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Garrafa 516 – Buraco negro existencial   1 comment

De acordo com o resultado de pesquisas científicas disponíveis na Internet, um buraco negro seria uma região do espaço-tempo com matéria maciça e altamente compactada, resultante da deformação espacial decorrente do colapso gravitacional de uma estrela. No coração desse corpo estelar o tempo, conforme o percebemos, pararia de fluir e o espaço simplesmente deixaria de existir. E, teoricamente, nada, nem mesmo um único raio de luz poderia escapar de suas escuras fronteiras conhecidas como horizonte de eventos.

De minha parte, penso também em buracos negros como uma poderosa metáfora para um estado de depressão severa resultante do colapso emocional de uma pessoa. Um estado mental em que ela se vê esmagada pelo peso de emoções e sentimentos negativos que não consegue mais suportar, e do qual sente-se incapaz de escapar.

Há alguns anos atrás, cruzei perigosamente a região próxima ao horizonte de eventos de um buraco negro. No momento em que minha carreira profissional estava no auge, ascendendo a um novo ambiente e ao exato local onde tinha planejado chegar vinte anos atrás, a área de relacionamentos sofria com a recente perda de uma pessoa muito importante e com a reversão de expectativas e a frustração decorrente do comportamento surpreendente de outra criatura que tinha se tornado muito próxima (estava literalmente refém de sua atração gravitacional). A saúde física, emocional e mental foram afetadas e levaram-me a um quadro emocional que, se bem me recordo, foi classificado como depressão moderada. Não cheguei a mergulhar completamente no fundo do buraco negro, mas cheguei muito próximo para sentir uma amostra dos seus efeitos devastadores: sob uma enorme pressão existencial, não era capaz de ver as coisas ao meu redor com um mínimo de clareza e tinha enorme dificuldade de tomar decisões rotineiras simples.

Em 2016, um dos maiores físicos teóricos e destacado estudioso dos buracos negros de todos os tempos, Stephen Hawking declarou que já não pensa que o que quer que seja sugado para dentro de um buraco negro seja completamente destruído.  Ele pensa que poderia haver um caminho para se escapar através de um outro universo…

Também penso assim no caso do buraco negro existencial. Uma vez que nosso  próprio “Universo” não passa de uma percepção que construímos através da filtragem que fazemos com as informações que recebemos por meio de nossos sentidos; e que pessoas diferentes veem “Universos” bem diferentes, mesmo quando colocadas lado a lado na mesma região do espaço; tudo o que precisamos fazer é uma mudança desses filtros mentais e pronto! Entramos em um novo Universo! E isso pode funcionar mesmo quando nos encontramos submetidos a uma pressão emocional esmagadora no fundo de um buraco negro existencial!

No meu caso, a mudança de filtros mentais se deu pela leitura de diversos bons livros sobre psicologia e psicanálise que me caíram nas mãos, pelas conversas instigantes com uma psicoterapeuta que adota a abordagem de Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), e com a descoberta e intensa participação em um curso de Practitioner em Programação Neurolinguística (PNL).

Com o apoio de pessoas queridas que já faziam parte de meu círculo de relacionamentos e com o de outras pessoas especiais que encontrei ao longo do caminho, quando me pus em movimento, empreendi meus melhores esforços com o desejo ardente de sair da região escura em que me vi momentaneamente, e fui capaz de cavalgar a extremidade de um raio de luz que escapou da escuridão, emergindo em uma nova região do espaço.

Naquela ocasião, diante da possibilidade de meu mergulho iminente nas profundezas do buraco negro, observadores externos atentos e bem intencionados eram capazes de perceber meus lamentos, escutando o som da minha voz cada vez mais distorcido pelo Efeito Doppler, enquanto eu ainda encontrava um mínimo de energia para brincar com a métrica de um haicai:

buraaaco neeegro!
fuuugir para não caiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiirrrr…
c    o    m    o         e    s    c    a    a   a   a   p    a    a   a   a   r   r   r   r   r   r?

