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Garrafa 516 – Buraco negro existencial   1 comment

De acordo com o resultado de pesquisas científicas disponíveis na Internet, um buraco negro seria uma região do espaço-tempo com matéria maciça e altamente compactada, resultante da deformação espacial decorrente do colapso gravitacional de uma estrela. No coração desse corpo estelar o tempo, conforme o percebemos, pararia de fluir e o espaço simplesmente deixaria de existir. E, teoricamente, nada, nem mesmo um único raio de luz poderia escapar de suas escuras fronteiras conhecidas como horizonte de eventos.

De minha parte, penso também em buracos negros como uma poderosa metáfora para um estado de depressão severa resultante do colapso emocional de uma pessoa. Um estado mental em que ela se vê esmagada pelo peso de emoções e sentimentos negativos que não consegue mais suportar, e do qual sente-se incapaz de escapar.

Há alguns anos atrás, cruzei perigosamente a região próxima ao horizonte de eventos de um buraco negro. No momento em que minha carreira profissional estava no auge, ascendendo a um novo ambiente e ao exato local onde tinha planejado chegar vinte anos atrás, a área de relacionamentos sofria com a recente perda de uma pessoa muito importante e com a reversão de expectativas e a frustração decorrente do comportamento surpreendente de outra criatura que tinha se tornado muito próxima (estava literalmente refém de sua atração gravitacional). A saúde física, emocional e mental foram afetadas e levaram-me a um quadro emocional que, se bem me recordo, foi classificado como depressão moderada. Não cheguei a mergulhar completamente no fundo do buraco negro, mas cheguei muito próximo para sentir uma amostra dos seus efeitos devastadores: sob uma enorme pressão existencial, não era capaz de ver as coisas ao meu redor com um mínimo de clareza e tinha enorme dificuldade de tomar decisões rotineiras simples.

Em 2016, um dos maiores físicos teóricos e destacado estudioso dos buracos negros de todos os tempos, Stephen Hawking declarou que já não pensa que o que quer que seja sugado para dentro de um buraco negro seja completamente destruído.  Ele pensa que poderia haver um caminho para se escapar através de um outro universo…

Também penso assim no caso do buraco negro existencial. Uma vez que nosso  próprio “Universo” não passa de uma percepção que construímos através da filtragem que fazemos com as informações que recebemos por meio de nossos sentidos; e que pessoas diferentes veem “Universos” bem diferentes, mesmo quando colocadas lado a lado na mesma região do espaço; tudo o que precisamos fazer é uma mudança desses filtros mentais e pronto! Entramos em um novo Universo! E isso pode funcionar mesmo quando nos encontramos submetidos a uma pressão emocional esmagadora no fundo de um buraco negro existencial!

No meu caso, a mudança de filtros mentais se deu pela leitura de diversos bons livros sobre psicologia e psicanálise que me caíram nas mãos, pelas conversas instigantes com uma psicoterapeuta que adota a abordagem de Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), e com a descoberta e intensa participação em um curso de Practitioner em Programação Neurolinguística (PNL).

Com o apoio de pessoas queridas que já faziam parte de meu círculo de relacionamentos e com o de outras pessoas especiais que encontrei ao longo do caminho, quando me pus em movimento, empreendi meus melhores esforços com o desejo ardente de sair da região escura em que me vi momentaneamente, e fui capaz de cavalgar a extremidade de um raio de luz que escapou da escuridão, emergindo em uma nova região do espaço.

Naquela ocasião, diante da possibilidade de meu mergulho iminente nas profundezas do buraco negro, observadores externos atentos e bem intencionados eram capazes de perceber meus lamentos, escutando o som da minha voz cada vez mais distorcido pelo Efeito Doppler, enquanto eu ainda encontrava um mínimo de energia para brincar com a métrica de um haicai:

buraaaco neeegro!
fuuugir para não caiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiirrrr…
c    o    m    o         e    s    c    a    a   a   a   p    a    a   a   a   r   r   r   r   r   r?

