in extenso. E em 1989, também foi publicado o livro “Autobiographical Reflections”, de Eric Voegelin, que foi a base para essa tradução, em 2007, para o nosso idioma. Quem quiser, veja: https://images.app.goo.gl/75KnfubkdYtmdFEc8

Neste post não pretendo fazer uma resenha do livro e incluir comentários extensos sobre tudo que pude perceber e que me encantou sobre o autor e sua obra. Deixo essa tarefa para quem possa se interessar e dispor de mais tempo para alocar a essa atividade. Basta mencionar que, após sua leitura, encomendei, recebi e já iniciei a leitura de “Anamnese – Da Teoria da História e da Política”, e estou tendo dificuldades para obter meu exemplar de “Hitler e os Alemães”, que se encontra esgotado e pretendo ler em seguida, todos de Eric Voegelin.

Vale lembrar que a Viena onde se encontrava Voegelin vivia um ambiente fortemente marcado pelo colapso do Império Austro-Húngaro ao fim da Primeira Guerra Mundial, mas conservava ao longo de toda a década de 1920 um horizonte intelectual vastíssimo e era internacionalmente reconhecida como pioneira em muitas áreas do conhecimento. Assim foi, até que começaram a se fazer sentir os efeitos do nacional-socialismo, no início dos anos 30. Foi nessa cidade que ele passou a maior parte do tempo de sua vida, estudando e trabalhando, antes de decidir fugir dos nazistas, embarcando em um trem para a Suíça.

A Universidade de Viena, onde Voegelin foi aluno da Faculdade de Direito de 1919 a 1922, era um dos maiores centros acadêmicos da Europa. E foi onde também estudou o austríaco Otto Maria Carpeaux (1900-1978), judeu convertido ao cristianismo e outro gênio de mesmo quilate que escolheu fugir para o Brasil, em 1939, ao invés dos EUA. Carpeaux formou-se em Direito e doutorou-se em Matemática, Física e Química. Estudou Sociologia e Filosofia na França, Literatura Comparada na Itália  e Política na Alemanha. Doutorou-se também em Filosofia e Letras na Universidade de Viena.

Menciono também algumas de suas primeiras viagens internacionais de Voegelin que, em seu conjunto, foram responsáveis por proporcionar ao autor uma experiência vivida das pluralidades humanas realizadas em várias civilizações: conseguiu bolsa de estudos para um curso de férias sobre o idioma inglês em Oxford (1921); e com outra bolsa de pesquisa da Fundação Rockefeller, estendida a estudantes europeus, passou um ano (1925/1926) em Nova York, na Universidade Columbia, e no seguinte, um semestre em Harvard e outro em Winsconsin. No terceiro ano (1927), esteve em Paris, em cursos na Faculdade de Direito. Voegelin destaca a importância de uma grande ruptura ocorrida na sua formação intelectual, nos dois anos que passou nos EUA, proporcionada pelo conhecimento do vasto mundo que existia além do continente europeu. Segundo ele mesmo, essa experiência rompeu o seu provincianismo centro-europeu, sem permitir que caísse no provincianismo americano.

Tendo feito esses comentários preliminares, o evento que mais chamou minha atenção na leitura dessa obra introdutória, e tem a ver com o título perturbador do post, foi mencionado no Capítulo 21, que trata da experiência docente de Eric Voegelin, que trabalhou por cinquenta anos como professor. O fato marcante aconteceu quando ele lecionava na Volks-hochschule Wien-Volksheim, nos anos 1930. Essa instituição era um projeto de educação para adultos financiado pelo governo socialista da cidade de Viena. Era algo como uma universidade para trabalhadores e jovens de classe média baixa.

Em contato com os militantes do meio sindical mais intelectualizados, que eram seus alunos na Volks-hochschule, Voegelin tinha diante de si esses socialistas consideravelmente radicais, muitos deles, comunistas descarados, segundo suas próprias palavras. E recordava de seu próprio flerte com o marxismo, que durou apenas três meses, no verão de 1919, e decididamente já tinha ficado no seu passado. O antídoto tinha vindo do estudo das disciplinas de teoria econômica e história da teoria econômica, ficando claro para ele o que estava errado em Marx. Foi também decisiva para sua imunização contra essa ideologia pestilenta a leitura dos ensaios de Max Weber sobre o marxismo, documentos que datavam de 1904-1905.