A solução veio com a compreensão do sábio provérbio indiano que tornou-se um mantra pra mim, depois que o vivenciei:

Nada mudou.
Só eu mudei.
Portanto, tudo mudou!

Esta é a mensagem de encorajamento que envio para todas as pessoas que se encontram na borda de um sombrio horizonte de eventos em qualquer uma das Áreas da Vida, quer seja a do Ambiente Físico, da Saúde, da Carreira, do Desenvolvimento Pessoal, dos Relacionamentos, das Finanças, da Espiritualidade, ou até mesmo na área do Lazer.

Em tempos dessa estupidez chamada de “Baleia Azul” que teria se espalhado pelo mundo a partir de sites localizados na Russia, recuso-me simplesmente a chamar essa atividade de “Jogo”, por propor aos seus participantes a  realização de uma sequencia de 50 atividades, sendo cada uma mais degradante que a outra, incluindo ações de mutilação do próprio corpo e culminando com uma sugestão de suicídio. Escolho agir assim, para não lhe emprestar qualquer caráter lúdico, uma vez que sabemos que as diversas formas de jogo já conhecidas, ou aquelas anunciadas como tal, sejam elas saudáveis ou não, têm o poder de atrair a atenção de jovens e adultos de todas as idades.

Apresento, de acordo com minha própria experiência, uma vez que não sou psicoterapeuta, algumas propostas para se lidar com essa situação ameaçadora: a de captura da atenção de pessoas fragilizadas por um estado depressivo, por parte de verdadeiros criminosos, apenas interessados em exercer o poder de conduzi-las para o fundo de um buraco negro existencial, com o sério risco desse processo culminar com a auto destruição de suas vítimas, se essa situação não for reconhecida e interrompida a tempo pelas próprias vítimas, ou por pessoas presentes no seu ambiente familiar, escolar, pessoal ou de trabalho:

PARA PAIS, EDUCADORES, AMIGOS E COLEGAS DE TRABALHO DE POSSÍVEIS VÍTIMAS:

  1. Procurar conhecer de verdade seus filhos, alunos, amigos e colegas de trabalho, buscando sua companhia com frequência e o estabelecimento de uma conexão genuína;
  2. Buscar ajuda para si próprio, quando for o caso, para evitar ser arrastado para o buraco negro junto com a pessoa que se pretende ajudar;
  3. Durante as diversas conversas, buscar estabelecer formas de comunicação compassiva com foco na escuta com empatia, ao invés de procurar impor a própria opinião;
  4. Incrementar a prática do elogio sincero, o “feedback positivo” que não tem contra-indicações, e reforça a auto-estima de quem o recebe e o reconhece como verdadeiro; e
  5. Buscar o apoio de terapeutas qualificados, ao longo de todo o processo, uma vez que nada substitui sua valiosa orientação.

PARA AS VÍTIMAS DE DEPRESSÃO:

  1.  Buscar estabelecer formas de comunicação compassiva consigo mesmo com foco em uma espécie de investigação apreciativa pessoal para trazer à consciência cada vez mais motivos para reconhecimento e gratidão e não apenas para lamentação;
  2. Buscar o apoio de terapeutas qualificados, ao longo de todo o processo, uma vez que nada substitui sua valiosa orientação.

Isto também pode ser dito de outra maneira, como nos sugeriu Albert Einstein, em um de seus imaginativos experimentos teóricos que o levaram à descoberta da Teoria da Relatividade:

Desenvolver a capacidade de, mentalmente, colocar-nos na extremidade de um intrépido raio de luz, e apreciar o Universo a partir dessa nova perspectiva!

Eduardo Leal
Ilustrações de autores desconhecidos

Buraco NegroEspiral colorida

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Garrafa 454 – Alma vazia   Leave a comment

Há alguns dias atrás caí em uma armadilha. Uma armadilha do Ego.