A solução veio com a compreensão do sábio provérbio indiano que tornou-se um mantra pra mim, depois que o vivenciei:

Nada mudou.
Só eu mudei.
Portanto, tudo mudou!

Esta é a mensagem de encorajamento que envio para todas as pessoas que se encontram na borda de um sombrio horizonte de eventos em qualquer uma das Áreas da Vida, quer seja a do Ambiente Físico, da Saúde, da Carreira, do Desenvolvimento Pessoal, dos Relacionamentos, das Finanças, da Espiritualidade, ou até mesmo na área do Lazer.

Em tempos dessa estupidez chamada de “Baleia Azul” que teria se espalhado pelo mundo a partir de sites localizados na Russia, recuso-me simplesmente a chamar essa atividade de “Jogo”, por propor aos seus participantes a  realização de uma sequencia de 50 atividades, sendo cada uma mais degradante que a outra, incluindo ações de mutilação do próprio corpo e culminando com uma sugestão de suicídio. Escolho agir assim, para não lhe emprestar qualquer caráter lúdico, uma vez que sabemos que as diversas formas de jogo já conhecidas, ou aquelas anunciadas como tal, sejam elas saudáveis ou não, têm o poder de atrair a atenção de jovens e adultos de todas as idades.

Apresento, de acordo com minha própria experiência, uma vez que não sou psicoterapeuta, algumas propostas para se lidar com essa situação ameaçadora: a de captura da atenção de pessoas fragilizadas por um estado depressivo, por parte de verdadeiros criminosos, apenas interessados em exercer o poder de conduzi-las para o fundo de um buraco negro existencial, com o sério risco desse processo culminar com a auto destruição de suas vítimas, se essa situação não for reconhecida e interrompida a tempo pelas próprias vítimas, ou por pessoas presentes no seu ambiente familiar, escolar, pessoal ou de trabalho:

PARA PAIS, EDUCADORES, AMIGOS E COLEGAS DE TRABALHO DE POSSÍVEIS VÍTIMAS:

  1. Procurar conhecer de verdade seus filhos, alunos, amigos e colegas de trabalho, buscando sua companhia com frequência e o estabelecimento de uma conexão genuína;
  2. Buscar ajuda para si próprio, quando for o caso, para evitar ser arrastado para o buraco negro junto com a pessoa que se pretende ajudar;
  3. Durante as diversas conversas, buscar estabelecer formas de comunicação compassiva com foco na escuta com empatia, ao invés de procurar impor a própria opinião;
  4. Incrementar a prática do elogio sincero, o “feedback positivo” que não tem contra-indicações, e reforça a auto-estima de quem o recebe e o reconhece como verdadeiro; e
  5. Buscar o apoio de terapeutas qualificados, ao longo de todo o processo, uma vez que nada substitui sua valiosa orientação.

PARA AS VÍTIMAS DE DEPRESSÃO:

  1.  Buscar estabelecer formas de comunicação compassiva consigo mesmo com foco em uma espécie de investigação apreciativa pessoal para trazer à consciência cada vez mais motivos para reconhecimento e gratidão e não apenas para lamentação;
  2. Buscar o apoio de terapeutas qualificados, ao longo de todo o processo, uma vez que nada substitui sua valiosa orientação.

Isto também pode ser dito de outra maneira, como nos sugeriu Albert Einstein, em um de seus imaginativos experimentos teóricos que o levaram à descoberta da Teoria da Relatividade:

Desenvolver a capacidade de, mentalmente, colocar-nos na extremidade de um intrépido raio de luz, e apreciar o Universo a partir dessa nova perspectiva!

Eduardo Leal
Ilustrações de autores desconhecidos

Buraco NegroEspiral colorida

Garrafa 354 – Hoje, só maquiagem!   3 comments

Da mesma maneira que procuro adotar uma dieta alimentar saudável, faço também uma dieta de notícias.

Por trás dessa atitude está a crença de que muitas coisas boas também estão acontecendo, ao mesmo tempo em que imagens e textos sobre catástrofes, tragédias e desgraças nos alcançam, com a velocidade da Internet. Prefiro colocar o foco da atenção em um jardim florido, ao invés de mantê-lo na lata de lixo, que é a dieta sugerida pelos meios de comunicação.

