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Garrafa 213 – Curso de Escutatória   2 comments

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.

Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir.

Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular…

Escutar é complicado e sutil.

Diz Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa) que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”. Filosofia é um monte de ideias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro: Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma.

Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios.

Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial.

Aí, de repente, alguém fala. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.

Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. É preciso tempo para entender o que o outro falou.

Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, […]. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as ideias estranhas.

Na nossa civilização, se eu falar logo a seguir são duas as possibilidades.

Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado”.

Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou”.

Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.

O longo silêncio, na verdade deve querer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou”.

Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.

Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. A música acontece no silêncio.

A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio.

Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.

Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

RUBEM ALVES
Ilustração de autor desconhecido

Garrafa 138 – Evidências   Leave a comment

Algumas pessoas, ao final de um relacionamento, em atitude desrespeitosa para consigo mesmas e para com o outro, fingem que nada aconteceu… E talvez até pretendam tentar convencer a outra parte de que essa atitude de fuga do seu próprio passado é a mais pura expressão da verdade, da sua verdade.

Lembranças que talvez agora as deixem embaraçadas, quem sabe?

Mas algumas poucas cartas e mensagens trocadas na ocasião são uma prova material, uma evidência, e podem comprovar para a outra parte que algo existiu e foi verdadeiro, mesmo que apenas por um breve momento…

Melhor seria guardar com carinho o que foi bom, enquanto durou, e aprender com o que não deu certo. E a pergunta de aprendizado é sempre bem-vinda nessas ocasiões:

“O que escolho fazer diferente, da próxima vez?”

Relendo antiga correspondência que encontrei em um baú esquecido da memória, pausa para um breve haicai…

benditas cartas
que me dizem que algo
foi verdadeiro…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Cartas de amor”, poema de Fernando Pessoa, na voz de Maria Bethânia

Garrafa 116 – Gato que brincas na rua   Leave a comment

Gato que brincas na rua
como se fosse na cama,
invejo a sorte que é tua
porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
que regem pedras e gentes,
que tens instintos gerais
e sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
conheço-me e não sou eu.

Fernando Pessoa
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “O Gato” com Egberto Gismonti

Garrafa 114 – Nem sempre sou igual   Leave a comment

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo. 
Mudo, mas não mudo muito.
 
A cor das flores não é a mesma ao sol 
de que quando uma nuvem passa 
ou quando entra a noite 
e as flores são cor da sombra.
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores. 
 
Por isso quando pareço não concordar comigo,
reparem bem para mim: 
Se estava virado para a direita, 
voltei-me agora para a esquerda, 
mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés — 
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra 
e aos meus olhos e ouvidos atentos 
e à minha clara simplicidade de alma …
 
Alberto Caeiro/Fernando Pessoa
em O Guardador de Rebanhos
 

 

Garrafa 103 – O meu olhar   Leave a comment

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
olhando para a direita e para a esquerda,
e de, vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
é aquilo que nunca antes eu tinha visto,
e eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
que tem uma criança se, ao nascer,
reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
para a eterna novidade do Mundo…

Creio no mundo como num malmequer,
porque o vejo. Mas não penso nele
porque pensar é não compreender …

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(pensar é estar doente dos olhos)
mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
mas porque a amo, e amo-a por isso,
porque quem ama nunca sabe o que ama
nem sabe por que ama, nem o que é amar …
Amar é a eterna inocência,
e a única inocência não pensar…

Alberto Caeiro/Fernando Pessoa em “O Guardador de Rebanhos”
Instruções de utilização: Ouvir “Innocent Soul” com Spyro Gyra

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