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Garrafa 354 – Hoje, só maquiagem!   3 comments

Da mesma maneira que procuro adotar uma dieta alimentar saudável, faço também uma dieta de notícias.

Por trás dessa atitude está a crença de que muitas coisas boas também estão acontecendo, ao mesmo tempo em que imagens e textos sobre catástrofes, tragédias e desgraças nos alcançam, com a velocidade da Internet. Prefiro colocar o foco da atenção em um jardim florido, ao invés de mantê-lo na lata de lixo, que é a dieta sugerida pelos meios de comunicação.

Mesmo assim, não passo incólume pelas principais manchetes e pelas imagens que capturam minha atenção no noticiário diário.

Nos últimos dias, o mais recente massacre na escola americana de Newtown, praticado por um jovem fora de si e armado pelas legislações federal e estadual, ambas do tempo e ao estilo do velho oeste americano, foi o que me entristeceu e provocou reflexão.

As imagens que mais me tocaram, foram as das crianças que sobreviveram, conduzidas e amparadas pelos professores, pais e policiais, chorando a perda de seus amigos e colegas, brutalmente assassinados há poucos instantes atrás. Foram capturadas pelas câmeras de fotógrafos profissionais e amadores ainda trêmulas, pela consciência do risco que correram de encontrar o mesmo triste destino de seus companheiros e com seu choro, ora convulsivo ora contido, emoldurado por uma expressão de confusão e perplexidade.

Esses meninos e meninas deveriam estar sorrindo agora, os que sobreviveram e os que se foram, permanentemente encorajados, amados e estimulados por seus pais, em suas casas, e pelos professores e professoras, na sua escola. E mais ainda por todos nós, os integrantes de nossa aldeia cada vez mais global, em cada oportunidade que aproveitamos ao avistar ou encontrar com uma criança ou com um jovem, em cada uma de nossas instituições e organizações, formais e informais, de maneira presencial ou virtual.

Quando penso em um ambiente de aprendizado saudável, para crianças e jovens de todas as idades, sempre me vem à mente uma atmosfera “quase circense” em que o bom humor e a alegria andam juntos com o trato de temas importantes. Algum tipo de “Cirque du Soleil acadêmico”. Um ambiente em que os limites do picadeiro e da vida se interpenetram e onde o risco do trapezista está sempre presente, mas, ao mesmo tempo, é enfrentado com competência, beleza e coragem. Sinto que, no melhor estilo Patch Adams, acreditando que a amizade é o melhor remédio, todos nós educadores, formais ou não, podemos incorporar em algum momento, de maneira amorosa, o papel do bom palhaço, com ou sem maquiagem, de modo a tornar o aprendizado mais lúdico e divertido, mas nem por isso menos verdadeiro e profundo. Um ambiente em que as regras são as da “Escuta com Empatia”, das “Perguntas Poderosas”, do “Feedback Positivo”, sempre e muito e, quando necessário, o uso do “Feedback Construtivo”.

As motivações para esse crime ainda permanecem obscuras e pode ser que nunca venham a ser esclarecidas completamente… Mas algumas perguntas me assaltam:

Independentemente de problemas no “hardware” ou estrutura de consciência desse jovem assassino, de problemas de desequilíbrio químico ou hormonal, como terá se desenvolvido o seu “software” ou nível de consciência? Que ambiente e condições de vida lhe foram oferecidos para o propósito de um desenvolvimento saudável?

Que tipos de exemplos ele terá modelado? A que tipo de influências terá sido submetido de maneira constante?

Terá sido ele permanentemente encorajado, amado e estimulado por seus pais, em sua casa, e pelos professores e professoras, na sua escola? Terá sido escutado com empatia?

E, mais ainda, como ele foi tratado por todos nós, os integrantes de nossa aldeia cada vez mais global, em cada oportunidade que aproveitamos ou deixamos de aproveitar ao avistá-lo ou encontrá-lo, em cada uma de nossas instituições e organizações, formais e informais, de maneira presencial ou virtual?

Imaginar as respostas mais prováveis para cada uma dessas perguntas me entristece. Meu bom humor habitual se recolhe e meu palhaço interior, com maquiagem e tudo, chora silenciosamente.

Pausa para um breve haicai:

triste miragem…
sorriso no rosto… ah!
só maquiagem!

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Tears of a Clown” na voz de Udo Dirkschneider do U.D.O.

sorriso maquiado

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Garrafa 350 – A dança da vida 2   2 comments

Um dos livros mais importantes que já li e que tem sido fonte de muitas reflexões e inspiração, nos ultimos anos, é “O despertar de uma nova consciência” de Eckhart Tolle. Volto a ele com frequência para alguma consulta eventual, desde que recebi a indicação de uma boa amiga, em novembro de 2007, mantendo-o sempre ao alcance da mão. E já fiz duas releituras completas: em abril de 2011 e agora, em agosto de 2012. Cada vez que isso acontece, sou tocado por alguma frase ou parágrafo que me haviam passado desapercebidos anteriormente e que, agora, fazem todo o sentido – gritam pra mim – no momento da leitura.

Com o coração ainda bastante agitado, como sempre acontece após a data do meu aniversário, destaco o seguinte trecho:

“Como ficar em paz agora? Fazendo as pazes com o momento presente. Esse momento é o campo em que o jogo da vida acontece. Não há nenhum outro lugar em que ele possa existir. Uma vez que tenhamos nos reconciliado com o momento presente, devemos observar o que ocorre, o que podemos fazer ou escolher fazer ou, em vez disso, o que a vida faz por nosso intermédio. Há uma expressão que revela o segredo da arte de viver, a chave de todo sucesso e toda felicidade: nossa unificação com a vida. Quando formamos um todo com ela, formamos um todo com o Agora. Nesse instante, compreendemos que não vivemos a vida, é ela que nos vive. A vida é dançarina e nós, a dança.”

Que linda imagem! Lembrei-me imediatamente das palavras da coreógrafa e dançarina moderna norte-americana Martha Graham:

“Há uma vitalidade, uma força vital, uma energia, um estímulo que se traduz em você pelo seu ato, porque só há uma de você o tempo todo; essa expressão é única. Se você a detém, ela nunca existirá por nenhum outro meio e se perderá. Ela não aparecerá no mundo. Não é de sua conta determinar quão boa ela é, nem quão valiosa, nem como se compara com outras expressões. O que te importa é mantê-la clara e diretamente sua, manter o canal aberto. Você não tem nem mesmo que acreditar em si mesma e em seu trabalho. Você tem que se manter aberta e alerta ao anseio que te motiva. Mantenha o canal aberto. Nenhuma artista é agraciada. [Não há] qualquer satisfação, em momento algum. Há somente uma estranha insatisfação divina, uma inquietação bendita que nos impulsiona e nos faz mais vivas que os demais.”

Amante das metáforas poderosas que nos colocam em contato com o inconsciente, fiquei pensativo e me perguntando:

Que tipo de dança um observador atento diria que a vida dança, por meu intermédio? Alguma dança ritual xamânica? A dança da chuva? A dança da Xuxa? Paquito sem graça ou a verdadeira reencarnação do Fred Astaire? Algum tipo de balé clássico, neoclássico ou contemporâneo? A valsa vienense, peruana ou inglesa? Alguma dança moderna no estilo eurritmia? Dança de rua ou dança de salão? Gafieira, tango, salsa, merengue, bolero ou maxixe? Cha-cha-cha, rumba ou tango argentino? Zouk ou soltinho? Alguma dança folclórica ou regional como o reisado, maracatu, pau-da-bandeira, maneiro-pau, caninha verde, bumba-meu-boi, frevo, fandango, carimbó ou samba? Percebo que algumas vezes, no contexto e momento apropriados e, em outras, completamente fora de seu contexto e momento, já arrisquei diversos passos de alguns desses tipos de dança…

Quem são meus pares nessa dança? Muitas vezes já me surpreendi sozinho e sem par, com a música tocando ao fundo e a impressão de que todo mundo dançava, menos eu… Nessas ocasiões, acabei dançando sozinho, Xamã chamativo, chocalhando à procura de um par… Afortunado que sou, algumas pessoas especiais vieram ao meu encontro e enroscamos nossas pernas de maneiras impensáveis, tendo como trilha sonora apenas o ruído das estrelas e constelações mais distantes se afastando de nós a velocidades vertiginosas. Às vezes, só nos acompanhava o sussurro quase imperceptível do nosso satélite enquando orbita nosso planeta, em noite de lua cheia… Em outras ocasiões, várias pessoas me convidaram pra dançar ao mesmo tempo… Sim, tenho dançado acompanhado, com um par ou com um grupo, em diversos momentos da minha vida. Mas o último passo, algum dia, estou certo de que sozinhos haveremos de dá-lo…

E você? Qual o seu passo preferido? Quer dançar comigo, neste momento, enquanto percebemos o som da grama que cresce no jardim?

Pausa para um breve haicai:

a vida me vive…
ela a dançarina
e eu a dança!

Eduardo Leal
Inspirado no livro “O Despertar de uma nova consciência” de Eckhart Tolle
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Assistir Martha Graham em “Lamentation”

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