Mesmo assim, não passo incólume pelas principais manchetes e pelas imagens que capturam minha atenção no noticiário diário.

Nos últimos dias, o mais recente massacre na escola americana de Newtown, praticado por um jovem fora de si e armado pelas legislações federal e estadual, ambas do tempo e ao estilo do velho oeste americano, foi o que me entristeceu e provocou reflexão.

As imagens que mais me tocaram, foram as das crianças que sobreviveram, conduzidas e amparadas pelos professores, pais e policiais, chorando a perda de seus amigos e colegas, brutalmente assassinados há poucos instantes atrás. Foram capturadas pelas câmeras de fotógrafos profissionais e amadores ainda trêmulas, pela consciência do risco que correram de encontrar o mesmo triste destino de seus companheiros e com seu choro, ora convulsivo ora contido, emoldurado por uma expressão de confusão e perplexidade.

Esses meninos e meninas deveriam estar sorrindo agora, os que sobreviveram e os que se foram, permanentemente encorajados, amados e estimulados por seus pais, em suas casas, e pelos professores e professoras, na sua escola. E mais ainda por todos nós, os integrantes de nossa aldeia cada vez mais global, em cada oportunidade que aproveitamos ao avistar ou encontrar com uma criança ou com um jovem, em cada uma de nossas instituições e organizações, formais e informais, de maneira presencial ou virtual.

Quando penso em um ambiente de aprendizado saudável, para crianças e jovens de todas as idades, sempre me vem à mente uma atmosfera “quase circense” em que o bom humor e a alegria andam juntos com o trato de temas importantes. Algum tipo de “Cirque du Soleil acadêmico”. Um ambiente em que os limites do picadeiro e da vida se interpenetram e onde o risco do trapezista está sempre presente, mas, ao mesmo tempo, é enfrentado com competência, beleza e coragem. Sinto que, no melhor estilo Patch Adams, acreditando que a amizade é o melhor remédio, todos nós educadores, formais ou não, podemos incorporar em algum momento, de maneira amorosa, o papel do bom palhaço, com ou sem maquiagem, de modo a tornar o aprendizado mais lúdico e divertido, mas nem por isso menos verdadeiro e profundo. Um ambiente em que as regras são as da “Escuta com Empatia”, das “Perguntas Poderosas”, do “Feedback Positivo”, sempre e muito e, quando necessário, o uso do “Feedback Construtivo”.

As motivações para esse crime ainda permanecem obscuras e pode ser que nunca venham a ser esclarecidas completamente… Mas algumas perguntas me assaltam:

Independentemente de problemas no “hardware” ou estrutura de consciência desse jovem assassino, de problemas de desequilíbrio químico ou hormonal, como terá se desenvolvido o seu “software” ou nível de consciência? Que ambiente e condições de vida lhe foram oferecidos para o propósito de um desenvolvimento saudável?

Que tipos de exemplos ele terá modelado? A que tipo de influências terá sido submetido de maneira constante?

Terá sido ele permanentemente encorajado, amado e estimulado por seus pais, em sua casa, e pelos professores e professoras, na sua escola? Terá sido escutado com empatia?

E, mais ainda, como ele foi tratado por todos nós, os integrantes de nossa aldeia cada vez mais global, em cada oportunidade que aproveitamos ou deixamos de aproveitar ao avistá-lo ou encontrá-lo, em cada uma de nossas instituições e organizações, formais e informais, de maneira presencial ou virtual?

Imaginar as respostas mais prováveis para cada uma dessas perguntas me entristece. Meu bom humor habitual se recolhe e meu palhaço interior, com maquiagem e tudo, chora silenciosamente.

Pausa para um breve haicai:

triste miragem…
sorriso no rosto… ah!
só maquiagem!

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Tears of a Clown” na voz de Udo Dirkschneider do U.D.O.

sorriso maquiado

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