Empolgado com meu próprio interesse pela poesia, e pela rima fácil, declarei meu amor de maneira discriminatória, com certo desprezo por quem não compartilha minhas preferências estéticas. Disse, e me arrependo de tê-lo feito, que: “quem não curte poesia me dá azia”.

Desde o início, senti uma certa náusea sim, um desconforto difuso… Mas agora estou certo de que foram causados pela minha própria atitude de pretensiosa superioridade. A leitura do texto atribuído a Mooji, que transcrevo abaixo, me fez refletir:

Se você acha que é mais “espiritual” andar de bicicleta ou usar transporte público para se locomover, tudo bem, mas se você julgar qualquer outra pessoa que dirige um carro, então você está preso em uma armadilha do ego.
Se você acha que é mais “espiritual” não ver televisão porque fode com o seu cérebro, tudo bem, mas se julgar aqueles que ainda assistem, então você está preso em uma armadilha do ego.
Se você acha que é mais “espiritual” evitar saber de fofocas ou noticias da mídia , mas se encontra julgando aqueles que leem essas coisas, então você está preso em uma armadilha do ego.
Se você acha que é mais “espiritual” fazer Yoga, se tornar vegano, comprar só comidas orgânicas, comprar cristais, praticar reiki, meditar, usar roupas “hippies”, visitar templos, e ler livros sobre iluminação espiritual, mas julgar qualquer pessoa que não faça isso, então você está preso em uma armadilha do ego.
Sempre esteja consciente ao se sentir superior. A noção de que você é superior é a maior indicação de que você está em uma armadilha egóica. O ego adora entrar pela porta de trás. Ele vai pegar uma ideia nobre, como começar yoga, e então distorce-la para servir o seu objetivo ao fazer você se sentir superior aos outros; você começará a menosprezar aqueles que não estão seguindo o seu “caminho espiritual certo”.
Superioridade, julgamento e condenação. Essas são armadilhas do ego.(Mooji)

É isso. A azia causada pela minha atitude, por minha própria alma momentaneamente vazia, me fez tomar um sal de frutas de verdade. Já me sinto melhor agora…

E fui depressa buscar outra rima, outra forma benigna de expressar minha preferência pela poesia. E fui também ao encalço de outra imagem para complementar a nova ideia. E encontrei na foto de uma bela mulher de nome poético, a Patrícia Poeta, quem sabe um incentivo saudável e bem humorado para alguém considerar a possibilidade de passar a apreciar a poesia. E sei que corro o risco de desagradar uma parcela do público feminino e, quem sabe, de parcela do público homossexual… Do público masculino não creio. Paciência, são as minhas preferências afinal.

E o novo haicai ficou assim:

alma vazia,
quem não curte poesia,
bem que podia…

Eduardo Leal
Fotos de autores desconhecidos

Garrafa 423 – Falo, porque ainda não sei…   Leave a comment

Tenho um pequeno grupo de bons amigos e amigas (e acho que cabem todos numa van) que leem, e às vezes também comentam e compartilham os posts publicados neste Blog. Essas criaturas gentis também se dão ao trabalho de visualizar as fotos e ler os textos que são reproduzidos em minhas páginas nas redes sociais, ou que são divulgados em outros Blogs que mantenho em atividade. Trazem, sempre, novos desafios com seus questionamentos e contribuições, para que eu busque maior clareza na exposição de ideias, quer sejam das poucas que são de minha própria lavra, ou daquela grande maioria que não foi parida por mim mesmo, e sim adotada como valiosa e verdadeira, até prova em contrário.

Os temas do desenvolvimento de consciência e da espiritualidade têm sido aqui frequentemente abordados, por estarem no centro da minha área de interesse, e julgo oportuno reconhecer, desde já, minha total incompetência diante desse enorme desafio.

