Arquivo para a Tag ‘corpo

Garrafa 498 – Pressentimentos   1 comment

De onde viemos?

Quem somos?

Para onde vamos?

Pausa para um breve haicai:

só pressentido,
no corpo e na alma,
onde sentido?

Eduardo Leal
Ilustração de autor desconhecido

Busca de sentido

Garrafa 472 – Hierarquia não é palavrão!   2 comments

Tenho observado em meus círculos de relacionamento, e vejo isso com grande curiosidade e atenção, e também com alguma preocupação e tristeza, um discurso cada vez mais frequente que alardeia aos quatro ventos que “Todas as hierarquias são opressoras” ou “Abaixo todas as formas de hierarquia”. Essas pessoas aparentemente não se dão conta de que, quando sobem em seu pequeno caixote de madeira com seu megafone na mão, vociferando palavras de ordem, na verdade estão pretendendo, de uma maneira hierárquica, se colocar acima das outras pessoas “inferiores” que não pensam como elas e que ainda não foram esclarecidas pelo sopro do conhecimento da verdade que só elas detêm. E não se dão conta, também, de que há pelo menos dois tipos bem diferentes de hierarquias: as “hierarquias de dominação” e as “hierarquias de crescimento”.

Hierarquias de Dominação X Hierarquias de Crescimento

Uma hierarquia de dominação, como seu próprio nome indica é opressiva, um sistema de categorias e castas que de alguma maneira domina, explora e oprime as pessoas. E toda hierarquia que impede o crescimento individual ou coletivo é uma hierarquia de dominação. O sistema de castas, com a divisão da sociedade indiana em grupos sociais rígidos, com raízes na sua história milenar e que ordenou a vida dos indianos por milênios, tendo sido abolido em sua ultima Constituição, mas não dos corações e mentes de muitas pessoas, é um exemplo desse tipo. O comunismo, com sua ideia utópica de que é possível eliminar todas as classes, criando uma classe “única” em uma “ditadura do proletariado” e, é claro, controlada por uma “classe dirigente” autocrática, é outro exemplo de hierarquia de dominação. Já as hierarquias de crescimento, também chamadas de hierarquias de realização são, por sua vez, os próprios estágios ou níveis do desenvolvimento que se pretende alcançar ao longo de um processo de crescimento e realização de qualquer natureza. No mundo natural, as hierarquias de crescimento estão espalhadas em todas as partes, sendo a mais comum a que envolve a transformação de átomos em moléculas, de moléculas em células e de células em organismos. E nesse caso os níveis mais elevados não oprimem os menos elevados, mas os abraçam, os abarcam, os incluem, os abrangem. São sempre hierarquias aninhadas (nidiformes), implicando que cada nível mais elevado transcende e inclui os seus precedentes.

Dando seguimento ao meu impulso de buscar novas formas de apoiar o desenvolvimento de pessoas e organizações com as quais estabeleço contato, em novembro de 2005, em um Curso de Coaching Integral, fui apresentado a uma elegante estrutura teórica (Modelo Integral) para organizar o mundo e suas atividades em cinco categorias simples que são, ao mesmo tempo, aspectos de nossa própria experiência: os Quadrantes, os Níveis, as Linhas, os Estados e os Tipos. Essa abordagem, proposta pelo filósofo Ken Wilber, nos ajuda a ver a nós mesmos e o mundo que nos cerca de um modo mais abrangente que inclui as realidades objetivas (Cosmos) e as subjetivas, e tudo isso de um ponto de vista individual e também do coletivo. Essas realidades estão associadas a um conceito mais abrangente de Kosmos, palavra grega que significa o Todo padronizado de toda a existência, incluindo os reinos físico, emocional, mental e espiritual.

Quadrantes Ken Wilber 3

Relendo, nas últimas semanas, trechos de “A Visão Integral” (Editora Cultrix), “Boomerite” (Editora Madras), “Éden queda ou ascensão?” (Verus Editora) esses dois últimos brilhantemente traduzidos por meu bom amigo Ari Raynsford, e “A Brief History of Everything” (Shambhala) vejo novamente que quando analisamos qualquer situação com o apoio dos quatro Quadrantes propostos por Wilber, podemos perceber como qualquer evento Físico – Matéria/Energia – ISTO (do quadrante superior direito) representa apenas um quarto da história. E que as dimensões da Consciência – EU (do quadrante superior esquerdo) com nossas emoções, estados psicológicos, imaginação e intenções; da Cultura – NÓS (do quadrante inferior esquerdo) com nossos valores culturais, religiosos e visão de mundo comuns e dos Sistemas Sociais – ISTOS (quadrante inferior direito) com nossas estruturas materiais, sociais e econômicas surgem simultaneamente à ocorrência desse evento e interagem entre si. E podemos perceber também como esses Quadrantes se desdobram em Níveis de Consciência, Linhas de Desenvolvimento (Inteligências Múltiplas), Estados de Consciência e Tipos.

A partir dessas leituras renovadas de parte da obra de Ken Wilber, resolvi fazer um resumo do Modelo Integral e de sua relação, conforme a percebo, com a questão da hierarquia. E o faço para mim mesmo, como parte do meu processo de reflexão e, é claro, para compartilhar com os amigos que também podem se interessar por esses temas. E, principalmente, como um estímulo para que os interessados possam buscar mais informações nas fontes originais, cuja leitura recomendo com empenho.

O crescimento, desenvolvimento e evolução que ocorrem em cada um dos quadrantes se apresentam em alguns tipos de estágios ou níveis, não como os degraus rígidos de uma escada, mas como ondas que fluem e se desdobram naturalmente e abraçam, abarcam, incluem e abrangem os níveis antecedentes. E o aumento dos níveis interiores de consciência vem acompanhado de um aumento de níveis exteriores de complexidade física do sistema que a abriga. E o mecanismo chave desse desenvolvimento é o de “transcender e incluir”. O nível de cima “transcende e inclui” o nível precedente e, como menciona Wilber, traz novas capacidades e ao mesmo tempo a possibilidade de novos desastres; não só novos potenciais, mas também novas patologias; novas forças e novas doenças.

