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Garrafa 372 – Bem-te-vi atônito   1 comment

No terreno ao lado do nosso prédio, onde antes havia uma igrejinha evangélica, será construído um novo edifício, durante os próximos meses.

Nenhum preconceito contra o progresso, a construção civil, ou contra a oferta de novas moradias no Jardim Oceânico, na Barra da Tijuca. Apenas observações a respeito do que vejo da varanda.

Na entrada desse terreno, trazendo um pouco de saúde e bem-estar para quem tinha olhos para ver, havia um pequeno jardim, com grama, flores e algumas poucas árvores. Destacando-se entre elas, um pinheiro enorme, servia de abrigo e observatório para aves de todos os tipos que o frequentavam de passagem, ou como refúgio noturno em seu sono vigilante. Haveria algum pequeno ninho por lá? Meu amigo bem-te-vi costumava pousar no seu ponto mais alto para espalhar seu canto aos quatro ventos, nas primeiras horas da manhã…

Ontem, da varanda, acompanhado à distância por apenas outra moradora que viu tudo bem de perto, registrando algumas imagens com seu Tablet, assisti penalizado à derrubada desse pinheiro que, certamente, criava obstáculos ao bom desenvolvimento da futura obra. Homens chegaram silenciosos e, machado em punho, colocaram abaixo o pinheiro saudável e majestoso.

Sempre me entristeço ao ver cenas como essa, a derrubada de uma árvore, mesmo que seja por alguma causa que a justifique (confesso que tenho muita dificuldade para encontrá-las) e tudo isso feito com a devida autorização da Prefeitura. E não posso garantir que esse seja o caso. Espero que sim. Que tenha sido inevitável e que suas raízes e início do tronco sejam preservados, já que ainda lá permanecem, para permitir que a árvore cresça novamente e seja incorporada ao futuro jardim que, também espero, esteja presente na entrada do novo prédio. Quem sabe?

Hoje, como sempre faço, depois da meditação matinal, observei a paisagem da varanda, o céu sem nuvens e a passarada que costuma frequentar as árvores da vizinhança: Vários voos erráticos, pousos abortados de maneira frenética no que antes deveria ser um abrigo seguro e que agora é preenchido apenas pelo ar fresco da manhã de outono.

Espaço vazio! Bit zero! Nada! Picas! Porra nenhuma!

Posso imaginar seus cérebros pequeninos, sinapses em polvorosa, buscando explicações para o inexplicável e inesperado… Acompanhando seus voos confusos, e tentativas de pouso frustradas, também fiquei assim…

Pausa para um breve haicai:

pinheiro no chão
bem-te-vi atônito
onde compaixão?

Eduardo Leal
Fotos de Eduardo Leal

Bem-te-vi no topo do pinheiro em 30/03/2013

Bem-te-vi no topo do pinheiro em 30/03/2013

Início da derrubada do pinheiro

Início da derrubada do pinheiro

Preparação final da derrubada

Preparação final da derrubada

Pinheiro no chão...

Pinheiro no chão…

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Garrafa 287 – Em uma manhã de sol   Leave a comment

Em sua obra “Grande Sertão: Veredas”, repleta da sabedoria de homens simples profundamente conectados com seu ambiente natural, já nos dizia João Guimarães Rosa: “Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo.” Ou, na linguagem da moderna neurociência: percebemos o mundo por meio dos nossos sentidos, filtrados pelas nossas crenças e valores atuais e experiências anteriores, num processo de contínuo aprendizado. O mesmo fato, presenciado por duas pessoas diferentes, suscitará diferentes interpretações.

Mas gosto de pensar que possa haver algo mais, além de nossas limitadas e relativas interpretações individuais: O todo! O Absoluto! O Uno!

Enquanto o dia amanhece, refletindo a respeito a partir das minhas próprias percepções, imagino que talvez somente aqueles mestres iluminados, que alcançaram um nível de consciência além da mente, vejam as coisas tais como elas realmente são, com sua vibração unica e, ao mesmo tempo, conectadas de maneira harmônica com todas as outras coisas do Universo. Para os ainda não iluminados, como a maioria de nós, talvez um breve lampejo dessa visão nos seja permitida apenas no silêncio de uma fervorosa oração, em um estado de profunda meditação ou amorosa contemplação. Ou talvez ainda, quem sabe, para duas pessoas verdadeiramente apaixonadas, durante aquele beijo, no encontro de corpos que se entregam naquela doce vertigem ou, simplesmente, naquela troca de olhares… Quem sabe também, em decisão de copa do mundo, minuto final e gol de desempate a favor da nossa seleção… Nesses breves momentos, parece que vemos o mundo como ele realmente é… e ele é perfeito do jeito que está!

Enquanto isso não acontece, nessa linda manhã de sol, ouço o canto de uma cigarra e penso comigo mesmo:

nem todos verão,
no canto da cigarra,
o mesmo verão.

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Estrada do sol” na voz de Nana e Dori Caymmi

Garrafa 141 – Primeira vez   1 comment

Eles já se conheciam há alguns meses, mas o primeiro beijo tinha ocorrido apenas há algumas semanas. Intimidade progressiva, mas ainda bastante superficial. Eram adultos, já tinham vivenciado experiências de intimidade com outros parceiros, mas respeitavam um ritual de aproximação e conhecimento mútuo cauteloso.

O desejo crescia a cada encontro e uma pergunta povoava a mente dos dois: Quando aquela fronteira de pudor seria ultrapassada?

Sem nada definido previamente, mas ambos apenas suspeitando que era chegada a hora, encontraram-se naquela tarde de outono, num sábado, para um passeio à beira mar. Parece que tudo começa, além do limite do vale profundo que sempre começa na beira do mar… A vida começa na beira do mar…

O dia estava parcialmente nublado e soprava um vento sudoeste que fazia com que a pele dos dois ficasse o tempo todo bastante arrepiada. Ou seriam aqueles beijos trocados de maneira cada vez mais ousada, e as palavras sussurradas ao ouvido um do outro, cabelos ao vento, em um banco do calçadão do Leme?

Ok. Vamos sair daqui para um lugar onde possamos ficar a sós… Foi como se ambos tivessem dito isso ao mesmo tempo.

O motel escolhido naquela ocasião, há muitos anos atrás, ficava em outro bairro da cidade e tinha a avaliação de cinco coelhinhos em uma conceituada revista masculina, que ele lia apenas em caráter bissexto. Dizia que apreciava alguns artigos que encontrava por lá… Era o máximo no ranking desse tipo de facilidade colocada à disposição de jovens e velhos amantes. Queria bem impressioná-la e, também, escolher um local que não comprometesse negativamente um primeiro encontro de verdadeira intimidade.

A sós, finalmente, as características oferecidas pelo local e colocadas à disposição dos seus hóspedes transitórios não tiveram a menor importância. Uma cama quadrada, com lençóis limpos e macios foram mais do que o necessário e suficiente.

Eles começaram a se despir mutua e carinhosamente, com calma, delicadeza e trocando beijos apaixonados. Estariam se lembrando das sugestões contidas no “Conselho de Kamala”? Leves tremores podiam ser percebidos aqui e ali, a cada toque explorando alguma dobrinha ou área de pele ainda intocada.

E finalmente chegou o momento tão esperado. Ele se levantou, reduziu a iluminação e se despiu completamente, enquanto ela ainda mantinha nos quadris uma ultima peça intima.

Ele ainda se lembra do seu sorriso e do olhar maroto que ela lhe lançou, antes que o quarto mergulhasse em uma leve penumbra.

Até hoje, quando sopra um vento sudoeste, e a sua pele fica arrepiada na beira do mar, ele pensa naqueles instantes com carinho. E a brisa parece sussurrar ao seu ouvido esse breve haicai:

nenhuma vergonha,
ao ver que você sorriu,
da minha nudez…

Eduardo Leal
Foto de autor desconhecido
Instruções de utilização: Ouvir “Beira mar” na voz de Zé Ramalho.

Garrafa 174 - Intimidade (Consigo mesma e com o outro)

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