O salto quântico do nível de desenvolvimento de consciência da Mente (onde se encontra a maioria de nós) para o nível da Alma (onde poucos estiveram por breves períodos, e muito poucos por lá permanecem por temporadas mais prolongadas) é uma experiência individual. É vivenciada sem a interferência ou participação de intermediários, sejam eles padres, pastores, rabinos, aiatolás, gurus, monges, coaches ou consultores. O caminho que leva até a borda do precipício onde esse salto deve ser dado é único. E há tantos caminhos quantos indivíduos existem neste nosso pequeno planeta azul. Mesmo quando duas pessoas parecem caminhar lado a lado, durante algum tempo, seus caminhos são distintos. A senda é estreita como o fio da navalha, para utilizar uma imagem cara aos mestres Zen. E lá chegando, seja que caminho individual tenha sido percorrido e aonde quer que ele tenha levado cada um, é preciso saltar da borda do penhasco no grande Vazio! Sentir essa vertigem!

Além disso, como o nível da Alma transcende e inclui o nível da Mente e, portanto, está além da razão, além da lógica, em contato apenas com a fonte da nossa sabedoria intuitiva, qualquer tentativa de expressar essa experiência em palavras, depois de vivenciá-la, estará fadada ao fracasso. Nosso falatório e escrita serão apenas tímidas tentativas de explicar o inexplicável.

As escrituras Védicas, de milênios atrás, são sábias ao declarar que “Aqueles que sabem, não falam. Os que falam, não sabem”.

E revelador foi o sermão silencioso de Buda, apresentando à sua audiência, por entre os dedos, uma simples flor de cor branca, cujo significado foi percebido apenas por seu discípulo Mahakasyapa.

Com todo respeito por todo esse falatório e suas correspondentes transcrições e publicações em diversas escrituras, de todos os matizes, origens e tendências (várias vezes transcritas neste Blog e posts correspondentes), todo o material disponível sobre esses temas – desenvolvimento de consciência/espiritualidade – pode servir no máximo como um tipo de sinal ou indicação. Uma sinalização que aponta para essa Verdade que pode ser apenas percebida por aqueles que estão prontos e preparados para recebe-la. Verdade essa que também será sempre interpretada no próprio nível de consciência daqueles que vivenciarem essa experiência.

Conforme sugerido nas sábias palavras proferidas pelo Mestre Doogen, que ecoam para nós do fundo do precipício, desde o século XIII, “O dedo que aponta para a lua, não é a lua”. É preciso ver a lua! Olhar na direção indicada pelo dedo, e não para o próprio dedo!

É preciso ver a lua!

E, nesta fase de lua minguante, em que ver a lua se torna uma tarefa sempre um pouco mais desafiadora, situação agravada pelo prenúncio da continuação de um período chuvoso e nublado, em nossa bela cidade do Rio de Janeiro, resta-me apenas brincar com a sabedoria das palavras milenares, usando a métrica do haicai:

não sabe, quem fala.
mas, aquele que sabe,
não fala, cala…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido e
Ilustração de Tsukioka Yoshitoshi – One Hundred Views of the Moon “Moon of Enlightenment”

Lua minguante

O dedo que aponta para a lua

Garrafa 422 – Na casca de noz   4 comments

Sempre fiquei intrigado com a semelhança de uma noz, dentro de sua casca, com imagem que temos da estrutura do cérebro dentro do crânio. Aberta a casca, vemos uma miniatura dos hemisférios direito e esquerdo, e até uma estrutura fina e marrom que faz as vezes do corpo caloso…

Acessando minhas memórias afetivas a respeito, desde a infância, lembro-me bem das épocas natalinas e festivas, do sabor meio amargo da noz e do trabalho que dava para abrir aquela casca, de preferência sem lhe causar maiores danos no processo, para que pudesse ser utilizada como pequena embarcação lançada nas enxurradas que se formavam na minha rua, depois de cada chuva de verão.