No Quadrante Físico – Matéria/Energia – ISTO (quadrante superior direito), em que se vê qualquer evento individual de fora, no caso de cada um de nós como indivíduos temos nossos comportamentos físicos, componentes materiais (neurotransmissores, sistema límbico, neocórtex, estruturas moleculares complexas, células, sistemas orgânicos, DNA), corpo concreto, e a energia do “isto” se expande fenomenologicamente de grosseira para sutil e causal. No Quadrante da Consciência – EU (quadrante superior esquerdo) com nossos pensamentos, emoções, estados psicológicos, imaginação e intenções, o “eu” passa do estágio egocêntrico para o etnocêntrico e para o mundicêntrico, ou do corpo, para a mente e para o espírito. No Quadrante da Cultura – NÓS (quadrante inferior esquerdo) com nossos valores culturais, religiosos e visão de mundo comuns, o “nós” expande-se do estágio egocêntrico (“eu”) para o etnocêntrico (“nós”) e para o mundicêntrico (“todos nós”). No Quadrante dos Sistemas Sociais – ISTOS (quadrante inferior direito) com nossas estruturas materiais, sociais e econômicas essas estruturas se expandem de simples grupos, para nações e, finalmente, para sistemas globais.

Quatro Quadrantes nos Seres Humanos

Em nossa trajetória de elevação do nosso Nível de Consciência, podemos fazê-lo também em cada uma das diversas Linhas de Desenvolvimento ou Inteligências Múltiplas de que somos dotados de maneira potencial e que podemos desenvolver e explorar. Diversos pesquisadores respeitados realizaram trabalhos notáveis de estabelecimento das características de cada estágio ou nível que poderia ser alcançado em cada Linha de Desenvolvimento. Abraham Maslow explorou a Linha de Necessidades e demonstrou que as pessoas tendem a se mover através de uma sequencia crescente de necessidades (Fisiológicas; Segurança; Pertencimento; Autoestima; Realização Pessoal; e Transcendência de si mesmo) e com a satisfação de cada uma tende a surgir outra mais elevada; Jean Gebser explorou a Linha de Visões de Mundo (Arcaica; Mágica; Mítica; Racional; Pluralista; Integral; e Transcendência de si mesmo); Michael Commons & Francis Richards, Jean Piaget e Sri Aurobindo exploraram suas respectivas ideias a respeito da Linha Cognitiva [Sensório-motora; Pré-operacional (Simbiótica); Pré-operacional (Conceitual); Operacional concreta (Mente regra/papel); Operacional formal (Mente racional); Mente pluralista (Mente Meta-sistêmica, Mente planetária); Baixa Visão-lógica (Paradigmática); Alta Visão-lógica (Transparadigmática, Mente global); Mente intuitiva, Meta mente; Mente iluminada, Para-mente; Mente transcendental (Overmind); e Supermente]. Robert Kegan explorou as Ordens de Consciência (Ordem 0; Ordem 1; Ordem 2; Ordem 3; Ordem 4; Ordem 4,5; e Ordem 5). Loevinger e Cook-Greuter exploraram a Linha de Auto-identidade (Simbiótica; Impulsiva; Autodefensiva; Conformista; Conscienciosa; Individualista; Autônoma; Ciente do seu papel (Integrada); Consciente do Ego; e Transpessoal). E Clare Graves, Don Beck & Christopher Cowan, e Wade exploraram a Linha de Valores [Sobrevivência (Bege, Arcaico-Instintivo); Espírito de Agregação (Roxo, Mágico-Animista); Deuses de Poder (Vermelho, Egocêntrico); Força da Verdade (Azul, Absolutista, Ordem Mítica); Instinto de Luta (Laranja, Multiplista); Vínculo Humano (Verde, Relativista); Flexibilidade e Fluidez (Amarelo, Sistêmico); Visão Global (Turquesa, Sistêmico); Transcendente; e Unidade].

Linhas de Desenvolvimento

Deixo de incluir neste resumo a abordagem de aspectos relacionados a Estados de Consciência e Tipos, para não tornar o texto ainda mais extenso, e em virtude de que esses aspectos, mais propriamente os Tipos, têm menos a ver com a questão da hierarquia.

E o que tudo isso que foi anteriormente mencionado tem a ver com a questão da hierarquia?

Para responder a essa pergunta, uma vez que desenvolvi minha própria abordagem de Coaching Centrado em Valores em grande medida a partir da Linha de Desenvolvimento de Valores conhecida como o Modelo da Espiral Dinâmica de Don Beck e Christopher Cowan, apresentarei a seguir, com base em alguns conteúdos dos livros citados anteriormente, um breve resumo de cada um dos Níveis de Desenvolvimento que emergiram desses estudos e com os quais estou um pouco mais familiarizado. Lembrando sempre que:

a) O Modelo da Espiral Dinâmica é baseado no trabalho pioneiro de Clare Graves que, procurando identificar o que seria um adulto psicologicamente saudável, trouxe à luz o seu Modelo Gravesiano (modelo emergente, cíclico, de hélice dupla, do desenvolvimento de sistemas biopsicossociais adultos);
b) O modelo é emergente porque ninguém nasce com ele completo, mas apenas em potencial. Ele vai emergindo, surgindo na vida das pessoas. A ontogenia (desenvolvimento do indivíduo desde a fecundação até a maturidade para reprodução) recapitula a filogenia (gênese e história evolucionária das espécies);
c) O modelo é cíclico porque os níveis alternam ciclos de preocupações individuais (auto-expressão, com referencial interno) com os de preocupações coletivas (sacrifício pelo bem geral, com referencial externo). É como um pêndulo que oscila do “eu” para o “nós” e de volta do “nós” para o “eu”, indefinidamente, de um lado para o outro.
d) O modelo é de hélice dupla porque em cada nível são identificadas novas condições de vida que estimulam o surgimento de uma nova estrutura de resposta (capacidade mental/cerebral, psiconeurológica) formando binômios distintos (condição de vida-estrutura de resposta);
e) O modelo é de desenvolvimento de sistemas biopsicossociais adultos porque depende do desenvolvimento de fatores biológicos, psicológicos e sociais em pessoas adultas considerando a maturidade inerente a cada ser humano; e
f) O nível de cima “transcende e inclui” o nível precedente.

Níveis de Primeira Camada:

Sobrevivência (Bege, Arcaico-Instintivo, Eu)
“Nível básico de sobrevivência; alimento, água, abrigo, sexo e segurança são prioritários. Usa hábitos e instintos apenas para sobreviver. A individualidade está no início do despertar e quase não se sustenta. Reúne-se em bandos de sobrevivência para perpetuar a vida. Onde é encontrado: primeiras sociedades humanas, recém-nascidos, pessoas senis, pessoas em estágio avançado do Mal de Alzheimer, moradores de rua mentalmente doentes, massas famintas, pessoas com traumas de guerra. Aproximadamente 0,1% da população mundial adulta, 0% de poder.”