Durante as aulas, não tardaram a surgir debates acalorados aos quais não podia renunciar, sem perda de autoridade, já que lecionava disciplinas como ciência política e história das ideias. Apesar desse choque ideológico,  Voegelin conseguiu desenvolver uma relação permanente e saudável com esses jovens marxistas radicais, preservando as relações pessoais no melhor nível possível. Eis o fato que destaco:

“Às nove horas, após as palestras e o seminário do fim da tarde, o grupo sempre se reunia e dava sequência às discussões em algum dos inúmeros cafés das redondezas. Ainda me lembro de uma cena dos anos 1930 em que, após um entusiástico debate que terminou em desacordo, um desses rapazes, não muito mais jovem que eu, exclamou, com lágrimas nos olhos: ‘E quando chegarmos ao poder teremos de matá-lo.'”

E destaco esse fato pela simples razão de que nossas sociedades ocidentais, e a nossa em particular, que falam com horror das mortes causadas pelo nazi-fascismo, simplesmente se calam quando o assunto é o número simplesmente cinco vezes maior de mortes causadas pelo comunismo. E essas sementes malignas foram plantadas em situações como essa mencionada por Voegelin, e cresceram e deram muitos frutos, e novas sementes continuam sendo adubadas e regadas, diariamente, nos corações e mentes das novas gerações.

No Brasil de 1964, Leonel Brizola já tinha sua lista de pessoas que deveriam ser eliminadas, caso o movimento comunista do qual fazia parte fosse bem sucedido. Felizmente, foi o contra-golpe da sociedade democrática que acabou sendo o vencedor momentâneo, naquela ocasião. O covarde fugiu para o Uruguai, mas os jornais da época noticiaram o fato, como apareceu na manchete do jornal “O Globo” de 17/04/1964 – “Brizola tinha lista dos que seriam mortos se a esquerda vencesse.” Sim, além de “planos de execução de oficiais de alta patente, pondo de lado qualquer espécie de sentimentalismo”, havia uma “lista de execução de civis anticomunistas, que deveriam ir imediatamento ao paredão”, para eliminar resistências e impedir a reação ao golpe comunista que estava em andamento. E é assim que os comunistas se comportam. Foi assim na Russia, e depois nas Repúblicas Soviéticas que foram incorporadas à URSS, e nos países da chamada “Cortina de Ferro” ocupados depois da Segunda Guerra Mundial. E foi assim na China de Mao Tsé Tung. E foi assim no Vietnam, no Laos, no Camboja, na Coreia do Norte. E foi assim em Cuba, trazendo a memória dos fatos para o nosso desmemoriado continente americano.

E porque não se fala disso, como se fala do holocausto nazista e seus 20 milhões de mortos, quando o número de mortos pelo comunismo chega ao numero de pelo menos cem milhões?

O que? Como? Cem milhões? Onde está essa informação? Basta consultar, por exemplo, “O Livro Negro do Comunismo – Crimes, Terror e Repressão” publicado pela Editora Bertrand Brasil, que traduziu “Le Livre Noir du Communisme”, de 1997, publicado na França no 80º aniversário da Revolução de Outubro de 1917, na Russia. Meu exemplar é de 2019, e está na 16ª edição. Só não vê quem não quer. E quem quiser, veja: https://images.app.goo.gl/GSPRPhMrHB25tmgj6

Por que isso não é noticiado com o mesmo destaque que se costuma dar quando, por exemplo, a questão é falar sobre as mortes promovidas por regimes totalitários como os de Hitler e Mussolini? A resposta simples e direta: porque a imprensa mundial está ocupada em sua grande maioria por simpatizantes, militantes e integrantes da quadrilha ideológica de esquerda. E a imprensa brasileira parece ser uma caso ainda mais representativo dessa visão. E não só a imprensa, mas também a maior parte dos setores ligados à “cultura” e às “artes”. Portanto, esse assunto só é abordado em alguns sites na Internet e nas redes sociais, e só é encontrado quando se sabe onde procurar. E, é claro, aparece também em alguns livros de pouca divulgação no país. Caso contrário, silêncio… E essa é a razão pela qual a todo momento surgem projetos de parlamentares integrantes dessa quadrilha propondo, “em nome da liberdade de expressão e da transparência”, a implementação de censura na Internet e nas redes sociais. Não se pode falar nisso!