Na última semana, instigado por uma ótima palestra a que assisti sobre física quântica e espiritualidade, ministrada pelo Professor Helio Daldegan, voltei a consultar algumas obras que já tinha lido do famoso físico Stephen Hawking (“Uma Breve História do Tempo” e “O Universo numa Casca de Noz”). Nesse último livro, uma citação de Hamlet (Ato 2, Cena 2) de Shakespeare foi usada para ilustrar a capacidade e liberdade de nossa mente para, apesar de nossas limitações físicas, explorar todo o universo em busca de compreensão e entendimento:

“Eu poderia viver recluso numa casca de noz e me considerar rei do espaço infinito…”

E vi apresentada novamente, ao longo do seu Capitulo 3, a maneira de pensar a mecânica quântica de Richard Feynman que o levou a ganhar o Nobel de Física em 1965, de que as partículas se deslocam de um local para outro ao longo de todas as trajetórias possíveis no espaço-tempo. Para cada trajetória Feynman associou dois números, um para o tamanho de onda (amplitude) e outro para a fase (crista ou vale) e a probabilidade de uma partícula passar de um ponto A para um ponto B é encontrada somando-se as ondas associadas a cada trajetória possível que passe por A e B. Para objetos grandes, como constatamos no dia-a-dia, em que observamos que os objetos seguem uma única trajetória entre sua origem e seu destino final, isso também está de acordo com a ideia de histórias múltiplas de Feynman porque a aplicação da regra assegura que todas as trajetórias, exceto uma, anulam-se quando suas contribuições se combinam.

Pude constatar nessa leitura instigante que, apesar das teorias científicas modernas terem avançado enormemente no último século, seu viés materialista insiste em apenas considerar ou privilegiar como sua fronteira final o Cosmos (a realidade objetiva das três dimensões do espaço e o tempo revelada principalmente através dos cinco sentidos ou ampliada por equipamentos que estendem nossa percepção), desprezando a realidade subjetiva ligada às dimensões consciente e inconsciente individual e coletiva.

Entretanto, conclusões perturbadoras vindas dos próprios desdobramentos da mecânica quântica, apontam para a importância e interferência causada por um observador dotado de consciência, nos resultados de uma determinada observação de uma partícula elementar. A Superposição Quântica é um princípio fundamental que afirma que um sistema físico (como um elétron) existe parcialmente em todos os estados teoricamente possíveis simultaneamente antes de ser medido. Porém, quando medido ou observado, o sistema se mostra em um único estado.

Felizmente, encontro em minha própria biblioteca pessoal, refúgio e um contraponto a essa postura materialista e incompleta. Em seu livro “Espiritualidade Integral”, o filósofo Ken Wilber nos propõe uma elegante estrutura teórica (Modelo Integral) para organizar o mundo e suas atividades em cinco categorias simples que são, ao mesmo tempo, aspectos de nossa própria experiência: os Quadrantes, Níveis, Linhas, Estados e Tipos. Essa abordagem nos ajuda a ver a nós mesmos e o mundo que nos cerca de um modo mais abrangente que inclui as realidades objetivas (Cosmos) e subjetivas, individuais e coletivas e que estão associadas a um conceito mais abrangente de Kosmos, palavra grega que significa o Todo padronizado de toda a existência, incluindo os reinos físico, emocional, mental e espiritual.

Quando analisamos qualquer situação com o apoio dos quatro Quadrantes propostos por Wilber, podemos perceber como qualquer evento Físico – Matéria/Energia (do quadrante superior direito) representa apenas um quarto da história. E que as dimensões da Consciência (do quadrante superior esquerdo) com nossas emoções, estados psicológicos, imaginação e intenções; da Cultura (do quadrante inferior esquerdo) com nossos valores culturais, religiosos e visão de mundo comuns e dos Sistemas Sociais (quadrante inferior direito) com nossas estruturas materiais, sociais e econômicas surgem simultaneamente à ocorrência desse evento e interagem entre si. E podemos perceber também como esses Quadrantes se desdobram em Níveis de Consciência, Linhas de Desenvolvimento (Inteligências Múltiplas), Estados de Consciência e Tipos.