Espírito de agregação (Roxo, Mágico-Animista, Nós)
“O pensamento é animista; espíritos mágicos, bons e maus, fervilham pela Terra trazendo bênçãos, maldições e encantamentos que determinam os acontecimentos. Reúnem-se em tribos étnicas. Os espíritos existem nos antepassados e aglutinam a tribo. Parentesco e linhagem estabelecem vínculos políticos. Aparenta ser “holístico”, mas na verdade é atomístico: Há um nome para cada curva do rio, mas nenhum nome para o rio. Onde é encontrado: crença em maldições do tipo vodu, juramentos de sangue, mágoas antigas, amuletos de boa sorte, rituais de família, superstições e crenças étnicas mágicas; forte em comunidades do terceiro mundo, gangues, equipes esportivas e “tribos” corporativas; também em crenças mágicas da New Age, cristais, tarô, astrologia. 10% da população, 1% de poder.”

Deuses de poder (Vermelho, Egocêntrico, Eu)
“Primeira emergência de um eu distinto da tribo; poderoso, impulsivo, egocêntrico, heroico. Espíritos, arquétipos, dragões e feras místicos. Deuses e deusas arquetípicos, seres poderosos, forças com que se pode contar, tanto boas quanto más. Senhores feudais protegem os súditos em troca de obediência e trabalho. A base dos impérios feudais – poder e glória. O mundo é uma selva cheia de ameaças e de predadores. Conquista, engana e domina; aproveita ao máximo, sem pena ou remorso; aqui e agora. Onde é encontrado: Os “terríveis dois” (referência aos dois anos de idade, quando a criança “nasce” realmente para um “eu” com emoções e sentimentos separados, o seu nascimento psicológico), juventude rebelde, mentalidades limítrofes, reinos feudais, heróis épicos, vilões de James Bond, líderes de gangues, soldados mercenários, astros de rock pesado, Átila rei dos Hunos, “Senhor das Moscas” (Romance de William Golding que descreve em detalhes a transição de um bando de crianças da civilização para a barbárie), envolvimento mítico. 20% da população, 5% de poder.”

Força da Verdade (Azul, Absolutista, Ordem Mítica, Nós)
“A vida tem significado, direção e propósito, com eventos determinados por um ‘Outro’ ou ‘Ordem’ todo-poderosos. Esta Ordem justa impõe um código de conduta baseado em princípios absolutos e invariáveis de certo e errado. A violação do código ou das regras apresenta severas, e talvez permanentes repercussões. A obediência ao código gera recompensas para os fiéis. Base das nações antigas. Hierarquias sociais rígidas; paternalista; um, e apenas um, modo correto de pensar sobre tudo. Lei e ordem; impulsividade controlada através da culpa; crença concreto-liberal e fundamentalista; obediência à regra da Ordem; fortemente convencional e conformista. Frequentemente religioso no sentido mítico-fundamentalista; Graves e Beck referem-se a ele como o nível ‘religioso/absolutista’, mas pode ser também uma Ordem ou Missão secular ou ateísta. Onde é encontrado: América Puritana, China Confucionista, Inglaterra Dickensiana, disciplina de Singapura, totalitarismo, códigos de cavalaria e de honra, obras de caridade, fundamentalismo religioso (por exemplo, cristão e islâmico), Escoteiros e Bandeirantes, maioria moralista, patriotismo. 40% de população, 30% de poder.”

Instinto de Luta (Laranja, Conquista Científica, Multiplista, Eu)
“Nesta onda, o indivíduo escapa da ‘mentalidade de rebanho’ do nível azul e procura a verdade e o significado em termos individualistas e científicos. O mundo é uma máquina racional, bem lubrificada, com leis naturais que podem ser aprendidas, controladas e manipuladas visando a interesses próprios. Altamente orientado para a conquista de objetivos; especialmente na América para ganhos materiais. As leis da ciência regulam a política, a economia e os acontecimentos humanos. O mundo é um tabuleiro de xadrez onde partidas são jogadas e os vencedores conquistam superioridade e privilégios em detrimento dos perdedores. Alianças de mercado; manipulação dos recursos naturais visando a ganhos estratégicos. Base dos estados corporativos. Onde é encontrado: No Iluminismo, ‘A Revolta de Atlas’ Romance de Ayn Rand em que um homem diz que pararia o motor do mundo – e o faz, Wall Street, classe média emergente em todo o mundo, indústria de cosméticos, caça a troféus, colonialismo, Guerra Fria, indústria da moda, materialismo, capitalismo de mercado, auto-interesse liberal. 30%da população, 50% de poder.”

Vínculo humano (Verde, O Eu Sensível, Relativista, Nós)
“Comunitário, sensibilidade ecológica, operação em rede. O espírito humano deve se livrar da ganância, dos dogmas, das divergências; sentimentos e cuidados substituem a fria racionalidade; acalentar a Terra, Gaia, a vida. Contra hierarquias; estabelece vínculos e ligações laterais. Eu permeável relacional, inter-relacionamento de grupos. Ênfase no diálogo e nos relacionamentos. Base das comunidades coletivas (isto é, afiliações, baseadas em sentimentos comuns, escolhidas livremente). Decide através da reconciliação e do consenso (lado negativo: ‘processamento’ interminável e incapacidade de chegar a decisões). Renova a espiritualidade, cria harmonia, enriquece o potencial humano. Fortemente igualitário, anti-hierárquico, valores pluralistas, construção social da realidade, diversidade, multiculturalismo, sistemas de valores relativos; esta visão de mundo é frequentemente denominada de ‘relativismo pluralista’. Pensamento subjetivo, não linear, demonstra um alto grau de calor humano, sensibilidade e cuidado pela Terra e por todos os seus habitantes. Onde é encontrado: ecologia profunda, pós-modernismo, idealismo holandês, terapia rogeriana, sistema de saúde canadense, psicologia humanista, teologia da libertação, cooperativismo, Conselho Mundial de Igrejas, Greenpeace, eco psicologia, direitos dos animais, eco feminismo, pós-colonialismo, Foucault/Derrida, o politicamente correto, movimentos de diversidade, tema de direitos humanos. 10% da população, 15% de poder.”

Características dos Níveis de Primeira e de Segunda Camada:

Quando as pessoas fazem seu centro de gravidade e se identificam com o conjunto de crenças e valores dominantes em cada um desses estágios de primeira camada (do nível bege até o verde) apresentados anteriormente, acreditam firmemente que seus valores sejam os únicos verdadeiros e corretos e que todos os outros estejam profundamente equivocados; reagem negativamente quando desafiadas e agridem, usando suas armas, quando se sentem ameaçadas.

É como se esquecessem, como se não conseguissem sequer perceber a existência, quando estão em um determinado nível, que de fato já percorreram e se identificaram fortemente, em algum momento do passado, com os níveis precedentes em resposta a alguma condição de vida: não se lembram de que em situações de emergência ativamos impulsos vermelhos poderosos; que em resposta ao caos, temos necessidade de ativar a ordem azul; que ao procurar um novo emprego, precisamos de impulsos laranjas de conquista; que no casamento e com amigos, buscamos os laços íntimos verdes. “E na verdade a ordem azul se sente extremamente desconfortável tanto com a impulsividade vermelha quanto com o individualismo laranja. O individualismo laranja pensa que a ordem azul é para trouxas e o igualitarismo verde é para fracos e frescos.” Ou ainda: “O igualitarismo verde não consegue aguentar facilmente a excelência e a classificação de valores, grandes imagens, hierarquias ou qualquer coisa que pareça autoritária; portanto, o verde tende a bater no azul, no laranja e em tudo que for pós-verde”.

“De maneira bem objetiva: qualquer nível de primeira camada contribuirá para impedir a paz mundial.”

“Tudo, entretanto, começa a mudar com o pensamento de segunda camada que será apresentado a seguir. Porque a consciência de segunda camada está completamente ciente dos estágios anteriores de desenvolvimento; ela se recorda de que já pensou assim, dá um passo atrás e capta a imagem global, percebendo, portanto, o papel necessário que cada nível desempenha para que se possa avançar. A consciência de segunda camada pensa em termos da espiral completa de desenvolvimento, e não, simplesmente, em termos de um nível específico. Daí, com a consciência de segunda camada, o mundo passa a fazer sentido, a transformar-se como um todo, a tornar-se consistente pela primeira vez. Enquanto o nível verde – o mais elevado dos estágios de primeira camada – começa a perceber a rica diversidade e o maravilhoso pluralismo das diferentes culturas, o pensamento de segunda camada dá um passo adiante, um salto quântico. Ele procura por elos que liguem e juntem essas diferentes culturas e, portanto, considera esses sistemas separados e começa a abraça-los, incluí-los e integrá-los em espirais holísticas e malhas integrais. Ele é fundamental para passarmos do pluralismo para o integralismo.”

Operando-se com a consciência de segunda camada, como diz Wilber, abre-se, convidativa, no horizonte, a possibilidade de paz genuína.

Níveis de Segunda Camada:

Flexibilidade e fluidez (Amarelo, Sistêmico, Eu)
“A vida é um caleidoscópio de sistemas fluentes, inter-relacionados. Flexibilidade, espontaneidade, e funcionalidade têm a máxima prioridade. Diferenças e pluralismos podem ser integrados em fluxos naturais interdependentes. Igualitarismo é complementado por graus naturais de excelência, distinções e julgamentos qualitativos. Conhecimento e competência devem substituir posição, poder, status ou grupo. A ordem mundial prevalecente é resultado da existência de diferentes níveis de realidade (ou Memes) e dos inevitáveis padrões de movimento para cima e para baixo na Dinâmica da Espiral. Um bom governo facilita a emergência de entidades por meio dos níveis de crescente complexidade (hierarquia nidiforme). 1% da população, 5% de poder.”

Visão Global (Turquesa, Sistêmico, Nós)
“Sistema holístico universal, ondas de energias integrativas; une sentimento e conhecimento; múltiplos níveis interconectados num sistema consciente; a base da totalidade extensiva. Ordem universal, mas de modo vivo e consciente, não baseado em regras externas (azul) ou vínculos de grupo (verde). É possível uma “grande unificação” ou uma grande imagem em teoria e na prática. Algumas vezes envolve a emergência de uma nova espiritualidade como uma teia de toda a existência. Pensamento turquesa é totalmente integral e usa a espiral completa; vê múltiplos níveis de interação; detecta harmônicos, as forças místicas e os estados de fusos de fluxos que permeiam todas as organizações. 0,1% da população e 1 % do poder.”

E, depois do nível turquesa, desde que novas condições de vida sejam percebidas e sejam favoráveis, o pêndulo da evolução desenvolve novas respostas em termos de estruturas psiconeurológicas e inclina-se mais uma vez na direção de um “eu” com um nível de desenvolvimento ainda mais elevado do que aquele dos níveis amarelo e turquesa, cujos contornos em termos de conjunto de crenças e valores ainda não foram suficientemente definidos.

Espiral Dinâmica

Condições de Vida

E vale a pena tecer algumas considerações a respeito do que Graves se referia quando falava de condições de vida. Condição de vida é o meio em que vive o ser humano. Seu estudo leva em conta fatores interdependentes tais como: tempo histórico, espaço geográfico, condições sociais e circunstâncias econômicas. Portanto, não existe apenas uma condição de vida, mas inúmeras! E isso também não significa que uma pessoa, ao ativar um novo sistema de crenças e valores, tenha abandonado suas antigas visões de mundo. Ela simplesmente as incluiu e transcendeu. E antigos modos de pensar podem ser reativados em caso de degradação das condições de vida. Um hipotético professor de filosofia residente no Haiti, anteriormente operando no nível de consciência turquesa, pode estar operando agora a partir de um conjunto de crenças e valores roxo e/ou vermelho, quando tem que disputar com outras pessoas uma ração de água e comida para levar para sua família e para o próprio consumo, nos postos de distribuição assistencial organizados pela Força de Paz da Organização das Nações Unidas, no espaço geográfico, social e econômico seu país ainda devastado, depois do terrível terremoto de 2010.

E o que pode ser um entrave para esse desejado salto quântico da humanidade dos níveis de primeira camada para os de segunda camada? Excluindo-se situações de degradação das condições de vida, ou seja, supondo-se que as condições evoluam de maneira favorável, ainda assim temos o seguinte: o fundamentalismo religioso (azul) frequentemente sente-se afrontado pela segunda camada, na qual vê uma tentativa de derrubar sua Ordem instituída; o egocentrismo (vermelho) também ignora a segunda camada; o mágico (roxo) lança um feitiço contra ela; e o verde acusa a consciência de segunda camada de ser autoritária, hierárquica, patriarcal, marginalizadora, opressora, racista e sexista. Exatamente o fato de que o nível de consciência verde, o mais elevado da primeira camada, ele próprio ser ainda um nível de primeira camada, com suas novas capacidades com relação ao nível laranja e, ao mesmo tempo, com a possibilidade de novos desastres; não só novos potenciais, mas também novas patologias; novas forças e novas doenças. E é essa “doença” do nível verde que Ken Wilber chama de Boomerite.

O Conceito de Boomerite

Os Boomers nascidos após a Segunda Guerra Mundial – a geração Baby Boom – formam a primeira geração a crescer nesta aldeia global: um tempo em que todas as culturas estão disponíveis umas para as outras. Isto nunca aconteceu antes no planeta Terra. Como nos aponta Wilber:
“Desde alguns milhões de anos até agora uma pessoa nascia numa cultura que não sabia praticamente nada sobre nenhuma outra. Você nascia chinês, crescia chinês, casava com uma chinesa, seguia uma religião chinesa e muitas vezes vivia na mesma cabana a vida inteira, num espaço de terra em que seus ancestrais se fixaram havia séculos. Uma vez ou outra, este isolamento cultural era interrompido por uma estranha e grotesca forma de Eros conhecida por guerra, onde culturas se uniam violentamente por meios brutais de violação, embora o resultado misterioso sempre fosse um tipo de relacionamento cultural erótico. As culturas passavam a conhecer-se num sentido bíblico – um feliz sadomasoquismo oculto que norteou a história até a presente aldeia global. Das tribos e bandos isolados aos pequenos povoados, às cidades-estados antigas, aos gloriosos impérios feudais, aos vastos estados internacionais, até a atual aldeia global: muitos ovos foram quebrados para se fazer essa extraordinária omelete global.”

E quando reli esse parágrafo não resisti à tentação de rabiscar no rodapé do livro:

ovos quebrados,
na omelete global:
sangue derramado…

E como nos aponta Wilber:

“E nesta aldeia global – a única que temos – sobreviveremos juntos ou nos destruiremos.”

E não se trata de forçar uma uniformidade comunista tentando nivelar ou eliminar todas as maravilhosas diferenças existente mas, isso sim, no sentido de se buscar uma unidade-na-diversidade, de se vivenciar crenças e valores comuns, apesar de nossas diferenças: substituindo rancor por reconhecimento mútuo, hostilidade por respeito, convidando a todos a estabelecer e compartilhar um espaço do entendimento mútuo. Não há necessidade de se concordar com tudo que é dito mas, pelo menos, de se procurar entender o que é dito por cada uma das pessoas em cada um dos níveis de consciência. Entender que cada nível é crucialmente importante para a saúde de toda a espiral, devendo ser abraçado e tratado com carinho.

Voltando a abordar alguns aspectos dessa doença que pode acometer a geração Baby Boom, os Boomers responsáveis pelo desenvolvimento do nível de consciência verde, a primeira geração verde da história, Wilber às vezes usa outra terminologia que tomou emprestada de um romance de Edwin A. Abbott “Flatland: A Romance of Many Dimensions” que é uma história do Século XIX sobre um mundo de duas dimensões inspirado particularmente na geometria. Flatland é a crença de que a realidade é plana, que não há níveis de consciência. E nos lembra que “não podemos sequer falar em ajudar as pessoas a crescer e desenvolver-se através dos níveis de consciência se elas, em primeiro lugar, não souberem que existem níveis de consciência.”

“Os Boomers moveram-se além do tradicionalismo dos azuis e do modernismo científico dos laranjas e foram os primeiros de uma compreensão multicultural, pluralista, pós-moderna – o nível verde e o eu sensível. Exatamente por isso os Boomers lideraram os direitos civis, as preocupações ecológicas, o feminismo e a diversidade multicultural. Esta é a parte ‘alta’ da mistura, a parte verdadeiramente comovente da geração Boomer e das revoluções explosivas dos anos 60, o amplo movimento do azul para o laranja, até o verde.”

“Mas todo nível tem seu lado negativo, sua sombra, sua possível patologia e, no caso do verde, seu lado negativo foi que ele realmente transformou-se num imenso ímã para o narcisismo – eu faço o meu, você faz o seu, com ênfase em ‘eu’ e ‘meu’. E este é o lado desastroso da equação dos Boomers, a parte ‘baixa’ da mistura, a parte que causou quase tantos danos quanto a parte alta causou benefícios.”

“Pluralismo, igualitarismo, e multiculturalismo, no que têm de melhor, provêm de uma postura desenvolvimentista muito elevada – o nível verde – e desta posição de integridade e preocupação, o nível verde tenta tratar todos os níveis anteriores com igual atenção e compaixão, um intento verdadeiramente nobre. Mas porque ele abraça um intenso igualitarismo, falha em ver que sua própria postura – que é a primeira capaz de igualitarismo – é muito elitista (algo em torno de 10% da população mundial). Pior, o nível verde nega ativamente os estágios que o produziram, em primeiro lugar, o próprio nível verde, porque deseja visualizar todos os níveis igualitariamente. Mas o igualitarismo verde é produto, como já vimos, de pelo menos seis principais estágios de desenvolvimento, um desenvolvimento contra o qual se volta e nega agressivamente em nome do igualitarismo!”

“Sob a nobre aparência do pluralismo, todas as ondas prévias de existência, não importa quão superficiais, egocêntricas ou narcisistas, são encorajadas a ‘serem elas mesmas’, já que nenhuma delas é considerada, intrinsecamente, melhor que as outras. Mas se o ‘pluralismo’ for realmente verdadeiro, então devemos convidar os nazistas e a Ku Klux Klan para o banquete multicultural, pois supõe-se que nenhuma postura seja melhor ou pior que as outras e, portanto, todas devem ser tratadas de uma maneira igualitária – neste ponto, a autocontradição do pluralismo vem à tona de maneira gritante.”

“Assim, o ponto de vista extremamente elevado do pluralismo – o produto de pelo menos seis estágios de transformação – vira-se de costas e nega-se o próprio caminho que produziu sua nobre postura. Abraça igualitariamente todas as posturas, não importa quão superficiais ou narcisistas. Desse modo, quanto mais o igualitarismo é implementado, tanto mais ele convida, na verdade encoraja, a cultura do Narcisismo. E a Cultura do Narcisismo é a antítese da cultura integral, o oposto de um mundo em paz.”

“No dicionário, a definição de narcisismo é ‘interesse excessivo em si mesmo, em sua importância, em sua grandeza, em sua capacidade; egocentrismo.’ Os terapeutas nos explicam que o estado interior de narcisismo é, frequentemente, o de um eu vazio e fragmentado, que tenta, desesperadamente, preencher o espaço inflando seu ego e desinflando o dos outros. A disposição emocional é: ‘Ninguém vai me dizer o que fazer!’

“Em resumo, a postura relativamente elevada do pluralismo transforma-se num super-ímã para o estágio relativamente baixo de narcisismo egóico. E isso nos leva diretamente a Boomerite.”

“Boomerite é, simplesmente, pluralismo infectado por narcisismo: é a estranha mistura de capacidade cognitiva muito elevada (o nível verde e o pluralismo nobre) infectada por narcisismo emocional bem baixo (níveis roxo e vermelho) – exatamente a mistura que vem sendo notada por tantos críticos sociais. O eu sensível, tentando honestamente ajudar, exagera excitadamente em sua própria importância.”

A Falácia Pré-Pós ou Pré-Trans

Tendo sito definidos os contornos de Boomerite, ou do “pluralismo infectado de narcisismo”, e de como as coisas podem dar errado ao longo do desejável processo de desenvolvimento de consciência – de egocêntrico, para etnocêntrico, para globocêntrico – como nos sugere Wilber, vemos que uma fonte de narcisismo é, simplesmente, a falha no crescimento e evolução.

“Particularmente, no difícil crescimento de egocêntrico para etnocêntrico, aspectos da consciência que recusem esta transição podem ficar ‘empacados’ nos domínios egocêntricos, com dificuldades de adaptação às regras e papéis da sociedade. É lógico que algumas dessas regras e papéis não merecem respeito; podem apresentar uma necessidade muito grande de crítica e rejeição. Mas essa atitude pós-convencional – que verifica, reflete sobre e critica as normas sociais – somente pode ser atingida passando primeiramente pelos estágios pré-convencionais, porque as capacidades obtidas nesses estágios são pré-requisitos para a consciência pós-convencional. Em outras palavras, alguém que não consiga superar os estágios convencionais fará, não uma crítica pós-convencional da sociedade, mas uma rebelião pré-convencional. ‘Ninguém vai me dizer o que fazer!’

“Os críticos concordam que os Boomers foram uma geração notoriamente rebelde. Parte dessa rebeldia, sem dúvida, surgiu de indivíduos pós-convencionais, sinceramente engajados em reformar aspectos errados, injustos ou imorais da sociedade. Mas tão certo quanto isso – e há suficientes evidencias empíricas – uma alarmante fatia dessa atitude rebelde partiu de impulsos pré-convencionais que apresentavam muita dificuldade de crescer para as realidades convencionais.”

E algumas de suas palavras de ordem, que ecoam desde os anos 1960, podem ser: “Combatam o sistema”; “Questionem a autoridade”; “Todas as hierarquias são opressoras” ; “Abaixo todas as formas de hierarquia”.

“O estudo de caso clássico são os protestos estudantis de Berkeley no final dos anos 60 – protestos especialmente contra a Guerra do Vietnã. Os estudantes afirmavam, em uníssono, que estavam agindo de uma elevada posição moral. Mas quando foram aplicados testes reais de desenvolvimento moral, a larga maioria foi enquadrada em níveis pré-convencionais, não pós-convencionais (houve poucos tipos convencionais ou conformistas porque, por definição, eles não são muito rebeldes). Obviamente, a moralidade pós-convencional e globocêntrica da minoria dos participantes do protesto deve ser aplaudida – não necessariamente suas crenças, mas o fato de chegarem a elas a partir de um raciocínio moral altamente desenvolvido. Entretanto, o egocentrismo pré-convencional da vasta maioria dos participantes do protesto deve ser igualmente reconhecido.”

“O ponto mais fascinante dessa pesquisa é algo geralmente definido como situações ‘pré’ e ‘pós’ – pois, uma vez que tanto pré-X quanto pós-X são não-X, frequentemente são confundidos. Isto é, tanto pré-convencional quanto pós-convencional são não-convencionais, estão fora das normas e regras convencionais, e, assim, são muitas vezes confundidos e até mesmo igualados. Em tais situações, ‘pré’ e ‘pós’ frequentemente usarão a mesma retórica e a mesma ideologia, mas, de fato, estão efetivamente separados por um imenso abismo de crescimento e desenvolvimento. Nos protestos de Berkeley, praticamente todos os estudantes afirmaram agir de acordo com princípios morais universais – por exemplo, ‘A Guerra do Vietnã viola direitos humanos universais e, portanto, como um ser moral, recuso-me a lutar nessa guerra.’ Porém, testes provaram inequivocamente que somente uma minoria – menos de 20% – agia de acordo com princípios morais pós-convencionais; a grande maioria dos estudantes agia seguindo impulsos egocêntricos pré-convencionais: ‘Ninguém vai me dizer o que fazer!’; Pegue essa guerra e desapareça.’

“Parece que nesse caso ideais genéricos muito nobres foram usados para apoiar, de fato, impulsos muito desprezíveis. A estranha semelhança superficial de estágios de desenvolvimento ‘pré’ e ‘pós’ permite esse subterfúgio – permite, em outras palavras, que o narcisismo pré-convencional frequente os salões daquilo que é ruidosamente aclamado como idealismo pós-convencional. Esta confusão entre pré-convencional e pós-convencional, porque ambos são não-convencionais, é chamada de falácia pré-pós e parece que pelo menos parte do idealismo dos Boomers deve ser interpretada ou reinterpretada sob esse enfoque mais severo. Quase todo mundo notou, naquela época, que quando cessou a convocação para a guerra, os protestos perderam muito da sua intensidade – chega de moralidade, não é?”

“Este é um ponto crucial, pois alerta-nos para o fato de que, não importa quão generosa, idealista e altruísta uma causa possa parecer – da ecologia para a diversidade cultural, para a espiritualidade, para a paz mundial – o simples falar da boca para fora em apoio à causa não é suficiente para determinar por que, de fato, a causa está sendo abraçada. Muitos críticos sociais simplesmente assumiram que, se os Boomers clamavam por ‘harmonia, amor, respeito mútuo e multiculturalismo’, eles se moviam nesse rumo idealista. Entretanto, em muitos casos, não só os Boomers não estavam se movendo naquela direção, em termos do seu crescimento interior, como estavam abraçando, espalhafatosamente, uma perspectiva idealista, precisamente para esconder sua postura egocêntrica. A hipocrisia aqui é absolutamente impressionante!”

O Imperativo Moral do Desenvolvimento de Consciência

A título de conclusão desse Resumo da Abordagem Integral, em que procurei enfatizar os diversos aspectos da hierarquia de crescimento dos nossos níveis de consciência, que penso ser a direção do desenvolvimento de um adulto psicologicamente saudável, apresento em minha tradução livre o conceito que Ken Wilber denomina “Intuição Básica Moral” (“Basic Moral Intuition”) que ele acredita ser a verdadeira forma e estrutura da intuição espiritual.

“… quando intuímos o Espírito, nós O estamos intuindo como aparece nos quatro quadrantes (porque o Espírito se manifesta nos quatro quadrantes – ou de maneira simplificada no Eu, no Nós, e no Isto/Istos). Portanto, quando estou intuído claramente o Espírito, eu intuo sua preciosidade não apenas em mim mesmo, na minha própria profundidade, no meu domínio do Eu, mas igualmente O intuo no domínio de todos os outros seres, que compartilham comigo o mesmo Espírito (em sua própria profundidade). E portanto desejo proteger e promover esse Espírito, não somente em mim mesmo, mas em todos os seres possuindo esse Espírito, e sou movido, e intuo claramente esse Espírito, no sentido de implementar esse desdobramento Espiritual em tantos seres quanto seja possível: intuo o Espírito não somente como Eu, e não somente como Nós, mas também como um impulso para implementar essa realização como Fatos Objetivos (Isto) no mundo.”

“Assim, precisamente porque o Espírito realmente se manifesta como todos os quatro quadrantes (ou como Eu, Nós e Isto), então a intuição Espiritual, quando claramente apreendida, o faz como um desejo para estender a profundidade do “Eu” para a abrangência do “Nós”, como Fatos Objetivos (A verdade), “Istos” no mundo… Assim, protegendo e promovendo a maior profundidade na maior abrangência possível.”

A ideia é que, na tentativa de promover a maior profundidade na maior abrangência, devemos fazer julgamentos objetivos sobre diferenças de valor intrínseco e sobre o grau de profundidade que eventualmente destruímos, nas tentativas de atender às nossas necessidades vitais.

Colocando essa conclusão em minhas próprias palavras, como tenho feito em diversas oportunidades, e particularizando nossas ações como indivíduos em cada uma de nossas sociedades:

“Devemos pensar, falar e agir de maneira congruente, procurando contribuir para a elevação do nível de desenvolvimento de consciência de todas as pessoas, cada uma a seu tempo.”

Mistério 1

Publicado 21/05/2014 por Eduardo Leal em Abordagem Integral, Coaching, Crenças, Espiritualidade, Filosofia, Gestão Organizacional, Gestão Pessoal, Haicai, Haikai, Haiku, Ilustrações, Livros, Política, Prosa, Saúde e bem-estar

Etiquetado com , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Garrafa 429 – O Poder do Silêncio 2   2 comments

Conforme compromisso assumido no dia de ontem, destaco mais uma citação de “O Poder do Silêncio” em que Eckhart Tolle nos aponta um caminho:

“Quando você perde contato com sua calma interior, perde contato com você mesmo. Quando perde esse contato, fica perdido no mundo.
Sua mais íntima noção de si mesmo, de quem você é, não pode ser separada de sua calma. Ela é o EU SOU, mais profundo do que seu nome e sua forma externa.”

Pausa para um breve haicai:

só, quando EU SOU,
com meu nome e corpo,
para onde vou?

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Inspirado na leitura de “O Poder do Silêncio” de Eckhart Tolle

Eu Sou

Garrafa 422 – Na casca de noz   4 comments

Sempre fiquei intrigado com a semelhança de uma noz, dentro de sua casca, com imagem que temos da estrutura do cérebro dentro do crânio. Aberta a casca, vemos uma miniatura dos hemisférios direito e esquerdo, e até uma estrutura fina e marrom que faz as vezes do corpo caloso…

Acessando minhas memórias afetivas a respeito, desde a infância, lembro-me bem das épocas natalinas e festivas, do sabor meio amargo da noz e do trabalho que dava para abrir aquela casca, de preferência sem lhe causar maiores danos no processo, para que pudesse ser utilizada como pequena embarcação lançada nas enxurradas que se formavam na minha rua, depois de cada chuva de verão.

Na última semana, instigado por uma ótima palestra a que assisti sobre física quântica e espiritualidade, ministrada pelo Professor Helio Daldegan, voltei a consultar algumas obras que já tinha lido do famoso físico Stephen Hawking (“Uma Breve História do Tempo” e “O Universo numa Casca de Noz”). Nesse último livro, uma citação de Hamlet (Ato 2, Cena 2) de Shakespeare foi usada para ilustrar a capacidade e liberdade de nossa mente para, apesar de nossas limitações físicas, explorar todo o universo em busca de compreensão e entendimento:

“Eu poderia viver recluso numa casca de noz e me considerar rei do espaço infinito…”

E vi apresentada novamente, ao longo do seu Capitulo 3, a maneira de pensar a mecânica quântica de Richard Feynman que o levou a ganhar o Nobel de Física em 1965, de que as partículas se deslocam de um local para outro ao longo de todas as trajetórias possíveis no espaço-tempo. Para cada trajetória Feynman associou dois números, um para o tamanho de onda (amplitude) e outro para a fase (crista ou vale) e a probabilidade de uma partícula passar de um ponto A para um ponto B é encontrada somando-se as ondas associadas a cada trajetória possível que passe por A e B. Para objetos grandes, como constatamos no dia-a-dia, em que observamos que os objetos seguem uma única trajetória entre sua origem e seu destino final, isso também está de acordo com a ideia de histórias múltiplas de Feynman porque a aplicação da regra assegura que todas as trajetórias, exceto uma, anulam-se quando suas contribuições se combinam.

Pude constatar nessa leitura instigante que, apesar das teorias científicas modernas terem avançado enormemente no último século, seu viés materialista insiste em apenas considerar ou privilegiar como sua fronteira final o Cosmos (a realidade objetiva das três dimensões do espaço e o tempo revelada principalmente através dos cinco sentidos ou ampliada por equipamentos que estendem nossa percepção), desprezando a realidade subjetiva ligada às dimensões consciente e inconsciente individual e coletiva.

Entretanto, conclusões perturbadoras vindas dos próprios desdobramentos da mecânica quântica, apontam para a importância e interferência causada por um observador dotado de consciência, nos resultados de uma determinada observação de uma partícula elementar. A Superposição Quântica é um princípio fundamental que afirma que um sistema físico (como um elétron) existe parcialmente em todos os estados teoricamente possíveis simultaneamente antes de ser medido. Porém, quando medido ou observado, o sistema se mostra em um único estado.

Felizmente, encontro em minha própria biblioteca pessoal, refúgio e um contraponto a essa postura materialista e incompleta. Em seu livro “Espiritualidade Integral”, o filósofo Ken Wilber nos propõe uma elegante estrutura teórica (Modelo Integral) para organizar o mundo e suas atividades em cinco categorias simples que são, ao mesmo tempo, aspectos de nossa própria experiência: os Quadrantes, Níveis, Linhas, Estados e Tipos. Essa abordagem nos ajuda a ver a nós mesmos e o mundo que nos cerca de um modo mais abrangente que inclui as realidades objetivas (Cosmos) e subjetivas, individuais e coletivas e que estão associadas a um conceito mais abrangente de Kosmos, palavra grega que significa o Todo padronizado de toda a existência, incluindo os reinos físico, emocional, mental e espiritual.

Quando analisamos qualquer situação com o apoio dos quatro Quadrantes propostos por Wilber, podemos perceber como qualquer evento Físico – Matéria/Energia (do quadrante superior direito) representa apenas um quarto da história. E que as dimensões da Consciência (do quadrante superior esquerdo) com nossas emoções, estados psicológicos, imaginação e intenções; da Cultura (do quadrante inferior esquerdo) com nossos valores culturais, religiosos e visão de mundo comuns e dos Sistemas Sociais (quadrante inferior direito) com nossas estruturas materiais, sociais e econômicas surgem simultaneamente à ocorrência desse evento e interagem entre si. E podemos perceber também como esses Quadrantes se desdobram em Níveis de Consciência, Linhas de Desenvolvimento (Inteligências Múltiplas), Estados de Consciência e Tipos.

Em nossa trajetória de elevação do nosso Nível de Consciência, por exemplo, de acordo com o Modelo da Espiral Dinâmica de Don Beck e Christopher Cowan, baseado no trabalho pioneiro de Clare Graves, o mecanismo chave é “transcender e incluir”. O nível de cima “transcende e inclui” o nível precedente e, como menciona Wilber em “Uma Teoria de Tudo”, trazendo novas capacidades e ao mesmo tempo a possibilidade de novos desastres; não só novos potenciais, mas também novas patologias; novas forças e novas doenças…

Em uma visão com pouca granulação do processo evolutivo, constatamos que da Matéria, em algum momento surgiu um Corpo que a transcendeu (possui vida) e a incluiu; e esse mesmo Corpo, em algum momento desenvolveu uma Mente que o transcendeu (capaz de ter consciência de si mesma) e o incluiu…

Assumindo que o impulso evolutivo ainda nos move, estamos, portanto, em um momento em que temos a possibilidade de transcender a Mente e de elevar ainda mais o nosso Nível de Consciência despertando a nossa Alma (que inclui a Mente, o Corpo e a Matéria). Isso, em busca de também transcende-la em algum momento em direção ao que podemos chamar de Espírito. Quando nos permitimos, em nossa prática meditativa, mergulhar no espaço silencioso entre dois pensamentos, temos a oportunidade de deixar que a Mente, levando com ela nosso cérebro/casca de noz, flua mansamente para sua foz, no grande lago da Alma, e que ela, também por sua vez, se conecte ao grande oceano do Espírito.

Depois de um dia inteiro de trabalho e leituras, durante uma pausa na varanda com o olhar perdido na copa das árvores da pracinha, a brisa da tarde sopra ao meu ouvido esse breve haicai:

na casca de noz,
nos ecos da Tua voz,
do rio, a foz…

Eduardo Leal
Fotos de autores desconhecidos, uma delas adaptada com texto complementar (Quadrantes) por Eduardo Leal
Intruções de utilização: Ouvir “Awakening” com Spyro Gyra

Casca de nozQuadrantes Ken Wilber 3

Garrafa 357 – Espelho meu   Leave a comment

Nas cartas de linhagem dos mestres Zen chineses, o Quinto Patriarca Hung-Jen foi sucedido por Hui-Neng, que veio a se tornar o Sexto Patriarca, no século VII DC. Foi uma transmissão surpreendente, uma vez que todos os seus discípulos esperavam que seu sucessor fosse Jinshu, o monge mais erudito do mosteiro.

Hung-Jen havia solicitado que seus discípulos expressassem seu estado de espírito por meio de gathas (poemas) que deveriam ser apresentados para sua apreciação. Pretendia transferir o manto e a escudela, que estavam sendo transmitidos desde o Primeiro Patriarca, para aquele que tivesse alcançado a Verdadeira Iluminação.

O único discípulo que se atreveu a transcrever um poema na parede do mosteiro foi de fato Jinshu, que assim se expressou:

O Corpo é a Árvore da Sabedoria Búdica,
A Mente é semelhante a um espelho brilhante;
Trata de limpá-la constantemente,
Não deixes que sobre ela se acumule o pó.

Jinshu afirmava que a prática consistia em polir o espelho da mente, em outras palavras, removendo o pó de nossos pensamentos e ações ilusórios, o espelho poderia brilhar e estaríamos purificados.

Ao tomar conhecimento da existência do poema de Jinshu, um simples serviçal analfabeto que trabalhava no mosteiro, pediu que um monge transcrevesse na mesma parede seus pensamentos:

A Sabedoria Búdica nunca foi uma árvore,
A Mente nunca foi um espelho brilhante;
Na verdade, não existe coisa alguma!
Onde irá então acumular-se o pó?

Esse serviçal, de nome Lu, teve o seu poema apreciado e escolhido como um sinal da Verdadeira Iluminação, vindo então a se tornar o Sexto Patriarca, com o nome de Hui-Neng. Afirmava que, desde o princípio só existe o vazio, a não-mente, não há espelho onde se mirar, não há espelho a ser polido e não há onde o pó se apegar.

O paradoxo que nos aponta Charlotte Joko Beck em seu livro “Sempre Zen” é que, desde sempre, embora o verso do Sexto Patriarca seja o entendimento verdadeiro, temos que praticar com o verso que não foi aceito! Uma vez que ainda não enxergamos com clareza, ainda não somos capazes de ver com nitidez, precisamos, por meio do Zazen (meditação sentado), polir o espelho da mente; de fato tomar consciência de nossos pensamentos e atos, de nossas falsas reações à vida, até que possamos sentir a verdade em nossas vísceras. Assim, poderemos, em algum momento, enxergar que, já desde o princípio, nada era necessário.

Refletindo a respeito, me arrisco a recitar um breve haicai, antes de cada uma de minhas práticas diárias de Zazen:

retirar o pó,
do espelho que não há…
ah! polir sem dó!

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Inspirado na leitura de “Sempre Zen” de Charlotte Joko Beck

Espelho meu

Garrafa 271 – Um outro tempo   6 comments

Fazia já alguns dias que não passava por esse caminho, em minhas andanças diárias. Ontem à noite, durante a caminhada, enquanto avançava em direção à maresia, fui envolvido por uma atmosfera suavemente perfumada, que me transportou para um outro tempo. Dois jasmineiros, espalhando seu perfume aos ventos, davam um tom de primavera a uma agradável noite de inverno.

Hoje à tarde, apesar do dia nublado, trouxe meu corpo de volta a esse espaço, para reencontrar um outro tempo…

cheiro de jasmim
traz o tempo do seu corpo
de volta pra mim

Eduardo Leal
Fotos de Eduardo Leal – Jardim Oceânico, 20/08/2011
Instruções de utilização: Ouvir “Some other time” com Alan Parsons Project

Garrafa 166 – O beijo   Leave a comment

lembra aquele beijo
corpo alma e mente?
pois eu esqueci completamente

Alice Ruiz
Foto de Albert Eisenstaedt, “O beijo”, de 1945.

A jubilant American sailor clutching a white-unifo

%d blogueiros gostam disto: