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Garrafa 522 – Diagnóstico   Leave a comment

Ele sempre teve muito boa saúde.

Subiu em muros, em árvores, soltou pipa no telhado e explorou os terrenos baldios da vizinhança em companhia de seus amigos de infância. Morou em muitas casas diferentes, ao invés de viver encerrado em apartamentos. Praticante de alguns esportes radicais como artes marciais e escalada, passou pela juventude com peso proporcional à altura, indicador que se mantém assim até hoje. Há muito tempo realiza caminhadas diárias, se alimenta de maneira balanceada, pratica a meditação mais de uma vez por dia e, talvez, o item mais importante de sua rotina: procura estabelecer e manter apenas relacionamentos que considera saudáveis.

Há mais de quinze anos, quando encerrou uma carreira bem sucedida de mais de trinta anos e iniciou outras tantas, que seus dias transcorrem mais ou menos assim, como descrito nessa postagem de um bom amigo e confidente, feita há alguns anos atrás: Poesia do cotidiano.

Tudo isso contribuiu para que as enfermidades sempre passassem ao largo. Até agora, nenhuma passagem por salas de cirurgia também.

Isso, até que um dia, em um exame de rotina, surge algo que parece ameaçador e que merece ser investigado mais detalhadamente. O que poderia ter contribuído para uma baixa no sistema imunológico e o surgimento de problemas, apesar de uma rotina aparentemente saudável?

Bem, desde o ano passado dois bons amigos se foram, depois de um diagnóstico ameaçador e a batalha final perdida para o mesmo tipo de doença. Ótimos companheiros de trabalho e de vida, ele sente muita falta das boas conversas que mantinham, sempre que se encontravam ou falavam pelo telefone. Uma pessoa da família muito querida também se foi, essa de maneira mais esperada depois de uma longa e amorosa rotina de cuidados pelos familiares mais próximos, que se revezaram ao seu lado até o ultimo momento. Três luzes brilhantes que amenizavam a escuridão da noite e de repente se apagaram, e o comparecimento a três dolorosas cerimonias de sepultamento. E, é claro, sua companheira de vida também recebeu um diagnóstico parecido com o seu há mais tempo, o que tem inspirado acompanhamento e cuidados especiais.

Todas essas questões são mais pessoais, sem falar do ambiente mais amplo, da crise de inversão de valores por que passa a nossa sociedade e da calamitosa situação de corrupção das “lideranças” do país, contexto que será herdado pelos seus filhos e netos quando ele se for, e que o enchem de vergonha e revolta a cada dia que passa, apesar da rigorosa dieta de notícias a que se submete regularmente. Revolta e vergonha podem contribuir para o surgimento de doenças? Pode apostar que sim!

Pode ser tudo isso, algo disso, ou nada disso. Quem sabe seja apenas a programação dos genes na herança recebida pelo DNA dos seus antepassados, que contenha alguma rotina destrambelhada que tenha sido disparada pelas condições atuais.

Uma pesquisa na Internet, para o bem e para o mal, quando se busca com certas palavras-chave de um laudo de tomografia computadorizada pode trazer como resposta coisas muito curiosas tais como tabelas de expectativa de vida, caso se confirme determinado diagnóstico. Huummm, três ou quatro anos apenas? Quem sabe?

Bem, primeiro o diagnóstico tem que ser confirmado, com muitos exames complementares.

Enquanto isso, buscando em todas as ocasiões manter alta intensidade e baixo apego, valem os ensinamentos de um velho e sábio professor, que também já nos deixou, que se ajustam a qualquer situação:

Entregar, confiar, aceitar e agradecer. (ao, no, o que vier do, e ao Universo)

Afinal, acreditando que o amor é o nosso destino verdadeiro, ele até agora teve uma boa vida. Amou e foi amado, ama e é amado.

Pausa para um breve haicai:

diagnóstico:
quimio e rádio?
isso muda tudo…

Ou não!

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Abismo

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Garrafa 505 – Circunspecção   Leave a comment

A palavra circunspecção é de origem latina  e vem de “circum” que significa “volta” ou “em volta” e “pectionem” que significa “inspeção”. A ideia geral é a de se olhar ao redor de si e fazer  uma avaliação sobre tudo aquilo que nos rodeia, para que em nada possamos ser surpreendidos. Traz também a ideia do exame de um objeto por todos os lados, além de ser a qualidade associada a quem tem cuidado no falar e no agir. E indica a presença das características de moderação, prudência, reserva, cautela e seriedade.

Salvo melhor juízo, penso que essa deva ser a atitude correta para um juiz, e demais agentes da lei, em todos os momentos de sua vida. Muito especialmente durante a realização do seu importante trabalho de investigar e julgar outras pessoas mas, também, em sua vida pessoal e privada.