De minha parte, penso, falo, escrevo e ajo de acordo. O movimento comunista internacional, com suas diversas ideologias camaleônicas embarcadas é o maior promotor de crimes, terror e repressão no planeta!

É o que penso e sinto, e sinto muito!

Eduardo Leal
Imagem de autor desconhecido

Cemitério visto do alto

Garrafa 535 – Aristotolices   Leave a comment

A época do aniversário é, tradicionalmente, momento de realização de balanços de perdas e danos e de celebrações. E a cada ano o resultado é sempre diferente! Como já nos dizia Ortega y Gasset: “Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não me salvo a mim.”

O dia de ontem foi ótimo! Caminhada rotineira na manhã ensolarada e, à noite, recebi em casa a parcela local da família: mãe, irmã e filhas, com seus respectivos companheiros (genros) e, como sempre, o personagem de destaque da família, até a chegada de outros componentes já anunciados, o pequeno Damião, netinho querido.

Várias ligações do filho, de amigos e amigas, algumas internacionais, e muitas mensagens recebidas pelas redes sociais temperaram a tarde, enquanto as panelas já estavam no fogo, antecipando na agitação da cozinha, a chegada do pequeno grupo de convidados.

Uma garrafa de vinho tinto espanhol, de uva tempranillo, hábito adquirido durante o Caminho de Santiago – 2015, molhou a palavra durante as animadas conversas noturnas.

Sobre a minha inescapável e complexa circunstância, apenas algumas notas de rodapé, a título de leitura recomendada:

  1. Terminei a leitura da pequena joia “Aristóteles em nova perspectiva – A Teoria dos Quatro Discursos” de Olavo de Carvalho. Li e reli o seu conteúdo ao longo de duas semanas, deliciando-me com a sua proposta original e inovadora de considerar como uma Teoria Geral do Discurso as quatro obras do filósofo estagirita: as duas primeiras, a Poética e a Retórica se prolongando e aprofundando nas duas ultimas, a Dialética e a Lógica – Analítica. E não menos deliciosa foi a leitura do texto suplementar “Aristóteles no Dentista – Polêmica entre o Autor e a SBPC”, na época do encaminhamento de seu trabalho “Uma filosofia aristotélica da cultura” para avaliação e eventual publicação na revista Ciência Hoje. Essa situação insólita se iniciou em 1983, com o envio do trabalho, e se estendeu por 1984 e 1985, com artigos publicados em jornais e a correspondência pessoal e institucional trocada entre os envolvidos. Segundo o autor, foi nesse instante que nasceu a inspiração para o livro “O Imbecil Coletivo”, como uma espécie de tratamento de choque para despertar a nossa moribunda intelectualidade;
  2. Motivado pela leitura do livro sobre Aristóteles, dei continuidade à leitura de “O Imbecil Coletivo”, também de Olavo de Carvalho, igualmente espetacular e dessa vez profético, do qual destaco o artigo “Bandidos & Letrados” que explicita com precisão a trajetória de uma revolução cultural que se encontra em curso, e que só poderia resultar na atual situação de decrepitude moral do STF, instituição transformada por seus atuais integrantes em defensora de bandidos e do crime organizado. Destaco o parágrafo inicial: “Entre as causas do banditismo carioca, há uma que todo mundo conhece mas que jamais é mencionada, porque se tornou tabu: há sessenta anos, os nossos escritores e artistas produzem uma cultura de idealização da malandragem, do vício e do crime. Como isso poderia deixar de contribuir, ao menos a longo prazo, para criar uma atmosfera favorável à propagação do banditismo?” Recomendo a leitura pelo menos desse artigo, já que as reflexões produzidas pela obra completa podem levar a um estado de depressão grave, com consequências devastadoras para as pessoas mais sensíveis, de boa fé e de bom senso, e ainda com alguma esperança residual nos destinos do nosso país;
  3. A leitura da Teoria dos Quatro Discursos me induziu também a reler, pela quarta vez, “A Estratégia da Genialidade – Volume 1” de Robert Dilts. Nessa série composta de três volumes, Dilts utiliza as ferramentas de modelagem e princípios da PNL – Programação Neurolinguística para investigar os padrões cognitivos de pessoas reconhecidamente geniais. No Capítulo 1 desse livro espetacular, o alvo da investigação é justamente Aristóteles! E constatamos que o seu reconhecimento como gênio não adveio simplesmente daquilo que ele sabia, mas da sua capacidade de expressar o que sabia. A estratégia de Aristóteles para identificar a relação entre o geral e o particular, encontrando a causa ou o `meio´, foi a base dos seus famosos `silogismos´: Todos os homens são mortais; Sócrates é homem; Sócrates é mortal. Para quem se interessa por filosofia e também por PNL, penso que essa pode ser uma leitura complementar proveitosa;
  4. Finalmente, atualmente também estou lendo “A Vida Intelectual” de A.-D. Sertillanges, que tem prefácio de Olavo de Carvalho. É leitura recomendada para quem se interessa por filosofia e já atendeu, ou pretende atender em breve ao chamado vocacional do trabalho intelectual e do desenvolvimento do espírito. Tudo isso, mesmo para quem só disponha de duas horas por dia para dedicar a essa nobre atividade.

Dito isto, sentado no banco da pracinha em frente ao meu prédio, sentindo na pele o calor do sol da manhã no dia seguinte ao do meu aniversário, folheando o meu exemplar de “A Vida Intelectual”, fiquei perdido em reflexões depois de ler o seguinte trecho:

“O homem isolado demais torna-se tímido, abstrato, um pouco bizarro, titubeia no mundo real como um marinheiro recém-desembarcado; não tem mais o senso de seu destino; parece olhar-nos como uma `proposição´que deve ser inserida em um silogismo, ou como um exemplo a ser registrado em um bloco de notas.”

Ainda processando as mensagens de aniversário que recebi, fiquei imaginando  também aquelas que, por diversas razões, deixaram de ser a mim enviadas e rabisquei na borda do livro o seguinte haicai:

apaixonado,
do silogismo, o meio,
você é termo.

Eduardo Leal
Ilustração de autor desconhecido

O Convite

Garrafa 253 – Ser simples, sem ser simplista   9 comments

Como já nos advertia Albert Einstein: “Tudo deve ser o mais simples possível, nunca mais simples do que isso.”

Da leitura de “A Estratégia da Genialidade – Einstein” de Robert Dilts posso depreender que ele queria dizer que cada situação ou sistema tem uma complexidade inerente que lhe é própria e que deve ser respeitada. Se tentarmos ir além de determinados limites impostos pela natureza do próprio sistema, descaracterizaremos completamente a situação e ela se tornará outra coisa e não a expressão mais simples do sistema que desejamos representar. Nesse ultimo caso nos tornamos simplistas e corremos o risco de jogar fora o bebe junto com a água suja do banho de simplicidade que lhe pretendemos aplicar.

E para se definir complexidade é sempre necessário especificar o grau de detalhe com que o sistema é descrito, sendo os detalhes mais finos ignorados. E sempre é necessário deixar algo de fora. Os físicos chamam isso de granulação grosseira. Como no caso de uma antiga fotografia, sua granulosidade estabelecia um limite sobre a quantidade de informação que ela podia oferecer. Quando numa fotografia um detalhe era tão pequeno que necessitava ser ampliado para ser identificado, a ampliação podia mostrar os grãos fotográficos individuais. E se o filme fosse muito granulado e o melhor que a fotografia como um todo pudesse dar fosse uma impressão grosseira do que tinha sido fotografado, o filme apresentaria uma granulação grosseira.

E não é simples definir “simples”. Como nos adverte Murray Guell-Mann em “O Quark e o Jaguar”: “provavelmente não há um único conceito de complexidade que possa exprimir adequadamente nossas noções intuitivas do que a palavra deve significar”. Entretanto, pelo menos uma maneira de se definir a complexidade de um sistema é fazer uso do tamanho de sua descrição. E, além disso, qualquer definição de complexidade depende necessariamente do contexto, e é mesmo subjetiva. O tamanho da descrição variará, portanto, com a linguagem utilizada, e também com o conhecimento e a compreensão do mundo que aqueles que se comunicam repartem entre si.

Eliminando-se descrições desnecessariamente longas, poderemos chegar a uma definição do que pode ser chamado de complexidade rudimentar:

“o tamanho da mensagem mais curta que descreverá o sistema, para um dado nível de granulosidade grosseira, para alguém distante, empregando uma linguagem, conhecimento e compreensão que ambas as partes repartem (e sabem que repartem) de antemão”.

É o que todos procuramos fazer em nossas tentativas de comunicação, sistemas adaptativos complexos que somos, ao lidarmos com as complicações da vida, da poesia e da filosofia. E é por isso também que me aventuro, impondo-me o desafio de utilizar em minha expressão poética e filosófica, sempre que possível, a métrica do haicai tradicional de 5/7/5 silabas, embora a temática nem sempre seja a do haicai tradicional. E sei muito bem que quase nunca sou bem-sucedido em minhas tentativas de explicar o inexplicável, mas gosto de registrar que quase sempre me divirto tentando.

É assim! É da natureza das coisas! Temos que conviver com nossa incapacidade de descrever os sistemas complexos em sua completude e totalidade e admitir um determinado grau de granulosidade, de incompletude, de imperfeição. E nossos amigos japoneses, em sua sabedoria milenar, inventaram uma expressão para definir a beleza que mora nas coisas imperfeitas e incompletas. Trata-se de Wabi-Sabi. Um termo que é de difícil tradução e que talvez possa ser entendido como uma maneira de se perceber as coisas através das lentes da simplicidade, da naturalidade e da aceitação da realidade que simplesmente insiste em ser como é.

Em minhas pesquisas pela internet encontrei quem afirmasse que esse conceito surgiu por volta do século XV. Quem sabe? E como grande apreciador de historinhas e metáforas, não resisti à tentação de reproduzir e incorporar neste texto pelo menos uma delas:

“Um jovem chamado Sen no Rikyu (1522-1591) queria aprender os complicados rituais da Cerimônia do Chá, e foi procurar o grande mestre Takeno Joo. Para testar o rapaz, o mestre mandou que ele varresse o jardim do mosteiro e o jovem Rikyu lançou-se feliz à tarefa. Limpou o jardim até que não restasse fora do lugar nem uma folhinha sequer.
Ao terminar, Rikyu examinou cuidadosamente o que tinha feito: o jardim perfeito, impecável, cada centímetro de areia imaculadamente varrido, cada pedra no lugar, todas as plantas ajeitadas com o máximo de capricho. E então, antes de apresentar o resultado ao mestre, o jovem chacoalhou o tronco de uma cerejeira e fez com que caíssem algumas flores, que se espalharam de maneira displicente pelo chão.
Mestre Joo, impressionado, admitiu imediatamente o jovem no seu mosteiro.
Rikyu veio a se tornar um grande Mestre da Cerimonia do Chá e, desde então, foi reverenciado como uma daquelas poucas pessoas que entendeu a verdadeira essência do conceito de wabi-sabi: a arte da imperfeição”.

E por que todo esse palavrório em um texto que se propõe a falar de simplicidade? Em um texto que, em sua versão original, constava apenas de um breve haicai que supostamente deveria resumir a ideia central a ser transmitida – “retirar mais do que por“ – e apenas silenciar diante de qualquer comentário posterior? Foi o que fiz até agora…

Acontece que a primeira e única pessoa que comentou este post no Blog, alguns meses depois de sua publicação, aliás um bom amigo, disse o seguinte: “É melhor dar que receber…” E nada mais foi dito a respeito. Só ontem à noite, em uma rede social, foi que uma segunda pessoa, outra boa amiga, me alertou para uma possível interpretação equivocada da ideia central do haicai, a de que “é melhor retirar do que por” e uma ficha caiu na minha cabeça. Ela questionou se a mensagem deveria ser interpretada como “Retirar mais de si, despojar-se? Ou retirar mais do outro?” Respondi que penso que só o outro poderia tirar de si mesmo, se assim o desejasse… E que o sentido que queria dar era realmente o de despojar-se, despir-se, desnudar-se. De espremer o caldinho em busca da essência, enfim… Mas só então percebi a força da interpretação alternativa. Não tinha pensado nela até então. A de alguém “tipo sanguessuga” que não contribui com nada e ainda retira do sistema. Fiquei realmente pensativo. E todos nós conhecemos gente que age dessa maneira… E não pretendo oferecer incentivo para essa atitude com esse haicai… Pois é!

Imaginava que a imagem que acompanha o post pudesse deixar claro a que tipo de retirada estava me referindo no haicai. Trata-se de um desenho de John Lennon em que ele retrata a si próprio e à sua companheira Yoko Ono com grande economia de traços, retirando mais do que pondo, desenhando apenas uma metade de cada figura individual e fundindo-as em uma figura única para transmitir a ideia original. Penso que o título do desenho traduzido também é significativo: “Dois é Um”. Apesar disso, muita gente realmente pode pensar que a mensagem transmitida é a de que vale a pena, e é até melhor, apenas sacar e retirar sem fazer nenhum depósito prévio, sem oferecer nenhuma contribuição. E me dei conta de que muitas centenas de pessoas viram o post original de acordo com as estatísticas de acesso do Blog… Esse foi meu insight tardio. E toda essa conversa fiada é apenas para deixar claro para os futuros leitores e aqueles que, tendo visto o post original, desejarem voltar a nos visitar, que essa não é a ideia.

Algumas pessoas se perguntarão: isso fará alguma diferença para alguém cujo entendimento aceite tranquilamente essa prática de saque oportunista sem nenhum questionamento? Provavelmente não! E esse também não é o tipo de leitor que acha interessante permanecer por mais de um minuto no meu Blog. E daí? Penso comigo mesmo: Ok, podem se sentir encorajados a saquear e retirar à vontade… Mas quem sabe se ao tomarem conhecimento desses comentários iniciais não poderão oferecer de volta pelo menos um sorriso? Isso seria suficiente pra mim. Se não, paciência… É questão de Nível de Desenvolvimento de Consciência.

Dito isto, decidi agregar essas considerações iniciais ao texto do post e manter o haicai quase da mesma maneira como foi parido, alterando apenas sua ultima linha substituindo “é o caminho” por “é um caminho”. A primeira forma agora me soou pretensiosa. Esse pode ser apenas mais um caminho… Quem sabe?

Pausa para um breve haicai:

simplicidade!
retirar, mais do que por,
é um caminho…

Eduardo Leal
Desenho de John Lennon “Two is one”
Instruções de utilização: Ouvir “Swept Away” com Spyro Gyra

Garrafa 213 – Curso de Escutatória   2 comments

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.

Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir.

Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular…

Escutar é complicado e sutil.

Diz Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa) que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”. Filosofia é um monte de ideias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro: Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma.

Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios.

Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial.

Aí, de repente, alguém fala. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.

Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. É preciso tempo para entender o que o outro falou.

Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, […]. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as ideias estranhas.

Na nossa civilização, se eu falar logo a seguir são duas as possibilidades.

Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado”.

Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou”.

Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.

O longo silêncio, na verdade deve querer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou”.

Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.

Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. A música acontece no silêncio.

A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio.

Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.

Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

RUBEM ALVES
Ilustração de autor desconhecido

Garrafa 103 – O meu olhar   Leave a comment

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
olhando para a direita e para a esquerda,
e de, vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
é aquilo que nunca antes eu tinha visto,
e eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
que tem uma criança se, ao nascer,
reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
para a eterna novidade do Mundo…

Creio no mundo como num malmequer,
porque o vejo. Mas não penso nele
porque pensar é não compreender …

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(pensar é estar doente dos olhos)
mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
mas porque a amo, e amo-a por isso,
porque quem ama nunca sabe o que ama
nem sabe por que ama, nem o que é amar …
Amar é a eterna inocência,
e a única inocência não pensar…

Alberto Caeiro/Fernando Pessoa em “O Guardador de Rebanhos”
Instruções de utilização: Ouvir “Innocent Soul” com Spyro Gyra

%d blogueiros gostam disto: