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Garrafa 394 – Fogo no cerrado   Leave a comment

Em tempos de Internet, tenho me reconectado com a trilha sonora da minha vida, garimpando com o apoio de ferramentas de busca algumas músicas e discos perdidos no tempo e na memória. E uma das minhas bandas de rock progressivo preferidas, que voltei a ouvir com mais frequência, é o The Alan Parsons Project.

O álbum EVE, lançado em 1979, tinha como “conceito” abordar as características femininas e as dificuldades que as mulheres enfrentam em um mundo predominantemente masculino. Na capa e contracapa apareciam as fotos de três belas mulheres usando véus e com seus rostos parcialmente iluminados. Era possível perceber, nas áreas sombreadas do rosto de cada uma delas, a presença de cicatrizes e mutilações…

Decorridos mais de trinta anos do lançamento desse belo álbum, a paisagem mundial ainda é quase a mesma; e em alguns casos é agravada pela passagem do tempo perdido que não volta mais: violência de todos os tipos contra minorias, contra a mulher e, no caso específico de desrespeito para com a figura feminina, destaco uma em especial, a nossa Terra…

Ouvindo nessa tarde algumas faixas do disco, enquanto pensava no assunto, não pude deixar de me lembrar das cicatrizes que nosso mundo masculino tem produzido na face do planeta. Desrespeito, falta de consciência ecológica, incêndios criminosos ou produzidos por simples desleixo exterminam parques e reservas florestais, espécimes desprotegidas e incapazes de fugir do fogo devastador que mutila a paisagem, a pele do planeta e a face da própria vida.

As vozes e reflexões feitas por parte de pessoas responsáveis, que ouço sobre esse tema, ainda me parecem tímidas e vacilantes, quando comparadas aos altos brados dos interesses que podem ser contrariados pela simples possibilidade de adotarmos atitudes mais respeitosas e ecológicas. Enquanto isso, Lúcifer ateia fogo ao cerrado…

Pausa para um breve haicai:

gemidos nos prados,
nunca em altos brados…
desventurados!

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Lucifer” com The Alan Parsons Project

Queimadas nos prados

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Garrafa 372 – Bem-te-vi atônito   1 comment

No terreno ao lado do nosso prédio, onde antes havia uma igrejinha evangélica, será construído um novo edifício, durante os próximos meses.

Nenhum preconceito contra o progresso, a construção civil, ou contra a oferta de novas moradias no Jardim Oceânico, na Barra da Tijuca. Apenas observações a respeito do que vejo da varanda.

Na entrada desse terreno, trazendo um pouco de saúde e bem-estar para quem tinha olhos para ver, havia um pequeno jardim, com grama, flores e algumas poucas árvores. Destacando-se entre elas, um pinheiro enorme, servia de abrigo e observatório para aves de todos os tipos que o frequentavam de passagem, ou como refúgio noturno em seu sono vigilante. Haveria algum pequeno ninho por lá? Meu amigo bem-te-vi costumava pousar no seu ponto mais alto para espalhar seu canto aos quatro ventos, nas primeiras horas da manhã…

Ontem, da varanda, acompanhado à distância por apenas outra moradora que viu tudo bem de perto, registrando algumas imagens com seu Tablet, assisti penalizado à derrubada desse pinheiro que, certamente, criava obstáculos ao bom desenvolvimento da futura obra. Homens chegaram silenciosos e, machado em punho, colocaram abaixo o pinheiro saudável e majestoso.

Sempre me entristeço ao ver cenas como essa, a derrubada de uma árvore, mesmo que seja por alguma causa que a justifique (confesso que tenho muita dificuldade para encontrá-las) e tudo isso feito com a devida autorização da Prefeitura. E não posso garantir que esse seja o caso. Espero que sim. Que tenha sido inevitável e que suas raízes e início do tronco sejam preservados, já que ainda lá permanecem, para permitir que a árvore cresça novamente e seja incorporada ao futuro jardim que, também espero, esteja presente na entrada do novo prédio. Quem sabe?

Hoje, como sempre faço, depois da meditação matinal, observei a paisagem da varanda, o céu sem nuvens e a passarada que costuma frequentar as árvores da vizinhança: Vários voos erráticos, pousos abortados de maneira frenética no que antes deveria ser um abrigo seguro e que agora é preenchido apenas pelo ar fresco da manhã de outono.

Espaço vazio! Bit zero! Nada! Picas! Porra nenhuma!

Posso imaginar seus cérebros pequeninos, sinapses em polvorosa, buscando explicações para o inexplicável e inesperado… Acompanhando seus voos confusos, e tentativas de pouso frustradas, também fiquei assim…

Pausa para um breve haicai:

pinheiro no chão
bem-te-vi atônito
onde compaixão?

Eduardo Leal
Fotos de Eduardo Leal

Bem-te-vi no topo do pinheiro em 30/03/2013

Bem-te-vi no topo do pinheiro em 30/03/2013

Início da derrubada do pinheiro

Início da derrubada do pinheiro

Preparação final da derrubada

Preparação final da derrubada

Pinheiro no chão...

Pinheiro no chão…

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