Nosso país, infelizmente, vem atravessando um período de prolongada escuridão moral, nas ultimas décadas. E um destino triste e sombrio estará sempre à espreita daquelas nações que elegem, em eleições fraudadas ou não, pessoas sem caráter. O tempo dirá!

Constatamos, acompanhando o noticiário diário, o importante trabalho realizado pelo assim chamado jornalismo investigativo, ao destampar e expor penicos malcheirosos, de escândalo em escândalo. O mau cheiro vem da constatação de que a maior parte dos integrantes das classes política e empresarial do país estão envolvidos em tenebrosas transações, com corruptos e corruptores envolvidos em pedidos e respectivos pagamentos de propinas da ordem de muitos milhões. Com isso, os prejuízos já contabilizados para os cofres públicos ao longo dos últimos anos são da ordem de bilhões!

E há vários indícios e suspeitas de que parcela significativa da mais alta corte do Poder Judiciário, o STF, também já estaria comprometida, cooptada. Com seus integrantes atuando ora como apenas simpatizantes, ora como ativos militantes do projeto criminoso de poder do “lulopetismo”.

Os fatos que chegam ao nosso conhecimento indicam que a corrupção, no Brasil e no mundo, que anteriormente poderia ser  considerada como apenas endêmica, ou ocorrendo apenas em determinados locais ou regiões, depois de diversos surtos epidêmicos, com seus efeitos se espalhando rapidamente por largas regiões do planeta, já podemos dizer que atingiu o nível de pandemia, ou seja, uma epidemia que atingiu grandes proporções, tendo se espalhado por vários continentes e por todo o mundo. Em tempos de Jogos Olímpicos que se aproximam, examinando apenas os casos da FIFA, uma organização de âmbito mundial, com suas diversas federações esportivas locais, como a nossa CBF, e os recentes casos de “doping” de atletas na Rússia, para citar apenas um deles, podemos fazer uma ideia da amplitude da disseminação dessa grande epidemia, isso com respeito apenas à área do esporte.

Entretanto, o fato de que a corrupção em todas as suas formas é um mal que já se espalhou pelo mundo todo não deveria “servir de consolo”, se é que isso seria possível na cabeça de pessoas de bom senso, como é o caso da maioria de nós. Quando examinamos mais especificamente a situação da corrupção em nosso próprio país, o triste diagnóstico é o de que, além de epidêmica, com vários casos de “doping” registrados ao longo dos últimos anos entre nossos atletas, em várias modalidades esportivas, na área da política ela se tornou também sistêmica. A proliferação da contaminação desse mal foi patrocinada pela própria estrutura do Estado Brasileiro, agindo como corruptora, e com seus agentes se beneficiando também de maneira pessoal, agindo como corruptos. Motivo de vergonha e de tristeza profundas, pelo péssimo exemplo oferecido por uma das piores safras de “lideranças” que o Brasil já escolheu, pelo voto, desde sua independência.

Neste momento de sensação de beira do abismo, nossas esperanças se voltam principalmente para as Cortes de Justiça de Primeira Instância, onde tudo começa, e é importante que comece bem, e que prossiga até a prisão, o julgamento dos acusados e a punição de todos os culpados.

Esperança, atenção e apoio incondicional devem então ser dedicados em especial àquela instância que ficou conhecida como a “República de Curitiba”.

Atualmente, a simples menção do nome do Juiz Sérgio Moro, e das notícias e boatos sobre os resultados e desdobramentos das diversas fases da Operação Lava-Jato, já enchem de terror os criminosos de colarinho branco instalados em todas as unidades da federação. Aterrorizam não só a eles, mas, principalmente, àqueles encastelados há décadas no planalto central,  ocupando cargos de destaque nos poderes executivo e legislativo. E é assim que deve ser, e deve continuar sendo!

É o momento de evocarmos o sentido da palavra circunspecção. De apoiarmos sem medo e sem reservas as atitudes do corajoso juiz Moro, e dos diversos integrantes da Polícia Federal e do Ministério Público Federal que conduzem as investigações, para que a faxina vá às ultimas consequências.

Desejamos que o exame dos objetos de investigação seja feito “por todos os lados”, com a identificação dos corruptos e dos corruptores. E que as autoridades envolvidas sejam exemplos de cuidado no falar e no agir. E que, em todos os momentos, estejam presentes os valores de moderação, prudência, reserva, cautela e seriedade.

Enquanto aguardamos a prisão do chefe da quadrilha e grande patrocinador da corrupção sistêmica, também desejamos ardentemente que, ao final do processo, tanto ele quanto os demais integrantes da sua quadrilha considerados culpados sejam exemplarmente punidos, na forma da lei!

 Pausa para um breve haicai:

sempre convicto,
o juiz circunspecto,
no veredicto.

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

Veredicto

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