Em nossa trajetória de elevação do nosso Nível de Consciência, por exemplo, de acordo com o Modelo da Espiral Dinâmica de Don Beck e Christopher Cowan, baseado no trabalho pioneiro de Clare Graves, o mecanismo chave é “transcender e incluir”. O nível de cima “transcende e inclui” o nível precedente e, como menciona Wilber em “Uma Teoria de Tudo”, trazendo novas capacidades e ao mesmo tempo a possibilidade de novos desastres; não só novos potenciais, mas também novas patologias; novas forças e novas doenças…

Em uma visão com pouca granulação do processo evolutivo, constatamos que da Matéria, em algum momento surgiu um Corpo que a transcendeu (possui vida) e a incluiu; e esse mesmo Corpo, em algum momento desenvolveu uma Mente que o transcendeu (capaz de ter consciência de si mesma) e o incluiu…

Assumindo que o impulso evolutivo ainda nos move, estamos, portanto, em um momento em que temos a possibilidade de transcender a Mente e de elevar ainda mais o nosso Nível de Consciência despertando a nossa Alma (que inclui a Mente, o Corpo e a Matéria). Isso, em busca de também transcende-la em algum momento em direção ao que podemos chamar de Espírito. Quando nos permitimos, em nossa prática meditativa, mergulhar no espaço silencioso entre dois pensamentos, temos a oportunidade de deixar que a Mente, levando com ela nosso cérebro/casca de noz, flua mansamente para sua foz, no grande lago da Alma, e que ela, também por sua vez, se conecte ao grande oceano do Espírito.

Depois de um dia inteiro de trabalho e leituras, durante uma pausa na varanda com o olhar perdido na copa das árvores da pracinha, a brisa da tarde sopra ao meu ouvido esse breve haicai:

na casca de noz,
nos ecos da Tua voz,
do rio, a foz…

Eduardo Leal
Fotos de autores desconhecidos, uma delas adaptada com texto complementar (Quadrantes) por Eduardo Leal
Intruções de utilização: Ouvir “Awakening” com Spyro Gyra

Casca de nozQuadrantes Ken Wilber 3

Garrafa 356 – Pensamento são   1 comment

Há alguns anos atrás, explorando uma ferramenta desenvolvida pelo Instituto Gallup – o Teste de Pontos Fortes – descobri que um dos meus talentos dominantes é a Intelecção. Gosto de pensar. Gosto de atividade mental. E essa atividade mental pode ser focada, direcionada por meus outros talentos dominantes, ou desprovida de foco. Gosto do tempo que passo sozinho porque é meu momento de concentração e introspecção. Em diversos momentos, sou minha melhor companhia, fazendo a mim mesmo diversas perguntas e buscando respostas que façam sentido. Esse rumor mental é uma constante em minha vida.

Uma vez que meu primeiro talento é ser Estudioso, o foco do meu pensamento tem sido direcionado aos processos de aprendizado e envolvimento com várias experiências de participação em cursos de graduação, pós-graduação e outros tipos de cursos livres e de autodesenvolvimento. A Psicologia, o Coaching, a Filosofia, a Poesia e a Espiritualidade têm sido interesses constantes e é aí que mora o problema. Minha curiosidade filosófica me levou a conhecer mais a respeito da filosofia budista, mais especialmente sobre o Zen-budismo. Hoje considero que minha prática espiritual se resume à meditação sentado (zazen), sem nenhum “verniz religioso” budista, caminho que escolhi para elevar o meu nível de consciência.

E por que isso poderia se tornar um problema? Acontece que todos escritos Zen apontam para a necessidade de se silenciar a mente e o pensamento, para o desenvolvimento de uma não-mente. Desde Buda, na Índia (atual Nepal) do século IV AC, as escolas Ninaiana e Maaiana na Índia, os “patriarcas” na China, a partir de Bodhidarma, entre os séculos I e VI DC, e com a chegada do Zen ao Japão a partir do século VI, as escolas Shingon e Tendai no século XI DC, o Budismo de Kamakura entre os séculos XII e XIII DC, as escolas Zen-Budistas Soto (Dogen) e Rinzai (Eisai), chegando aos mestres e estudiosos orientais (Suzuki) e ocidentais todos batem na mesma tecla: silenciar a mente e o pensamento. Sacaram?

Nas ultimas semanas, li novamente o ótimo livro de Charlotte Joko Beck “Sempre Zen” – sobre como introduzir a prática do Zen no seu dia a dia – e iniciei a leitura de “Zen no Trabalho” – sobre a experiência empresarial de um mestre Zen – de Les Kaye. Isso é claro, disparou uma série de consultas a outras obras que constam da minha pequena biblioteca tais como “A Lua numa Gota de Orvalho” – com os escritos do Mestre Dogen – organizado por Kazuaki Tanahashi, “Textos Budistas e Zen-Budistas” organizado por Ricardo M. Gonçalves, “A Tigela e o Bastão” – com 120 contos Zen – narrados pelo mestre Taisen Deshimaru, “A Doutrina Zen da Não-Mente” e “Manual of Zen Buddhism” de D. T. Suzuki e “How to Practice Zazen” do Institute for Zen Studies.

Transcrevo abaixo algumas citações que ficam dando voltas na minha mente:

Há um Real, um Absoluto inacessível ao pensamento e à linguagem que está em todas as coisas e também dentro delas. O Tathata (aquilo que é assim mesmo) ou Sunyata (Vazio). No Budismo é expresso dialeticamente como o contínuo vir-a-ser, a perpétua transformação de todas as coisas. (Verdades metafísicas apresentadas pelo Budismo e pelo Hinduísmo)

– A mente é senhora dos cinco sentidos. Por isso deveis disciplinar vossa mente. A mente é mais perigosa que uma cobra venenosa, uma fera ou um salteador. É como uma pessoa que, entretida com o mel que transporta em suas mãos, não enxerga um buraco e cai nele. Se deixardes vossa mente entregue a si mesma, perdereis as boas coisas. Se a vigiardes, tudo correrá bem. Por isso, ó monges, deveis vos esforçar e dominar vossa mente. (Butsuyuikyô-gyô – O último sermão de Buda)

– Ó monges, todo aquele que tem uma intenção firme, conserva sua mente em estado de concentração. Por isso, ele sabe os Darmas do nascimento e da dissolução do mundo. Por isso, deveis vos esforçar e praticar as diversas concentrações. Aquele que consegue praticar a concentração não tem uma mente dispersiva. É como aquele que economiza água e a guarda com cuidado. O praticante exercita-se na concentração, a fim de bem guardar a água da Sabedoria. (Butsuyuikyô-gyô – O último sermão de Buda)

– Por isso, ó Sariputra, sendo todas as coisas vazias de substância própria, não há fenômenos materiais, não há sensações, não há ideias, não há vontade e não há consciência. Não há olhos, não há ouvidos, não há nariz, não há língua, não há corpo, não há mente, não há forma, não há ruído, não há cheiro, não há gosto, não há coisa palpável nem coisa perceptível através da mente. Nada há, desde a esfera de influência da vista até a esfera de influência da mente.

– … nós seres humanos, não somos como os cães. Temos mentes centradas em si mesmas que nos remetem a muitos problemas. Se não entendermos o equivoco da nossa forma de pensar, nossa autopercepção, que é nossa maior benção, torna-se também nossa perdição. (Iniciando a prática Zen – em “Sempre Zen”)

– A iluminação não é algo que se atinge. É a ausência de alguma coisa. A vida inteira, a pessoa vai atrás de algo, perseguindo suas metas. A iluminação está em deixar tudo isso de lado. (Iniciando a prática Zen – em “Sempre Zen”)

– Nossa prática é, de momento a momento, como uma escolha, uma encruzilhada no caminho: podemos ir por aqui ou por ali. É sempre uma escolha, a cada momento, entre o belo mundo que desejamos criar em nossas mentes, e aquilo que de fato existe. (Iniciando a prática Zen – em “Sempre Zen”)

Enfrentar a tensão provocada pela oposição entre minha tendência a viver no mundo mental e minha prática espiritual que me leva a buscar silenciar a mente e o pensamento, tem sido um desafio quase insuportável. Ainda mais quando tenho que conciliar tudo isso com o meu próprio Autocoaching, revendo meu Plano de Vida para 2013, e a realização de diversas sessões de Coaching Centrado em Valores em que meu papel é o de orientar meus Exploradores de Novas Possibilidades de Futuro a direcionar seus desejos e seus egos, no sentido de estabelecimento de seus próprios objetivos e metas, estratégias e indicadores de desempenho.

Aliás, Pensamento Estratégico é outro de meus talentos dominantes e tem me capacitado a abrir caminho em meio à desordem e encontrar a melhor rota. Às vezes consigo perceber padrões, onde outros veem simplesmente complexidade. Vivo às voltas com o estabelecimento de cenários alternativos e me perguntando: “E se isso acontecesse?” É com base nesse tipo de pensamento que estabeleço minhas estratégias e assessoro meus clientes de consultoria.

Enfim, vivo no fio da navalha. Pensar ou não pensar é a questão! E às vezes me questiono: Será que, ao contrário do que dizem os Zen-budistas, não passa pela minha cabeça pelo menos um pensamento são?

Hoje cedo, na pracinha em que me encontrava pensativo, ao mesmo tempo em que o ruído produzido pelos fiéis que saíam de uma igreja evangélica quebrou o silêncio da manhã, um sopro de vento me sussurrou ao ouvido:

do jeito que são,
confiar que as coisas
são o que são…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Cosmic mind affair” com Acqua Fragile

Zazen

Garrafa 228 – Uma janela aberta   Leave a comment

espiritual
uma janela aberta
a luz no cristal

Eduardo Leal
Fotode autor desconhecido

Publicado 29/04/2011 por Eduardo Leal em Fotografias, Haicai, Haikai, Haiku

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Garrafa 218 – As Quatro Leis da Espiritualidade   1 comment

Na Índia, são ensinadas “As Quatro Leis da Espiritualidade”:

A primeira diz:

“A pessoa que vem é a pessoa certa”

Ninguém entra em nossas vidas por acaso e há algo para aprender e avançar em cada situação, com todas e cada uma das pessoas ao nosso redor.

A segunda lei diz:

“O que aconteceu? A única coisa que poderia ter acontecido”

Nada, absolutamente nada do que acontece em nossas vidas poderia ter sido de outra forma. Mesmo o menor detalhe. Não há nenhum “se eu tivesse feito tal coisa …”. Não! O que aconteceu foi tudo o que poderia ter acontecido. Aconteceu para aprendermos uma lição e seguirmos em frente. Todas e cada uma das situações que acontecem em nossas vidas são perfeitas. E fazemos sempre as melhores escolhas, de acordo como o nosso nível de desenvolvimento de consciência no momento.

A terceira diz:

“Toda vez que você iniciar é o momento certo”

Tudo começa na hora certa, nem antes nem depois. É quando estamos prontos para iniciar algo novo em nossas vidas, que as coisas acontecem.

E a quarta e última:

“Quando algo termina, ele termina”

Simplesmente assim. Se algo acabou em nossas vidas é para a nossa evolução, por isso é melhor sair, seguir em frente e aprender com essa experiência.

Nosso maior desafio, de acordo com o nosso próprio nível de desenvolvimento de consciência, é incorporar e viver essas crenças no nosso dia a dia.

Penso que a “Pergunta de Aprendizado” pode nos ajudar nessa tarefa desafiadora:

O que escolho fazer diferente, na próxima vez?

Foto NASA – Star-Birth Clouds in M16

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