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Garrafa 327 – Tat tvan Asi (Tu és Aquilo)   Leave a comment

Nos últimos dias andei à voltas com a leitura de “Ecologia Mental” de Murillo Nunes de Azevedo, pela Editora Pensamento, em que propôs, em 1995, que no problema da ecologia, além das três dimensões básicas da terra, da água e do ar fosse agregada uma quarta – a mental.

Utilizando o conceito de “inconsciente coletivo” de Jung e a ideia de que a tensão psicológica, mesmo contida, se irradia por todos os quadrantes e contamina os que tenham sensibilidade para percebê-la, propõe a hipótese da necessidade de uma “limpeza psíquica” para que possamos nos transformar em instrumentos purificadores do inconsciente coletivo em que estamos constantemente mergulhados, neutralizando os choques, conflitos e violência que predominam à nossa volta.

Ao apresentar a visão hindu da mente, associa o inconsciente coletivo de Jung ao plano ou estado de consciência manásico (mental) que é composto ainda por duas camadas, a concreta (rupa) e a abstrata (arupa). Comenta ainda que nós, seres humanos, estamos normalmente conscientes somente dos planos físico, emocional e mental concreto, raramente excursionando nos domínios do mental abstrato e muito menos ainda nos níveis superiores mais sutis.

A visão de um Todo Supremo ou de uma Realidade Última, que engloba em seu seio todas as coisas, que é imutável e na qual a essência humana tem o seu ser, entretanto, é apontada e reconhecida por diversas tradições espirituais. Os hindus, há milênios chamam essa “super-realidade” em que tudo está mergulhado de TAT, que quer dizer AQUILO. Algo que está além de todos os nomes, de todos os rótulos e que habita no coração do Universo e no coração dos homens. Tat tvan Asi – Tu és Aquilo. Em um dos textos dos Upanishads está dito que: “Aquilo que constitui a essência sutil, aquilo que em tudo que existe tem a sua própria essência, é o Verdadeiro Ser, é o SER. E tu és esse Ser.”

DEUS é AQUILO… Tu és aquilo… DEUS é AQUILO… Tu és aquilo…

E foi envolto nesses pensamentos, que criam uma tensão quase insuportável diante da nossa incapacidade de perceber essa super-realidade, que me vi em frente à balança do restaurante para pesar a minha porção de refeição saudável. E não resisti à inspiração para brincar com as palavras e com a métrica de um breve haicai, escrevendo na borda do guardanapo:

no restaurante,
insight espiritual:
Deus é A…quilo…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido

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Garrafa 213 – Curso de Escutatória   2 comments

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.

Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir.

Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular…

Escutar é complicado e sutil.

Diz Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa) que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”. Filosofia é um monte de ideias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro: Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma.

Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios.

Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial.

Aí, de repente, alguém fala. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.

Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. É preciso tempo para entender o que o outro falou.

Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, […]. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as ideias estranhas.

Na nossa civilização, se eu falar logo a seguir são duas as possibilidades.

Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado”.

Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou”.

Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.

O longo silêncio, na verdade deve querer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou”.

Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.

Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. A música acontece no silêncio.

A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio.

Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.

Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

RUBEM ALVES
Ilustração de autor desconhecido

Garrafa 170 – A pergunta mais importante para a humanidade   2 comments

Acho que a questão mais importante para a humanidade hoje em dia é “Será o universo um lugar amistoso?”. Essa é a primeira e mais básica de todas as perguntas que as pessoas devem se fazer.

Porque, se decidirmos que o universo é um lugar ameaçador, então usaremos a nossa tecnologia, nossas descobertas científicas e nossos recursos naturais para criar segurança e poder, construindo altas muralhas para afastar a ameaça, e criar também grandes armas que destruirão tudo que é ameaçador – e eu acredito que estamos chegando a um ponto em que a tecnologia é suficientemente poderosa para nos possibilitar isolar completamente ou destruir a nós mesmos nesse processo.

Se decidirmos que o universo não é acolhedor nem ameaçador e que Deus está basicamente “jogando dados com o universo”, então somos simplesmente vítimas do processo aleatório de dados e nossas vidas não tem nenhum objetivo ou significado real.

Mas, se decidirmos que o universo é um lugar acolhedor, então usaremos toda a nossa tecnologia, nossas descobertas cientificas e recursos naturais para criar ferramentas e modelos que nos ajudarão a compreender esse universo. Porque o poder e a segurança virão pela compreensão dos seus mecanismos e motivos.

Albert Einstein
Foto de Autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Can you anderstand” na Voz de Annie Haslam com Renaissance

Pergunta importante

Garrafa 153 – O Príncipe ConSorte   1 comment

Em nossas andanças pelo Japão, no início de 2008, tivemos diversas conversas sobre Deus e o significado da vida e da morte.
E após a visita ao jardim zen do templo Riyoji, em Kyoto, no shinkansen de regresso a Tokyo, a quase tezentos kilometros por hora, diversas perguntas ficaram sem resposta…
Por razões que desconhecemos, você se antecipou e foi ao encontro do grande mistério.
Sabe, agora, muito mais do que nós a esse respeito…
Nos deixou a todos, parentes e amigos do João Ricardo, apenas com muitos questionamentos e com as nossas melhores lembranças.
Mas gosto de pensar que, de onde está, se pudesse nos enviar alguma mensagem, ela seria algo do tipo:

A morte não é nada.
Apenas passei ao outro mundo.
Eu sou eu. Tu és tu.
O que fomos um para o outro ainda o somos.
Dá-me o nome que sempre me deste.
Fala-me como sempre me falaste.
Não mudes o tom a um triste ou solene.
Continua rindo com aquilo que nos fazia rir juntos.
Reza, sorri, pensa em mim, reza comigo.
Que o meu nome se pronuncie em casa
como sempre se pronunciou:
Sem nenhuma ênfase, sem rosto de sombra.
A vida continua significando o que significou:
continua sendo o que era.
O cordão de união não se quebrou.
Porque eu estaria fora de teus pensamentos,
apenas porque estou fora de tua vista?
Não estou longe,
somente estou do outro lado do caminho.
Já verás, tudo está bem.
Redescobrirás o meu coração,
E nele redescobrirás a ternura mais pura.
Seca tuas lágrimas e se me amas,
não chores mais.

Citação de autor desconhecido
Foto editada por Carlos Fernando Souza Leal

Garrafa 148 – Religiosidade 3   Leave a comment

“Minha religiosidade consiste numa humilde admiração pelo espírito infinitamente superior que se revela no pouco que conseguimos compreender sobre o mundo passível de ser conhecido. Essa convicção profundamente emocional da presença de um poder superior racional que se revela nesse universo incompreensível forma minha ideia de Deus.”

Albert Einstein
Foto NASA – Sombrero Galaxy M104

sombrero-galaxy-nasa

Garrafa 117 – Maturidade   Leave a comment

O homem torna-se maduro no momento em que começa a amar em vez de precisar. Ele começa a transbordar, a compartilhar; começa a dar. A ênfase é completamente diferente. Com o imaturo, a ênfase está em como conseguir mais. Com o maduro, a ênfase está em como dar, como dar mais, e como dar incondicionalmente. Isso é crescimento, maturidade, chegando para você.

Uma pessoa madura dá. Só uma pessoa madura pode dar, porque só uma pessoa madura tem. Então o amor não é dependente. Então você pode estar amando quer o outro esteja aí ou não. Então o amor não é um relacionamento, ele é um estado.

O que acontece quando uma flor desabrocha numa floresta sem ninguém para apreciá-la, ninguém para sentir a sua fragrância, ninguém para passar e dizer: “linda”; ninguém para saborear a sua beleza, seu êxtase, ninguém para compartilhar – o que acontece com a flor?

Ela morre?
Ela sofre?
Fica aterrorizada?
Comete suicídio?

Ela continua desabrochando. Não faz diferença alguma se alguém passa por ela ou não; é irrelevante. Ela continua espalhando sua fragrância aos ventos. Continua oferecendo sua alegria a Deus, ao Todo.

Osho
Em “Relacionamento, Amor e Liberdade”

flor branca

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